Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Em nome do Papa

Pedro Correia, 21.05.23

Este ano, rompendo um hábito antigo, farei férias em Agosto. Quero fugir de Lisboa - já hoje quase intransitável - na altura da grande enchente que se anuncia com a Jornada Mundial da Juventude. 

Procuro o mesmo hotel onde fiquei no Verão passado, à beira-mar, a cerca de 40 km da capital. Com entrada a 29 de Julho.

Ainda há vagas. Mas pedem-me um preço absurdo: cerca do dobro do que paguei em 2022. «Efeito da inflação?», pergunto na recepção, com óbvia ironia.

«Não, é por causa do Papa.»

Questiono-me se Francisco fará ideia desta obscena espiral especulativa praticada em nome dele, que tantos exemplos de frugalidade e desprendimento material nos tem dado. É óbvio que não. 

Alarguei o perímetro: vou distanciar-me ainda mais de Lisboa. A preços do ano passado, também junto ao mar. Já feita a reserva. Fico a ganhar com a troca.

PCP contra o Papa e a favor de Kim

Pedro Correia, 14.03.23

Papa.jpg

15 de Março de 2013, voto parlamentar:

«A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo Sumo Pontífice.»

O PCP recusou votar a favor.

 

kim.jpg

28 de Fevereiro de 2014, voto parlamentar:

«Pela primeira vez, a ONU denunciou crimes contra a humanidade a serem cometidos contra o povo norte-coreano, numa demonstração preocupante e denunciadora da intolerância, da repressão, do ódio e do clima de terror empregues pelo regime de Pyongyang.

A actuação da Coreia do Norte constitui, evidentemente, uma ameaça séria à paz nos limites das suas próprias fronteiras, como representa uma ameaça à segurança regional e internacional. E, por isso, deve merecer uma condenação firme e consensual da comunidade internacional.

Portugal e os povos da Europa têm na tolerância um valor de referência. A demonstração do repúdio e condenação por actos premeditados contra a segurança, a liberdade, a integridade e a dignidade humanas é um imperativo moral constitutivo ou integrante da democracia.

Assim, a Assembleia da República associa-se à Organização das Nações Unidas na condenação dos crimes cometidos pelo regime norte-coreano contra o seu próprio povo e lamenta as vidas perdidas às mãos de um regime autocrático e repressivo.»

O PCP votou contra.

Quando Bergoglio se tornou Francisco

Pedro Correia, 12.03.23

francisco.jpeg

 

Faz amanhã dez anos, ao fim da tarde, Jorge Mario Bergoglio surgia no balcão da Basílica de São Pedro: o sucessor de Bento XVI era apresentado ao mundo. Escolheu Francisco como nome oficial de dirigente supremo da Igreja Católica e Chefe do Estado do Vaticano. Simplesmente Francisco, sem numeração romana - deixando antever que não haverá outro com o mesmo nome depois dele. Em homenagem explícita a São Francisco de Assis, apesar de ser jesuíta.

Foi o primeiro Papa não-europeu em 1200 anos. Oriundo do continente americano - concretamente da Argentina, onde anteriormente se distinguira como cardeal de Buenos Aires. Nascido numa família de imigrantes italianos, iguais a tantas outras que demandaram aquele país para fugirem à pobreza ancestral da terra-mãe.

Assomou ao balcão, onde uma multidão estava reunida a aplaudi-lo e vitoriá-lo. De braços caídos e um ar algo perplexo, como se ainda mal estivesse refeito do peso que lhe caíra em cima após a já histórica renúncia do antecessor, impensável num Papa dos tempos modernos.

Esteve uns momentos em silêncio, contemplando aquele vasto grupo de fiéis. Depois vimos-lhe o rosto a abrir-se num sorriso largo. Disse de si próprio ser alguém que «vinha de longe», como qualquer peregrino. E pediu, com inesperada humildade, que rezassem por ele. Que todos rezássemos por ele, em qualquer recanto do planeta. 

 

Nascia ali o Francisco «pároco do mundo», como o designou a revista italiana Panorama numa feliz síntese do que tem sido o seu pontificado. Procurando seguir à letra, na sua acção pastoral, as palavras de Cristo no Sermão da Montanha: «Bem-aventurados os construtores da paz.» E as que ecoam há dois mil anos no Evangelho de Marcos: «Quem quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos.»

Quem não vive para servir, não serve para viver, como declarou em 2015 na visita pastoral a Cuba.

 

O mesmo Papa que Fátima já recebeu em 2017 e Lisboa se prepara para receber, de novo como peregrino, na Jornada Mundial da Juventude.

O mesmo Francisco que em Março de 2013 viu seis deputados do PS - Pedro Delgado Alves, Isabel Moreira, Elza Pais, Miguel Coelho, António Serrano e Mário Ruivo - juntarem-se a comunistas e bloquistas na recusa de um voto parlamentar pela sua eleição. Comprovando que o sectarismo e o extremismo podem irromper em qualquer bancada.

Trinta deputados no total - alguns revelando mais intolerância pelo representante máximo da religião com maior número de fiéis no globo do que pelo ditador da Coreia do Norte.

