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Natal: uma memória cubana

por Pedro Correia, em 25.12.16

«A finales de la década de 1960 la celebración de las Navidades fue postergada o eliminada en Cuba, no solo por ateísmo cientifico militante sino además porque, en lugar de empeñarse en celebraciones y libaciones, se decidió que la gente debía dedicarse durante aquellas jornadas a los cortes de caña en los dias en que más altos rendimientos de azúcar podian conseguirse. Por si fuera poco, junto a los simbolos navideños por esos tiempos también habían desaparecido los turrones y la cidra española que, unidos a lo cerdo asado, los frijoles negros y a la yuca con mojo de naranjas agrias (no totalmente desaparecidos pero también esquivos) conformaban los elementos más característicos para alimentar la celebración.»

Leonardo Padura (ontem, no El Mundo)

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«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
 
São Lucas, 2: 15-18

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Foi na véspera de Natal de 1914, em Ypres, na Bélgica. À noite, nas linhas inglesas, alguém começou a cantar o Adeste Fidelis, o lado alemão fez coro. Um inglês gritou que ia sair da trincheira desarmado, um alemão fez o mesmo. Outros seguiram-nos. Trocaram presentes. Jogaram futebol. A trégua informal terá abrangido 100 mil soldados inimigos. Aconteceu.

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Os inimigos do Natal

por Pedro Correia, em 24.12.16

Estimativas dos principais serviços de informações europeus apontam para a existência de 22 mil jiadistas que se infiltraram nas correntes migratórias e se movimentam hoje com desenvoltura no espaço Schengen, onde Portugal se insere. Um deles foi o tunisino que assassinou 12 pessoas em Berlim e atravessou sem o menor embaraço dois países antes de chegar a Milão, onde se envolveu num tiroteio com a polícia que lhe custou a vida.

Enquanto celebramos o espírito natalício e esta bonomia de costumes infelizmente odiada por grande parte da população do planeta, não tenhamos ilusões: os inimigos do Natal estão no meio de nós. Entrincheirados na sombra, fanáticos sequiosos de sangue, prontos a matar e a morrer.

Feliz Natal!

por Bandeira, em 24.12.16

Não é fácil ser-se o presumível pai de oito crianças (eram sete mas uma não resistiu) por alturas do Natal, sobretudo quando se está desempregado numa firma que paga tão pouco quanto a minha – uma startup ostentando digníssima inscrição na porta, no espaço livre entre as citações judiciais, com os dizeres “Emprendendo desde 2017”. Por várias vezes chamei a atenção para a falta de um “e” no enunciado; do economato respondem invariavelmente que a pouca tinta que circula ainda nas veias da velha impressora está reservada para coisas verdadeiramente importantes, como fotos de gatinhos tiradas do Instagram, bilhetes para a ópera (excepto o Don Carlos) e notas de banco, não forçosamente por esta ordem.

 

Procurei uma lojinha de brinquedos no centro comercial Pandemónio e solicitei à menina atrás do balcão – onde se escondia, soube-o depois, por não ter “nada para vestir” – que me aconselhasse uma prenda para oito crianças entre os três meses e os nove anos de idade; igual para todas, claro, porque eu jamais aceitaria favorecimentos à vista de toda a gente. Conversámos um pouco sobre como era engraçado que ela, com um doutoramento em Astrofísica e duas idas à Lua no currículo, tivesse acabado numa loja de brinquedos. “Todos os anos tenho dado o mesmo aos miúdos”, disse-lhe então (não sem dificuldade porquanto a menina, gemendo, batia com a máquina Multibanco na cabeça), “Licor Beirão para os mais novos e vodka para os mais velhos, para eles misturarem com o que quiserem e dessa forma incentivar o seu espírito de iniciativa; mas este ano faltam-me os meios e, além disso, queria variar um bocadinho”. “Cigarros são uma boa alternativa”, respondeu a astrofísica entre soluços, “os mais velhos de certeza que já fumam e os mais novos gostam sempre de ver os bonecos”.

