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Delito de Opinião

Nome emprestado e a prazo

Ana Lima, 15.02.12

Depois das estações de metro, os teatros. É certo que as obras de manutenção de um edifício como o Teatro Tivoli, dados os custos envolvidos, provavelmente, só desta forma poderiam acontecer. O pai adoptivo UAU e o padrinho BBVA estão, com certeza, muito satisfeitos. Mas acrescentar um apelido destes soa tão estranho… E ainda bem que optaram pela sigla. Teatro Tivoli Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, embora certamente mais imponente, seria ridículo. Eu não dei pela cerimónia de aspersão mas deve ter sido muito discreta.

Um café na manhã quente

Laura Ramos, 30.10.11


Para amansar o peso do decreto de Outono e a loucura que tomou os relógios, fui para a outra banda, encafeinar-me ao final da manhã.

Gosto deste mosteiro, 300 anos esquecido, que nos foi devolvido com um brio invulgar e que tem vida, energia, programação constante (e um belo auditório). 
Um caso de gestão de património histórico que se segue a uma gigantesca obra de recuperação e que depois conseguiu ganhar outro desafio  ainda mais difícil: ser gerido com alma por gente irrequieta e indiferente às profecias.
Da esplanada do bar-restaurante, para lá do espelho de água, ali está ele, teimosamente afundado numa cota inferior ao rio, finalmente enquadrado, gracioso e nosso.
Gosto de conversar aqui. Inspiram-me a gravidade das pedras e a sobriedade elegante do edifício românico ou, dizem, do gótico experimental.
E é como se nunca  tivesse a certeza absoluta de que, de repente, uma horda de clarissas palradoras não invadisse o relvado em sentido a nós, directamente saídas do século XIII e com uma alegria de agora, ao contemplarem o exterior liberto da tirania das águas.
Vamos... isto ainda é do efeito-woody (pensei). Mesmo assim, é melhor não dizer o que me vai na cabeça, ainda meio ensonada, quando me perguntam porque é que eu hoje não estou ali. Estou, estou: aliás, nunca estive tanto.
Se elas - as freiras mendicantes - aterrassem, de facto, nos dias de hoje, encontrariam imenso que fazer à sua volta.

Surpresas do nosso património (2)

Ana Lima, 12.10.11

 

Lembram-se daqueles livros que, há alguns anos, toda a gente lia, do género "As Brumas de Avalon"? Pois foi exactamente naqueles ambientes que pensei ao visitar, no Inverno passado, esta quinta onde as árvores (pinheiros, carvalhos e castanheiros) se misturam com grandes penedos. A beleza do local, digo-vos, é imensa. O mesmo devem ter achado os habitantes da região que, há muito tempo, ali encontraram abrigos naturais. De facto, através de algumas sondagens arqueológicas, concluiu-se que aquele sítio teve ocupações humanas desde o início do Neolítico.

Não, não é um local turístico. Nem os proprietários desta quinta, que fica no concelho de Fornos de Algodres, o quererão transformar em nada de semelhante. E, no entanto, a natureza ali, ao mesmo tempo que nos remete para o passado, deixa-nos felizes por a podermos contemplar no presente. 

 

Buçaco: o sim e o não

João Carvalho, 08.10.11

 

Gostei:

— de voltar a ouvir falar da Mata do Buçaco (na Serra do Luso, Mealhada), que anda tão esquecida e parece estar a ganhar a dimensão que merece;

— de saber que todo o conjunto florestal e edificado do Buçaco vai ser proposto a património mundial;

— dos planos de recuperação dos estragos e da incúria que condenaram ao abandono o conjunto do Buçaco;

— de perceber que ainda é tempo de repor o conjunto, património mundial ou não, como património nacional nas condições desejáveis.