E o que dizia esse voto supostamente tão controverso? Apenas isto: «A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo Sumo Pontífice.»

 

«Mesmo para uma Europa desenvolvida e laica, o Papa Francisco é mais inspirador do que qualquer líder europeu», observou Teresa de Sousa no Público, naquele Março de 2013. Quando já era evidente o carisma de Bergoglio - evidente nos seus gestos despojados, no seu discurso claro, na sua capacidade de aproximação à pessoa mais comum. Dizendo que não há cristianismo sem comunidade, tal como não há paz sem fraternidade.

Com a força inequívoca do seu exemplo, digno de um genuíno discípulo de Jesus, Francisco inspirou e mobilizou crentes de todos os quadrantes geográficos nesta década do seu pontificado. E até muita gente que não partilha da sua fé.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 01.09.22

criacao.jpg

Hoje é O Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 

"Quando somos capazes de superar o individualismo pode realmente desenvolver-se um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade."

Papa Francisco, Laudato si’, 208

Celebra-se hoje o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, instituido pelo Papa Francisco para a Igreja Católica, e que passará a realizar-se anualmente no dia 1 de Setembro, data em que já era comemorado pela Igreja Ortodoxa. Para o Papa, este dia vai oferecer aos fiéis e às comunidades a oportunidade de «renovarem a adesão pessoal à vocação de protectores da criação».

Se "o que Deus uniu, o homem não deve separar", o que Deus criou o homem não deve estragar. O Santo Padre deveria também ser mais específico quanto ao que considera "um estilo de vida alternativo", porque bem vistas as coisas um estilo de vida alternativo poderá ter estado na base de muitos males que minam as sociedades modernas. 

 

22349172_ZQCy2.jpeg

No dia 1 de Setembro assinala-se O Dia Nacional das Bandas Filarmónicas 

"Esta data foi instituída em 2013, por iniciativa do então secretário de Estado da Cultura, em reconhecimento da importância do trabalho desenvolvido pelas bandas filarmónicas em prol das comunidades e da formação musical.

Tendo em vista o conhecimento e estudo de documentação musical das bandas filarmónicas portuguesas, o Museu Nacional da Música tem a funcionar na sua dependência um Núcleo Documental de Partituras, instalado no Auditório Municipal Beatriz Costa, em Mafra."

Sempre que havia banda no coreto da vila, era uma festa no Pico. Quando me casei ainda era assim,  as festas eram divertidas, vinham as famílias, tocava a banda, dançava o rancho... depois, não sei porquê, talvez porque as crianças abraçaram novos interesses, os músicos e os dançarinos envelheceram e essas actividades pararam quase por completo. Felizmente há tradições que não morrem e pessoas que lutam por mantê-las, porque afinal integram a nossa identidade como povo. É de louvar o trabalho que tem sido feito nesse sentido por esse país fora.

(Imagens Google)

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 29.06.22

22318464_Zd5Gl.jpeg

No dia 29 de Junho celebra-se O Dia de S. Pedro/O Dia do Papa

"Tal como São João e Santo António, São Pedro é um santo popular muito estimado. É o último santo popular do ano, de acordo com as datas.

Este dia é também conhecido como o dia de São Pedro e São Paulo. Julga-se que 29 de Junho é a data do aniversário da morte destes santos. Neste dia assinala-se também o Dia do Papa, visto São Pedro ter sido o primeiro Papa. Para diferenciar São Pedro de santos homónimos, costuma-se designá-lo como São Pedro Apóstolo. Nasceu em Betsaida, na Galileia, e era pescador. Conheceu Jesus em Betânia, através do seu irmão André. Chamava-se Simão, mas Jesus chamou-lhe Cefas (Rocha, do grego petros), cuja tradução é Pedro, e o instituiu como líder da Igreja: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.” (Mt, 16:18)

O Papa tem o poder de disseminar entre todos os membros do clero e pelos milhões de católicos a palavra de Deus. Acredita-se que a palavra Papa provém do latim Papa e do grego Pappas, termo carinhoso para pai. O 266.º Papa é Francisco, com nome de baptismo Jorge Mario Bergoglio, natural de Buenos Aires. Sucedeu em 2013 a Bento XVI, que abdicou ao papado."

Admiro o Papa Francisco tanto ou mais do que admirava o Para João Paulo II, cuja canonização creio ser um profundo disparate. Era um homem do seu tempo, fez o que pôde para reerguer a igreja católica. Fez bastante, mas não removeu as raízes podres. Essa tarefa tem sido conseguida devagar e com bom senso pelo Papa Francisco, tomando publicamente posições perigosas para a hierarquia do Vaticano. Dois grandes homens. Nenhum deles fez milagres. Nenhum deles é santo.

 

22318465_dGLZz.jpeg

A 29 Junho assinala-se O Dia Internacional dos Trópicos

"Esta data procura realçar a importância que os trópicos representam para os ecossistemas e para vida humana.

Localizada entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, ocupa 40% da superfície total da Terra e é responsável por 80% da biodiversidade no mundo. No entanto, é confrontada por alterações climáticas diversas: desflorestação, exploração madeireira, urbanização e pressão demográfica.