 

É preciso algum cuidado com os conselhos de pessoas que vivem na Lua. Ainda assim, comprei uma garrafa de CRF e um pacote de Definitivos que encontrei num alfarrabista. Tenciono telefonar à minha mulher e convidá-la a aparecer, na condição de não trazer o Gelsão com ela. A família toda reunida, outra vez. Vai ser uma festa.

 

Rufino

Obrigado, Rodolfo

por Fernando Sousa, em 23.12.16

e portanto e porque acho injusto que as pessoas não saibam nem quantas são nem como se chamam as renas do Pai Natal, o que além do mais é pouco cristão, ou para me limpar de um dia ter comido, sem saber, num hotel de Helsínquia, uma deliciosa carne rosada que só no fim me disseram de que era, ou em homenagem aos deputados que entretanto e por fim reconheceram que os animais não são coisas, deixo aqui, um a um, os nomes das incansáveis companheiras do bom velho: Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão, Relâmpago e, claro, Rudolfo, a do nariz vermelho e brilhante, capaz de conduzir o trenó e as amigas por entre os mais grossos nevoeiros e as mais violentas tempestades, aparcar sem problemas no estacionamento das grandes superfícies e pairar ao milímetro sobre as nossas chaminés. Nove portanto, ao todo, e não oito apenas como eram até ao século XIX, sem o Rodolfo. Que fique o registo e o reconhecimento, no meu caso por me terem feito companhia a vida toda, colorido e aquecido a imaginação e tornado a realidade menos cinzenta, ácida, fria e geométrica. Obrigado, renas, bom Natal a todos.

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O nascimento de Jesus Cristo e a política

por Alexandre Guerra, em 23.12.16

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The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento "familiar", no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo "aval" do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido "rei" dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo "Rei dos Judeus" perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado originalmente no Diplomata a 23 de Dezembro de 2015.

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Porque é Natal

por Francisca Prieto, em 22.12.16

Nos últimos dias tenho querido escrever sobre o Natal, mas confesso que com a brutalidade que vai por este mundo fora, fico com a sensação de que só consigo falar de banalidades.
Quando sabemos de gente que é assassinada à luz do dia, de famílias que levam com bombas em cima da cabeça e autocarros que trespassam multidões, parece que qualquer menção a rabanadas é uma falta de respeito.
Não me interpretem mal. Gosto de ouro, de incenso e de mirra. Mas parece que entre o avanço da idade e a desgraça que vai no mundo, estas coisas vão tendo cada vez menos importância.
Fica-nos um aperto por quem passa mal. Mas talvez esse aperto nos faça voltar ao essencial. À reflexão de como podemos ser melhores no ano que se avizinha, à mensagem que queremos passar aos nossos filhos sobre a importância dos gestos de amor, à escolha de ofertas que tenham a nossa marca e que despertem uma alegria no coração de quem as recebe.
Há vários anos que, em casa dos meus pais, cada pessoa só recebe um presente. Com a pelintrice que foi assolando toda a família, o orçamento da oferenda já vai num louco máximo de 10 euros. Mas é incrível como todos os anos temos sido capazes de puxar pela criatividade de maneira a continuar a fazer da manhã de dia 25 uma animação. Há sempre alguém que descobre uma foto hilariante, ou um pimenteiro gigante para quem não passa sem temperos fortes, ou um garrafão de nutella para o guloso máximo, ou um disco da Tonicha, ou seja lá o que for. Na verdade, não é o ouro que nos une (felizmente, que senão era uma tragédia), é o sentido de humor e a cumplicidade que temos uns com os outros.
Que este Natal seja mais um tempo para trocarmos gargalhadas, que é, afinal, a nossa dádiva de afecto. E que em 2017 tenhamos todos energia para contribuir para um mundo mais sereno.

