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Os livros, as listas e nós

por Pedro Correia, em 14.03.18

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As listas valem o que valem. Há quem goste muito delas, há quem as deteste. Confesso-me cultor de listas: elas permitem-nos ir aferindo conhecimentos adquiridos e atrair-nos para paragens ainda incógnitas. Com a descontracção de um passatempo.

Vêm estas linhas a propósito de uma lista que encontrei há dias, difundida pelo jornal britânico Guardian, elegendo as cem melhores obras de ficção literária publicadas até hoje em língua inglesa. Uma lista organizada por ordem cronológica, que inclui títulos como Robinson Crusoe (1719), As Viagens de Gulliver (1726), Frankenstein (1818), David Copperfield (1850), Moby Dick (1851), Alice no País das Maravilhas (1865), Três Homens num Bote (1889), O Retrato de Dorian Gray (1891), O Apelo da Selva (1903), Servidão Humana (1915), Ulisses (1922), As Vinhas da Ira (1939), Debaixo do Vulcão (1947), Lolita (1955), A Curva do Rio (1979) ou Desgraça (1999).

A lista completa pode ser consultada aqui. Deixo-a com uma pergunta à espera de encontrar respostas: quantos destes cem livros já despertaram a atenção dos nossos leitores e dos meus caros colegas de blogue?

Penso rápido (89)

por Pedro Correia, em 13.03.18

Até que ponto os textos se tornam impessoais ao perdermos o rasto da sua carpintaria?
O que seria do nosso entendimento da obra de um Eça ou de um Pessoa, por exemplo, sem o acesso aos manuscritos de cada um, nomeadamente às cartas que escreveram?
Li há tempos que as crianças finlandesas deixaram de ter noções elementares de caligrafia. Nas escolas, só aprendem a escrever com letras de imprensa - ou de computador. A moda vai pegar, não tenho dúvida.

Acontece que a nossa capacidade de interpretar textos antigos diminui drasticamente com estas novas tendências pedagógicas, de duvidoso mérito. E também a possibilidade de desvendarmos personalidades alheias, na medida em que a caligrafia diz muito do que somos. Ou do que éramos.

O Prémio Camões

por jpt, em 03.02.18

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O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o "costume", que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, "de morte matada", nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o "campo literário" português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal "campo". Adiante.
 
O Camões vale assim o que vale. Sendo, como é, e repito-me, um prémio político, consta no seu pacote, e nisso extravasando critérios literários, de quando em vez ser atribuído a um escritor "africano", vulgo "lusófono". Nesse estreito âmbito o facto de um monstro como o polissémico, múltiplo, ambivalente, grandioso, único, verdadeiramente único, sublinho, uma lente solitária na literatura em português, Ruy Duarte de Carvalho nunca ter sido premiado mostra totalmente a irrelevância dos "cordatos" critérios que premeiam. E não me venham dizer que eu não sou especialista: sou leitor. Ou seja, o mais especialista que a literatura pede, e assumo o populismo do dito. E só me posso rir com um prémio dado aos angolanos Vieira e Pepetela e que não lhe foi atribuído - sublinhando que para a "África lusófona" se premeia fundamentalmente segundo critérios da história política da literatura. E nem história social é, porque então outras coisas haveria para dizer sobre Xitu ou sobre as magníficas páginas da desequilibrada obra do Khosa (e que mais pedir a um demiurgo do que ser desequilibrado?). Mas isto já me faz entrar em Moçambique, num corpo literário que me convoca o riso, entristecido, diante do Camões atribuído neste XXI antes de o ser a Borges Coelho, mas enfim, são os critérios da "africana" lusófona .... Inenarrável. E letal para qualquer vontade prestigiadora do prémio CPLP da literatura, vulgo "Camões", nome do desgraçado poeta, que morreu miserável e 430 anos depois ainda é assim aviltado.
 
Dito tudo isto, que desagradará alguns amigos queridos, ex-jurados, escritores e, mais do que tudo, leitores militantes (os "grandes leitores" como se disse em milénios passados), o Camões só me serve para me convocar às livrarias ("ihh, o Trevisan!!!", exclamei há anos, envergonhando-me do esquecido que andava, embrenhado noutros assuntos). Por isso nem me choca que agora tenha sido dado a Alegre. Um prémio político para um político que é poeta menor e ficcionista irrelevante, o corolário da cultura do funcionalismo público português (e, muito provavelmente, do silêncio dos académicos brasileiros agora jurados, envergonhados com a horrorosa cena do ano passado). Um prémio político para um político, qual a surpresa?
 
Agora o que me choca é estas patetas declarações (o "discurso") do premiado aquando da recepção da honraria, que decerto serão indiscutidas pelo tal "campo" da literatura, desistido e cúmplice, na ânsia das prebendas, pois o prémio e o passado político convocam à sacralização das suas doutas (não "santas" que o homem é socialista, republicano e laico) palavras. Diz Alegre, sobre o estrado da premiação (e da inconcebível proposta para o Nobel), que a poesia é o território da "resistência", assim não só postulando a sua mundividência mas também legitimando-se como laureável.
 
Francamente ...!, estamos em 2018.E ainda temos que ouvir isto e até anuir ao dislate. A poesia é o lugar da desistência, da rendição, do desabar, da desgraça, do triunfo, do júbilo, da ejaculação, da resistência (sim, também), do tudo e do nada. E vem-me este homem tonitruar o vazio. Demagógico? Apenas pobre. De facto aquilo que alhures se diz (desvaloriza) como poesia de combate.
 
E mais, pior ainda, fazendo jus ao epíteto de "Pateta Alegre" (que saudades do meu pai António) na converseta "lusófona", que nem ideologia (aquilo da "falsa consciência" a la Marx) é. Nisso das ruas africanas, americanas, asiáticas (os PALOPs) que "falam Camões". Não ó Alegre, não falam. Fala-se, não só mas também, português. Não "Camões". Que é aquele, como me diziam agora mesmo na Ilha, com candura, o "monstro que está a pedir dinheiro", aquela estátua do Camões na Ilha, incompreendida no hiato que existe. Essa estátua, essa Ilha, esse mundo, e o próprio Camões que nele andou, que Jorge de Sena (um verdadeiro "Prémio Camões" avant la lettre) soube interpretar e que estes laureados e seus sequazes incompreendem. Tal como incompreendem o mundo. Para eles de "Camões". Lusófono. Enfim, o "destes" prémios.

O saber é aquilo que não se esquece

por Alexandre Guerra, em 30.01.18

É com bastante entusiasmo que estou a ler o último livro de Jaime Nogueira Pinto, Bárbaros e Iluminados (D. Quixote). Algumas das passagens relembram-me as aulas dadas pelo autor numa das cadeiras do meu curso de Relações Internacionais, na segunda metade dos anos 90. Ao contrário de muitos dos meus colegas da altura – mais interessados em fazer “ditados” do que era dito –, provavelmente, eu era dos poucos que via naquelas aulas uma fonte de verdadeiro conhecimento, o saber que não esquecemos e que nos ajuda a perceber as forças dinâmicas da História e a antecipar algumas das imprevisibilidades do sistema internacional. Jaime Nogueira Pinto nunca foi do estilo professoral e dizia sempre, para aqueles que estavam mais obcecados em fazer “sebentas”, que datas e conteúdos factuais podiam ser encontrados num qualquer manual. O importante era perceber as motivações dos actores da História e saber interpretar as consequências das suas acções. Neste aspecto, Jaime Nogueira Pinto preferia ter como ponto de partida as histórias e estórias da História para depois lhes dar o devido enquadramento político e ideológico.