O Dia Internacional dos Trópicos foi proclamado pela ONU em 2016."

Não gostava de morar num país tropical. Ponto.

Passar uns dias, visitar família, ver a beleza natural, conhecer a história, apreciar a comida, não beber água sem ser engarrafada. O calor destrói qualquer perspectiva de fantasia paradisíaca. A água, estar dentro de água, sempre, torna-se o único objectivo depois de meia dúzia de dias a derreter. Destinos de férias para fazer apenas praia não me seduzem.

 

22318469_5iCBC.jpeg

Hoje é O Dia Internacional da Lama

"O objectivo deste dia é ligar as crianças de todo o mundo pela terra, através de brincadeiras na lama. É um dia de celebração na natureza, de libertar as crianças existentes em todos os homens e mulheres e de sujar as mãos e os pés, juntamente com outras pessoas.

Ao contrário do que se pensa, em vez de viver num ambiente estável (o que torna o corpo vulnerável), entrar em contacto com a lama e com algumas bactérias traz vantagens, já que ajuda a desenvolver o sistema imunológico.

A origem do Dia Internacional da Lama remonta a 2009, num evento do World Forum, em que surgiu a ideia de unir as crianças do mundo através da própria terra. Desde então todos os anos se celebra a data a 29 de Junho, com participantes de todas as idades, raças e religiões, provando que somos iguais (sobretudo quando cobertos com lama)."

Unir as crianças de todo o mundo através da terra parece-me uma ideia de valor. Poderíamos ensiná-las a plantar  a cuidar e a colher, por exemplo. Nem toda a gente tem hortas, claro, mas todos a gente pode arranjar um vaso e plantar morangos, tomates, feijões, etc., algo que entusiasme as crianças em seguir o seu crescimento. Lama. É engraçado fazer uma batalha de lama, mas apenas as empresas de detergentes agradecem a sujidade.

 

transferir.jpeg.jpg

No dia 29 de Junho assinala-se O Dia Internacional da Esclerodermia

"A doença ainda não tem cura, é de difícil diagnóstico – e muitas vezes silenciosa. A esclerodermia é doença autoimune multissistémica (ataca diversos órgãos ao mesmo tempo) que ao evoluir provoca inflamações crónicas, acometimento da pele, órgãos internos, enrijecimento das articulações e atinge quatro vezes mais mulheres na fase adulta do que os homens – embora possa manifestar-se em crianças.

Caracterizada pela produção excessiva de colágeno nos tecidos do corpo, esta doença é autoimune – o organismo ataca-se a si mesmo. São diversos os tipos e sintomas, o que dificulta a identificação numa fase inicial. Além de exames laboratoriais, a avaliação clínica especializada é de extrema importância para um diagnóstico assertivo e tratamento imediato."

As doenças autoimunes raramente são curáveis. Muitas podem não ser mortais a curto prazo, mas são dolorosas e extremamente incapacitantes.

Emoções #8

A emoção da fé

Maria Dulce Fernandes, 14.06.21

20160417_112859.jpg

 

O ye, of little faith

É a fé que nos salva, diziam na catequese.

Pode ser verdade. Não sou crente, mas acredito. Tenho fé. Sim, tenho a minha fé.

Nos chamados lugares sagrados, sempre me senti consciente da minha pequenez. Falta-me sempre o peito para tanto coração e caio amiúde num pranto que não sei explicar, apenas sei sentir.

É assim em Fátima, no Bom Jesus, em Lamego. Foi assim em Santiago de Compostela, em Lourdes ou em Roma.

Sempre defendi que somos o fruto das nossas escolhas e não acredito em  predestinação,  mas vezes há em que tudo se conjuga para que o acaso se transmute num acontecimento único.

Aconteceu tantas vezes.

Em Roma, por exemplo.

Fomos cedo para a Praça de S. Pedro. Nove da manhã ou talvez nem tanto, para evitar o mundo que se adivinhava. Trinta ou quarenta minutos depois, entrámos na basílica. Estranhámos pedirem-nos para revistar as mochilas à entrada. Já tínhamos passado por todo esse processo à chegada à praça, entre as colunas. Muita Guarda Suíça e provavelmente muitos mais à paisana. Um deles disse-nos que podíamos ficar ou sair, mas não poderíamos voltar a entrar. Decidimos ficar. Era o dia do aniversário do meu marido e tínhamos um almoço especial nos planos, mas ficámos. Simpático, deu-nos um livrinho com o programa e os cânticos. 

A missa de ordenação de novos padres começou e o Papa Francisco entrou com todo o séquito papal. Estava ali, mesmo ali, quase à distância de um braço. Chegados ao altar-mor, começaram a celebração que durou quase três horas.

Chorei grande parte do tempo. No restante, cantei os cânticos com toda a emoção que uma estranha sensação de felicidade redescoberta me permitiu.

Quando terminou e deixaram entrar a mole humana que aguardava, sentimo-nos sozinhos e sentámo-nos cá fora a chorar.

A emoção da fé envolveu-nos e embalou-nos naqueles momentos de puro fascínio.

E a praça cá fora transbordava de gente unida pela mesma fé.

Foi uma emoção extraordinária.

