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Grécia antiga (4)

por Pedro Correia, em 18.05.15

«O maior acontecimento político da semana que passou, no sentido da União Europeia, foi a vitória de Tsipras na Grécia, e o fracasso da Senhora Merkel quando quis, em vão, dominar Tsipras. (...) Quer isto dizer que a longa crise europeia está a passar e Portugal, devido ao seu governo e ao seu aliado, o Presidente da República, Cavaco Silva, não passam da cepa torta e estão no fim, como a grande maioria dos portugueses já percebeu e deseja.

Pelo contrário, o líder socialista, António Costa, manifestou-se como amigo de Tsipras. Ou seja, tudo muda na União Europeia para melhor e as políticas de austeridade, queria o governo português ou não, deixaram de ter sentido. A crise da União Europeia está a acabar.»

Mário Soares, no Diário de Notícias (3 de Fevereiro de 2015)

Grécia antiga (2)

por Pedro Correia, em 14.05.15

«Após tantos anos de crise, a Grécia impôs-se e apesar da crise que ainda atravessa o povo grego resolveu relançar-se, ignorando a enorme dívida que ainda tem. A senhora Merkel, que tanto mal fez a toda a Europa, mas que desde as últimas eleições perdeu a maioria que tinha e agora depende dos social-democratas, quis intervir na Grécia mas isso não lhe foi permitido. A Grécia diz pretender pagar as suas dívidas quando puder, mas o importante é desenvolver-se agora, com gente nova.»

Mário Soares, na Visão (22 de Janeiro de 2015)

Frases de 2015 (17)

por Pedro Correia, em 13.05.15

«Sócrates deve ser posto em liberdade quanto antes e com os devidos pedidos de desculpa.»

Mário Soares, ontem, no DN

Quanto vale o apoio de Soares?

por Pedro Correia, em 06.04.15

Dizem-nos que António Sampaio da Nóvoa - um ilustre desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses - beneficia à partida do apoio de Mário Soares como candidato à eleição presidencial.

Mas quanto valerá este apoio? Em 2006, Soares recusou apoiar Manuel Alegre (que foi o segundo mais votado, após Cavaco Silva), concorrendo ele próprio a Belém: ficou-se por uns modestíssimos 14,3%. Em 2011, recusando novamente apoiar Alegre, optou por Fernando Nobre. Que ficou na terceira posição, com 14%.

Vale o que vale, portanto. Muito pouco.

Frases de 2015 (6)

por Pedro Correia, em 25.02.15

«O juiz Carlos Alexandre que se cuide.»

Mário Soares

Cada vez mais ocorre

por Pedro Correia, em 10.02.15

«Será que os procuradores da Justiça e os respectivos juízes têm sensibilidade para conhecer a indignação que cada vez mais ocorre nos portugueses que admiram Sócrates e mesmo naqueles que sem o conhecer só o estimam por saberem que foi um excepcional primeiro-ministro durante seis anos?»

Mário Soares, hoje, no DN

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 03.02.15

«A esmagadora maioria dos portugueses está indignada com a situação infame e intolerável em que se encontra José Sócrates. Nunca tantos portugueses se manifestaram em favor de José Sócrates, estando ao mesmo tempo indignados pelo que lhe aconteceu. Sintomaticamente, o Presidente Cavaco Silva não tem tido a coragem de dizer uma palavra sobre o assunto. É espantoso.

Nesta fase final de um governo incapaz e de um Presidente da República que nunca se dignou dizer uma palavra acerca de um ex-primeiro-ministro, com o qual durante tantos anos dialogou, a indignação e a solidariedade dos portugueses para com Sócrates não podia ser maior. Como se tem visto em inúmeras visitas que, de norte a sul, lhe têm feito, com enorme carinho. Valha-nos isso. E o juiz Carlos Alexandre que se cuide…»

Mário Soares, no Diário de Notícias

Obrigado, Syriza, por trazeres alegria a anciãos

por José António Abreu, em 30.01.15

Depois da tristeza que constituiu a perda da liderança do Bloco, estes são os dias felizes de João Semedo.

Depois da tristeza que constituiu a prisão de Sócrates, estes são os dias felizes de Mário Soares.