Aos meus amigos neste Natal

por Helena Sacadura Cabral, em 21.12.16

Contei meus anos

E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente

Do que já vivi até agora

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras ele chupou displicente,

mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,

Cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis,

para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias

que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas

que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigam pelo

Majestoso cargo de secretário geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,

Minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,

Muito humana; que sabe rir de seus tropeços,

não se encanta com triunfos,

não se considera eleita antes da hora,

não foge da sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

"AMIGOS NÃO SE DESPEDEM,MARCAM UM NOVO ENCONTRO"

(Poema de Mario de Andrade)

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Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 10.12.16

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Livro dez: Macbeth, de William Shakespeare

Tradução de José Miguel Silva

Edição Relógio d' Água, 2016

149 páginas

 

Um clássico, ensinou-nos Italo Calvino, é uma obra literária que nunca cessa de dizer aquilo que tem a dizer. Felizmente ainda existem entre nós editoras que apostam nos autores clássicos – aqueles que conseguiram seduzir sucessivas gerações de leitores em diversas latitudes e continuam a possuir o dom de nos elevar acima da mediania.

Um dos mais recentes clássicos reeditados entre nós, em irrepreensível tradução de José Miguel Silva, é este Macbeth – que integra o quarteto de tragédias capitais nascidas do génio de William Shakespeare (1564-1616), em conjunto com Hamlet, Otelo e O Rei Lear. Ascensão e queda de um tirano assombrado pelas suas vítimas, este drama em cinco actos é uma viagem à face mais sombria da política, simbolizada no usurpador do trono escocês e da sua mulher, Lady Macbeth, uma das maiores vilãs da história da literatura, que implora desta forma aos espíritos malignos: “Despojai-me do meu sexo e cumulai-me / de terrível crueldade. Que meu sangue / se adense, impedindo a passagem ao remorso; / que nenhuma compaixão possa abalar / os meus ímpios desígnios, interpondo-se / entre eles e os seus efeitos.”

Todas as paixões andam à solta neste magnífico texto teatral em que Shakespeare leva mais longe do que em qualquer outro a sua indisfarçável “extravagância da imaginação”, como acentuou o crítico britânico William Hazlitt (1878-1830) num ensaio incluído em posfácio desta edição. A Relógio d’ Água, recorde-se, já deu à estampa Henrique IV, Ricardo III, Hamlet, Romeu e Julieta e O Mercador de Veneza, entre outros títulos do cânone shakesperiano, revisitado com justificado interesse neste ano em que se assinala o quarto centenário da morte do escritor.

Para George Steiner, Shakespeare era “um ser cujos poderes criativos, num certo e determinado sentido, rivalizavam com os da natureza e da divindade”. Na mesma linha, Harold Bloom enaltece-o como “único rival possível para a Bíblia em termos de poder literário”. Atributos bem patentes neste Macbeth, cheio de solilóquios que ilustram o enigma da condição humana no ilusório palco da vida, tantas vezes percorrido por torrentes de “som e fúria” em direcção ao nada.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 09.12.16
 

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Livro nove: LX80, de Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes

Edição Dom Quixote, 2016

272 páginas

 

Por mais que as mensagens em voga nos instiguem a “viver o presente”, seja lá o que isso for, o revivalismo é uma fonte inesgotável de descobertas capazes de somar o conhecimento ao prazer quando transpostas para livro. É o caso deste volume, que merece ser cumprimentado pela escrita ágil e elegante, aliada ao notório bom-gosto gráfico. LX80 insere-se numa série, que já nos conduziu às duas décadas anteriores, sempre centradas na capital.

Está paginado nuns casos em forma de revista e noutros como caderneta de cromos, percorrendo toda a década que entre nós começou com a comoção nacional gerada pela trágica morte do primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e terminou com Marcelo Rebelo de Sousa a divertir o País com um mergulho no Tejo que animou a campanha autárquica de 1989 sem no entanto contribuir para o seu sucesso nas urnas em Lisboa.

Foi uma década de nomes inconfundíveis – e em certos casos irrepetíveis. A década de António Variações, Ana Salazar, Kruz Abecasis, Tomás Taveira, José Maria Tallón, Carlos Paião, Fernando Chalana, Paulo Futre, Pedro Caldeira, Dona Branca. A década do Frágil e do incêndio do Chiado. A década das Amoreiras (que nasceram) e do Monumental (que morreu).