O solidéu do papa

Cristina Torrão, 15.05.21

A 15 de Maio de 1982, depois de ter visitado o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, em Braga, o papa João Paulo II viajou de helicóptero até ao Porto, onde presidiu a uma missa celebrada junto à Câmara Municipal, na Avenida dos Aliados.

Esta é a versão oficial. Na verdade, o helicóptero que transportava Sua Santidade não aterrou no Porto. Aterrou em Vila Nova de Gaia. Mais precisamente, no Quartel do Regimento de Artilharia Nº 5 do Exército Português, a cerca de duzentos metros do apartamento onde eu morava com os meus pais e o meu irmão.

Serra do Pilar - Quartel.jpg

Imagem Open House Porto

É conhecida a imagem da igreja e do antigo mosteiro (hoje quartel) da Serra do Pilar, no alto do morro sobranceiro ao rio Douro, de onde se tem uma das melhores vistas sobre a ponte de D. Luís, a cidade velha do Porto e a Ribeira (porto medieval). À altura da visita de João Paulo II, o lanço do muro do Regimento de Artilharia Nº 5 que dá para a Rampa do Infante Santo estava ainda marcado por vários círculos vermelhos pintados à volta das marcas das balas disparadas a mando do brigadeiro Pires Veloso, em Outubro de 1975, contra os SUV, que controlavam o RASP (abreviatura pela qual era conhecido o Quartel da Serra do Pilar, nessa altura). Durante horas, ouvimos, de nossa casa, as descargas de G3 e da restante artilharia pesada. Mas isto será assunto para outro postal.

2011-06-05 Gaia 012.JPG

Entrada do Quartel da Serra do Pilar, na Rua Rodrigues de Freitas, © 2011 Horst Neumann

A 15 de Maio de 1982, as euforias não eram revolucionárias. Depois de ter aterrado no Quartel da Serra do Pilar, João Paulo II transferiu-se para um descapotável. Desceu a Rua Rodrigues de Freitas e, chegado à Avenida da República, virou à direita, em direcção à ponte D. Luís. Por trás das grades de segurança, milhares de pessoas ladeavam o lanço final da avenida que conduz à ponte. Eu fazia parte dessa turba, juntamente com duas amigas. Tínhamos entre dezasseis e dezassete anos.

João Paulo surgiu, finalmente, a acenar à multidão. Quando passou por nós, algo insólito aconteceu: o solidéu voou-lhe da cabeça e aterrou no meio da avenida. Fiquei especada a olhar para o adereço papal, nem sequer me estiquei para seguir o carro até ele desaparecer de vista. Passada a comitiva, lá jazia o solidéu, ninguém lhe parecia ligar. E atingiu-me uma grande vontade de o ir buscar, esgueirando-me por entre as grades. Mas hesitei, as forças policiais vigiavam a multidão que começava a dispersar.

Custava-me, porém, sair dali sem me apossar da relíquia (e mal sabia eu que João Paulo II seria canonizado vinte e três anos mais tarde). Informei as duas amigas das minhas intenções, em busca de solidariedade. Sempre era diferente irmos as três buscar o solidéu, do que uma sozinha. Mas elas alegaram que seríamos admoestadas pela polícia. Repliquei que nenhum dos polícias parecia reparar na peça caída no meio da rua, encontravam-se de costas para ela, concentrados na multidão. Mas as duas mantiveram-se firmes. Se alguém tentasse passar as barreiras de segurança, eles com certeza actuariam.

Fiquei numa hesitação entre o ir e não ir. E o receio, aliado à falta de apoio, acabou por vencer.

Não nego que tivesse sido a melhor decisão. Mas ainda hoje encaro a possibilidade de ter sido bem sucedida, pelo que estaria na posse de uma verdadeira relíquia.

Quem terá ficado com o precioso objecto? Terá sido devolvido ao papa?

Uma coisa é certa: até sairmos dali, o solidéu permaneceu caído no meio da avenida.

Solidéu papal.jpg

Solidéu papal - imagem Wikipedia

O Papa no Iraque

João Pedro Pimenta, 10.03.21

Chegou ao fim uma das mais delicadas e perigosas, mas também uma das mais significativas, viagens pastorais do Papa. Entre a pandemia e as bombas que o infeliz país tem sofrido há vários anos, a viagem ao Iraque parece ter corrido muito bem e permitiu cumprir vários objectivos, como o encontro com o Ayatollah Sistani, a grande autoridade xiita do Iraque, as vítimas do Daesh e as celebrações com as tão massacradas (e antiquíssimas) igrejas da Mesopotâmia, e são tantas, apesar dos fiéis mingarem por causa das perseguições e da violência.

 
O Papa conseguiu ainda ir a Mosul, a vizinha da antiga Nínive, no coração da Mesopotâmia, a cidade ocupada e devastada pelo Daesh, há poucos anos. Tinha sido precisamente na principal mesquita de Mosul que o "emir" al Baghadi proclamara o Estado Islâmico, em 2014, e anunciou que conquistaria Roma. Aconteceu precisamente o contrário: o Bispo de Roma é que entrou em Mosul, mas sem armas. Lembra um pouco a pergunta de Estaline, entre risos: "quantas divisões armadas tem o Vaticano?". A verdade é que o regime de Estaline já não existe, mas o Papa continua a saudar as multidões na Praça de S. Pedro ou em qualquer outro local. Até no Iraque, em 2021.
 