Depois da tristeza que constituiu o 'assassinato' dos Kouachi e de Coulibaly por parte da polícia francesa, estes são os dias felizes de Boaventura Sousa Santos.

O novo Moisés, segundo Soares

por Pedro Correia, em 29.01.15

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Como Obama, "um político de uma inteligência e visão extraordinárias", consegue aplacar "a fúria dos oceanos" baixando o preço do petróleo.

Frases de 2015 (1)

por Pedro Correia, em 04.01.15

«Não há justiça em Portugal.»

Mário Soares

O legado de Mário Soares

por Pedro Correia, em 07.12.14

 Mário Soares (com Lopes Cardoso, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, Francisco de Sousa Tavares e outros) na manifestação da Fonte Luminosa, em Lisboa (19 de Julho de 1975)

 

Em democracia, só existe uma forma legítima de mudar os titulares das instituições políticas: pelo voto. E quem nos ensinou isto, numa sucessão de actos exemplares durante os anos de brasa da revolução, foi um homem chamado Mário Alberto Nobre Lopes Soares, que hoje festeja 90 anos. Um homem que no Portugal pré-constitucional, quando a guerra civil esteve por um fio, enfrentou a "rua" com notória coragem física e um desassombro cívico que a História (com H maiúsculo) registará. A "rua", instrumentalizada pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluiram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.

Personalidade cheia de contradições, como em regra sucede às figuras que deixam a sua impressão digital nos acontecimentos históricos, Mário Soares acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia".

Mas o que mais lhe devemos foi ter participado na primeira linha do combate pela instauração no nosso país de uma democracia autêntica -- aquela que assenta no sufrágio livre, periódico e universal. Com argúcia e ousadia, Soares disputou a "rua" aos comunistas, desmonstrando-lhes em comícios como o da Fonte Luminosa -- como De Gaulle fizera ao promover o gigantesco desfile dos Campos Elíseos na ressaca do Maio de 68 -- que o espaço público não é uma espécie de coutada particular das forças extremistas. E nunca deixou de fazer a indispensável pedagogia da vontade popular expressa nas urnas, mesmo quando isso ia contra o ar do tempo, como sucedeu no histórico frente-a-frente televisivo com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em 6 de Novembro de 1975.

Esse é o Soares que a História recordará.

Mário Soares.

por Luís Menezes Leitão, em 07.12.14

 

Mário Soares faz hoje 90 anos de uma vida cheia. Nenhumas dúvidas podem existir de que é a personalidade mais marcante do regime surgido a 25 de Abril de 1974, tendo sido decisivo em vários momentos fundadores desse regime, como a implantação da democracia e a adesão à União Europeia. Na política, depois de ter vencido Álvaro Cunhal em 1975 e do falecimento prematuro de Sá Carneiro, apenas teve um único rival: Cavaco Silva. Mário Soares conseguiu mesmo terminar abruptamente com o cavaquismo no fim da sua presidência, mas já não conseguiu impedir a eleição do seu rival dez anos depois, tendo embarcado numa aventura de uma candidatura presidencial disparatada. Curiosamente, no entanto, o apagamento em que Cavaco Silva voluntariamente transformou a presidência fê-lo perder estrondosamente o seu confronto histórico com Mário Soares. Hoje os portugueses recordam com saudade os tempos da presidência de Mário Soares e estão ansiosos para que acabe o penoso mandato presidencial de Cavaco Silva.

 

Se Mário Soares não tem hoje assim ninguém que lhe dispute o lugar de personalidade mais marcante do regime, é curioso que atinja os 90 anos num momento em que o clima é de fim de regime. Mário Soares foi Primeiro-Ministro em dois períodos de austeridade severa (1976-1977 e 1983-1985), mas nenhum deles é comparável com a situação actual, na medida em que a desvalorização da moeda amorteceu os efeitos da crise. Mas depois a presidência de Mário Soares (1986-1996) ficou na memória dos portugueses como os tempos áureos deste regime, que seguramente teve o seu momento de apogeu em 1998 com a Expo. Desde então, os tempos têm sido de profunda decadência, e é seguramente penoso para Mário Soares assistir ao que se está a passar. De certa forma, a situação é semelhante ao que se passou com Álvaro Cunhal que no fim da sua vida teve que assistir ao colapso de tudo pelo que tinha arduamente batalhado.