 

 

Não gostei:

— de saber que o caso está entregue (imagine-se) a uma Fundação Mata do Buçaco, criada em 2009 pelo ex-ministro da Agricultura de má memória Jaime Silva, autor de um sonoro «póssamos» televisivo;

— de perceber que a Fundação Mata do Buçaco ainda anda às voltas com eventuais projectos de financiamento próprio, sendo Portugal o único país do mundo em que há fundações que são criadas sem capital próprio para aplicar e multiplicar, as quais sobrevivem à custa do Orçamento do Estado, como é o caso da Fundação Mata do Buçaco;

— das palavras à RTP do presidente da Fundação Mata do Buçaco, António Jorge Franco de seu nome, pessoa certamente próxima de Jaime Silva e da escola deste, o qual foi à televisão faz hoje oito dias falar das coisas «que vão haver» na Fundação e na Mata;

— de concluir que, passada uma semana sobre aquele aparecimento televisivo, a dispensável Fundação Mata do Buçaco e António Jorge Franco se mantenham à mesa do nosso desgraçado Orçamento do Estado.

Surpresas do nosso património (1)

Ana Lima, 29.08.11
Quando passeamos por aí, sem grandes definições de destinos ou percursos, somos surpreendidos por determinados sítios ou monumentos que, à partida, desconhecíamos ou nunca tínhamos visitado. O estado em que se encontra o nosso património também nos surpreende, umas vezes positivamente, outras negativamente. Claro que o que para mim constitui uma surpresa não o será para outros. Mesmo assim, vou por aqui deixar, de vez em quando, umas pistas. Não farei grandes descrições. Só algumas impressões que esses locais me suscitaram.
Começo por um monumento que nos lembra que, num tempo em que tantas obras de arquitectura nos gritam para que as vejamos, é bom encontrar situações em que o esforço para as conhecermos é proporcional ao prazer da descoberta. 
Após uma descida íngreme de automóvel e mais alguns metros a pé lá está ela, a igreja românica, antigo eremitério, de S. Pedro das Águias. Quem procura a sua entrada deve fazê-lo no sítio mais inusitado. De facto ela está a menos de 1 metro do rochedo que, naquele lugar, marca a paisagem. Encontra-se frente a ele, de costas para o rio, o Távora, que por ali corre pouco caudaloso. O tempo está agradável e, junto a ela, uma família, aproveita uma plataforma natural para aí se instalar para um piquenique calmo. As crianças brincam indiferentes às razões que levaram os construtores do século XII a virá-la para a parede. Não terá sido um castigo mas talvez uma forma de lembrar aos monges que a sua relação com o mundo dos homens deveria ser o mais reduzida possível.  

Gelados pela crise

Ana Lima, 14.08.11

Para quem, como eu, por razões pessoais e de conjuntura económica, se vê constrangida a umas férias em que a palavra de ordem é poupar, os passeios a locais não muito distantes do local de residência acabam por ser um recurso interessante e têm proporcionado momentos bem agradáveis.

Ora ontem, sabendo que, após obras de conservação e valorização, o local tinha reaberto ao público,  resolvi levar o pessoal mais novo cá de casa ao cimo da Serra de Montejunto visitar a Real Fábrica do Gelo, classificada, desde 1997, como Monumento Nacional. Eu já o visitei e sabia que o sucesso estaria garantido à partida pois perceber como se fazia a produção de gelo no cimo de uma serra e imaginar o seu transporte, até Lisboa, nos séculos XVIII e XIX, para satisfazer  os novos gostos da corte e não só, é uma lição bem animada de História.

Cheguei por volta das 16 horas. Pois não é que, mesmo sendo sábado, o sítio estava encerrado? Abria à tarde, de facto, mas havia apenas duas visitas guiadas, às 14 e às 15.30. As hipóteses de visitar o local ficam por aí pois a entrada só se pode fazer nesse contexto. Não vou dizer que fiquei gelada pois, nesta altura do ano, mesmo no meio do fantástico souto que se atravessa, a temperatura era bem agradável.