 

Foi nestas aulas que comecei a interessar-me seriamente pela relação íntima entre a dimensão literária de Dostoievsky (e outros) e o movimento histórico subsequente. Comecei a entender a obra deste escritor de outra maneira, vendo nela uma amostra sociológica de uma Rússia aburguesada e intelectual asfixiada pelo regime czarista e ansiosa por um admirável mundo novo. Escreve Jaime Nogueira Pinto que “não era de estranhar que as novas gerações intelectuais e técnicas, oriundas das classes médias e da burocracia estatal […]” se atirariam para os “braços dos grupos revolucionários”. Em romances como O Idiota, Os Irmãos Karamazov ou Os Demónios, “Dostoievsky antevira o tipo de pessoas em que [esses burgueses] se transformariam”. Apesar dessa ânsia de mudança, Dostoievsky nunca teve dúvidas quanto aos “riscos do moralismo e do construtivismo utópicos dos intelectuais, fundamentados numa versão optimista da condição humana”. Pelo contrário, toda a literatura de Dostoivesky é marcada pela imperfeição humana, pelo conflito, pela injustiça. O mundo idílico dos utopistas para uma nova Rússia não cabia na visão de Dostoievsky e, para mim, depois daquelas aulas, isso passou a ser tão evidente nos textos daquele escritor.

 

Neste processo revolucionário, Jaime Nogueira Pinto volta ao incontornável Yevgeny Zamyatin, um autor de que ouvi falar pela primeira vez precisamente nas suas aulas. Desde então tornou-se uma espécie de referência bibliográfica em livros ou textos que escrevo. Talvez pela irreverência própria da juventude, Zamyatin tinha o sonho de mudar a sociedade russa, à semelhança de qualquer revolucionário que se prezasse, no entanto, o seu “ímpeto foi decrescendo à medida que crescia a propensão autoritária e controladora do Partido Comunista e a censura das Letras e das Artes”. De eufórico revolucionário, Zamyatin passou a um dos mais críticos do regime de Estaline, tendo sido preso e, mais tarde, com a ajuda dos bons ofícios de Gorky junto de Estaline, conseguiu exilar-se em França. Sem ilusões quanto ao carácter virtuoso da nova sociedade e do “novo homem” soviético, em 1920 publica “a primeira obra utópica, depois da implantação da utopia”. Nós é um livro fascinante, que conta a história, num futuro muito distante, de uma sociedade perfeita, orientada por um Estado único, onde tudo é eficaz e as pessoas vivem felizes. O único problema é que esse poder organizativo é totalitário e tudo assenta numa aparente ilusão e numa “alteração forçada da condição humana”, tal como aconteceu com o bolchevismo nos primeiros anos.

 

Desde as aulas de Jaime Nogueira Pinto, nunca mais esqueci a importância de Zamyatin na tradição literária da “distopia política” do século XX. E, sobretudo, aprendi a olhar para algumas obras, não apenas como ferramentas de enquandramento social e político de fenómenos do sistema internacional, mas também como elementos prospectivos daquilo que possa estar para vir.

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 Ursula K. Le Guin em 1985 (fotografia de Brian Drake para o The Times, via Los Angeles Times)

 

In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed.

Ursula K. Le Guin, na introdução a The Left Hand of Darkness (1969)

 

Para a ficção científica literária, a morte de Ursula K. Le Guin representa o desaparecimento de toda uma época: Le Guin começou a publicar no início dos anos 60, já nos derradeiros anos da famosa "Golden Age" do género; atravessou a revolução da "New Wave" no final dessa década, e continuou pelas décadas de 70 e 80. Seria talvez a última autora clássica do género: no tributo que lhe presta nas páginas do Los Angeles Times, o escritor John Scalzi descreve Le Guin como "a supporting column of the genre, on equal footing and bearing equal weight to Verne or Wells or Heinlein or Bradbury." Mas talvez seja mais do que isso. Verne, Wells e Heinlein (e Clarke, e Asimov) são clássicos pela fundação e pelo desenvolvimento do género, mas Le Guin não seguiu as pisadas dos homens que a antecederam: a sua obra tornou-se clássica não pela continuidade que deu ao cânone da ficção científica, mas pela rejeição desse cânone, pelo expandir dos horizontes de todo o género, e pela forma exemplar como demonstrou que a Ideia, pedra angular da ficção científica, pode não lhe bastar. 

 

E demonstrou-o pela palavra, em contos e livros excepcionais. Diria ser impossível esquecer The Ones Who Walk Away From Omelas, uma parábola poderosíssima escrita em poucas páginas. Ou a ambiguidade de The Dispossessed, com a sua trama dividida entre a sociedade anarquista de Anarres e a sociedade capitalista de Urras, uma reflexão pertinente num terreno pantanoso onde autores menores se afundariam aos primeiros passos. Ou The Left Hand of Darkness, com a sua desconstrução da identidade de género e o seu estudo meticuloso sobre a importância, e a irrelevância, da diferença. Ou - provavelmente o meu preferido - The Lathe of Heaven, livro-tributo a Philip K. Dick, no qual Le Guin leva até às últimas consequências a ideia de que de boas intenções está o Inferno cheio. Sempre com uma prosa excepcional e uma humanidade ímpar, que contribuíram para a elevação e afirmação de um género literário sempre considerado marginal. Para todos os efeitos, a literatura de ficção científica teve em Le Guin mais do que uma das suas maiores vozes - teve nela também uma das suas mais ferozes defensoras. 

 

Mas não se ficou pela ficção científica: a série Earthsea figura entre a melhor fantasia literária já publicada, espantosa pela sua diversidade natural e pela subtileza das suas influências orientais, que representaram uma lufada de ar fresco para um género à época dominado pela sombra de Tolkien e pelo sem-número de imitadores que se lhe seguiram. A aventura de Ged ao longo da trilogia original, em A Wizard of EarthseaThe Tombs of Atuan, e The Farthest Shore, conta com quase cinqueta anos, e não perdeu nem um pouco da sua força. 

 

Cá em casa, na biblioteca que temos vindo a construir, nenhum autor surge tantas vezes. Se tivesse de nomear o meu livro preferido de ficção científica, provavelmente não escolheria um título de Le Guin; mas se tivesse de escolher um escritor ou escritora preferido, não hesitaria na resposta. Ocorrem-me vários livros que me mudaram de alguma forma, mas apenas Le Guin o conseguiu tornar a fazer a cada novo livro ou conto que li. Ainda tenho alguns por ler, tal como a poesia, os ensaios, as inúmeras crónicas - textos dispersos felizmente compilados e editados em anos recentes. Mais do que nunca, aguardo por essas leituras com muita expectativa.

 

Ursula Kroeber Le Guin faleceu anteontem na sua casa de Portland, nos Estados Unidos. Tinha 88 anos, e escreveu livros extraordinários. 

Outras galáxias muito distantes (6)

por João Campos, em 11.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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Ancillary Justice

A irrelevância do género

 

Como penúltima sugestão de leitura nesta série sobre a space opera moderna deixo um dos livros mais falados nos círculos da ficção científica literária dos últimos anos: Ancillary Justice, o romance de estreia da norte-americana Ann Leckie que em 2013 conquistou críticos, leitores, e praticamente todos os prémios relevantes do género. E fê-lo com uma mistura muito bem sucedida de alguns dos mais convencionais elementos narrativos que associamos à space opera - impérios galácticos, alienígenas, inteligências artificiais, aventuras em planetas exóticos - com reflexões pertintenes sobre a natureza humana e sobre um tema muito em voga: a identidade de género. 

 

Nesse sentido, é possível vermos em Ancillary Justice uma continuação lógica da desconstrução da identidade e dos papéis de género que Ursula K. Le Guin (é inevitável: regressamos sempre a ela) desenvolveu no longínquo ano de 1968: em The Left Hand of Darkness Le Guin imagina no planeta remoto de Gethen uma civilização onde os seres humanos são efectivamente andróginos (simplifico), cujas características sexuais fluídas fazem com que as diferenças de género que conhecemos não tenham lugar. Leckie, admita-se, não chega a ir tão longe como Le Guin na imaginação de fisiologias alternativos e de ritos sociais elaborados. A pergunta que coloca, sendo bem mais simples do que as questões e os problemas que o contacto do terráquio Genly Ai com os seres humanos de Gethen suscitam, nem por isso é menos intrigante: se numa sociedade não existem diferenças práticas entre géneros, faz sentido manter uma pré-determinação masculina na linguagem? Para descobrir a resposta, Leckie desenvolveu toda uma trama na qual apenas se conhece o género de uma das personagens numa referência fugaz, colocando todos os pronomes e todos os indicadores linguísticos de género no feminino.