 

Sobre Álvaro Cunhal alguém escreveu que um homem como ele mereceria ver o sol nascer no fim da sua estrada. Seguramente Mário Soares mereceria também assistir à prosperidade do regime de que é a personalidade mais marcante. É uma pena que tal não esteja a suceder. Só que, ao contrário de Álvaro Cunhal, que viveu os últimos anos da sua vida numa reclusão voluntária, Mário Soares está sempre presente e não abdica de defender as suas posições. Foi dos primeiros a visitar Sócrates em Évora e uma simples palavra sua nessa ocasião fez tremer a estratégia do PS. Enganem-se, por isso, aqueles que julgam que Mário Soares deixará de dizer o que pensa para seguir estratégias alheias.

 

Por muita discordância que tenha das posições políticas de Mário Soares, admiro profundamente o seu perfil de combatente infatigável desde os tempos da ditadura, que nem a prisão, o exílio ou agora a velhice conseguiram travar. Por isso lhe desejo: "Ad multos annos".

O pior de dois mundos

por José António Abreu, em 27.11.14

José Sócrates foi o pior primeiro-ministro da terceira república e um dos três políticos portugueses mais importantes das últimas três décadas e meia (estou a recuar apenas até à morte de Sá Carneiro mas provavelmente poderia ir até 1974). Conseguiu-o unindo as piores características dos outros dois: Cavaco Silva e Mário Soares.

 

Como tem sido abundantemente referido, Cavaco lançou o modelo económico baseado em investimento público em infra-estruturas, desinteresse pelo sector de bens transaccionáveis, sistema de ensino mais baseado na massificação do acesso do que na qualidade, sector público cada vez maior e mais difícil de controlar. Mas Cavaco ainda pode apresentar uma desculpa: em 1985, quando chegou ao poder, Portugal era muito diferente. Justificava-se algum investimento em obras públicas, para mais quando estavam disponíveis fundos comunitários para o efeito (poucos se lembrarão mas não existia sequer uma auto-estrada completa entre Lisboa e Porto). Justificava-se claramente a reforma do sistema fiscal (uma alteração que queda esquecida, nesta época em que não convém dizer bem de Cavaco). Justificava-se a tentativa de abrir o sistema de ensino ao maior número de alunos possível, após décadas de salazarismo, ainda que fazê-lo demasiado depressa acarretasse riscos – comprovados – de quebra na qualidade. Apesar de ter sido feita por motivos eleitoralistas, justificava-se em parte a reforma do sistema retributivo da Função Pública, muito mal paga durante o salazarismo (e, sim, um país evoluído necessita de uma boa Função Pública, o que implica salários convenientes). O grande problema dos governos de Cavaco (em especial dos maioritários, em especial do segundo) foi o descontrolo em que se entrou – e (um ponto indesculpável) o desprezo a que foi votado o sector de bens transaccionáveis, com o desmantelamento forçado (começo a soar como o PC mas, de longe a longe, serve como purgante) da capacidade instalada em vários sectores, entre os quais a agricultura (hoje em crescimento). Mas, se Cavaco lançou o modelo, ninguém depois dele foi capaz de o ir corrigindo à medida das necessidades. O sector público, pejado de corporações, tornou-se demasiado forte; os empresários do regime, muitos dos quais ligados à construção civil e à banca, manobraram para que os dinheiros públicos continuassem a fluir na sua direcção; a baixa de juros conseguida com a introdução do euro iludiu toda a gente, gerando níveis insustentáveis de endividamento, potenciados durante longo tempo pelo Estado através de bonificações ao crédito e benesses em sede de impostos sobre os rendimentos. Quando Durão Barroso afirmou que o país estava «de tanga» e urgia tomar medidas desagradáveis, todos lhe caíram em cima – da comunicação social a Jorge Sampaio, passando por um Partido Socialista que saíra do poder com referências ao «pântano» mas as esqueceu de imediato para tombar no populismo e na demagogia habituais. E depois veio Sócrates. E foi então que o modelo a que Cavaco entretanto descobrira as falhas atingiu o esplendor máximo, em particular após a crise financeira internacional abrir portas à versão de que era urgente estimular a economia, devendo o controlo do défice ser preocupação para mais tarde (foi-o e todos sabemos com que consequências).

