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Uma posição pessoal contra a deriva populista

por João André, em 22.03.16

Hoje de manhã, a caminho do trabalho, vi um carro da polícia a seguir em direcção a Bruxelas. Vinha a ouvir música e não ouvi notícias. Soube depois pelos meus colegas dos ataques. Telefonei de imediato a uma pessoa que é quase família e que trabalha no Parlamento Europeu. Tinha estado na estação de metro apenas 20 minutos antes e a filha deveria apanhar o avião mais tarde. Soube por ela que toda a gente estava bem, inclusive os amigos comuns que vivem em Bruxelas.

 

Apesar de ainda viver na Holanda, trabalho na Bélgica e considero mudar-me para Bruxelas em breve. Isto serve apenas para dizer que não estou emocionalmente descomprometido com a situação, que está também a afectar vários dos meus colegas.

 

Espero no entanto que estes ataques não levem os políticos a darem a vitória aos terroristas. Espero que não levem os britânicos a decidirem votar a favor da saída de UE; que não levem a uma viragem isolacionista e anti-asilo na Alemanha; que não empurrem Geert Wilders e outros populistas (xenófobos convictos ou de ocasião) aos governos dos seus países.

 

Espero que isso não aconteça porque sei que quem sofrerá com isso não serão os terroristas, mas antes aqueles que deles fogem e os próprios europeus, que verão as suas liberdades reduzidas e os pilares da sociedade cada vez mais erodidos. Os números de refugiados poderão até diminuir - o que é discutível: continuarão a vir, a morrer no caminho e a entrar, apenas terão mais dificuldades - mas os terroristas, que usam identidades falsas, viajam de avião ou são recrutados nos próprios países alvo, continuarão a agir como até agora.

 

Não tenho soluções para o problema, ao contrário da matilha de comentadores que irão agora ser ouvidos ou lidos em todos os meios de comunicação social. Tenho apenas um desejo, uma ilusão, se quiserem: que quaisquer que sejam as medidas que se irão seguir, as nossas liberdades e os nossos valores sejam mantidos corajosa e estoicamente, porque é nisto que assenta a nossa sociedade. Nesta discussão, que fique claro onde me posiciono.

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Agora escolha

por Maria Dulce Fernandes, em 27.09.15
Se consciência significa memória e antecipação, é porque consciência é sinónimo de escolha.

Henri Bergson






A angústia invade quer o inquieto,
 exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga,
 quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu,
 quer a mulher apaixonada pelo amor,
 mas incapaz de devir por não saber escolher.[...]
[...]E o insensato, que vem censurar a esta velha o seu bordado, 
sob o pretexto de que ela poderia ter tecido outra coisa,
 demonstra com isso que prefere o nada à criação.

Antoine de Saint-Exupéry









O pensamento isolado não nos liberta, pelo contrário, atraca-nos a vida com grossas amarras no ponto onde a linha do horizonte se embacia ao olhar










É complicado escolher ? É e não é.




Todos os dias fazemos escolhas, que de tão dilutas nas nossas rotinas pouco ou nada nos apercebemos delas. Escolhemos a hora de acordar, o que vestir, o que calçar, o que comer, se tomamos a medicação para a tensão arterial ou para a artrite...

Todas as escolhas que fazemos são forjadas no nosso livre arbítrio, na liberdade de poder dizer, de poder fazer, de poder pensar.

Temos vontade própria e alforria de ideais e ideias. 
É certo que somos gregários e que as sociedades nos impõem as suas leis. Mas no epílogo das nossas decisões, as escolhas foram sempre nossas.
Qualquer acção e consequente reacção, mais não foram do que consequências das nossas decisões.








Podemos fugir do medo
Podemos ficar e combatê-lo
Podemos viver com medo
Podemos morrer a combatê-lo

Chegará o momento de olhar para ver
Ver com olhos de ver
E escolher
Escolhi viver sem medo
O medo manieta a liberdade
Sou livre
Vou à luta. Optei por lutar

Escolhi assim




( Todas as fotos de MD Roque)




                                                    

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Ética pública 2.0

por João André, em 26.01.15

Este post do Rui lembrou-me uma outra questão que surgiu há uns tempos em Inglaterra. Um jogador de futebol fora condenado a prisão por violação e, após ser libertado condicionalmente, o antigo clube considerou recontratá-lo. Ora, Jessica Ennis, cujo nome adorna uma das bancadas do estádio, avisou que exigiria que o seu nome fosse retirado caso Ched Evans (assim se chama o futebolista) voltasse ao clube. O resultado é que recebeu uma avalanche de insultos e ameaças no twitter. Quando os trolls foram por seu turno condenados - e é aqui que queria chegar - defenderam-se com a "liberdade de expressão".