 

O resultado é uma experiência invulgar de leitura que coloca em evidência as ideias pré-concebidas dos leitores, sejam conscientes ou inconscientes, sobre pos papéis de género: o conhecimento de algo tão elementar como o género de uma personagem influencia de forma decisiva o modo como lemos essa personagem. A ausência de algo tão elementar torna a leitura algo desorientante no início - sabemos que a protagonista, Breq, tem de facto um corpo feminino, mas o facto de não sabermos isso de qualquer outra personagem induz a um jogo constante de adivinhação pelos maneirismos e pelas atitudes. No entanto, mais interessante do que descobrir a resposta é perceber que a resposta não tem qualquer relevância ou significado - que aquelas personagens são importantes pelas suas acções e pelas suas palavras, e não por características biológicas pré-determinadas. 

 

Só por isto, a leitura de Ancillary Justice seria sempre um exercício intrigante e pertinente, mas poder-se-ia argumentar que este exercício, por interessante que possa ser, não chega para fazer um bom livro. Leckie sabia-o bem, e por isso apresentou-o não pela teoria mas pela prática, enquandrando-o numa aventura ritmada e conceptualmente estimulante. Breq, outrora uma inteligência artificial multifacetada ao comando da nave militar Justice of Toren, viu-se traída e destruída, reduzida a um derradeiro corpo biológico - e durante anos procura recuperar toda a informação sobre o que aconteceu nos últimos dias da Justice of Toren, para se vingar de quem a destruiu a si e eliminou as suas tripulantes. Convenhamos: naves espaciais há muitas na ficção científica, mas poucas foram aquelas que assumiram o protagonismo das suas histórias...

 

A história de Breq/Justice of Toren tem continuidade - ao romance inaugural de 2013 seguiram-se Ancillary SwordAncillary Mercy, em 2014 e 2015. Sabendo que a surpresa do primeiro livro se esbate nas sequelas, Leckie encaminha a trama para caminhos menos percorridos no género. Mas os leitores que não se queiram comprometer com uma série mais vasta ficam muito bem servidos só com Ancillary Justice - a sua narrativa funciona de forma autónoma, a experiência de leitura é inesquecível e, no contexto das conversas da actualidade, será difícil encontrar na ficção científica literária algum livro mais pertinente. 

Outras galáxias muito distantes (5)

por João Campos, em 04.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 Hyperion / The Fall of Hyperion

Chaucer e Keats no espaço

 

Ao contrário do que se possa pensar, a produção literária da ficção científica na década de 80 não se resumiu ao neo-noir tecnológico do cyberpunk (por mais vasta que tenha sido a sombra de Neuromancer). Na sombra das especulações cibernéticas de William Gibson, Bruce Sterling e Pat Cadigan a vetusta space opera ia sendo recuperada e reinventada, com títulos como The Snow Queen de Joan D. VingeDownbelow Station de C.J. Cherryh (ambos premiados com o prémio Hugo em 1981 e 1982 respectivamente), e com o início de sagas que marcaram o género, como a Culture de Iain M. Banks ou a Vorkosigan Saga de Lois McMaster Bujold. Mas é já na transição dos anos 80 para a década de 90 que foi publicado um dos textos mais ambiciosos e bem conseguidos que o género já conheceu: o díptico HyperionThe Fall of Hyperion, do norte-americano Dan Simmons.

 

O título soará familiar a quem conhecer a poesia de Keats - e, de facto, o poeta romântico é uma presença constante na trama que Simmons tece num futuro no qual a Humanidade alcançou a Singularidade e expandiu-se por inúmeros planetas da galáxia com a ajuda das inteligências artificiais conhecidas como Technocore (serei intencionalmente vago em alguns momentos - é difícil falar destes dois livros revelar demasiado). Mas essa expansão não foi pacífica - e, de facto, no momento em que a trama arranca a Humanidade prepara-se para a guerra com os enigmáticos Ousters. Nas vésperas dessa guerra, sete peregrinos são seleccionados para fazer a derradeira peregrinação a Hyperion, um planeta remoto e que não teria nada de extraordinário se não possuísse duas coisas únicas: as lendárias "Time Tombs", um conjunto de monumentos localizados num vale onde o tempo se desloca do futuro para o passado, e o seu guardião, o não menos lendário Shrike, uma monstruosidade bio-mecânica feita de metal e coberto de espinhos. Reza a lenda que o Shrike responderá à questão de um dos peregrinos, e matará os restantes...

 

Os sete peregrinos não se conhecem, nem sabem por que motivo foram seleccionados, mas cada um tem um motivo para estar naquele lugar naquele momento - e Simmons evoca Chaucer para construir em Hyperion um mosaico fascinante ao estilo dos célebres Canterbury Tales. Cada peregrino (excepto um) contará a sua história individual durante a longa viagem até às Time Tombs de Hyperion, formando um vasto puzzle do qual o Shrike será uma peça fundamental. Simmons, porém, leva mais longe a ideia do mosaico, desenvolvendo cada história de forma muito particular em termos temáticos. Um dos peregrinos narra uma história de horror; outro, um conto de ficção científica militar a aludir a Starship Troopers. Há um drama familiar, uma intriga política, uma aventura cyberpunk e até uma história época que abarca vários séculos e várias etapas da expansão da Humanidade pelas estrelas. Hyperion não terá sido o primeiro romance de ficção científica a empregar uma estrutura narrativa em mosaico, mas poucos o terão feito com a mesma ambição e com o mesmo engenho, conseguindo mostrar múltiplas facetas do género enquanto desenvolve uma trama intensa com o arrojo conceptual que faz parte da matriz da space opera.

 

Se Hyperion olha para o passado separado das várias personagens para contextualizar o presente da trama, The Fall of Hyperion encarrega-se de desenvolver essa trama - de forma inevitavelmente mais linear, é certo, mas nem por isso menos interessante. Cada uma das histórias do primeiro volume suscitou mais perguntas do que respostas, e cabe a esta segunda parte explorar o destino dos peregrinos e da sua visita ao Shrike. Simmons faz esta exploração com mestria, polvilhando-a de referências literárias e religiosas que convidam à releitura, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. O resultado é aquela que será talvez a minha obra preferida dentro do género: um par de livros excepcionais tanto para os leitores mais experientes como para quem ainda não se aventurou na ficção científica. 

Outras galáxias muito distantes (4)

por João Campos, em 28.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

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The Culture

A utopia ambígua*

 

Se considerarmos a distância a que a Humanidade se encontra de estabelecer uma presença permanente e relevante fora do planeta Terra, será porventura inevitável que qualquer noção de civilização de escala galáctica ganhe contornos utópicos. O que não impediu a ficção científica, nas suas várias vertentes, de imaginar um sem-número de impérios e de sociedades interestelares, quase sempre povoadas por aventureiros destemidos e alienígenas exóticos, mais ou menos hostis. Ainda assim, e por mais anos-luz que estes impérios abarquem, a maioria das sociedades galácticas clássicas permanece estranhamente semelhante aos paradigmas políticos, económicos e sociais da Terra: as mesmas estruturas de poder, os mesmos problemas económicos, as mesmas classes sociais. Em suma, os mesmos problemas de sempre. Talvez por isso a Culture de Iain M. Banks continue a ser tão relevante.

 

Não é que Banks rejeite o antropomorfismo tradicional das space operas - optou, sim, por extrapolá-lo na melhor tradição da ficção científica, interrogando-se sobre como seria uma sociedade cujo domínio científico e tecnológico a libertasse das limitações do mundo que conhecemos. Eis que surge a Culture, um vasto território espacial (seria impreciso designá-lo por impérioreino, ou qualquer outra designação territorial humana) governado por inteligências artificiais (Minds) tão benevolentes como matreiras, e dotadas de um sentido de humor peculiar. As Minds convivem com uma humanidade profundamente alterada pelas possibilidades infinitas abertas pela ciência, e integrada numa sociedade que não conhece o conceito de escassez. Assim, cada indivíduo é livre de se dedicar aos seus gostos pessoais como bem entender (não existe trabalho no sentido habitual do termo, e não existindo leis escritas, as normas assentam num contrato social implícito) e de viver onde quiser - num planeta, num vasto anel orbital ao estilo de Ringworld, numa esfera de Dyson, ou até num dos tremendos Global Systems Vehicles.