 

A influência de Mário Soares no período Sócrates é mais subtil mas ainda mais perniciosa. Soares, que sempre se moveu numa esfera de inimputabilidade, representa uma maneira de ser (talvez mais do que «agir») bastante disseminada na sociedade portuguesa, assente em grupos de amizade e troca de favores. Mais do que o socialismo, a ideologia de Mário Soares é o bem-estar pessoal e dos seus próximos. Daí não ter tido quaisquer problemas em, enquanto primeiro-ministro, implementar medidas do FMI similares às que nos últimos anos criticou. Daí nunca ter mostrado reticências em dar preferência a pessoas e organizações fora do quadrante ideológico a que presumivelmente pertence – pense-se em Savimbi e na UNITA. Soares move-se num mundo onde os que estão do lado dele são intrinsecamente bons e não merecem sujeitar-se às minudências das regras – ou mesmo (veja-se Craxi ou as declarações actuais sobre a detenção de Sócrates) das leis. Move-se também num mundo cosmopolita, de ideias e frases (feitas) grandiosas. É um bon vivant. Embora consiga mostrar-se à vontade entre o «povo» (num registo apenas ocasionalmente manchado por uma certa condescendência), aprecia dar-se com pessoas importantes e faz questão de que se saiba que o faz (mon ami Mitterrand). Muitos já o afirmaram: mais do que as diferenças políticas (durante muito tempo, tão ligeiras quanto as diferenças entre o estilo de governação tradicional dos governos do PS e do PSD), foi esta faceta que o afastou de Cavaco. Para Soares, Cavaco era – e é – plebeu, inculto, grosseiro (relembre-se a famosa fatia de bolo-rei). Nada como Soares, como os seus amigos socialistas ou mesmo como os líderes anteriores do PSD. E, no entanto, carregado com todos estes defeitos, vindo de fora do sistema (Cavaco afirma frequentemente não ser um político, o que é quase verdade quando o seu percurso é comparado ao de Soares), Cavaco retirou Soares e os seus do poder, conseguindo a então quase mítica maioria absoluta. Imperdoável. Anos mais tarde, para tentar impedir Cavaco de chegar a Belém, Soares incompatibilizar-se-ia mesmo com um velho amigo, Manuel Alegre, sofrendo a sua mais estrondosa derrota política (como deve ter doído a um homem que cruzou armas com – e venceu, apesar de pelo menos num dos casos tal ter sucedido por falta de comparência – políticos da estirpe de Álvaro Cunhal e Sá Carneiro). Hoje, quando a idade já não lhe permite alinhavar as ideias de forma a criar uma versão inteiramente coerente e pessoalmente vantajosa de acontecimentos que lhe desagradam (algo em que Sócrates é mestre), alguns acusam Soares de senilidade. Não nos conceitos por trás do discurso. Os conceitos são os de sempre: ele e aqueles que lhe agradam são impolutos e, acima de tudo, intocáveis.

 