Também a década do Pão com Manteiga e do Independente. A década do Kilas e do Serafim Saudade. A década das rádios-pirata e do Bloco Central. A década da Vila Faia e dos Heróis do Mar. A década da televisão a cores e da banca privada. A década dos aquaparques e do bebé-proveta. A década de muitas e variadas e por vezes desvairadas siglas: AD, UHF, PRP, TSF, FMI, CEE.

Foi ainda a década da vitória do Sporting por 7-1 em Alvalade, frente ao Benfica – a diferença mais desnivelada de sempre entre os dois históricos rivais do futebol português.

Uma década inesquecível, aqui revivida por Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes. Para alguns de nós parece ter sido ontem, para outros terá sido há uma eternidade. O livro, confesso, deixou-me nostálgico: nada a objectar, tudo a favor.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 08.12.16

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Livro oito: O Segredo dos Seus Olhos, de Eduardo Sacheri

Tradução de Vasco Gato

Edição Alfaguara, 2016

309 páginas

 

Já conhecíamos a  belíssima longa-metragem de Juan José Campanella – galardoada com o Óscar de 2009 para melhor filme não falado em inglês. Faltava a obra literária que serviu de ponto de partida para a película: O Segredo dos Seus Olhos, belo romance de Eduardo Sacheri, um professor de História nascido em 1967 na capital argentina, autor de seis livros de ficção.

É um misto de thriller com melodrama, tendo em fundo um fio de intriga política, percorrido por alusões à implacável ditadura militar argentina das décadas de 70 e 80. Anos de chumbo, em que o valor da vida humana caiu a pique e o futuro permanecia envolto em nevoeiro.

Um crime horroroso cometido em Buenos Aires vai marcar algumas vidas para sempre. Incluindo a de Benjamín Chaparro, vice-secretário num tribunal de instrução e fracassado aspirante a escritor. No decurso de longas horas de vigília, ele acaba por solucionar esse crime que permaneceu demasiados anos enterrado sem estar encerrado. Um crime que funciona como sugestiva alegoria de uma sociedade irremediavelmente doente – sob o signo do silêncio, do sofrimento e da solidão.

Chaparro, como tantos outros, voga desamparado na espuma de um quotidiano sem esperança: num mundo concentracionário, corrompido pelo vírus totalitário, o mínimo descuido pode traçar a fronteira entre a vida e a morte. E no entanto este modesto funcionário público insiste em ir ao encontro da justiça e da verdade, mesmo que isso faça estilhaçar os últimos vestígios que nele subsistem de crença na natureza humana.

“Não vemos a dor. Não podemos vê-la, simplesmente porque a dor não se vê em circunstância alguma. Podem ser vistos, quando muito, alguns dos seus mínimos sinais exteriores. Mas esses sinais sempre me pareceram mais máscaras que sintomas. Como poderá expressar o homem a angústia atroz da sua alma? Chorando a jorros e soltando alaridos? Balbuciando umas palavras desconexas? Gemendo? Vertendo umas quantas lágrimas? Eu sentia que todas essas demonstrações possíveis de dor eram apenas capazes de insultar essa dor, menosprezá-la, profaná-la, colocá-la à altura de demonstrações gratuitas.”

Palavras que ficam connosco muito depois de as lermos. Dificilmente haverá maior elogio a um livro, seja ele qual for.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 07.12.16

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Livro sete: O Homem Fatal, de Nelson Rodrigues

Edição Tinta da China, 2016

368 páginas

 

Foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa do século XX. E um dos mais insuportáveis cronistas da imprensa brasileira para os seus alvos de estimação, que dardejava com impiedoso sarcasmo e um perfeito domínio estilístico.

Um desses alvos era D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. “D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”, dizia dele Nelson Rodrigues (1912-80), pré-moderno assumido, alérgico aos “padres de passeata” e à esquerda em geral. “O Reacionário”, assim se autodefinia – de tal maneira que deu este nome a um dos seus volumes de crónicas, surgido em 1977.