 

Como é bom de ver, uma sociedade idílica e hedonista parece um péssimo cenário para uma space opera rocambolesca, dada a inexistência de um conflito de sirva de motor narrativo. Não por acaso, as tramas que Banks explora não se centram tanto no dia-a-dia dos cidadãos no centro da Culture, mas nos intercâmbios que esta estabelece com a sua vizinhança galáctica - e é aqui que entram os elementos do Contact, o corpo diplomático da Culture, e as Special Circumstances, que na prática funciona como uma agência de espionagem e inteligência para intervenções mais ou menos subtis entre outros povos. É, portanto, na orla da Culture que Banks coloca a acção das suas histórias - nas histórias dos agentes das Special Circumstances, nos contactos estabelecidos entre civilizações tão distintas, na diplomacia necessária e nos conflitos inevitáveis. Mas também nos seus inimigos - a título de exemplo, o protagonista de Consider Phlebas é um mercenário contratado por uma civilização em guerra declarada com as Minds. E é essa abordagem que dá a Banks um ponto de vista único para a civilização que ele próprio concebeu. Através das suas persoangens e das odisseias em que as coloca, consegue mostras as engrenagens da sua utopia galáctica enquanto questiona os seus princípios basilares e a justiça das suas acções.

 

Mais do que uma série literária, a Culture é um universo ficcional desenvolvido entre 1987 e 2012 em nove romances e uma colectânea de contos. A ordem de leitura não será por isso relevante - Use of Weapons, o livro cuja capa ilustra este texto, é o terceiro romance da Culture publicado, e será uma introdução perfeita. Mas por notáveis que sejam os seus textos - e são -, aqui estamos perante um dos casos em que o cliché de o todo ser maior do que a soma das suas partes se revela verdadeiro: mais do que um ou dois livros, o legado de Banks para a space opera moderna reside na forma como pegou nas aventuras frenéticas que fizeram escola no género e as extrapolou com uma criatividade e um arrojo conceptual ímpares, mostrando que há vida para além dos impérios galácticos de outros tempos. E - seria inevitável referi-lo - reside ainda na nomenclatura bem humorada das Minds: não é todos os dias que podemos ler uma aventura espacial cujas naves têm nomes como No More Mr. Nice Guy, Unfortunate Conflict of Evidence, ou Just Another Victim of the Ambient Morality (entre muitos outros). Infelizmente, a morte prematura de Iain M. Banks em 2013 colocou um fim abrupto às suas histórias - mas as que cá deixou mantém toda a sua imaginação e pertinência.

 

*E sim, antes que alguém pergunte, sei que o subtítulo foi "pedido" à Ursula K. Le Guin.

Outras galáxias muito distantes (3)

por João Campos, em 21.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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 The Centauri Device

Sem heróis ou vilões

 

Em 1974 estávamos ainda a três anos da estreia de Star Wars e já longe da época dourada do género nos anos 50, do sucesso da série original de Star Trek nos anos 60, e do entusiasmo pelo espaço que as missões norte-americanas e soviéticas tinham trazido pouco tempo antes. Na ficção científica literária, persistiam ainda os ecos da "New Wave" que no final da década de 60 trouxera para o género um experimentalismo estilístico, narrativo e temático que até então fora escasso. Não surpreende, portanto, que também as fórmulas testadas da space opera, com os seus heróis ousados, vilões impiedosos, rebeldes com coração de ouro e aventuras em proporções quase mitológicas, tenham sido colocadas em causa por alguns autores. Um deles foi o britânico M. John Harrison, com um livro notável, ainda que imperfeito: The Centauri Device

 

O propósito de Harrison foi declarado: a desconstrução dos elementos basilares da space opera, como o herói faz a narrativa progredir e que que serve para o leitor nele se projectar, um universo compreensível e reconhecível para os seres humanos, e, na sua essência, antropocêntrico. Assim, o protagonista, John Truck, não é um herói predestinado a salvar a galáxia, mas um camionista espacial vagamente indiferente ao que o rodeia; a humanidade expandiu-se para o espaço e projectou até lá as suas piores tendências e atitudes; e, no vazio interestelar, toda a sorte de bizarrias humanas e pós-humanas floresceu. Inevitavelmente, surge o clássico macguffin - o tal Centauri Device do título -, entram em jogo várias facções políticas em conflito por ele, e emerge por fim Truck, ligado ao tal macguffin por um detalhe que escapa ao seu controlo. 

 

Uma narrativa mais convencional traçaria uma linha clara entre bonsmaus, lançaria Truck na demanda pelo bem, colocaria alguns obstáculos no seu percurso, e resolveria a coisa de forma mais ou menos satisfatória. Harrison, porém, nunca quis ser convencional, e em momento algum posiciona o seu protagonista como herói ou escapa para a desconstrução fácil pela via do anti-herói. Truck não quer salvar o mundo ou lixar o mundo; quer apenas que o mundo o deixe em paz. As várias facções em conflito não são maniqueístas - cada uma delas reclama a sua causa como justa, e em nome dessa causa estão dispostas a todo o tipo de atrocidades. E o mundo onde se movimentam está muito longe dos universos limpos, estilizados e optimistas de outras histórias; é, sim, um universo sujo, caótico e, na melhor das hipóteses, indiferente.

 

Apesar da sua prosa excepcional, de várias passagens memoráveis e de um desenlace atrevido, The Centauri Device estará longe de ser uma das melhores space operas que podemos ler hoje em dia - o próprio Harrison considera-o o pior livro que já escreveu (o que talvez diga muito dos seus romances posteriores). Mas a sua importância não pode ser desprezada, e é por isso que o trago aqui: o seu exercício de desconstrução não só demonstrou quão gastas estavam as fórmulas clássicas do género, como lançou as sementes para o seu ressurgimento, uma década mais tarde. Dito de outra forma: é muito provável que sem a pedrada no charco que foi The Centauri Device não tivessem surgido autores como Iain M. Banks, Alastair Reynolds ou Ken MacLeod, entre muitos outros que modernizaram a vetusta space opera e a trouxeram para o século XXI. Qualquer leitor que queira explorar estes temas terá inevitavelmente de passar por este livro. E decerto não dará a viagem por perdida. 

Outras galáxias muito distantes (2)

por João Campos, em 18.12.17

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Para quem quiser descobrir galáxias tão ou mais fascinantes na literatura e na banda desenhada, aqui deixarei algumas sugestões de leitura ao longo dos próximos dias.

 

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The Snow Queen

Space Opera no feminino

 

The Snow Queen, de Joan D. Vinge, é um caso curioso: foi publicado em 1980, no mesmo ano da estreia de The Empire Strikes Back, venceu o prémio Hugo para melhor romance no ano seguinte, gerou duas sequelas e uma prequela... e, trinta anos volvidos, numa época de pleno ressurgimento da space opera na literatura, na banda desenhada e nos meios audiovisuais, e quando o debate sobre as mulheres e o feminismo na ficção científica se tornou mais pertinente do que nunca, este livro, em tempos descrito como um "Star Wars feminista", está praticamente esquecido.

 

E a descrição tem algum mérito, mesmo sendo o esquecimento tão injusto. Para todos os efeitos, The Snow Queen terá talvez sido uma das últimas space operas relevantes desenvolvida com os moldes mais ou menos tradicionais das histórias épicas de outros tempos: tal como George Lucas, Vinge foi beber à "jornada do herói" de Joseph Campbell e aplicou a teoria a uma galáxia distante povoada por civilizações fascinantes e repleta de mitos de uma época dourada antiga, quase lendária. É muito possível, porém, que as semelhanças terminem aí. Se por um lado a sua grande influência narrativa não residiu nos westerns norte-americanos mas no conto clássico de Hans Christian Andersen, por outro lado The Snow Queen não tem qualquer ambiguidade no seu género: ao contrário de Star WarsThe Snow Queen é assumidamente ficção científica, com um rigor inatacável na construção do seu universo ficcional: o planeta Tiamat, onde decorre a maior parte da trama, não se resume a um único cenário com um clima uniforme: possui climas variados e regiões distintas, dos inúmeros arquipélagos tropicais do hemisfério Sul ao continente montanhoso e gelado do Norte. E os vários elementos científicos e tecnológicos que são apresentados estão longe de ser meros adereços, sendo fundamentais para a narrativa e ilustrando na perfeição a célebre máxima de Arthur C. Clarke: qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.