José Sócrates constitui a pior amálgama possível das características dos dois – e, por conseguinte, o pináculo dos piores defeitos nacionais. De Cavaco, herdou a tendência autoritária (que, no fundo, embora em registo soft, Soares também possui), levando-a muito para além do que deveria ser politicamente (e talvez criminalmente) aceitável. Em ambos, vislumbra-se a sombra de um Salazar que ainda há não muitos anos foi eleito o maior português do século XX. Terem sido os únicos a conseguir maiorias absolutas para os seus partidos é sinal revelador da necessidade de pastoreio que os portugueses continuam a sentir. Sócrates herdou também de Cavaco a tendência para meter o Estado em todos os recantos da actividade económica e não vale a pena pretender que, num caso como no outro, isso não originou corrupção. Mas Cavaco tinha – ou parecia ter – mais um ponto em comum com Salazar: a frugalidade. Esta é uma característica que Sócrates, crescido no país novo-rico que as políticas de Cavaco originaram, claramente dispensa. Pelo contrário: como Soares, Sócrates quer viver da forma a que julga ter direito. Quer dar-se com pessoas importantes (à falta de Mitterrand, arranjam-se Chávez e Kadhafi), vestir e comer bem, ser olhado com admiração (uma diferença substancial em relação a Soares – e Cavaco: confunde admiração com temor ou, pior, até gosta de ser temido). Quer decidir, conceder favores, controlar tudo. São estes factores, e não convicções ideológicas, que o levam a aumentar o papel do Estado na Economia (um Estado grande faz com que Sócrates seja mais necessário, mais bajulado – em suma, mais poderoso) e também às manobras para controlar a comunicação social. Está no centro de um grupo de «amigos» (talvez sem aspas, não sei) que surgem em inúmeros negócios com o Estado ou controlam neste posições-chave. Atira meia dúzia de ossos à esquerda (as «causas fracturantes») e mantém um discurso de defesa do Estado Social enquanto gere o interesse público com os amigos e em função deles. (Cavaco também teve um círculo de amigos de carácter duvidoso mas nunca pareceu privilegiá-los, pelo menos durante o tempo em que exerceu funções públicas – a dada altura, até parecia farto deles.) Apanhado na teia de vários escândalos, escapa às questões da Justiça, onde alguns dos referidos amigos ocupam posição de poder, e responde às da comunicação social com a assinalável capacidade para, independentemente do teor das perguntas, repetir ad nauseum e em tom ultrajado meia dúzia de frases feitas. Estávamos nos tempos em que a comunicação social já era abjecta (enfim, alguma comunicação social, que outra, por convicção, interesse ou medo, continuava a apoiá-lo) mas em que a Justiça, dispensando-o das explicações (até poderia estar inocente mas a acumulação de indícios era excessiva para tamanha indiferença), decidia bem. Hoje, que lhas pediu, a Justiça é um antro de conspiradores. Dizem-no os seus amigos. Di-lo o seu mais dilecto pai espiritual, Mário Soares. Estão todos certos. Gente superior não merece tal tratamento. Merece passar por entre as gotas da chuva - e ser aplaudida, em vez de questionada, por tão fabulosa capacidade.

A tragédia do PS.

por Luís Menezes Leitão, em 27.11.14

 

Depois de Mário Soares, apenas José Sócrates conseguiu atingir o estatuto de líder incontestado do PS. Efectivamente, a sombra de Mário Soares pairou sempre sobre todos os outros líderes do PS. Constâncio demitiu-se, acusando Mário Soares de interferência na sua liderança. Depois Soares apoiou a ascensão de Guterres contra Jorge Sampaio, para logo a seguir patrocinar um Congresso "Portugal, que futuro?", destinado a demonstrar que era melhor líder da oposição que Guterres. Quando Guterres chegou a Primeiro-Ministro, Mário Soares chegou ao ponto de declarar estar contra a regionalização no referendo patrocinado por Guterres.

 

Já José Sócrates chegou ao poder apoiado numa forte maioria absoluta, o que lhe deu uma legitimidade própria, que pela primeira vez permitia a um líder do PS sair da sombra de Soares. José Sócrates, porém, nunca afrontou Soares, tendo inclusivamente aceite apoiar uma sua recandidatura à presidência, aos 81 anos, quando era evidente que não tinha quaisquer condições de derrotar Cavaco Silva. É por isso normalíssimo que Soares tenha ido espontaneamente a Évora visitar Sócrates, o que só demonstra elevação de carácter. Soares nunca deixa cair os seus amigos, tendo mesmo, quando era Presidente da República, visitado Bettino Craxi no seu exílio na Tunísia em fuga às condenações da justiça italiana. Outros políticos podem preocupar-se com a sua imagem pessoal ou com as conveniências partidárias. Soares não se move por esses critérios.

