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A actualizar a agenda

por Rui Rocha, em 09.07.14

Então a que horas começa o segundo set do Alemanha - Brasil?

O princípio de Peter.

por Luís Menezes Leitão, em 09.07.14

 

Há um princípio que tem vindo a ser defendido na ciência da administração, denominado o princípio de Peter, que procura explicar porque é que as coisas correm sempre mal. Segundo o mesmo, nas organizações as pessoas vão sendo sempre promovidas até atingirem uma função para a qual são absolutamente incompetentes. A partir daí deixam de ser promovidas, pelo que normalmente passarão a vida toda nessa função, que não são manifestamente capazes de desempenhar. A menos que aconteça um descalabro que demonstre essa absoluta incompetência, caso em que terão de ser demitidas.

 

O princípio de Peter explica o que se passou ontem com a selecção do Brasil. Desde o jogo inaugural com a Croácia que se percebia que a equipa do Brasil era fraquíssima, e nem o talento de Neymar permitia elidir essa conclusão óbvia. No entanto, era manifesto que o Brasil estava a ser levado ao colo pelos árbitros, como demonstrou no jogo inaugural o árbitro japonês que inventou um penalty absolutamente inexistente, levando a que os próprios brasileiros, com o humor que os caracteriza, o tivessem qualificado como o melhor jogador do Brasil em campo. E a verdade é que depois do jogo inaugural, a selecção brasileira não conseguiu convencer em jogo nenhum, ainda que tenha sempre passado à fase seguinte. Por isso, a qualquer altura poderia chegar a hora da verdade, como ocorreu ontem, com a selecção brasileira a ser absolutamente triturada pela Alemanha, sem conseguir esboçar uma única reacção que se visse. Se o Brasil não tivesse chegado tão longe, nunca teria tido um resultado tão humilhante.

 

O que é curioso é que no Brasil os resultados do futebol costumam contar para a avaliação do mandato presidencial. Dilma Rousseff anunciou há quatro dias a sua recandidatura ao mandato presidencial, mesmo no fim do prazo. Pois eu acho que ontem ela acabou de perder as eleições.

Grandes capas

por Pedro Correia, em 09.07.14

A Bola

 

Lance

 

Meia Hora

Mundial no sofá (13)

por João André, em 09.07.14

 

Alemanha 7 - 1 Brasil

 

Escrever o resultado acima é um exercício estranho, algo surreal. É o tipo de resultado que imaginaríamos Dali a colocar num hipotético quadro com futebol em pano de fundo, num hipotético filme sobre futebol de Buñuel ou num hipotético poema de Llorca.

 

Analisar o jogo é difícil, uma vez que vimos uma tempestade perfeita. Os alemães foram perfeitos técnica e tacticamente, foram impiedosos e brutais. Os brasileiros foram um desastre nos mesmos aspectos e poderiam ter saído com mais, muitos mais, golos sofridos (e mais umas expulsões ainda cedo na primeira parte).

 

O primeiro aspecto, o táctico, e onde eu creio que o Brasil perdeu o jogo. A Alemanha, como escrevi várias vezes, jogou sem ala esquerda. Por outro lado tinha uma ala direita que assustava: não só Lahm andava por esses lados como também era o território de Müller e tinham o apoio frequente de Khedira. Misteriosamente, em vez de dar ordens à sua equipa que canalizasse o ataque pelo lado direito, Scolari parece ter decidido o oposto: deu ordens a Marcelo que avançasse sem medo.

 

No papel a ideia não era disparatada. Atacando e pressionando o lado direito alemão seria uma forma de o manter sossegado e as subidas de Marcelo podiam então compensadas por Luís Gustavo. Na realidade foi um desastre de proporções inacreditáveis. Lahm aguentou firme, recebeu apoio de Khedira e Müller e, com Luís Gustavo deslocado para a esquerda, Schweinsteiger e Kroos ficaram à vontade tendo pela frente apenas Fernandinho. O resto foi diversão, com os comentários no Facebook ao intervalo a serem suficientes para uma antologia.

 

Três notas extra apenas:

 

1. Thiago Silva demonstrou com a sua ausência que não é o defesa mais espectacular que é importante. É o outro, o mais calmo, concentrado e inteligente. A parceria Puyol/Piqué já o tinha demonstrado vezes sem conta. Para quem precise de mais material basta ver jogos italianos entre 1985 e 2000, especialmente com Baresi, Nesta, Costacurta, Maldini ou Cannavaro. Está lá tudo.