 

Do meu baú (6)

Pedro Correia, 09.02.21

thumbnail_20210209_110053[1].jpg

 

É sempre arriscado fazer previsões no jornalismo. E muito mais sobre os destinos da Igreja Católica, que são por natureza insondáveis, tais como os do Pai Eterno. Exemplo? Aqui está ele: veio publicado na primeira página do Expresso e transmitia uma certeza inabalável aos leitores «João Paulo II vai abdicar». Nem uma interrogação, sempre defensiva nestes casos, nem um daqueles verbos auxiliares - como poder ou admitir - que se utilizam para suavizar arestas quando a convicção está longe de ser absoluta. 

thumbnail_20210209_110124[1].jpg

A "notícia" - chamemos-lhe assim - veio estampada na primeira página daquele semanário, a 26 de Março de 1994. E baseava-se numa única "fonte" - chamemos-lhe assim também - identificada como tal: o correspondente no Vaticano da revista católica espanhola Vida Nueva. «O jornalista refere que destacadas figuras do aparelho do Estado da Santa Sé apontam mesmo alguns problemas clínicos com que o Papa se debate, como a falta de irrigação cerebal [sic] e células cancerígenas», escrevia o conceituado periódico. Acrescentando: «De facto, ultimamente João Paulo II tem vindo a perder vivacidade nas aparições públicas, desde que sofreu o atentado a tiro na Praça de S. Pedro, no dia 13 de Maio de 1981, que lhe atingiu o abdómen, e que o obrigou a diversas intervenções clínicas». 

O referido atentado, note-se, ocorrera quase 13 anos antes. E João Paulo II, apostado em contrariar o Expresso, manter-se-ia mais 11 anos sentado no trono de Pedro, terminando o seu pontificado não por renúncia mas por morte natural, a 2 de Abril de 2005. Aliás, depois desta bombástica "revelação" da primeira página, ainda visitou 47 países (incluindo a sua célebre deslocação a Cuba, em 1998, e a não menos badalada viagem a Fátima, em 2000, para a beatificação dos pastorinhos), publicou quatro encíclicas e divulgou oito exortações apostólicas

Falta acrescentar que a Santa Sé nem se deu ao incómodo de desmentir o Expresso. A História encarregou-se disso.

Sintomas duma sociedade doente

Pedro Correia, 01.11.20

602x338_cmsv2_b27a0f34-7497-58a7-b82b-07a024b19722

 

«Crescemos em muitos aspectos, mas somos analfabetos ao acompanharmos, cuidarmos e sustentarmos os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem em cima.»

 

«Ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade doente, que procura construir-se virando as costas ao sofrimento.»

 

«A parábola do Bom Samaritano mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, combatem situações de exclusão e tudo fazem para que o bem se torne comum.»

 

Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti

Carta Encíclica "Fratelli Tutti"

Cristina Torrão, 25.10.20

Alguns pontos que considero interessantes (e importantes), da última Carta Encíclica do papa Francisco, publicada e m 3 de Outubro passado:

7. Quando estava a redigir esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19 que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afectam a todos. Se alguém pensa que se tratava apenas de fazer funcionar melhor o que já fazíamos, ou que a única lição a tirar é que devemos melhorar os sistemas e regras já existentes, está a negar a realidade.

11. A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.

15. A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. Com várias modalidades, nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores, e assim a sociedade empobrece-se e acaba reduzida à prepotência do mais forte (…) Neste mesquinho jogo de desqualificações, o debate é manipulado para o manter no estado de controvérsia e contraposição.

18. Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma selecção que favorece a um sector humano digno de viver sem limites.

27. Criam-se novas barreiras de auto-defesa, de tal modo que deixa de haver o mundo, para existir apenas o «meu» mundo; e muitos deixam de ser considerados seres humanos com uma dignidade inalienável passando a ser apenas «os outros». Reaparece «a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer os muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro, quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes. Porque lhe falta esta alteridade».

74. O facto de crer em Deus e O adorar não é garantia de viver como agrada a Deus. Uma pessoa de fé pode não ser fiel a tudo o que essa mesma fé exige dela e, no entanto, sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros (…) O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.

107. Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o possuem, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade.

121. Por conseguinte, ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra. Assim, como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pelo simples facto de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento.

180. Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. Exigem a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade. Todo e qualquer esforço nesta linha torna-se um exercício alto da caridade [nesta passagem, a tradução alemã utiliza a expressão “amor ao próximo” - Nächstenliebe - que considero mais apropriada do que “caridade”].

 

A Encíclica completa pode ser lida aqui:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html#_ftn2

A Igreja Católica em crise

Cristina Torrão, 15.04.19

Papa abatido (1).JPG

Leio e comento o Delito de Opinião há quase dez anos, embora, nos últimos tempos, as visitas se tenham tornado mais raras. Como tantos de nós (mea culpa) sucumbi à mais conhecida rede social (sim, o Facebook) e as minhas rondas pelos blogues diminuíram. Não obstante, foi com imensa alegria que recebi o convite do Pedro Correia para me tornar autora regular de um dos mais famosos e lidos blogues portugueses, uma demonstração de confiança que muito me honra.