Eu já sei que, dada a situação actual, não é fácil pagar a funcionários que garantam que todos os locais estejam acessíveis ao público, em horário razoável. Mas pensar no investimento que foi feito e que a reinauguração aconteceu em Março deste ano…

E este é apenas um exemplo dos que ainda se mantêm. Muitos museus e centros interpretativos por esse país fora, alguns criados de raiz, encontram-se puramente encerrados por não terem sido acautelados, aquando da sua construção, os custos de manutenção, de programação, etc., que teriam que ser pensados para que pudéssemos usufruir, para lá de um futuro imediato, do nosso património. Aguardemos por melhores dias. Entretanto há que tomar por certo que os congelamentos afectam não só o nosso presente e o nosso futuro mas também chegam, em sentido inverso, ao nosso passado.

Um museu a visitar

Ana Lima, 06.08.11

Não há descrições da região do Douro que não falem da dureza do trabalho que teve que ser levado a cabo para construir uma paisagem como a que vemos quando percorremos as margens do rio. Miguel Torga escrevia, num dos textos mais conhecidos: “No Portugal telúrico e fluvial não conheço outro drama assim, feito de carne e de sangue…”. Não que seja sequer comparável mas, até para percorrermos os caminhos, feitos de subidas  e descidas, curvas e curvas e mais curvas precisamos de travar uma batalha, nós que estamos agora habituados às auto-estradas e vias rápidas. Mas, chegados ao nosso destino, sentimos que naquela batalha não houve vencidos pois se é o rio que impõe o seu ritmo ao viajante é este que se sente como se fizesse já parte daquela paisagem.

  

 

Foi essa sensação de pertença àquele lugar que, tenho a certeza, os arquitectos do museu do Côa (Tiago Pimentel e Camilo Rebelo) sentiram quando visitaram o lugar onde se construiria depois o edifício que actualmente se ergue não muito longe da foz do rio com o mesmo nome. A interferência humana na paisagem está ali bem presente mas é respeitadora  da organização que a natureza impôs e, no seu exterior, é possível observá-la em toda a sua beleza.

 

 

E depois há o interior onde podemos aprender muito sobre a ocupação do vale ao longo da história; sobre as gravuras; ver materiais recolhidos e réplicas magníficas; perceber as fundamentações das várias teorias; conhecer os aspectos mais técnicos do trabalho desenvolvido até agora.

 

 

Por todas estas razões é um local a não perder antes ou depois da visita aos núcleos das gravuras propriamente ditas. E nem é preciso estar de férias. Um fim de semana é suficiente. Além disso é uma oportunidade para percebermos que valeu a pena preservar aquele património que, desde 1998, é de toda a humanidade.

O Património Cultural Imaterial de Portugal

Rui Rocha, 06.03.11

Pelo visto, o ministro das Finanças e a ministra da Cultura constituíram, há cerca de um ano, um Grupo de Trabalho com o objectivo de realizar  um levantamento do património cultural imaterial português. De acordo com as notícias postas a circular, os membros do Grupo de Trabalho, para além de realizarem uma reunião e de receberem 209 mil euros, não fizeram rigorosamente mais nada. Perante isto, imagino que se terá levantado já um coro de condenação. Parece-me uma reacção apressada e injusta. Creio, na verdade, que estamos na presença de patriotas. Explico-me. O objectivo do trabalho era extremamente difícil de concretizar. Se o próprio património material, tal como o país, está em ruínas, não se vendo forma de o reerguer, imagine-se a dificuldade de levantar o património imaterial com todo o peso que ele deve ter. Não há costas que aguentem. Perante isto, o Grupo de Trabalho encontrou uma solução que considero genial. Sendo o âmbito do trabalho «as tradições», «as manifestações de carácter performativo» e «as práticas sociais, rituais e eventos festivos», não existe em Portugal nada mais representativo destas realidades do que o compadrio e o regabofe. Perante esta evidência, os membros do Grupo de Trabalho decidiram receber sem nada fazer, oferecendo ao país um exemplo vivo desses elementos fundamentais do nosso património cultural imaterial. Um testemunho inesquecível, sistemático e tendencialmente exaustivo que cumpre integralmente os objectivos traçados pelos Senhores Ministros.