 

E, claro, há a questão feminista. Vinge até pode ter seguido, mesmo que em traços largos, a lição de Campbell, mas optou por escrever antes a jornada de uma heroína, Moon, cujo percurso a levará inevitavelmente ao confronto com Arienrhod, a Rainha de Gelo do título, monarca absoluta de Tiamat durante o inverno de 150 anos que as mecânicas orbitais do planeta impõem aos povos que nele habitam (estes detalhes nunca são irrelevantes aqui). E se podemos encontrar na Moon das primeiras páginas o arquétipo do jovem inocente que cresceu num lugar remoto sem fazer ideia de quão longe o destino a levará, já em Arienrhod está presente uma ambiguidade rara em romances e personagens desta natureza: em muitos momentos parece uma vilã convencional na ambição e na corrupção, mas Vinge escreve-a com maior profundidade, e os seus objectivos em momento algum são tão simples como aparentam. A Moon e a Arienrhod juntam-se personagens como Jerusha, uma inspectora policial num mundo maioritariamente masculino, ou Gundhalinu, um jovem inspector cuja classe social das suas origens contrasta com o seu destacamento em Tiamat. E muitas outras, num elenco vasto para  o qual a diversidade - de género, de cor da pele, de estratos sociais e de orientações sexuais - não serve apenas para preencher uma qualquer quota (é possível que o tema não tivesse no início dos anos 80 a pertinência que tem hoje), mas para tornar a civilização composta pelos vários mundos apresentados mais verosímil. Não deixa de ser interessante notar que algo tão evidente tenha demorado tanto tempo a ser interiorizado por um género no qual a construção de mundos assume tanta importância.

 

The Snow Queen foi o primeiro livro de ficção científica que li, algures entre 2001 e 2002 - e, à época, recuperou não só o meu gosto pela leitura como me fez descobrir um género que julgava praticamente exclusivo do cinema, da televisão e de alguma banda desenhada. E é curioso notar como contribuiu de forma acidental para a minha resposta adversa ao hype em redor de The Force Awakens há dois anos. O marketing da Disney, sintonizado com o zeitgeist, vendeu bem o seu peixe: temos agora uma mulher como protagonista e um stormtrooper afro-americano! Para o universo criado por Lucas isto talvez tenha sido uma novidade (e a representação é sempre salutar, acrescente-se), mas um leitor mais atento ao género não terá deixado de reparar que lhe serviam comida requentada. Eu reparei: muito antes da Rey de Daisy Ridley e do Finn de John Boyega (ambos excelentes, note-se) já me tinha maravilhado havia muito com a determinação de Moon e com o carácter de Gundhalinu (cujo papel secundário no primeiro livro se tornou principal nos seguintes). Afinal, a diversidade não chegou às galáxias distantes só no século XXI. 

Prenda de Natal

por jpt, em 12.12.17

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Estamos já na época das prendas. Aqui fica uma sugestão: tem(ns) um parente/amigo que é algo dado à leitura? Dê(á)-lhe o "Almas Mortas" de Gógol. É uma delícia. E uma obra-prima. Características que nem sempre vão juntas, que há obras-primas que se vivem com labor. Mas esta nada disso. E isso é importante nestas coisas das ofertas. Entenda-se, o tal parente/amigo a ofertar não precisa de ser um "grande leitor". Pois a prosa é fabulosa, o texto jovial, e um ir até ao osso da "sociedade russa de XIX" (entenda-se, da humanidade). Um tipo (re)lê exaltado de prazer. E um (quase) constante sorriso na cara, que é o da felicidade na leitura.

A tradução é de Nina e Filipe Guerra (ele um ex-bloguista e também facebuquista). E esta leva de livros é uma reedição (ou reimpressão, nunca sei como definir). O preço em livraria é de 20 euros (o que para a maioria de nós implica que o ofertado tem que ser bastante próximo). Mas o texto vale mais do que qualquer garrafa de uísque ou aguardente ou pacote de chocolate ou perfume, garanto. Comprado na internet vai a 15 euros - e sobrarão os 5 euros para as azevias.

Nota: atenção aos mais relapsos à poesia. Se o título na capa diz "Poema" o texto é em prosa, que isso não vos afaste da compra/leitura. (Eu, vil censor, informei as senhoras livreiras da Bertrand que talvez fosse melhor, comercialmente falando, tirar o livro da estante "Poesia" e deixá-lo no de "Literatura Estrangeira" - não vou comentar sobre estas etiquetas. O que elas se aprestaram a fazer. Não estou certo de que o escritor aplaudisse o acto. Mas espero que o editor tenha apreciado. Ou, pelo menos, o seu contabilista).

Ponta Gea

por jpt, em 03.11.17

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(lendo o "Ponta Gea" na Ilha de Moçambique)

 

João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, Caminho, 2017

 

Tornámos a vida num bazar de opiniões, frenético, feito do tropel dos nossos egos, tonitruantes, como se nós, assim gritados, algo fossemos verdadeiramente. Nisso se vão esgarçando os adjectivos, nesta nossa escalada de superlativos, sinónimos ou antónimos, que nos valham para sermos ouvidos, numa dança vã do exigir atenção, um patético xigubo de vaidades, digo-o já que em Moçambique.

Veio-me isto a propósito deste “Ponta Gea”, de João Paulo Borges Coelho, o seu 12º livro em registo ficcional, seu percurso começado em 2003 com o, para mim, deslumbrante “As Duas Sombras do Rio”. O qual fora antecedido pelas três bandas desenhadas publicadas na década de 1980. Pois agora, diante deste último livro, ficou-me a dúvida, esta de como o definir, adjectivar? Pois é óptimo e, de facto, opinião mais sonora é impossível, e este termo deveria ser o suficiente para convocar a atenção. E, como tal, assim fico: “Ponta Gea” é um livro óptimo.

O formato do livro é o de memórias, entre o rapazinho virgem de mangal que nele se aventura, descobrindo-o e a si próprio, e o finalista liceal, aprestando-se a partir para sempre daquele local que lhe foi infância e que lhe virá a ser o país estrangeiro e para sempre inatingível, esse que sempre é o passado.

Ponta Gea é um “bairro”, até mítico, da Beira colonial, e é do ambiente dessa cidade que emanam os quinze episódios, entrelaçados entre eles e com tantos outros que neles se invocam, do que consiste o livro. Neles ressurge a Beira – e um pouco do meridiano entre Sofala e Manica, até aquela Gondola – do ocaso colonial, entre 50s e o início de 70s, mas sem grama do tão recorrente saudosismo ou exotismo que polui a Africana, essa espécie “literária” muito em voga. O que “Ponta Gea” traz é uma Beira cosmopolita, coito de misteriosas personagens, uma vasta galeria de dançarinas eróticas e artistas circenses transoceânicos, pugilistas advindos do longínquo hinterland, prostitutas sem rumo, mágicos e sábios de vão de escada, assassinos e dementes, ladrões célebres e aristocratas ou seus avatares asiáticos. O que nele se desvenda é ter sido aquela Beira centro e cerne de enigmas até insondáveis, dos anónimos falecimentos no mangal às causas do assassinato do primeiro-ministro sul-africano, culminando na eterna questão do navio “Angoche”, abandonado no alto mar por uma tripulação para sempre desaparecida, do canal de Moçambique fazendo vedadeiro “triângulo das Bermudas”.