 

2. A ausência de Neymar não fez muita diferença. Já não tinha feito muito nos últimos jogos e não faria muito neste. O resultado, com ele e Thiago Silva, não seria tão desnivelado, certamente (o mesmo jogo amanhã não seria tão desnivelado), mas não mudaria muito. Já as constantes referências a ele apenas relembraram a equipa que estava sem o talismã. Aqui Scolari terá ido longe demais com o jogo psicológico.

 

3. Kroos ainda não renovou pelo Bayern de Munique. Quer 12 milhões por ano, o mesmo que recebem Lahm e Müller. O Bayern oferece 7. Pelo que temos visto neste mundial, se ele sair do clube, aquele que lhe pagar 12 provavelmente ficará convencido que ficou com a pechincha do século.

De volta ao garimpo

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.07.14

(Reuters)

 

Depois de ter sido elevado aos píncaros da auto-estima nacional, entre santinhos e bandeirinhas, rumou a Inglaterra, de onde foi liminarmente despachado para uns meses nas Arábias. Acabou por cometer a proeza de entrar no Guiness encaixando 7 (sete) no Mineirão. Pode ser que agora os detractores de Paulo Bento percebam com quem este aprendeu a construir equipas para jogarem futebol de praia em campos relvados. A sorte não é eterna. Os barbeiros são.   

A ver o Mundial

por Pedro Correia, em 09.07.14

Aqui.

Mas, entretanto, a Alemanha marcou o sétimo.

E tu...

por Rui Rocha, em 08.07.14

também já marcaste um golo ao Brasil?

Mundial no sofá (12)

por João André, em 08.07.14

E temos enfim as meias-finais, das mais interessantes de sempre mas também a prometer jogos bastante insípidos.

 

Brasil - Alemanha

 

Neste jogo temos uma equipa que baseia o seu jogo na técnica e forte colectivamente a enfrentar uma outra que aposta na força e intensidade, dependendo fortemente das bolas paradas para marcar golos. Deixo-vos adivinhar qual é qual. Seja como for, espero bem poder ver um Brasil onde Willian e Bernard entram para substituir Neymar e Fred, com Óscar no meio e Hulk a avançar para o lugar de ponta de lança. Sem o seu principal mágico, espero que Scolari aposte em mágicos menores, mas em maior número. O mais provável, no entanto, é ver Luís Gustavo a entrar para o lugar de Neymar e ver Hulk e Fred na frente. Se optar por esta hipótese, vou passar o tempo a rezar por uma cabazada da Alemanha ao Brasil.

 

Isto apesar de a Alemanha me deixar incrivelmente frustrado. A teimosia de Löw em jogar com Özil do lado esquerdo faz com que a Alemanha jogue coxa, sem ala esquerda. Mesmo que Lahm se mantenha a defesa direito fica por saber quem joga no ataque, Klose, Götze ou Schürrle. O vosso palpite é tão bom como o meu. Se optar por Klose mais vale que Scolari faça entrar Daniel Alves, uma vez que não vai precisar de um defesa direito que defenda bem.

 

Em condições normais isto daria vitória à Alemanha (é mais equipa), mas Löw pode muito bem borrar a pintura e nunca se sabe o que pode surgir numa bola parada do Brasil. Além disso, se o árbitro continuar a protecção ao jogo faltoso brasileiro, dificilmente a Alemanha criará alguma coisa.

 

Holanda - Argentina

 

Estive tentado a escrever acima "Robben - Messi". Duas equipas apenas razoáveis chegam às meias finais às costas dos seus melhores jogadores. Tudo vai depender do grau de sucesso na neutralização do principal jogador adversário. Aqui penso que a Argentina levará a melhor. Está a crescer, tem um jogador genericamente melhor e tem um elenco secundário mais eficaz, especialmente a defender. Muito irá depender da capacidade de Mascherano em fechar as linhas de passe para Robben. Atendendo ao torneio medíocre de Sneijder, isso bastaria para anular os holandeses.

 

Já a Holanda, sem de Jong no meio campo, terá dificuldade em ocupar o espaço de Messi. Possivelmente colocará lá Blind (talvez com Martins Indi ou Kuit no lado esquerdo da defesa) mas é duvidoso que baste. Se Higuaín repetir a exibição de contra a Bélgica, a defesa holandesa poderá atingir os seus limites.

