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A lata tem os dias contados

por Pedro Correia, em 16.03.11

 

 

Tanto barulho para nada. Andam os espíritos muito alvoroçados porque um simpático duo intitulado Os Homens da Luta, composto pelos irmãos Jel e Falâncio, venceu o Festival RTP da Canção com um tema “revolucionário”. Que horror. As tias “socialistas” tremem de indignação: que mau aspecto, que falta de chá, a imagem portuguesa ficará manchada por estes nossos representantes no certame da Eurovisão, a realizar em Düsselforf. A começar pelo nome da cançoneta que se atreveram a levar ao palco do Teatro Camões, em Lisboa: A Luta é Alegria.

Nada disto faz sentido. O Festival RTP permanecia moribundo há pelo menos 15 anos. Jel e Falâncio acabam de recuperá-lo do estado comatoso em que se encontrava: de repente quase não se fala de outra coisa em Portugal. A RTP vive, graças a eles, um inesperado (e talvez indesejado) momento de glória como só tinha ultimamente por ocasião de uma ocasional partida de futebol. Além disso, os Homens da Luta não nasceram ontem: têm muita estrada percorrida. Começaram há anos com um programa intitulado Vai Tudo Abaixo , na SIC Radical, que era uma corrosiva diatribe aos hábitos e costumes portugueses, sem poupar nada nem ninguém. Munidos de uma viola e de um megafone, irrompiam em comícios, manifestações, celebrações laicas e religiosas, e até em posses de governos, como herdeiros improvisados das sátiras vicentinas à dimensão dos tempos actuais. Não se especializaram no humor politicamente correcto, liofilizado e engomadinho de outros: eles adoram mesmo disparar em todas as direcções. Por isso a rábula que levaram ao palco do festival visa caricaturar, em primeira linha, certos baladeiros pós-25 de Abril, com a sua música pseudo-revolucionária misturando estribilhos com batida folclórica, e em segunda linha funciona como uma farpa afiada aos actuais detentores do poder político, autênticos vendedores de ilusões.

Se Portugal fizer má figura na Alemanha, nos tempos mais próximos, certamente não será por culpa dos Homens da Luta. Segundo as mais recentes sondagens, 60 por cento dos contribuintes alemães – muitos dos quais irão a votos este ano, em sucessivas eleições estaduais – recusam continuar a financiar a dívida pública de países como Portugal com os seus impostos. A luta continua. Mas a nossa velha lata de persistir em viver de dádivas alheias, muito acima das nossas possibilidades e sem olhar a consequências, parece ter os dias contados. Ainda bem.

O estado agiota

por Pedro Correia, em 15.02.11

 

 

Já se presumia, mas agora tivemos a certeza: para o estado somos só um número. Um número fiscal, de preferência. É a conclusão a que chegamos com o triste caso de D. Augusta Martinho, a senhora de 87 anos que morreu sem assistência num apartamento da Rinchoa e só veio a ser encontrada nove anos depois, simplesmente porque o andar tinha um novo proprietário após ter sido posto à venda em hasta pública pela administração fiscal.

"Estado social"? Que "estado social"? Todas as entidades públicas falharam neste caso: D. Augusta era um número que não lhes dizia respeito. PSP, GNR, Polícia Judiciária, Ministério Público, Tribunal de Sintra, CTT, serviços de saúde, segurança social, junta de freguesia: o dinheiro dos nossos impostos sustenta todas estas entidades, que revelaram total ineficácia neste caso. Eficaz, só mesmo a máquina fiscal. Que foi capaz de confiscar o apartamento a uma morta e levá-lo a leilão, certamente na convicção de que desempenhava uma nobre missão de "serviço público".

Ouço com frequência o líder do Bloco de Esquerda falar nos "agiotas" internacionais que mantêm sob o fio da navalha a chamada "dívida soberana" portuguesa. Aquilo a que nenhum dos nossos políticos aponta o dedo acusador é ao estado agiota. O estado que não policia, não julga, não vela, não zela, não cuida, não protege, não defende - o estado que apenas confisca. De que outra forma podemos designar a entidade capaz de se apropriar do apartamento de uma octogenária morta, a pretexto de uma dívida fiscal inferior a 1500 euros, e vendê-lo em hasta pública por trinta mil?