A escrita-ritmo do João Paulo Borges Coelho é aqui gloriosa: e se é deslumbrante o como narra a descoberta infantil do mangal é até comovente a página e meia dedicada à aprendizagem da degustação de sadza (xima, uchua, como se preferir), a massa de milho, com camarão frito, lição de mundo e disso do ser homem, não só mas também muito através do palato e da aceitação do protocolo alheio. Assim lição de cultura, acto de formação, no nada simples molhar os dedos na massa, misturando-a, de modo até voraz, com o camarãozinho.

Os ramos deste “Ponta Gea” são muitos, e mostram diálogos. Lendo-o é impossível não lembrar Sebald, e não só pelo meneio desta “assemblage” literária d’agora, na utilização de imagens alusivas – algo que jpbc já havia feito, mas restrito a imagens escritas, no seu “O Olho de Hertzog”. Mas não é só isso que nos avisa do tempero sebaldista. Pois a este notamo-lo naquilo que é já usual no autor, e que, de facto, lhe foi sempre projecto, a híbrida mistura das memórias próprias, da memória social do país, da vontade ficcional, da historiografia – de que é ele próprio profissional -, da autobiografia. É esta mescla, entre ficção até onírica e “memórias”, cerzindo os factos com a ficção, que aqui surge acima do que já havia feito nos livros anteriores. E é assim que o autor prossegue o que sempre persegue, aquilo do inventar a História que realmente foi, que aprendemos a cultivar com Borges.

Mas estas histórias vistas pelo rapazinho, ágil, sonhador curioso, até atrevido, cruzando as misteriosas vielas beirenses, atento aos seus esconsos habitantes, e até deles inquiridor, aparecem como um “romance de formação”, qual primeira parte do grande bildungsroman que talvez o autor nunca venha a completar. Pois tarefa porventura demasiado dolorosa, na apneia moral que exigiria, no desinteresse que a exagerada vizinhança, não coada pelo passar das décadas, implicará. O que não é defeito, nem em nada apouca este “Ponta Gea”. Pois, bem lá no fundo, o que ele mostra é um Tom Sawyer renascido (um Tom Sawyer, não um Huck Finn), encantado, cuja prodigiosa imaginação disseca o que aconteceu e o estabelece como foi, tal e qual.

Repito-me, “Ponta Gea” é um livro óptimo. Desde há muito que me surpreende como é que João Paulo Borges Coelho não é um escritor muito mais lido, cá em Moçambique e em Portugal, onde também é publicado. Durante anos lamentei-o. Já não. Egoísta até me apraz que não sejamos muitos os que lhe amamos os livros. Pois assim percorremos a “Beira”, suas vielas, arrabaldes e até avenidas e, cuidadosos, trocamos entre nós, só entre nós, seus leitores apaixonados, os nossos sinais de iniciados. E os outros, ileitores, seguem no seu mundo. Algo mais pobres do que nós … E tão mais sós.

 

A epifania

por João Campos, em 27.09.17

No Público, a propósito da muito oportuna reedição de The Dispossessed de Ursula K. Le Guin pela Saída de Emergência (com o título Os Despojados), escreve o crítico Luís Miguel Queirós:

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído. 

 

Só neste primeiro parágrafo teríamos pano para muitas mangas. Poderíamos, se quiséssemos, falar do desconhecimento que o crítico demonstra quando à ficção científica contemporânea (os três autores citados já morreram, e, polémicas à parte, uma leitura na diagonal dos títulos nomeados aos prémios Hugo e Nébula dos últimos seis ou sete anos seria talvez esclarecedora quanto a questões sobre o género de quem escreve o género). Ou mesmo da sua ignorância quanto à ficção científica dita "clássica" - Le Guin será um dos maiores vultos do género, sem dúvida, mas nunca terá ouvido falar de Alice Sheldon (mais conhecida por James Tiptree Jr.), de C.J. Cherryh, ou de Octavia Butler? Ou até, caso nos quiséssemos aventurar noutros territórios, demonstrar como a "chamada ficção fantástica" [sic] não se resume a Tolkien e aos seus discípulos, e de caminho recomendar, sei lá, Neil Gaiman ou Terry Pratchett. Enfim, o tempo é escasso, pelo que me vou ficar pela frase que destaquei a negrito.

 

Imagino que quando o crítico literário médio se vê obrigado a ler um bom livro de ficção científica, seja um texto contemporâneo ou a reedição de um clássico, a epifania seja inevitável: afinal, isto não tem nada que ver com Star Wars ou Star Trek ou aquelas merdas comerciais e vagamente infantis de que os nerds parecem gostar! Afinal há aqui um questionar da natureza da realidade, uma exploração das questões de género, um olhar crítico ao sistema capitalista / comunista / anarquista! E, logo de seguida, chega o orgasmo, o clímax do pretensiosismo: afinal, aquele outro livro desta senhora até vem n' O Cânone Ocidental do Harold Bloom! Como é evidente, ao crítico literário médio nunca irá ocorrer que talvez as suas premissas estivessem erradas, e que talvez a ficção científica enquanto género literário não se resuma apenas às talking squids in outer space com que Margaret Atwood enfureceu meio mundo há trinta anos, Ursula K. Le Guin incluída, a propósito de The Handmaid's Tale (excelente, já agora) ter ganho o prémio Arthur C. Clarke. Nada disso. Se a realidade não se ajusta aos preconceitos, é mais fácil negar a realidade e manter os preconceitos (uma atitude muito em voga, admita-se). Dito de outra forma: se aqueles livros são bons, então não podem ser ficção científica - serão "fábulas", talvez, porventura "parábolas", quiçá "metáforas" (as definições não são muito criativas). Ou então até são ficção científica, sim, mas são tão bons que "transcendem o género". Ou, como diz o crítico, "não são catalogáveis", podendo até - pasme-se! - "ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica". É de ir às lágrimas ou ao vómito, conforme a disposição.

 

A crítica acaba por ser positiva - spoiler alert, o livro levou "quatro estrelas" -, mas em 2017 já não há paciência para o snobismo literário para com a ficção dita "de género" (já escrevi longamente sobre o tema aqui). No cinema, pelo menos, alguns críticos já perceberam (não todos, mas o caminho faz-se caminhando) e são capazes de apreciar um filme de ficção científica sem vergonha e sem necessidade de recorrer à referência highbrow, aos clichés corriqueiros e às desculpas esfarrapadas. Mas na crítica literária publicada pelos vistos ainda há um longo caminho a percorrer. O que não surpreenderá quando reparamos que esses críticos parecem ter parado no tempo em 1994. Ou, se as referências que Luís Miguel Queirós tem da ficção científica literária servem de exemplo, algures entre as décadas de 50 e 60. Alguém se compadeça e lhes envie um DeLorean. 

 

(Aos leitores, recomendo  pouco a crítica e muito The Dispossessed. É um livro notável.)

Editor português, precisa-se

por Inês Pedrosa, em 22.05.17

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«Sejamos reaccionários ou progressistas, voltados nostalgicamente para o passado ou resolutamente para o futuro, todos somos modernos, porque reivindicamos e exercemos a liberdade de amar quem quisermos, como quisermos e durante quanto tempo quisermos.  
Somos, por outras palavras, senhores dos compromissos que assumimos. Esta soberania preenche-nos, mas também nos confronta, sem evasão possível, com as questões que atormentavam a Princesa de Clèves : basta que amemos para sabermos amar?  O amor será em si mesmo amável, digno de estima e de confiança? 
Podemos tratar destas questões através da estatística e das ciências sociais.Sem subestimar a utilidade dessas aproximações, escolhi uma outra: a literatura. Madame de La Fayette, Ingmar Bergman, Philip Roth e Milan Kundera foram os meus guias.»
Alain Finkielkraut.

A literatura que vai à cozinha

por Pedro Correia, em 18.05.17

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 O arroz de favas com galinha corada descrito por Eça no romance A Cidade e as Serras

(foto: blogue Outras Comidas)

 

1

Come-se pouco e mal na literatura portuguesa. E bebe-se ainda pior.

Percorremos centenas e centenas de páginas escritas pelos nossos mais reputados escritores sem deparar com um almocinho homérico ou um jantarinho opíparo. Falta vibração latina aos literatos lusos na hora de comer.