Feita esta introdução, vamos ao assunto que aqui me trouxe: o abuso sexual de menores dentro da Igreja Católica.

Vivo na Alemanha e sou assinante de um jornal católico semanal, o KirchenZeitung, ou KiZ, na sua abreviatura oficial, pertencente ao bispado de Hildesheim. Nos últimos tempos, traz um ou mais artigos sobre este tema em quase todas as suas edições. Há quem ache que é demais e apele a que se deixe o assunto em paz. Já se admitiu que o problema existe. Não chega? Até porque, felizmente, os clérigos abusadores não são a maioria.

Surdo a tais apelos, o KiZ insiste no assunto. E eu aplaudo. Porque é disso mesmo que os prevaricadores estão à espera: que, depois de se fazer uma balbúrdia à volta do assunto, o caso adormeça e eles possam voltar a maltratar as suas vítimas na paz do Senhor. Como sempre foi, durante séculos e séculos. Uma teia impenetrável de prevaricadores e coniventes, que abafam os crimes, que nunca castigam os criminosos, levando a Igreja de Cristo a esta situação incomportável: protecção dos criminosos, em vez de protecção das vítimas! Dizia, há tempos, uma colaboradora desse jornal: é inadmissível que um padre que o deixe de ser, a fim de se casar, seja tratado de forma mais dura pela sua Igreja, do que aqueles que abusam sexualmente de crianças!

Tenho lido relatos incríveis de antigas vítimas. Também há mulheres, mas a maioria parece ser homens. Em todo o caso, trata-se de pessoas que, só aparentemente, levam uma vida normal, pois não se livram de depressões, insónias, ataques de pânico e tentativas de suicídio durante toda a sua vida. Pessoas com asco de si próprias. Pessoas que tornam a recordar coisas que julgavam esquecidas, por exemplo, quando têm filhos, levando-as a cair novamente num poço escuro e frio, chegando a ficar com medo de tocar nas crianças (as suas crianças) de forma imprópria.

É duro ouvir um homem de sessenta anos dizer que se martirizou com pensamentos de pecado, ao lembrar-se de como regozijou ao saber que o padre, que abusara dele durante dois anos, ia ser transferido para outra paróquia. Na festa de despedida, toda a gente estava triste, por aquele padre tão simpático se ir embora. E ele, um miúdo de 11 ou 12 anos, estava feliz. E censurou-se por isso! É duro ler como bispos regiam autênticas redes de troca de menores. É duro ler como um padre, ganhando a confiança de uma família, a ponto de fazerem férias juntos, abusasse do miúdo, que dormia com ele, enquanto os pais dormiam no quarto ao lado, pensando que o filho não poderia estar entregue em melhores mãos.

Este último caso ilustra como a Igreja tem responsabilidades acrescidas. O Papa Francisco desiludiu no seu discurso de encerramento do encontro extraordinário de bispos em Roma, a fim de debater o assunto, há cerca de dois meses, ao relembrar que abusos sexuais a menores acontecem em todos os lugares onde adultos estão em contacto com crianças e jovens, como clubes desportivos, colónias de férias, lares, etc. Esta relativização caiu mal a muita gente, pois não se pode comparar o prestígio de um clérigo, representante de Deus na Terra, com o de um treinador de ginástica. Além disso, aconteça onde acontecer este crime, não pode ser nunca menorizado ou relativizado. Muitos se perguntam o que levou um Papa, normalmente tão acutilante e corajoso, ficar-se por discurso tão modesto. Por isso, escolhi a fotografia acima para ilustrar este post (igualmente copiada do KiZ): o Papa mostra-se abatido e encolhido, como se o peso que carrega nos ombros se tenha tornado demais para ele.

Numa altura de falta de padres e de igrejas quase vazias, escândalos deste tipo minam a confiança na instituição milenar. Não há dúvida de que a Igreja vive uma grande crise e só resolverá o problema com uma grande reforma. Alguns bispos alemães dão os primeiros passos, apesar de sofrerem a contestação de muitos dos seus pares. O novo bispo de Hildesheim, por exemplo, afirmou, numa entrevista, que a ganância do poder está inscrita no DNA da Igreja. Foi naturalmente muito contestado. Mas também apoiado. Porque ele pôs o dedo na ferida. Os abusos impunes de menores só se tornaram possíveis, porque a Igreja se transformou num clube de homens que se protegem uns aos outros, a fim de manterem o seu poder.

O bispo Heiner Wilmer não se deixa intimidar e constituiu uma comissão que deverá investigar os casos de abuso sexual no seu bispado entre os anos 1957 e 1982, o tempo de regência de um bispo muito querido e conceituado, mas que se desconfia que fazia parte de uma rede de troca de rapazinhos, algo que caiu como uma bomba entre os católicos alemães que se lembram dele, até agora, com muita saudade. Os elementos da comissão investigadora não são clérigos, nem estão particularmente relacionados com a Igreja, a fim de garantir a sua independência. E o bispo Heiner Wilmer prometeu pôr todos os arquivos à disposição dos investigadores. Este é um dos problemas, quando se trata de investigar: a retenção de informação por parte da Igreja.