Desse e de outros dois – O Óbvio Ululante (1968) e A Cabra Vadia (1970) – Pedro Mexia recolheu 80 crónicas, a que introduziu prefácio e reuniu num livro intitulado O Homem Fatal. Um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal: era chocante a ausência no mercado nacional das obras deste dramaturgo, romancista e jornalista que mantém uma legião de leitores fiéis em ambas as margens do Atlântico.

Oriundo de uma família de repórteres tarimbeiros, que gostava de equiparar aos “remadores de Ben-Hur”, Nelson Rodrigues começou a trabalhar em jornais com apenas 13 anos. Fez o tirocínio da profissão como redactor desportivo e criminal: cultivava hipérboles e costumava dizer que manchete sem ponto de exclamação era “jornalismo castrado”.

Publicadas durante anos na última página do diário O Globo, as suas confissões bastavam para assegurar a popularidade do periódico, polarizando opiniões: ou se amava ou se detestava este admirador de Eça de Queirós que enriqueceu o léxico comum do Brasil com expressões da sua autoria. Exemplos: “óbvio ululante”, “cabra vadia", “calor de derreter catedrais”, “mau tempo de quinto ato do Rigoletto”. Sem esquecer a "grã-fina com narinas de cadáver”, que no estádio do Maracanã perguntava: "Quem é a bola?"

Poucos como ele cultivavam com tanto requinte a arte do aforismo, que ia repetindo de crónica em crónica sem recear vencer o leitor pelo cansaço. Alguns ascenderam à glória do provérbio: “Toda a unanimidade é burra”; “todo canalha é magro”; “invejo a burrice porque é eterna”; “a televisão matou a janela”; “o dinheiro compra tudo – até amor verdadeiro”, “a companhia de um paulista é a pior forma de solidão”.

Frase imortais deste pernambucano de nascimento mas carioca adoptivo, um sedentário que só viajava nas letras, anacronismo vivo que supera incólume todos os testes do tempo.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 06.12.16

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Livro seis: Cartas por um Sonho, de Ángeles Doñate

Tradução de São Amaral

Edição Suma de Letras, 2016

372 páginas

 

A morte do romance, tal como prenunciaram os cultores do nouveau roman no seu labiríntico processo de “desconstrução da narrativa ficcional”, era manifestamente exagerada. Meio século depois, o romance como género literário está bem e recomenda-se – e contagia até outros formatos, incluindo as séries televisivas de qualidade, onde as regras da narrativa clássica são assumidas sem sombra de constrangimento.

As modas literárias nascem e morrem, mas não se apaga na espécie humana o gosto de contar uma história – tenha os saltos cronológicos que tiver, recorra a sofisticados jogos metafóricos ou a vocabulário da rua, utilize a primeira pessoa do singular ou o plural majestático, seja narrada de trás para diante ou da frente para trás.

Prender a atenção de um vasto número de leitores com uma narrativa de alcance universal é um dom revelado pela escritora catalã Ángeles Doñate neste seu romance de estreia a solo, surgido originalmente em 2015, sob o título El invierno que tomamos cartas en el asunto. Cultora da ficção epistolar, de que dá tão recomendáveis provas nesta obra, a autora constrói um enredo para todas as idades, capaz de dar um bom filme em qualquer idioma.

Eis o ponto de partida: para que serve um carteiro num mundo onde já ninguém redige cartas à moda antiga e a tecnologia digital condenou à extinção o gosto pela escrita manual? Sara, a carteira de uma aldeia de montanha chamada Porvenir, prepara-se para ser transferida da povoação: o posto do correio inaugurado há mais de um século será extinto por falta de utentes. Nasce aí um surpreendente movimento de solidariedade, que mobilizará as pessoas mais diversas – e, sem nenhuma delas suspeitar, várias vidas mudarão dessa forma. Porque “quando alguém escreve uma carta, entrega parte do seu tempo e da sua alma”.