Por motivos que não vêm ao caso, tenho percorrido nas últimas semanas largas dezenas de obras de ficção de autores nacionais sem deparar com uma só refeição memorável. Tirando as excepções da praxe, Eça e Camilo sobretudo, dir-se-ia que os nossos romancistas fizeram votos perpétuos de castidade gastronómica.

Pessoa, Torga, Miguéis, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Régio, Sophia, Namora, Ruben A, Sena, Sttau Monteiro, Abelaira, Urbano, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Santareno, Nuno Bragança: obra após obra, capítulo após capítulo, página após página sem um repasto digno de nota.

O mesmo para Saramago ou Lobo Antunes. De Aquilino, retive sobretudo as trutas – o que me parece coisa pouca.

Já nem menciono os neo-realistas puros e duros - um Redol, um Soeiro, um Manuel da Fonseca – para quem a frugalidade era uma bandeira e qualquer comezaina soava a pecado mortal no Portugal salazarista.

 

2

Desde quando a gula ficou arredada das letras pátrias?

Não era assim na época e na arte de Camilo, que nos legou inesquecíveis parágrafos de volúpia refeiçoeira – como bem documentou José Viale Moutinho na sua obra Camilo Castelo Branco e o Garfo (Âncora Editora, 2013). Ou nas incontáveis incursões de Eça pelos prazeres da boa mesa, culminando na ascensão de Jacinto a Tormes, onde comeu o melhor arroz de favas da sua vida.

 

3

Gostava que a literatura portuguesa se reconciliasse com a gastronomia, seguindo o excelente exemplo desses nossos maiores.

Gostava que nos legasse manjares perpétuos, como a magnífica paelha real invocada por Manuel Vázquez Montalbán no seu romance Os Pássaros do Sul (Los Mares del Sur, 1979) – “a do país autêntico, a que se fazia antes de ter sido corrompida pelos pescadores ao afogarem peixe em refogado”. Com os ingredientes descritos assim: “Meio quilo de arroz, meio coelho, meio frango, um quarto de quilo de bajocons [variedade de feijão verde catalão], dois pimentos, dois tomates, salsa, alhos, açafrão, sal e nada mais. Tudo o resto são estrangeirismos.” Ou as superlativas beringelas gratinadas com gambas e presunto, descritas com minúcia na mesma obra. Tudo regado talvez com um Albariño Fefiñanes, “uma das melhores coisas que nos chegaram através da estrada de Santiago”.

 

4

Gostava que a arte culinária deixasse de ser encarada como um pecado social pelos nossos escritores que cultivam uma prosa ensimesmada e meditabunda, sem vestígios de risos ou alegria. A ditadura passou há muito, mas legou-nos uma atmosfera de clausura que tarda em dissipar-se - como a nossa ficção literária bem demonstra.

Apetece-me pedir aos romancistas: deixem as vossas personagens comer e beber e gargalhar à vontade. Façam como Montalbán. Ou como Rex Stout, um dos mestres maiores da literatura que nunca se fica pela sala ou pelo quarto: entra sempre na cozinha.

"Quando terminámos o sumo das amêijoas, Fritz apareceu com a primeira dose de pastelinhos, quatro para cada um. Um dia gostaria de saber durante quanto tempo conseguiria comer os pastelinhos de Fritz, feitos com tutano de vaca picado, pão ralado, salsa (cebolinho, hoje), casca de limão ralada, sal e ovos, escalfados durante quatro minutos em caldo de carne forte. Se ele os escalfasse todos ao mesmo tempo, ficariam moles depois dos primeiros oito ou dez, mas ele só faz oito de cada vez, e continuam sempre a chegar."

Deliciosas linhas contidas no romance Clientes a Mais (Too Many Clients, 1960). De ler e chorar por mais.

Na morte de B.B.

por Inês Pedrosa, em 11.05.17

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Baptista-Bastos foi um escritor bem bom. Escrita sensorial, a dele - com cheiro, cor, corpo, ritmo. Fulminante na ironia, felino na narração das contradições do tempo e das pessoas, dono um vocabulário preciso, imaginativo e riquíssimo. Quem quiser saber como era o Portugal urbano e pseudo-intelectual amansado pela ditadura tem de passar pelos seus romances. Pareceu-me sempre muito subestimado enquanto romancista, creio que por ser jornalista. Havia (e há ainda, mas não posso dizê-lo porque lá virão umas doutas almas dizer que sou parte interessada) na intelligentzia local um entendimento geral segundo o qual médicos ou professores dão bons romancistas: jornalistas, nunca: sapateiros a quererem ir além da chinela. Esse entendimento era (e é) acirrado pelos próprios camaradas jornalistas, que odeiam os camaradas que escrevem livros, pelo menos enquanto eles próprios não os escreverem também. Reli há meses O Secreto Adeus e Elegia para Um Caixão Vazio e confirmei: resistem ao tempo, à releitura. Lêem-se de um trago, fazem-nos sorrir, pensar. E amar melhor Lisboa, apesar de todas as suas mazelas, ou precisamente por causa delas. B.B. pintava a cidade com engenho e arte.   

"O adjectivo é a prosa a tomar partido", disse-me o BB, era eu uma miúda recém-chegada aos jornais. BB era gentil com a miudagem, e sem paternalismos. A união destas duas características, na época, era rara nos jornais. O Fernando Assis Pacheco e o Fernando Dacosta faziam questão de ser assim: poucos mais. À distância percebe-se como o ser e o escrever afinal se entrelaçam: os atentos, os sensíveis, os disponíveis, os ternos, os cáusticos, os autênticos, eram também os de melhor texto. "Não tenhas medo do adjectivo: o adjectivo é a prosa a tomar partido", repetia, então, o B.B. Respirei fundo, cheia de alegria: passava a vida a ouvir discursos contra os adjectivos proferidos por poderosos jornalistas que tinham chegado aos cabeçalhos da imprensa com um mini-vocabulário de Cartilha Maternal de João de Deus, em versão pornográfica.

B.B. tomava partido: essa era uma das coisas que eu apreciava nele, concordasse ou não (muitas vezes não) com os partidos que ele tomava. Nunca sofreu da famosa má-língua nacional, indústria caseira produzida em barracas clandestinas, mais rápida a estragar fígados do que a produção vinícola. Não praticava aquela cortesia tão portuguesa de esperar que uma pessoa vire costas para começar a falar mal dela. Pegava-se de caras. Amava e odiava sem hipocrisias. Sabia que nada estraga tanto a escrita como a hipocrisia e a videirice. 

B.B. continuará vivo enquanto for lido. Da minha vida não desaparecerá. 

A geração esquecida

por Inês Pedrosa, em 08.05.17

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Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate "é uma chata", sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).

Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir - e na contramão - da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais - dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica - e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.  

O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem - nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na "ciência" da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.

A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração. 