"Como é que é possível num país civilizado penhorar e vender a habitação de uma pessoa, aliás, por uma dívida insignificante, sem que essa pessoa seja citada para contestar? Sem que ninguém se certifique de que o visado tomou conhecimento desse processo? Como é possível comprar uma casa sem a avaliar, sem sequer a ver por dentro? Quem avaliou a casa? Quem fixou o seu preço?", pergunta - com toda a pertinência - António Marinho Pinto no Jornal de Notícias.

O estado que lucra com a morte de uma senhora velha, doente e solitária não pode ser considerado uma pessoa (colectiva) de bem. É mesmo uma exigência de cidadania recusar-lhe liminarmente esse rótulo.

O bom vento de Espanha

por Pedro Correia, em 10.12.10

Enquanto em Portugal está já tudo a postos para a rendição total à ortografia brasileira, após um simulacro de "acordo" em que apenas uma das partes cedeu, em Espanha limitam-se a limar arestas linguísticas, como se . Dois modos muito diferentes de lidar com o idioma oficial, cá e lá. Falta-nos a nós o que sobra a eles em auto-estima. É o suficiente para que um mundo nos separe.

Um país que vê passar os comboios

por Pedro Correia, em 13.11.10
Chego a casa cansado, de noite. Afundo-me no sofá, ligo a televisão num canal ao acaso. Aparece-me a RTP-N, está a começar um programa que nunca vi: a Liga dos Últimos – ideia de Daniel Deusdado, apresentação de Álvaro Costa. Dois ou três minutos depois, estou conquistado: é um programa brilhante. Contrariando toda a lógica das emissões “desportivas” da TV, que só sabem lançar os holofotes sobre os primeiros, esta Liga dos Últimos vai à procura dos clubes que estão no fundo de todas as tabelas. Em Portugal e até no estrangeiro.
Esta original ideia materializa-se aqui num jornalismo de qualidade. Que nos mostra um retrato pitoresco do País – não o País que figura nos telejornais, o dos casos de sucesso ou o que grita nas ruas. É um país humilde, de gente incapaz de triunfar mas que nem por isso deixa de disputar desafios. O país dos jogos Atalaia 3-Pedra 2 e Anços 0-Santa Iria 1. Um futebol onde se contam tostões em vez de se ganhar milhões. Um futebol onde é possível o treinador perder todos os jogos e mesmo assim manter-se em funções porque é simultaneamente o presidente do clube. Um futebol onde o jogo que se pratica é tão mau que os escassos espectadores desistem de olhar para a bola.
- Porque é que está de costas para o jogo? – pergunta a jornalista.
- Porque estou mais interessado na bifana – responde o desiludido tifoso, entre duas dentadas.
É um futebol de mães desiludidas com a prestação dos próprios filhos.
- Porque está aqui?
- Porque o meu filho pertence aqui à bola. O meu filho é aquele alto que está lá dentro.
É um país espontâneo, sem truques nem maquilhagens. Um país em que um dos frustrados futebolistas amadores, cantoneiro de profissão, se apresenta desta forma defronte das câmaras:
- Sou Xuxu, um dos melhores jogadores da equipa. O problema é que chega-se ao jogo, começa logo tudo a discutir, e assim não há motivação para ganhar.
Um país em que um treinador-de-trazer-por-casa, depois de levar cinco secos, desabafa assim:
- Qual é a motivação que um treinador tem em vir para aqui à chuva para treinar quando só seis jogadores aparecem para os treinos? Além de treinar, tenho também que apanhar bolas, tenho que abrir o balneário, tenho que fechar o balneário.
É um país que vê passar os comboios. Literalmente.
- Já ganhámos cá um jogo porque a equipa adversária nunca tinha visto um comboio e quando passou o comboio começou a olhar para o comboio e nós ganhámos – lembra um fervoroso adepto do Anços.
É um país que não escolhe as palavras para dizer o que pensa:
- Esse árbitro é um passarinho e o bandeirinha é um passarão. Não são capazes...
- Porquê?
- Se fossem árbitros capazes, não vinham para aqui.
Este programa conquistou-me como nenhum outro o tem feito de há muito para cá. Os últimos, neste caso, são os primeiros.
É Portugal no seu melhor.
Reedição