Quatro pessoas fazem parte da comissão: dois psicólogos, que se encarregarão de entrevistar possíveis vítimas e outras testemunhas; um procurador-geral reformado que, durante quinze anos, presidiu a uma comissão que investigou crimes nazis em Ludwigsburg, e a antiga Ministra da Justiça da Baixa Saxónia (um Land alemão) que presidirá à comissão (informações tiradas do Kiz nº 14, de 07 de Abril passado).

O facto de estar uma mulher à frente desta comissão não é por acaso. O bispo Heiner Wilmer é de opinião de que a Igreja Católica só tem a ganhar envolvendo mulheres nos seus assuntos. Mais: ele considera ser essencial a participação de mulheres na reforma que se exige, não excluindo a sua ordenação.

Foi com agrado que, apesar das críticas que lhe são feitas, constatei haver colegas seus a seguir-lhe o exemplo. No último KiZ (nº 15, de 14 de Abril), li que o bispo de Osnabrück, Franz-Joseph Bode, considera a discussão do papel da mulher na Igreja como urgente, central e inevitável. Na sua opinião, a Igreja Católica está a desmoronar e só pode recuperar a confiança, quando mulheres e homens trabalharem em conjunto. Li igualmente com muito agrado que o bispo de Limburg, Georg Bätzing, pretende igualmente constituir uma comissão, a fim de investigar os abusos sexuais no seu bispado nos últimos setenta anos. A comissão será constituída por duas pessoas não ligadas à Igreja e terão de ser um homem e uma mulher.

Não se trata, aqui, de quotas ou de calar críticas. Trata-se, acima de tudo, de enquadrar mulheres nos meandros da Igreja, quebrando o monopólio dos homens que se apoiam e protegem mutuamente. Desejo muito que isso aconteça. Não porque as mulheres sejam, em geral, melhores do que os homens, mas porque a sua presença quebrará a irmandade masculina. Além disso, a sua opinião deve ser ouvida. Os homens são apenas metade da Humanidade. Nos dias de hoje, não há razão para que sejam apenas eles a decidirem sobre assuntos que digam respeito a toda a Humanidade. Na verdade, impressiona-me que tal procedimento tenha vigorado durante milénios!

Sigo tudo isto com grande interesse, não para atacar a Igreja Católica, mas numa grande esperança de que ela se consiga renovar. A Igreja enfrenta um dos maiores desafios da sua História e urge redefinir o seu papel. Para que serve, hoje em dia? Apenas para baptizados, comunhões, casamentos e funerais? Não podemos esquecer as suas tão necessárias missões caritativas espalhadas pelo mundo. E a Igreja Católica alemã tem-se concentrado noutras causas: o apoio aos refugiados (nos últimos anos, entraram cerca de dois milhões, neste país) e a ecologia. Sim, a preservação do ambiente, aliada à causa animal, tem-se tornado, cada vez mais, uma causa da Igreja. A razão? Proteger a Criação Divina.

Seria bom que a Igreja portuguesa lhe seguisse o exemplo, fomentando o debate sobre temas polémicos e se deixasse de dogmas ultrapassados, a fim de se dedicar a causas realmente importantes.

A fé

jpt, 13.04.19

merlin_153382137_99e6cb7d-03fa-48b5-bcdf-2277e9ad9

Eis o homem, ocorre-me dizer, no meu ateísmo, e nisso vou indiferente a que possa parecer uma (quase)blasfémia aos crentes - será apenas problema deles. Encontro isto no FB enquanto leio alhures (via Corta-fitas) dois profundos textos do Papa Bento XVI sobre abusos sexuais internos à sua igreja. Nesta conjugação mostra-se um momento difícil mas grande para os vizinhos católicos (e, espero, para uma democracia-cristã europeia, que vai indo invisível e talvez moribunda).

Isto resolve, no imediato? Pouco valerá. Os "senhores da guerra" adiarão por umas semanas as suas induções de execuções. E os prelados malévolos masturbar-se-ão um pouco mais nos próximos meses, dando alguma folga às suas vítimas. Depois tudo continuará.

E entre a gente comum continuará o fel, o seu império. Encontro esta foto num mural-FB: sobre o acto de Francisco o primeiro comentário é de um moçambicano, vituperando o acto, "ele que vá fazer isso ao Trump e outros ..." (outros brancos, claro), e segue num discurso completamente racista. E sobre um dos textos de Bento XVI (esse que todos os cultores do transgenderismo e outras transumâncias identitárias que surjam algo exóticas chamam Ratzinger, neste caso recusando a mudança identitária, e assim negando tudo quanto peroram, e até profissionalmente, tão ufanos seguem na sua mediocridade) logo leio textos de blogs comunistas deturpando-lhe, por reducionismo aleivoso, o conteúdo para o poderem aviltar.

Ou seja, vale a pena beijar os pés a esta escumalha, o intelectual burguesote português tão cioso de si, o racista moçambicano, os títeres sudaneses, diferentes no local mas iguais na miséria que são? Não. Nada os vai mudar.