Incentivos ao visionamento do Mundial, #3

por Ana Cláudia Vicente, em 06.07.14

Os incentivos ao visionamento dessa telebolonovela a que os brasileiros chamam copa minguam com o passar dos dias, mas não desaparecem. Olhemos as áreas defensivas, sempre mais poupadas a grandes planos e replays - excepção feita a falhas clamorosas. Aí podemos encontrar Marcelo, carioca de um só nome mas muitos e belos caracóis. Eis, pois, o homem que lamentará ter inaugurado a contagem do Mundial 2014:

[Marcelo (Vieira da Silva, Jr.) a solo, quem sabe se acometido de uma premonição sobre o Brasil-Croácia.]

 

[Marcelo feat. David Luiz (amizade às vezes também é colo, ora essa), outro grande caracoludo.]

Os caceteiros

por Rui Rocha, em 06.07.14

Lata. É preciso lata para pedir a punição de Zuñiga pela lesão de Neymar. Não que a entrada não fosse dura. Que não merecesse punição disciplinar. Mas que dizer então das sucessivas entradas de David Luís. E do verdadeiro show de porrada de Fernandinho sobre James Rodriguez sem que o cartão amarelo tivesse saltado do bolso do árbitro. Sejamos francos. Os jogadores brasileiros podiam ter incendiado uma aldeia que o juiz espanhol continuaria impávido e sereno. Castigar Zuñiga esquecendo tudo o mais que se passou em campo constituiria agora uma espantosa inversão da realidade, num Mundial em que tudo parece devidamente alinhado para que a canarinha chegue à final.

David Luís chama a atenção de Fernandinho: James ainda está vivo

Minimal

por José Navarro de Andrade, em 06.07.14
Claro que tendemos a evocar a classe do artístico quando no futebol a destreza se compara à de um bailarino ou de um funâmbulo, quando a habilidade é complexa e tremendista. Mas num Mundial que nos tem oferecido uma compilação das melhores defesas ao alcance da elasticidade e dos reflexos humanos, graças ao supino e inspirado lote de guarda-redes que o acaso das gerações juntou, talvez o suprassumo, o verdadeiramente difícil, seja – tal como nas artes – o contrário do virtuosismo.

Um braço como uma viga, apenas um braço, erguido no instante preciso, medido ao centésimo de segundo, um braço a prolongar um corpo que toda uma vida ensinou a posicionar no ângulo certo, foi o suficiente para Manuel Neuer deflectir um torpedo de Benzema. Se fosse pintura seria um desenho de Agnes Martin, se fosse música seria uma peça de Philip Glass, mas foi apenas a melhor defesa deste Mundial – e não faltaria por onde escolher.

Mundial no sofá (11)

por João André, em 06.07.14

 

Brasil 2 - 1 Colômbia

 

Lamento imenso a lesão de Neymar: porque é relativamente grave, porque nos priva de um dos melhores (e mais excitantes) jogadores do mundo e porque desvia a atenção do resto do jogo. A falta foi dura e faltou o amarelo para Zuñiga, sem qualquer dúvida. Também não foi pior (se bem que sem dúvida mais azarada) que muitas que sofreu James Rodriguez. Fernandinho, especialmente, descobriu a forma para fazer faltas repetidamente sem ver o amarelo. Poderia ter visto uns 3. Dois por fazer faltas repetidamente e outro por uma falta duríssima sobre James Rodriguez que só por sorte não o deixou a ele lesionado. Thiago Silva foi outro a quem foi poupada uma expulsão, dado que fez uma falta que tinha que dar amarelo ainda antes daquela asneirada com Ospina.

 

E repetiu-se o que eu tinha esperado. A táctica de Scolari do ponto de vista defensivo foi fazer faltas sobre Rodriguez e vigiar Cuadrado de perto. Este, sem o serviço de Rodriguez, torna-se muito menos influente. Espantou-me que Pekerman tivesse esperado tanto tempo para fazer entrar Quintero quando este poderia ter libertado Rodriguez de tanta atenção brasileira (ou beneficiado dela). Foi pena isto, porque pela primeira vez neste mundial Scolari decidiu atacar. E fê-lo pelo caminho mais simples: deixou de enfiar Óscar no flanco e este passou a exercer muito mais influência no jogo. A entrada de Maicon também foi decisiva para isto (Óscar deixou de ter de passar o tempo a servir de pronto-socorro a Daniel Alves), além disso ofereceu um duelo fabuloso: Maicon-Armero.