Isabel Alçada faz escola

por Pedro Correia, em 22.09.10

 

A falar assim, este puto ainda há-de chegar longe. A ministro da Educação, por exemplo.

O País real, de cravo na boca

por Pedro Correia, em 22.08.10

 

«Um homem entrou hoje dentro de um forno de lenha comunitário aquecido a mais de 250 graus durante a recriação do 'milagre' da Urgueira, no concelho de Águeda, que atrai anualmente milhares de pessoas.

(...)

Num forno comunitário aquecido durante três dias, Manuel Farias, presidente da colectividade organizadora, entrou no seu interior para depositar uma broa com cerca de 80 quilogramas, que depois de cozida foi cortada em pedaços para distribuir pelos romeiros.

"Ao entrar no forno não há sensações nem emoções. Não há euforia nem inibição, não há tristeza nem alegria e não há frio nem calor. Temos de ir completamente bloqueados à emoção e à sensação", explicou à agência Lusa, momentos depois de ter entrado e saído do forno, cuja temperatura oscilava entre os 250 e os 300 graus.

Salientando que o segredo é o autodomínio, com a respiração suspensa durante cerca de 15 segundos, Manuel Farias conta que quando sai do forno é como se lhe tivessem "despejado um balde de água pelo corpo abaixo, porque a transpiração é tão intensa que a água escorre-nos pelo corpo".

A entrada no forno é feita com um fato típico de romaria, uma boina com protecção para as orelhas e um cravo na boca.»

 

Notícia da agência Lusa, hoje, às 19.10

Um país doente

por Pedro Correia, em 14.08.10

 

Da simples leitura dos títulos da imprensa de hoje, que retrato do País emerge?

 

- "Fogos queimam o triplo de 2009" (Correio da Manhã)

- "Quatro áreas protegidas já têm estragos das chamas" (i)

- "Há cada vez menos incendiários nas prisões nacionais" (DN)

- "Estado deixa 80 mil sem urgências sociais" (DN)

- "Estado não controla pensões de enfermeiros e professores" (JN)

- "Iodo pode ter causado cegueira a doentes de clínica de Lagoa" (JN)

- "Ordem admite não ter capacidade para avaliar as queixas por erros dos médicos" (Público)

- "Advogados: bastonário trava cursos e deixa mil licenciados sem saída" (DN)

- "Algarve está cheio de turistas sem dinheiro" (Expresso)

- "PIB só cresce duas décimas" (Correio da Manhã)

- "Economia em risco de congelar com austeridade" (Público)

 

Emerge o retrato de um país desprotegido, desamparado, mal tratado. Um país sem rumo, sem perspectivas de futuro. Um país doente. Um país que diríamos do terceiro mundo. Se no terceiro mundo não faltassem países com um crescimento económico muito superior a duas décimas.

No país dos juízes excelentíssimos

por Pedro Correia, em 07.08.10

Crise? Qual crise? O caso Casa Pia pode voltar à estaca zero. O empresário Domingos Névoa foi absolvido pelo Tribunal da Relação, levando o advogado Ricardo Sá Fernandes a desabafar: "Não vale a pena combater a corrupção." Sucedem-se as condenações de Portugal no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. O procurador-geral da República e o sindicato dos magistrados do Ministérios Público estão em guerra aberta. Pinto Monteiro queixa-se de ter apenas os poderes da Rainha de Inglaterra (excepto o poder de dissolver o Parlamento). Os magistrados titulares do caso Freeport alegam não ter recolhido o depoimento do primeiro-ministro por falta de tempo, algo impensável noutro país da União Europeia. Cândida Almeida, coordenadora do Departamento de Investigação e Acção Penal, critica os investigadores da Polícia Judiciária e é criticada pela associação sindical dos investigadores criminais.