Êxito editorial em Espanha, já traduzida para vários países, esta obra confirma que o romance atravessa um período de inegável fulgor, contrariando as velhas previsões dos seus supostos coveiros. Assim continuará. Como se o tempo ficasse suspenso e todos os sonhos se tornassem possíveis face ao sortilégio da letra impressa.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 05.12.16

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Livro cinco: A Vida e a Morte dos Nossos Bancos, de Helena Garrido

Edição Contraponto, 2016

215 páginas

 

Este livro cumpre uma missão de serviço público. Num tom sereno e reflectido mas sempre acutilante, a jornalista Helena Garrido descreve a sucessão de lamentáveis episódios que fizeram tremer o sistema financeiro português, levando à queda do BPN, do BPP, do BES e do Banif, à descapitalização da Caixa Geral de Depósitos e ao esforço acrescido dos contribuintes, através dos impostos, para evitar que o rombo fosse ainda maior. “As responsabilidades financeiras assumidas pelo Estado nos três casos de morte bancária somam 14 mil milhões de euros, quase tanto quanto o Estado recebeu em IVA no ano de 2015”, observa a autora.

Por incompetência, incúria, negligência ou dolo, a banca nacional caucionou durante duas décadas os negócios mais ruinosos – na construção civil, na promoção imobiliária, em empréstimos milionários para aquisição de terrenos, em insustentáveis parcerias público-privadas, nos “grandes projectos estratégicos” que por vezes nem chegaram a sair do papel mas contavam com generosos financiamentos, afinal a fundo perdido. E a banca, por sua vez, alimentava-se de uma ilusória espiral de crédito que durou até o Banco Central Europeu fechar a torneira.

Foram os anos da “grande farra”, como os classifica a autora, ex-directora do Negócios e comentadora assídua de temas económicos em jornais e canais televisivos. Os banqueiros traíram a confiança dos depositantes para praticarem actos inversos ao que deu fama ao Rei Midas, fazendo volatilizar o dinheiro. Em sete anos, desapareceu 20% do sistema bancário português. Só um gestor, José Oliveira e Costa, esteve algum tempo preso. Mais ninguém.

Os exemplos multiplicam-se. Eis um dos mais chocantes: o BES emprestou três mil milhões de euros à sua filial angolana, o BESA, mas quase toda a carteira de crédito sumiu-se: “está perdida, alguém ficou o com o dinheiro, não há a quem reclamar.” No auge da euforia dos projectos turísticos, o próprio Estado, através da Estamo, “comprou a prisão de Pinheiro da Cruz para fazer ali um empreendimento com campo de golfe” que nunca avançou.

A Vida e a Morte dos Nossos Bancos lê-se de um fôlego e com crescente indignação perante este ruinoso panorama, que beneficiou de estreitas cumplicidades do poder político e da chocante complacência do Banco de Portugal, que sob diferentes administrações agiu sempre tarde e quase sempre mal. E nós a pagarmos tudo.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 04.12.16

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Livro quatro: Cinco Homens que Abalaram a Europa, de Jaime Nogueira Pinto

Edição A Esfera dos Livros, 2016

588 páginas

 

Parecem já distantes os tempos em que os historiadores desvalorizavam a importância do rasgo individual no estudo da trajectória humana. Eram os tempos da história “estrutural”, cheia de gráficos e dados estatísticos. Tempos em que o colectivo se sobrepunha a tudo o resto e as biografias pareciam ter passado de moda.

Nada mais ilusório. Uma grande parte dos acontecimentos históricos é inexplicável sem o estudo atento e pormenorizado dos seus protagonistas. Analisar as estruturas económicas e demográficas de países e regiões, despojando-as dos efeitos potenciadores dos “homens providenciais”, na sua lucidez e na sua loucura, é pura inanidade intelectual.

Nos anos mais recentes, as biografias regressaram em força aos escaparates das livrarias e hoje incluem-se entre as obras com maior procura. Sem surpresa, a importância do factor individual no curso da história humana tem sido reavaliada, como se justifica.