Robert B. Silvers

por Diogo Noivo, em 31.03.17

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Uma greve, trabalho voluntário e um parágrafo. Eis a génese da New York Review of Books. O parágrafo, intitulado "To the Reader", é notável pois mostra que não foi preciso escrever muito para definir as baias de uma das publicações literárias e políticas mais relevantes de sempre. O âmago do pequeno texto, publicado a 1 de Fevereiro de 1963, vive em duas frases: "This issue of The New York Review of Books does not pretend to cover all the books of the season or even all the important ones. Neither time nor space, however, have been spent on books which are trivial in their intentions or venal in their effects, except occasionally to reduce a temporarily inflated reputation or to call attention to a fraud". Simples, despretensioso, e apostado no escrutínio de um mundo onde as vaidades e os nepotismos sempre encontraram solo fértil.
Submetida ao impiedoso teste do tempo, a NYRB modernizou-se sem perder o rigor, o espírito crítico e os critérios nos quais se fundou. O mérito é produto de um trabalho conjunto, mas o timoneiro tem nome: Robert B. Silvers. Editor da publicação desde o momento em que foi criada, Silvers mostrou, como escreve Luis Gago no Babélia, que é possível exercer uma influência indelével em várias gerações de leitores sem escrever ou editar livros. A aversão a entrevistas e a aparições em eventos públicos deveu-se a um entendimento zeloso da missão de editor. “The editor is a middleman. The one thing he should avoid is taking credit. It’s the writer that counts”, disse numa das raríssimas entrevistas que concedeu e que o New York Times citou recentemente.
Para Silvers, a NYRB foi, entre outras coisas, um instrumento para espantar as matilhas unipensantes que vagueiam pelo milieu cultural e político, sem nunca se preocupar em demasia com a reacção dos leitores. Aliás, compaginar a adaptação aos tempos que chegam com o respeito pelos princípios fundadores da publicação é, sem dúvida, uma das características mais louváveis, porque é rara, do lendário editor da NYRB. Outra merecedora de destaque, porque também invulgar, foi a constante preocupação de ter textos legíveis, acessíveis a qualquer leitor, embora nunca permitindo que o trabalho de edição ofusque a complexidade dos temas abordados.
Robert B. Silvers morreu no passado dia 20 de Março. Daniel Mendelsohn refere que Silvers trabalhou até ao fim, com a bonomia e a erudição intactas, ainda que a energia já fosse faltando. “I admire great writers, people with marvelous and beautiful minds, and always hope they will do something special and revealing", disse Silvers. O que ele admirava nos outros fez da NYRB aquilo que é.

Do princípio ao fim (29)

por José António Abreu, em 05.12.16

(O Pedro Correia encerrou oficialmente esta série há pouco mais de uma semana. Não desejo reabri-la, mas não tive coragem para apagar este texto, alinhavado em meados de Novembro.)

 

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Saio dos melhores livros de Virginia Woolf com uma sensação de plenitude. Não recordo uma história, mas sei que o livro fez sentido. Cada frase, cada parágrafo, contribuiu para uma imagem global – e, neste caso, o termo «imagem» não é aleatório – que nenhuma sinopse tem o poder de encapsular. As melhores páginas de Virginia Woolf têm a lógica de uma melodia ou - cá vamos novamente - de uma pintura. Isto não acontece por acaso: Woolf deixou apontamentos que mostram a intencionalidade do efeito. Em The Waves (um livro difícil), a estrutura esforça-se por replicar os padrões do pensamento humano. Em Mrs. Dalloway e, acima de tudo, em To the Lighthouse (Rumo ao Farol), a intenção é mesmo replicar o efeito de uma pintura, na qual os detalhes podem revelar génio bastante para que se pare a analisá-los, mas onde acima de tudo interessa a sensação geral, frequentemente obtida aumentando a distância em relação à tela, num efeito similar a tantos acontecimentos na vida humana. A intenção é tão explícita que Lucie Briscoe, uma das personagens, vai realmente pintando um quadro enquanto observa o que se passa. No parágrafo final, termina-o. Encontrou uma imagem que, podendo não ter interesse nem fazer sentido para qualquer outra pessoa (ou até mesmo para ela, noutro instante), podendo transmitir uma mensagem difícil de aceitar (a da inutilidade da vida, por exemplo), fecha algo; permite um momento de compreensão. E não apenas todos os bons finais são momentos de compreensão como momentos de compreensão são tudo o que se pode desejar de uma pintura, de um livro, da vida.

 

Quickly, as if she were recalled by something over there, she turned to her canvas. There it was - her picture. Yes, with all its greens and blues, its lines running up and across, its attempt at something. It would be hung in the attics, she thought; it would be destroyed. But what did that matter?, she asked herself, taking up her brush again. She looked at the steps; they were empty; she looked at her canvas; it was blurred. With a sudden intensity, as if she saw clear for a second, she draw a line there, in the centre. It was done; it was finished. Yes, she thought, laying down her brush in extreme fatigue, I have had my vision.

(Lamento, mas não tenho uma versão em português.)

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Eduardo Mendoza

Não queria incomodar nem tem feitio para isso. Só queria escrever uma boa história. Escreveu e fez de Los soldados de Cataluña o seu primeiro livro. Para início de conversa, não esteve nada mal. Começou por incomodar a censura franquista, que lhe impôs uma mudança de título – La verdad sobre el caso Savolta, na versão que chegou aos escaparates e que o celebrizou enquanto escritor. Mas, mais importante, esta boa história inaugurou uma nova etapa na literatura espanhola, sendo consensualmente descrita como a primeira novela da Espanha pós-franquista. Em 1975, aos trinta e poucos anos, Eduardo Mendoza consegue com o seu primeiro livro aborrecer o regime – que descreveu o texto como “estúpido e confuso, escrito sem pés nem cabeça” – e provocar uma ruptura no estilo literário espanhol. Tudo isto para quem apenas queria contar uma boa história.
Os anos sucederam-se e os livros também. A ironia fina e certeira, a sobriedade, e a erudição expressa em linguagem simples tornaram-se a marca distintiva da identidade literária de Eduardo Mendoza. Poucas vezes participou em discussões candentes – a reprodução no El País de um discurso sobre a independência da Catalunha é uma das raras e admiráveis excepções. Ao contrário de outros escritores espanhóis, omnipresentes e ferozes no debate político, Mendoza não quis reclamar o estatuto de intelectual público. O que interessa são as histórias e os livros.
Em 2015, quando se assinalaram os 40 anos de La verdad sobre el caso Savolta, a imprensa espanhola dedicou muitas e boas linhas à revisitação de um livro que, segundo o escritor Javier Marías, é um “marco, uma revelação, um grande êxito, uma novidade distinta, e por isso se diz que, na literatura, marcou o início da democracia e a defunção do Franquismo”. Para António Muñoz Molina, “Mendoza não escrevia para submeter a exame as faculdades intelectuais do leitor, nem para lhe mostrar os seus conhecimentos sobre o nouveu roman francês, ou o monólogo interior ou as obscuridades mais difíceis de William Faulkner; não escrevia para doutrinar politicamente o leitor, nem para jactar-se das suas audácias sintácticas e sexuais. Mendonza, como Marsé, embora com recursos muito diferentes, procura a forma de contar, com a maior eficácia possível, uma história que é muito importante para ele, tão importante que decidiu dedicar-lhe um livro longo e complexo que talvez não chegasse a ser publicado”.

 

EduardoMendoza.jpg

 

A obra criou uma ruptura e o autor também. Para Muñoz Molina, Eduardo Mendoza é imune à “arrogância despectiva”, à “postura jactante”, à “desqualificação frívola daquilo de que não se gosta”, vícios predominantes na cultura intelectual espanhola da época, inclusive da anti-franquista. Não é hagiografia. Tive oportunidade de conhecer Eduardo Mendoza na última feira do livro de Madrid. Quando soube desta oportunidade, hesitei. Conhecer pessoalmente alguém que admiramos pode facilmente dar azo a uma decepção descomunal. E, por outro lado, o homem mudou o romance espanhol e eu nunca mudei nada digno de registo. Hesitei, mas lá fui. E ainda bem, porque o gigante é de uma simpatia distendida e desarmante. Falámos dos livros dele, claro. Embora, curiosamente, Mendoza tenha falado deles como entidades independentes, com vida própria, nunca usando o pronome possessivo “meus”. As histórias têm que valer por si. Com alguma vergonha, disse-lhe que comecei a lê-lo pelos livros mais recentes, nomeadamente pela série do detective anónimo, razão pela qual ainda não tinha acabado o Caso Savolta, que aliás levava debaixo do braço. Eduardo Mendoza pede-me o exemplar e na dedicatória da praxe (que muito agradeço e estimo) não refere importância literária ou pessoal do livro, ou mesmo que se trata de um livro. É tão simplesmente uma velha história. Juan Cruz tem razão quando escreve que Eduardo Mendoza é um cavalheiro que não alardeia os seus triunfos nem as suas feridas.
Na semana passada, Eduardo Mendoza foi galardoado com o Prémio Cervantes, habitualmente descrito como o Nobel da Literatura para as letras em espanhol. Tenho quase a certeza que, ao receber o prémio, não dirá que é dele ou dos seus livros, mas sim das histórias que pôde contar.


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