Parece que há crise. E grave. E com um carácter inédito em 36 anos de regime democrático. O que dará razão a estas palavras muito severas de Mário Soares: "A Justiça, em demasiados casos, não funciona, nomeadamente quando envolve políticos mediáticos ou desportistas igualmente mediáticos."

Mas as aparências iludem. Afinal, 97% dos juízes foram avaliados, nos últimos cinco anos, com classificação de bom ou muito bom. Percebe-se agora o profundo silêncio do Presidente da República, que se mantém a banhos, ignorando olimpicamente o tema e os brados de protesto da eurodeputada socialista Ana Gomes, para quem já está em causa o regular funcionamento das instituições.

O calor aperta e convida ao ripanço. No país dos juízes excelentíssimos, o melhor que a esfinge de Belém tem a fazer é dar mais um mergulho nas cálidas ondas do mar. A Rainha de Inglaterra não faria melhor.

Ainda haverá meninos em Boliqueime?

por Pedro Correia, em 15.07.10

 

I

Quando ouço falar no encerramento de escolas do ensino básico com menos de 20 alunos - outra infeliz decisão de um Governo "socialista" que prima por uma chocante insensibilidade social - lembro-me logo da ilha do Corvo. E porquê? Porque, ou muito me engano ou nesta ilha - uma das parcelas mais remotas do território nacional - não haverá crianças que cheguem, na óptica do Executivo, para garantir que uma escola permaneça ali de portas abertas, cumprindo uma das mais relevantes missões de serviço público. Apesar disso, passará pela cabeça iluminada de algum membro do Governo encerrar uma escola no Corvo? Ou na ilha de Santa Maria? Ou na Graciosa? Ou em Porto Santo? Certamente que não.

Se o que não vale para as ilhas por que motivo valerá para as regiões do interior da faixa continental, já vítimas de tantas assimetrias sociais? Todas as escolas que o Governo prevê fechar - e são novecentas! - incluem-se nas freguesias dos distritos mais pobres do País. Bragança, Beja, Viseu, Portalegre, Castelo Branco. Distritos que já viram encerrar urgências hospitalares, tribunais, correios e quartéis preparam-se agora para ver fechar também escolas - um dos principais factores de fixação populacional. Na Guarda, por exemplo, deverão ser encerradas 45% das actuais escolas do distrito.

Algum pai poderá encarar de ânimo leve que um filho de tenra idade se veja forçado a percorrer 50 quilómetros diários para ter aulas? Como pode uma medida destas justificar-se em nome da "integração social" dos alunos? Quantas destas crianças deixarão na prática de ir à escola? E que futuro pretendemos assegurar às novas gerações que têm o azar de crescer para além de 100 quilómetros a contar da orla marítima, nas regiões mais desprezadas do País? O secretário de Estado da Educação, João Trocado da Mata, vê o filme ao contrário quando diz que "o encerramento de escolas de pequena dimensão é consequência e não causa do processo de despovoamento territorial".

 

II 

No seu estilo inconfundível, José Sócrates considera que seria "criminoso" o Governo não encerrar escolas com poucos alunos. Que critérios de equidade e de responsabilidade social levam um Governo que se diz socialista a decretar o encerramento de uma escola como a de Várzea de Abrunhais, no concelho de Lamego, que tem desenvolvido programas-piloto de aprendizagem por computador que a própria Microsoft não hesitou em considerar modelares? Que critérios de "rentabilidade", de "modernidade" ou de eficácia podem ditar o fecho de uma escola como a de Capinha, no concelho do Fundão, que "em 2007 foi ampliada e requalificada, sofrendo um investimento directo de 250 mil euros que permitiu requalificar as quatro salas de aula, a construção de um sala/atelier multimédia com oito postos de trabalho ligados à internet e ferramentas multimédia, construção de uma cantina, remodelação dos sanitários, construção de um pátio interior para recreio e ginástica e requalificação total do espaço exterior da escola", como recentemente lembrava Joana Amaral Dias no seu blogue, Córtex Frontal? Lembra ainda a ex-deputada do Bloco de Esquerda que «numa recente visita da Inspecção do Ministério da Educação ao agrupamento de escolas João Franco, o parque escolar da Capinha foi apelidado de 'Formidável, com condições exemplares para a aprendizagem'.»