Politólogo com obra multifacetada (incluindo uma bem sucedida incursão no romance, com Novembro, surgido em 2012), Jaime Nogueira Pinto vem deixando as suas reflexões impressas em livros como Ideologia e Razão de Estado – Uma História do Poder (2013) e O Islão e o Ocidente – A Grande Discórdia (2015). Trabalho de grande fôlego é também este recém-surgido Cinco Homens que Abalaram a Europa – centrado nas biografias cruzadas de Estaline, Mussolini, Hitler, Franco e Salazar. Políticos com cartilhas ideológicas diversas mas evidentes traços comuns, a começar por um elo geracional: nascidos com apenas 14 anos de diferença, entre 1878 e 1892, eram antidemocratas e antiliberais, aspirantes a “pai dos povos” mas com infâncias ligadas sobretudo à figura maternal. Cada qual a seu modo marcou o século XX – a era das autocracias, em que os genocídios se sucederam e a palavra totalitarismo foi inscrita nos dicionários.

Alguns imaginam ter sido há muito tempo, mas foi há poucos dias numa perspectiva histórica. Vale a pena estudar estes percursos: nada como a observação do passado para nos advertir contra riscos futuros já vislumbrados no presente.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 03.12.16

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Livro três: Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes

Edição Companhia das Letras, 2016

127 páginas

 

É uma obra ímpar na dramaturgia brasileira, marco singular na produção literária de Vinicius de Moraes (1913-80), um dos mais notáveis autores líricos da língua portuguesa do século XX. Nasceu numa espécie de transe, durante uma longa madrugada de 1942, em Niterói, depois de Vinicius ter lido uma obra da mitologia grega que destacava Orfeu, poeta e músico da Trácia que desce aos infernos em busca de Eurídice, a sua amante morta.

Nessa madrugada de escrita frenética, o futuro autor de Garota de Ipanema concebeu um drama poético transposto da Grécia antiga para o Carnaval do Rio de Janeiro. Ao retomar o texto, seis anos depois, deu outro passo em frente, imaginando um espectáculo em que todos os actores fossem negros – algo inédito no seu país.

Em Setembro de 1956 Orfeu da Conceição – peça em três actos – estreava no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, batendo recordes de biheteira. Oscar Niemeyer concebeu os cenários e Antonio Carlos Jobim encarregou-se da partitura musical. Com temas como Um Nome de Mulher e Se Todos Fossem Iguais a Você.

O sucesso da peça daria origem ao filme, realizado no Rio pelo cineasta francês Marcel Camus – também com as colaborações de Vinicius e Jobim em novos temas musicais, como A Felicidade e O Nosso Amor. Luiz Bonfá compôs Manhã de Carnaval – tema que daria a volta ao mundo.

Rodado por inteiro em exteriores, o filme – intitulado Orfeu Negro – estreou em 1959, ano em que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Em 1960 seria galardoado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro – primeira estatueta atribuída a uma película falada em português.

Orfeu da Conceição só em 1967 teve edição em livro. E demorou quase meio século a chegar ao mercado editorial português – lacuna que a Companhia das Letras colmata enfim nesta edição que honra o belo texto de Vinicius sobre uma paixão intemporal e desmedida: “Deve andar perto uma mulher que é feita / De música, luar e sentimento / E que a vida não quer, de tão perfeita. / Uma mulher que é como a própria Lua: / Tão linda que só espalha sofrimento / Tão cheia de pudor que vive nua.”

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 02.12.16

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Livro dois: O Novo Czar - A Ascensão e o Reinado de Vladimir Putin

De Steven Lee Myers

Tradução de Lumir Nahodil

Edição Edições 70, 2016

670 páginas

 

A capa, propositadamente cáustica, equivale a uma sentença política condenatória. Vladimir Putin é representado numa espécie de imitação de Francis Underwood, o fictício Presidente norte-americano da celebrada série televisiva House of Cards, político que leva ao limite a máxima de ouro maquiavélica: os fins justificam os meios, sem intromissão das regras morais.