 

No geral o Brasil conseguiu ser melhor, embora com enorme ajuda da arbitragem (como tem sido norma neste mundial). Sem Neymar, fica por saber se Scolari regressa ao que conhece (porrada neles) ou opta por arriscar, deixando Fred no banco e fazendo entrar Bernard e Willian, deixando Hulk como ponta de lança móvel. Gostaria imenso de ver esta alternativa, mas bem posso esperar sentado - no sofá.

 

 

 

Alemanha 1 - 0 França

 

Löw surpreendeu-me. Não esperava que decidisse colocar Lahm à direita e fizesse entrar Khedira. Fazendo-o ajudou a neutralizar o meio campo francês e reduziu as possibilidades de ataque pela esquerda francesa. Com a entrada de Griezmann Deschamps fez um favor aos alemães. Griezmann foi constantemente batido em força e experiência pelos alemães e Valbuena ficou dividido entre andar pela esquerda para o ajudar ou ir para a direita para dar equilíbrio à equipa. Não optar por Sissoko, especialmente ao longo do jogo, tornou-se ainda mais estranho considerando que a Alemanha mantinha apenas Özil e Höwedes no lado esquerdo. Esta opção era também estranha uma vez que Klose alinhava a ponta de lança e precisa de serviço, especialmente a partir das alas, para ser efectivo.

 

O resultado foi um jogo pouco interessante. A Alemanha era forte no flanco onde a França era fraca. A França não aproveitava o flanco onde a Alemanha poderia ser atacada. Sempre que Valbuena descaía para a direita, o resultado é que a França ficava sem elemento de ligação entre meio campo e ataque. Na batalha do meio campo, a qualidade e versatilidade do trio de Kroos, Khedira e Schweinsteiger acabava por fazer a diferença perante Cabaye, Pogba e Matuidi.

 

No fim, um simples golo de bola parada bastou para fazer a diferença. Depois disso houve simples equilíbrio. Um jogo aborrecido e uma vitória merecida da Alemanha que marca assim encontro com o Brasil.

 

 

Holanda 0 - 0 Costa Rica

 

O jogo mais desequilibrado dos quartos de final acabou por ser o único que foi a penalties. A Holanda avançou para um sistema de 4-3-3, sabendo que a Costa Rica apresentava pouco perigo no meio campo e canalizava o seu jogo pelos flancos através dos laterais ofensivos Gamboa e Díaz. Optando por alas clássicos, van Gaal obrigou-os a ficarem em posições mais defensivas e reduzia a ameaça ofensiva costa-riquenha. A única solução passava por bolas longas para Joel Campbell e Bryan Ruiz, as quais eram facilmente defendidas pelos centrais holandeses.

 

No ataque, os holandeses foram aproveitando a defesa alta costa-riquenha e colocando imensas bolas nas costas para Depay e van Persie. Na segunda parte a defesa costa-riquenha acertou com o timing de subida e usou melhor a armadilha do fora de jogo. Não fossem no entanto os muitos falhanços de van Persie e a exibição de Navas e o jogo teria acabado por volta dos 65 minutos da segunda parte.

 

Os costa-riquenhos, no entanto, souberam manter a calma, defender heroicamente a acabaram por merecer a ida aos penalties. Aqui eu esperava que a confiança costa-riquenha levasse a melhr perante a frustração holandesa, mas uma combinação de excelentes penalties e do trabalho de Tim Krul deu a passagem aos holandeses. Vale a pena realçar a decisão de van Gaal em colocar Krul para os penalties. Krul é um especialista e a decisão deu também confiança aos marcadores holandeses. Funcionou e van Gaal cimentou ainda mais a sua aura de melhor treinador e táctico deste mundial.

 

 

Argentina 1 - 0 Bélgica

 

Tive pena pelos belgas, mas não segui decentemente o jogo, por isso não o comentarei. Fora isso, estou curioso por ver o jogo com a Argentina.