Tudo isto deitado por água abaixo. Ainda por cima sem o Governo ter aguardado o parecer do Conselho de Escolas. "Nunca se lembraram as autoridades de pensar que quando se fecha uma escola se fecha uma aldeia, que o fecho das escolas reforça a desertificação, acaba com comunidades, isola as crianças e dissolve-as no anonimato de pequenas cidades onde passam o dia sem amigos nem vizinhos nem família, de manhã à noite?", questionou a socialista Ana Benavente  num artigo do Público que justifica aplauso.

 

III 

A poucos quilómetros de Alcácer do Sal, numa recta interminável que nos conduz à Comporta, existiu em tempos uma escola do ensino básico que parecia plantada no meio do nada e hoje está transformada em restaurante. Sempre me admirei como nesse tempo já distante, em que não recebíamos fundos estruturais de Bruxelas, foi possível dotar de escolas todos os lugarejos deste país - até aquele, entre silvas e cardos. O edifício lá continua, como símbolo de uma época em que a escola era um marco de desenvolvimento cultural e não um fardo orçamental nem um alvo a abater com a mesma ligeireza com que se pôs fim à agricultura, às pescas e à exploração mineira neste país que importa 80% do que come.

Há quem chame a isto progresso. Eu não. Para mim, progresso é o Corvo continuar a ter a sua escola. Apesar de ser uma ilha pobre, situada a milhares de quilómetros de Lisboa. Contra todas as macrocefalias, contra todas as improbabilidades estatísticas. O Presidente da República nasceu na aldeia de Poço de Boliqueime e o primeiro-ministro gosta de dizer que é natural da aldeia de Vilar de Maçada. Também estas freguesias deixarão de ter escolas por falta de meninas e de meninos? O que seria do jovem Cavaco ou dos familiares de Sócrates se no tempo em que estudaram imperasse a visão burocrática e economicista dos actuais políticos que hoje condena as crianças do interior do País a um isolamento ainda maior do que aquele que condicionava e assombrava os seus antepassados?

A república dos "doutores"

por Pedro Correia, em 10.06.10

 

Ouço nas comissões parlamentares – nomeadamente nas recentes audições realizadas na Comissão de Ética da Assembleia da República e na comissão de inquérito à suposta interferência do Governo no negócio PT/TVI – alguns cidadãos serem tratados por “doutor”. É algo que fere o direito de igualdade entre os portugueses, que mais que ninguém os deputados deviam preservar, estimular e defender.

No Parlamento – casa da democracia – todos os cidadãos deviam receber o mesmo tipo de tratamento. É isso que sucede nas restantes instituições parlamentares europeias. Em Espanha, existe señor, como forma geral de tratamento; em França, monsieur; no Reino Unido, mister. Esta anacrónica mania portuguesa de fazer substituir os duques, marqueses e viscondes de antanho pelos “doutores” e “engenheiros” de agora, muitos deles aliás sem terem qualificações académicas para merecerem ser tratados desta forma, devia terminar – com a Assembleia da República a dar o exemplo. Seria uma forma muito concreta de assinalar o centenário da proclamação do regime republicano. Espero não voltar a ouvir um presidente de uma comissão parlamentar de inquérito dividir os cidadãos que lá prestam depoimento em “senhores” e “doutores”: não concebo uma atitude menos republicana que esta.