Ex-correspondente do New York Times em Moscovo, onde viveu sete anos, Steven Lee Myers é um profundo conhecedor do quotidiano russo e privou suficientes vezes com Putin para poder traçar-lhe um retrato minucioso, desde os tempos em que o “novo czar” se ofereceu como voluntário para integrar os quadros do KGB nos anos de chumbo do totalitarismo.

Era o início de uma longa caminhada que viria a culminar na ascensão ao posto cimeiro da Praça Vermelha do ex-agente secreto que qualificou o desmembramento da União Soviética como “a maior tragédia do século XX” e procura reeditar o histórico expansionismo russo na Geórgia, na Ucrânia e nos Estados bálticos. Como ficou bem evidente em 2014, quando anexou a Crimeia em flagrante violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional.

Incontáveis editoriais se escreveram sobre ele na imprensa internacional. O Presidente russo soube rodear-se de uma fidelíssima corte de serventuários, domina com mestria a retórica patrioteira e demais mecanismos da propaganda, e não hesita em vergar todos quantos ousam enfrentá-lo, submetendo os mecanismos formais da democracia ao mando autocrático. Mas, antes deste livro, havia ainda muitas zonas mal iluminadas no seu percurso.

“Esta é a obra mais completa sobre Putin até hoje publicada em Portugal”, declarou há dias em Lisboa outro jornalista que bem conhece a Rússia, José Milhazes, na sessão de apresentação da biografia agora lançada no nosso idioma. Dificilmente O Novo Czar encontraria melhor carta de recomendação.

Dez livros para comprar no Natal

por Pedro Correia, em 01.12.16

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Livro um: Quando a TV Parava o País, de João Gobern

Edição Matéria-Prima, 2016

228 páginas

 

A nostalgia salutar nunca deve confundir-se com saudosismo. Praticá-la é um estimulante exercício da nossa memória mais ligada aos afectos, não podendo confundir-se com a mórbida tentativa de aprisionar o passado no presente, ignorando o curso do tempo.

João Gobern propõe-nos neste livro uma refrescante digressão pelas suas memórias televisivas – que é afinal uma forma de prestar tributo aos primeiros 35 anos de existência da RTP. De 1957, ano da fundação da televisão em Portugal, a 1992, quando surgiu o primeiro canal privado e o serviço público foi ganhando contornos cada vez mais imprecisos.

Jornalista experiente e observador arguto, Gobern não esconde uma predilecção pela RTP, onde mantém presença regular como colaborador. E exprime sérias reservas quanto ao rumo que a televisão tem tomado nas duas últimas décadas entre nós.

“Todos estamos gratos pelo que chegou de bom. Mas não sigamos a avestruz: nunca a TV – mesmo no tempo da Censura, que marcou presença nos seus primeiros 17 anos – foi tão boçal, tão dogmática, tão oportunista, tão selvagem, tão consumista, tão invasora, tão medíocre, tão desleal, como de 1992 para cá”, escreve o autor num contundente posfácio a Quando a TV Parava o País.

A tese é polémica – e, até por isso, justifica reflexão. Mas o fascínio desta obra é proporcionar-nos uma visita guiada à televisão dos tempos pioneiros – e, com ela, esboçar-nos também um retrato impressivo do País. Com as suas luzes, as suas sombras, os seus equívocos, os seus acertos, as suas fugazes vedetas, as suas duradouras celebridades.

É sobretudo um relato geracional – a da geração do autor, que é também a minha, primeira que cresceu em Portugal com um televisor instalado num espaço nobre lá de casa. Tempo do preto e branco, que só em 1980 cedeu lugar à cor. Tempo em que um festival de música ou um episódio de telenovela eram vistos ao mesmo tempo por toda a gente, pondo o País a mirar aquela caixa que mudou o mundo. Nostalgia mais saudável não há.

A luz ao fundo do túnel

por Pedro Correia, em 30.12.15

Portugueses gastaram mais 289 milhões de euros em compras de Natal


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