Chega de manobras de diversão

por Rui Rocha, em 04.07.14

Crise. Crise no país. Insustentabilidade da dívida. Querelas constitucionais. Portas que abandona. Ou não. O BES que implode. O PS que se desagrega. E um par de botas. Pois já basta. Podem utilizar todos os subterfúgios e cortinas de fumo de que se lembrarem. Mas nada, nada, nadinha, será suficiente para nos desviar a atenção do essencial. Hoje jogam-se os quartos-de-final do Mundial e Portugal não está lá. Querem-nos entretidos com questões laterais mas só se cobrem de ridículo. Cambada.

Lírica lupina

por José Navarro de Andrade, em 03.07.14

Nestes dois dias de descanso que o Senhor nos concedeu (O Senhor é Joseph Blatter dono omnipotente, omnipresente e unitário do futebol e das cuecas que nele se vislumbrem) o debate que claramente consternou a nação foi o de saber como sucedeu que Freitas Lobo se tenha tornado o Gabriel Alves do nossos tempos e simultaneamente o Herberto Helder da bola.

A analogia entre Lobo e Helder verdade que é mecanicista e decorre de circunstâncias meramente performativas, mas em ambos os casos existe uma veemente correlação entre os Pés e o Verbo. Quanto a Helder verificou-se que disfrutar as últimas emanações poéticas do bardo dependeu em exclusivo da velocidade dos pés que correram em cata do livro, escassa e efemeramente disponível sem outro critério que não este da ligeireza e da robustez andarilha – qual amor à poética, qual hermenêutica, os calcantes é que valeram aos eleitos. Quanto a Freitas Lobo, venha alguém desmentir que se não fossem os foots que estugam atrás da ball nunca poderíamos nós, os gentios, receber o banho lustral do seu palavreado.

Mas a inequívoca novidade deste Mundial de 2014 é a usurpação do trono há bem mais de uma década vacante de Gabriel Alves pelo jactos locutórios (termo desde há dias acessível a qualquer aluno do secundário) de Freitas Lobo – autênticos futebolemas no saudoso dizer de Rui Romano, o primeiro mestre a mesclar bola com Barthes.

Algo se terá passado na fisiologia cerebral de Lobo. Ele era todo hemisfério esquerdo, analítico e determinista no relato dos jogos, mas durante este certame entornou-se radicalmente para o hemisfério direito, lírico e sensitivo.

É verdade que ao seu olhar de condor não há percalço que não seja propositado, acidente que não seja deliberado ou falhanço que não seja estudado; oiçamo-lo desvendar que a patética escorregadela de Thomas Müller era uma jogada de laboratório e que os esgares humilhados do tudesco eram uma encenação. Ainda está para vir a primeira ocorrência que o seu bisturi não disseque racionalmente. Para ele um jogo de futebol é um gigantesco plano, posto em marcha por uma inteligência suprema à qual só Lobo tem acesso; a chave subjaz na cabala numérica que nos recita: o impávido 4,2,3,1, o ousado 4,1,3,2 o aterrador 5,3,1,1 ou o lunar 3,5,2. O resto do relato consiste em explicar aos jogadores o que devem fazer e aos treinadores qual a táctica que devem usar. Na sua voz, porém, pressente-se o frémito de melancolia de quem só é escutado pelos lorpas dos telespectadores.

Sucedeu, no entanto, que inspirado pela magnitude do Mundial, Freitas Lobo quis exibir que nem só de macaquear Valdano vive o seu estro e ei-lo que vaza nas nossas orelhas tal enxurrada de hipérboles, aforismos, metonímias, sinedoques, tropos, um formidável arsenal estilístico que, infelizmente, acaba soterrado pelo uso ilimitado do adjectivo “grande” (mas maiúsculo: “GRANDE jogo”; “GRANDE jogador”; “GRANDE passe”) por vezes substituído pelo ENORME (ibidem). Os arroubos líricos de Freitas Lobo têm vários apogeus mas é fatal que ao ver o breve resumo do jogo, com imagens em câmara lenta e violinos, embarga-se-lhe a voz e, qual adolescente a iniciar-se em Eugénio de Andrade, gagueja como um mantra: “o futebol é lindo”, “o futebol é o jogo mais lindo do mundo”, “que lindo é o futebol”.