É a reflexão que deixo para o 10 de Junho.

Com mil milhões de macacos

por Pedro Correia, em 25.05.10

 

 

"Despacho n.º 8346/2010. D.R. n.º 96, Série II de 2010-05-18
Presidência do Conselho de Ministros - Secretaria-Geral
Requisita à empresa Deloitte & Touche, Lda., António José Oliveira Figueira, para exercer funções de motorista no Gabinete do Primeiro-Ministro."  

 

Uma vez mais, a realidade imita a ficção: Portugal é um país de Oliveiras Figueiras. Oliveira Figueira é precisamente o nome de um dos 12 - doze! - motoristas do primeiro-ministro, um homem que aprecia o jogging matinal mas não dispensa viatura sequer para as deslocações entre o Largo do Rato, onde por vezes há reuniões nocturnas do PS, e o seu apartamento na estratégica Rua Braancamp, situado a cerca de 500 metros.

Pormenor interessantíssimo: este Oliveira Figueira é requisitado a uma empresa que dá pelo magnífico nome de 'Deloitte & Touche'. Também digno de banda desenhada. "Com mil milhões de macacos", como diria o velho capitão Haddock.

Gostos discutem-se

por Pedro Correia, em 13.05.10

Diz-me a que som danças hoje, dir-te-ei que 'dótor' serás amanhã.

 

(via Mar Salgado)

Sindicalismo à portuguesa

por Pedro Correia, em 04.03.10

João Proença, secretário-geral da UGT, troca Portugal por Moçambique em dia de greve geral da função pública. Integrado na comitiva do primeiro-ministro.

Uma boa sugestão de Vital Moreira

por Pedro Correia, em 02.02.10

"As entidades oficiais que iam chegando eram publicamente anunciadas pelas suas qualificações académicas ("dr.", "prof. doutor", etc.).
Revertendo ao espírito original da igualdade republicana, por que não aproveitar o Centenário para abolir de novo e definitivamente tais formas de tratamento do discurso e dos documentos oficiais?"

A corrupção nunca existiu

por Pedro Correia, em 12.12.09

Neste país de brandíssimos costumes, informa-nos hoje o Expresso, há 17 indivíduos presos por corrupção. Eis a crua realidade em números: 17 pessoas num país com dez milhões de habitantes. Nenhum tubarão, claro: só peixe miúdo. O sargento da Brigada de Trânsito de Albufeira. Um funcionário do Centro de Emprego de Lagos. Um inspector da Polícia Judiciária que extorquia dinheiro a suspeitos que ameaçava com penas pesadas. O tipo do fisco que "fazia desaparecer processos de execução a troco de dinheiro".

Dezassete, ponto final. Nenhum político, nenhum gestor público, nenhum empresário 'benemérito'. É quase caso para dizer que a corrupção nunca existiu em Portugal. Percebo agora melhor o motivo por que há por aí tanta gente preocupada com as 'violações do segredo de justiça'. Isso sim, é um gravíssimo problema nacional.

Chumbo grosso

por Pedro Correia, em 03.12.09

O Tribunal de Contas já chumbou cinco dos seis contratos de subconcessão lançados este ano pela empresa pública Estradas de Portugal. A pergunta que se impõe é esta: estará o presidente da EP, Almerindo Marques, à espera do sexto chumbo para apresentar finalmente o pedido de demissão?

Uma pergunta aos leitores

por Pedro Correia, em 24.11.09

Neste país onde tudo parece subitamente tão preocupado com as «violações do segredo de justiça» alguém é capaz de me indicar um único caso de corrupção, com sentença condenatória, julgado até à última instância em Portugal?

Flagrantes de um país em crise

por Pedro Correia, em 16.11.09

Na imprensa de hoje, dois retratos expressivos de um país em crise:

 

1. Os presidentes da Refer, da CP e de pelo menos mais uma sociedade pública de transportes terão pago com o cartão de crédito da empresa os almoços de 50 gestores públicos daquele ramo, a 23 de Outubro, durante uma homenagem à então secretária de Estado dos Transportes, a socialista Ana Paula Vitorino.  