Mas é isso a fé. Crer no inexistente. De vez em quando fica bonito. Este é um caso desses.

O Papa que quis ser maestro

Pedro Correia, 21.03.19

250x.jpg

 

Quando era pequenino, Jorge Mario Bergoglio – primeiro Papa oriundo do continente americano – queria ser maestro. Sentia-se vocacionado para conduzir orquestras que acompanhassem óperas italianas – as mesmas que escutava religiosamente todos os sábados, na companhia da mãe, filha de um modesto carpinteiro, na rádio nacional argentina. A avó materna, ouvindo-o exprimir tal vocação, disse-lhe: «Mas para isso é preciso estudar. E para estudar é preciso esforço, não é fácil…»

Foi uma das lições que a vida transmitiu ao futuro chefe da Igreja Católica: nada de relevante se consegue sem trabalho árduo e persistente. «Graças a Deus tive os meus quatro avós até tarde», recorda hoje o Papa. Os pais, oriundos de uma região pobre de Itália, viram-se forçados a rumar à Argentina na década de 20: o primeiro idioma que este filho de emigrantes aprendeu em casa foi o dialecto piemontês. Uma das suas recordações mais antigas remonta a Agosto de 1945, quando tinha oito anos, no quintal lá de casa: chegou uma vizinha alvoroçada e comunicou à família que a guerra terminara.

Ordenado sacerdote aos 33 anos, Bergoglio teve ocasião de testemunhar outros períodos em que Deus parece ter-se divorciado do destino humano. Durante a brutal ditadura argentina, por exemplo, foram assassinadas pessoas de quem estava próximo. Incluindo uma amiga comunista do Paraguai que costumava emprestar-lhe livros e a quem agora agradece por tê-lo «ensinado a pensar»: prisioneira política alvo de torturas, acabaria morta em 1977 por um método muito associado a esse regime: meteram-na num avião e lançaram-na ao mar.

 

Diálogo com agnóstico

 

São revelações contidas no livro Um Futuro de Fé, nascido de um conjunto de doze conversas travadas entre Fevereiro de 2016 e Fevereiro de 2017, no Vaticano, entre o Sumo Pontífice e o sociólogo francês Dominique Wolton, especialista em comunicação e autor de obras similares com o filósofo Raymond Aron (1981), o arcebispo de Paris Jean-Marie Lustiger (1987) e o presidente da Comissão Europeia Jacques Delors (1994).

«O homem é, fundamentalmente, um ser comunicante», disse o Papa ao assumido agnóstico que durante um ano foi seu interlocutor na modesta Casa de Santa Marta que lhe serve de residência após ter recusado viver no sumptuoso Palácio Apostólico onde se alojavam os anteriores pontífices.

Com três diplomas universitários (licenciaturas em Engenharia Química e Filosofia, doutoramento em Teologia), Bergoglio tornou-se o Papa Francisco em 13 de Março de 2013. À conversa com Wolton – exprimindo-se «num francês melhor do que faria crer», segundo o sociólogo – lembra esses dias que lhe mudaram a vida para sempre. Chegou a Roma vindo de Buenos Aires, onde era arcebispo, «com uma pequena mala e um bilhete de regresso.» Nem lhe passava pela cabeça, confessa, sentar-se no trono de São Pedro: «Havia três ou quatro “grandes” nomes… Para os corretores de apostas em Londres, eu era o 42.º ou 46.º»

Nesse fim de tarde, foi apresentado ao mundo como novo líder espiritual de mais de mil milhões de católicos. «Boa noite» foi a primeira mensagem que dirigiu à multidão concentrada a seus pés. Porquê? «Não sabia que outra coisa dizer naquele momento.»

 

Chaplin e Dostoievski

 

Outras frases marcantes acompanham o pontificado deste bispo de Roma que se manifesta contra os fundamentalismos, exprime sérias reservas à globalização que «destrói a diversidade» e admite ter uma aversão inata à hipocrisia. Algumas das mais significativas surgem neste livro-entrevista dividido em oito capítulos e que talvez deva ser lido a partir do último – o mais confessional, em termos humanos. Eis três delas: «Cuidado com o analfabetismo afectivo»; «Não confundamos a felicidade com um sofá»; «É preciso construir pontes e derrubar muros.»

Um Futuro de Fé revela-nos um Papa que na Argentina natal sentiu necessidade de fazer psicanálise. Que fala de Platão, Hegel e Dostoievski. Que menciona filmes como Tempos Modernos e A Festa de Babette. Que se comove ao ver o quadro A Conversão de São Francisco, de Caravaggio. Que aponta a vantagem suprema da religião: «Lembra-nos que é necessário elevar o espírito para o Alto a fim de construir a cidade dos homens.» E que partilha o que sentiu ao visitar o antigo campo de extermínio de Auschwitz: «Vi como era o homem sem Deus.»

 

............................................................... 
 
Um Futuro de Fé, do Papa Francisco, em diálogos com Dominique Wolton (Planeta, 2019). Tradução de Maria Leitão. 342 páginas.
Classificação: *****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15