Surge todavia um problema. Ciente da sua autoridade Freitas Lobo decidiu privatizar os desafios que comenta e deu-lhe para açoitar os diletantes repetindo de dedo mais em riste que a patorra de alguns defesas a frase: “isto é só para quem ama o futebol”. Ora o futebol em HD e os comentários de Lobo saem-me a € 26,79 por mês, o que para meretriz é barato – será que ele me dá licença para continuar a ver o Mundial ou preciso de tirar certidão?

Mundial no sofá (10)

por João André, em 03.07.14

Antevisão dos quartos de final, parte 1.

 

Alemanha - França

 

Este é o duelo que vai ser mais interessante. É o único entre duas equipas que se preocupam mais com jogar futebol do que em interromper o adversário. Será também o duelo mais imprevisível do ponto de vista táctico. Deschamps tem alternado a composição do meio campo de acordo com o adversário. Contra a Nigéria jogou num híbrido de 4-3-3 e 4-3-1-2 que não resultou até Griezmann entrar. No jogo contra a Alemanha não imagino Griezmann a jogar de início, mas é muito provável que Deschamps aposte em Moussa Sissoko para apoiar o lado direito e permitir as subidas de Débuchy. Do lado esquerdo deverá apostar nas subidas de Matuidi e, talvez, de Evra, que provavelmente não terá alas fixos que o ocupem. Além disso, um meio campo Sissoko, Pogba e Matuidi, apoiados pelos passes e posicionamento mais defensivo de Cabaye, terá enorme flexibilidade táctica.

 

Do lado alemão a grande questão passará pelo nome do jogador para ocupar o lado direito da defesa. Hummels deverá regressar depois da gripe que o impediu de jogar contra a Argélia (outros jogadores estarão neste momento com sintomas) e fica por saber se Löw opta por recolocar Boateng do lado direito ou se prefere fazer entrar Khedira e recolocar Lahm (Boateng deverá sempre jogar, seja onde for). A opção mais provável, assumindo que Hummels está bem, será um regresso ao estilo habitual, com Boateng na direita e Lahm no meio campo. Se assim for, e se Schweinsteiger jogar de início, o meio campo alemão bem se poderá ressentir da falta de força física, sendo que o tipo de arbitragem terá grande influência (será à inglesa ou parará o jogo por tudo e por nada?).

 

Pessoalmente vejo este jogo como acabando com uma vitória francesa que só exibições individuais fantásticas dos alemães poderão evitar. Se assim for, Löw perderá certamente o lugar.

 

Brasil - Colômbia

 

Um jogo para os românticos. O eterno Brasil contra a cinderela deste mundial. O problema é que este Brasil não é nenhum representante do "jogo bonito". O onze inicial brasileiro será desconhecido (entra Paulinho?, Fernandinho?, Ramires?) mas a táctica será óbvia: interromper o jogo com faltas sempre que a bola chegue aos pés de (especialmente) James Rodriguez e Cuadrado. Depois é uma questão de a dar a Neymar e esperar que ele resolva. Uma outra questão táctica será a de saber se Scolari jogará com Neymar na esquerda ou pelo centro. Na esquerda ele daria liberdade a Óscar (que está visivelmente cansado) e poderia controlar melhor as subidas dos laterais (essenciais para dar largura ao jogo de uma Colômbia em 3-5-2). No centro ele segue a táctica habitual de Scolari para o mundial e Óscar, que é melhor a defender, terá como missão ser mais defensivo. Uma alternativa seria a entrada de Willian, que trabalha imenso e está em forma, mas Scolari não gosta muito de se desviar dos planos que tem (eu prefiro dizer que é teimoso).

 

Gostaria de prever uma vitória da Colômbia e espero que assim seja, mas as tácticas de Scolari (que têm tido algum apoio de árbitros um pouco caseiros) e o apoio do público, bem como a presença de Neymar, poderão mudar as coisas.

Tendo em conta o que ouvimos quando entrevistaram a "comunidade portuguesa" espalhada pelos "quatro cantos do mundo", é bem provável que aquela coisa da fuga de cérebros tenha sido algo sobrevalorizada.

Uma definição de futebol

por Rui Rocha, em 01.07.14

Jogam onze contra onze e no fim dizemos frases feitas.

Profetas da nossa terra (43)

por Pedro Correia, em 30.06.14

«Prognóstico: três-um, Portugal ganha [o jogo Portugal-EUA].»

Marcelo Rebelo de Sousa, 22 de Junho de 2014


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