O almoço de apoio e de despedida à governante foi no Hotel Altis Belém, em Lisboa, e juntou meia centena de administradores da CP, Refer, Carris, Metro de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa e STCP, bem como de algumas empresas detidas pela CP e Refer, os quais se quotizaram entre si com um montante de 40 euros do seu próprio bolso para oferecer a Ana Paula Vitorino uma gargantilha de ouro de cerca de 2000 euros.

 

2. O Fisco já deixou caducar milhares de euros de impostos das empresas de Manuel Godinho, o principal arguido do processo ‘Face Oculta’. Se o empresário não for notificado para pagar até 31 de Dezembro, mais 164 mil euros deixarão de entrar nos cofres do Estado. Estamos a falar de IVA não pago relativo a 2002, 2003 e 2004 da Comércio Sucatas Godinho Lda, detectado durante uma inspecção tributária que durou oito meses e que terminou em Junho de 2006.

 

Crise, de facto. Mas crise no plano ético, sobretudo. A crise económica só toca a alguns: muitos gestores públicos e uma multidão de empresários caloteiros, vários dos quais considerados 'beneméritos' nas comunidades onde residem, sugam o Estado e lesam os contribuintes com total despudor. Num país onde as disparidades na distribuição da riqueza atingem níveis chocantes, este contraste entre o Portugal que se endivida para adquirir bens de primeira necessidade e o Portugal que esbanja ou que não olha a meios para lesar o interesse público é ainda mais inaceitável. E justifica uma atitude de indignação da parte de todos nós.

As bojardas e os pés-de-microfone

por Pedro Correia, em 02.11.09

Duas dúzias de energúmenos foram dissuadidos esta noite, pelo Corpo de Intervenção da PSP, de invadir as instalações do Sporting. A polícia cumpriu o seu dever, escorraçando os arruaceiros. Foi quanto bastou, neste país rendido à fúria do futebol, para o assunto ganhar impacto nacional. Um dos indivíduos barrados pela polícia, que acabo de ouvir no canal público de televisão, dispara esta bojarda de olhos bem fixos nas câmaras: "Nós, neste momento, temos uma PIDE em Portugal. Chama-se PSP." 

Qualquer imbecil sem memória nem leituras para fazer a mais remota ideia do que foi a PIDE tem hoje tempo de antena cá na terra. Em directo, ao vivo e a cores. Com os jornalistas, abdicando do seu papel de mediadores, irresponsavelmente transformados em pés-de-microfone. 

Doce país este

por Pedro Correia, em 11.10.09

 

 

Regresso a Portugal a tempo de votar, na própria manhã das autárquicas, após nove dias sem saber nada da vida política portuguesa. Mal me ponho a par do que foi acontecendo, verifico que permanece tudo na mesma. Sócrates prepara governo a ensaiar a primeira chantagem formal à oposição, a propósito do Orçamento de Estado para 2010. Nenhuma força da oposição se arrisca a propor uma moção de rejeição do programa do novo Executivo no Parlamento. Os inquilinos de Belém e de São Bento, enterrada a 'cooperação estratégica', continuam de costas voltadas. Marcelo Rebelo de Sousa agita-se. Manuela Ferreira Leite, agarrada ao umbral da sede da São Caetano à Lapa, revela-se cada vez mais exímia na arte de desdizer hoje o que prometeu ontem: depois de garantir que o PSD não daria "uma ajuda envergonhada" ao Governo minoritário do PS, assegura agora que fará uma "oposição responsável", dando assim o primeiro sinal de que os sociais-democratas viabilizarão o orçamento apresentado pelos socialistas. E em jornais de referência leio notícias que falam de acontecimentos ocorridos "à muito tempo" - assim mesmo, sem agá, talvez por determinação do desacordo ortográfico, que abomina as consoantes mudas.

Doce país este, a que regressamos sempre com saudade.


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