 

Curiosamente Sócrates acabou por deixar sobre o PS uma sombra semelhante à de Soares. António José Seguro era opositor declarado de Sócrates e bem lutou contra a sua influência no partido, mas os apoiantes de Sócrates acusaram-no sistematicamente de pôr em causa o legado do seu querido líder. Apesar dos insistentes pedidos destes, António Costa recusou-se sistematicamente a avançar, até ao momento em que percebeu, na noite das europeias, que António José Seguro já tinha conseguido consolidar a recuperação do PS e iria ser o próximo Primeiro-Ministro, o que quebraria definitivamente a influência de Sócrates.  António Costa minimizou por isso a vitória eleitoral, dizendo que lhe "sabia a pouco" em comparação com os resultados conseguidos por Sócrates. Bastou essa declaração para que o PS lhe caísse nos braços, saudoso dos tempos gloriosos do anterior líder. Eduardo Ferro Rodrigues proclamou logo no Parlamento que o legado de Sócrates voltava a ser respeitado no partido.

 

É por isso que, Independentemente da presunção de inocência do visado, a detenção de José Sócrates é politicamente mortífera para o PS. Quando tinha acabado de proclamar o retorno ao legado de Sócrates, a última coisa de que este partido precisava era de ser confrontado com acusações de corrupção no governo cujas qualidades não cessava de louvar. Precisamente por isso vários militantes começaram mais uma vez a enveredar por teses da cabala, levando a que António Costa tivesse que comandar as hostes, ordenando a todos os militantes que se afastassem de Sócrates para preservar o PS da situação que o envolvia.

 

Só que se assistiu imediatamente a uma revolta em directo protagonizada por Mário Soares. Este foi imediatamente visitar Sócrates à prisão e proclamou do alto dos seus jubilosos 90 anos que "todo o PS está contra esta bandalheira". António Costa sentiu claramente o desafio, assim como antes dele já tinham sentido Constâncio, Sampaio e Guterres, mas permaneceu mudo e quedo perante este ataque de Mário Soares que poderia incendiar o PS contra ele próprio.

 

Curiosamente, quem sentiu necessidade de reagir em auxílio de António Costa foi o próprio Sócrates. Num inédito comunicado, proferido ao início da noite, proclamou: "Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia". 

 

O que se passou ontem revela assim que não só António Costa não escapa à sombra de Soares, ao contrário do que sucedia com Sócrates, como também que, mesmo a partir da prisão, a sombra de Sócrates paira igualmente sobre a sua liderança. Uma verdadeira tragédia para o PS na altura em que tudo apontava para uma ascensão imparável em direcção ao poder. António José Seguro é que se deve estar a rir.

LOL

por Rui Rocha, em 26.11.14

"Foi um grande presidente de câmara e considero que foi injustiçado", disse Soares, interrogando-se: "Quando há pessoas que roubam milhões e estão soltas, como é que ele foi preso sem razão nenhuma?"
Mário Soares, Outubro de 2014

"Isto não tem nada a ver com os socialistas, tem a ver com os malandros que estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar."

Mário Soares, Novembro de 2014

A cabala (8)

por Pedro Correia, em 26.11.14

«Isto é tudo uma malandrice que lhe estão a fazer [a José Sócrates].»

 

«Toda a gente acredita na inocência dele!»

 

«Isto não é outra coisa que não seja um caso político!»

 

«Estes malandros estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar!»

 

«Todo o PS está contra esta bandalheira!»

 

Mário Soares (há pouco, à saída do estabelecimento prisional de Évora)

A cabala (5)

por Pedro Correia, em 25.11.14

«Sábado o País foi confrontado com um acontecimento que deixou todos os democratas imensamente preocupados. O que foi feito a um ex-primeiro-ministro com um anormal aparato fortemente lesivo do segredo de justiça não pode passar em vão.»

 

«Também não pode passar em vão o espectáculo mediático que a comunicação social tem feito, violando também ela o segredo de justiça ao revelar factos que era suposto só serem conhecidos quando um juiz se pronunciasse.»

 

«Ninguém sabe se a Procuradora-Geral da República foi quem comandou a polícia que actuou.»

 

Mário Soares (DN, 25 de Novembro)

Frases de 2014 (27)

por Pedro Correia, em 14.10.14

«Quando há pessoas que roubam milhões e estão soltas, como é que ele foi preso sem razão nenhuma?»

Mário Soares, sobre Isaltino Morais

Um naco precioso de análise política

por Rui Rocha, em 30.09.14

Sempre considerei que o mês de setembro ia dar uma grande volta à situação económica e política portuguesa. Agosto foram as praias, por sinal com águas muito frias.

Mário Soares, no Diário de Notícias


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