 

O caso que o Rui invoca é semelhante. Na idade das redes sociais, o insulto e a ameaça - mesmo que vazia - pode ser feito de forma anónima (ou quase), directa e pública. As leis dos vários países contemplam a possibilidade de condenação por injúria, mas a fronteira entre esta e a liberdade de expressão é relativamente ténue (e daí os muitos casos de processos contra jornais). Se quando os media estão envolvidos no assunto há sempre especialistas em liberdade de expressão presentes (juristas, os próprios jornalistas, editores, etc), já no caso das redes sociais isto não é o caso.

 

Infelizmente, apesar de termos presente o conceito básico que desconhecimento de uma lei não pode ser apresentado como defesa, a verdade é que não há uma educação real dos jovens em relação ao que significa liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito à privacidade, direito à honra, etc. A maior parte dos jovens entendem a liberdade de expressão como a liberdade de dizer aquilo que bem lhes apetecer e nem sequer entendem a diferença entre as liberdades de expressão e de imprensa (nem a forma como a imprensa tem certos direitos e deveres naquilo que reporta).

 

Neste mundo digitalizado, 2.0 se quisermos, falta a educação que não o torne num wild west. Não falo necessariamente de regulamentos, esses já existem ao nível civil, mas talvez de uma discussão que permita a sua adequação ao mundo em que vivemos hoje. Não precisamos de alguém que ande a correr a net em busca de trolls, mas se eu quiser atacar alguém, necessito de saber (eu e o meu alvo) quais os limites para o meu ataque. E o meu alvo necessita também de saber quais os mecanismos de defesa à sua disposição.

 

É normal que as revoluções tecnológicas apanhem a sociedade desprevenida. Sempre assim foi e sempre assim será. O necessário é fazer avançar o debate para que esta possa alcançar a tecnologia.

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O Islão e a Europa (2)

por João André, em 10.01.15

O meu post anterior fazia referência às perspectivas sobre as causas do terrorismo ou à ausência de vontade para as compreender. Neste abordo outro aspecto: a percepção da "ameaça islamista" na Europa.

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Na minha opinião, um dos cartoons mais relevantes que foi publicado na sequência do ataque foi o que está acima. Porquê? Porque as reacções ocidentais (especialmente as europeias) irão no sentido de apontar dedos (quando não outras extremidades mais sinistras) aos muçulmanos. Não é difícil imaginar Marine Le Pen e outros da mesma laia a salivarem-se de antecipação. Estes ataques são para eles uma profecia que se cumpre: a Europa está a ficar islamizada e os muçulmanos não só não se integram como são altamente hostir aos valores ocidentais.

 

Só que não é assim, pelo menos acreditando neste gráfico da Al-Jazeera, perdão, do Economist. Aparentemente nem a Europa está a islamizar-se tanto quanto se pensa nem há assim tantos riscos quanto isso. Os independentistas parecem ser mais perigosos que os islamistas.

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Porque razão esta disparidade (se me permitem que tente reflectir)? Bom, parece simples: pelas mesmas razões que referi antes. É mais simples hostilizar alguém que parece ter diferenças fundamentais em relação a nós (religião, cultura, cor, hábitos alimentares, vestuário, etc) do que aqueles que parecem perfeitamente iguais, ao ponto de não se compreender os motivos da violência (compare-se a diferença entre um árabe e um europeu e a que existe entre um basco e um andaluz).

 

E é este o perigo do populismo: reduz os temas que lhe interessam às questões que lhes interessam. Na Alemanha o Pegida nasceu em zonas onde os muçulmanos estão menos presentes. Na Suíça foram aprovados referendos que não só nasciam de falsas questões (há pouquíssimos minaretes no país) como eram prejudiciais ao país (pelo menos se os governantes e a UE não encontrarem soluções intermédias). A única solução para este problema é acção civil e informação. Na Alemanha, por exemplo, as contra-manifestações têm tido enorme sucesso. Faltaria uma mentalidade semelhante noutros países. É por isso que este movimento é tão importante como o Je suis Charlie. De certa forma, é mais importante.

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O humor é uma arma

por João André, em 08.01.15

O humor é uma arma poderosa. Tão poderosa que não importa se é bom ou mau, se faz rir muitos ou poucos, se é politicamente empenhado ou enternecedoramente naïf. É tão poderosa que talvez só a religião se lhe compare e, consequentemente, se lhe oponha mais fortemente que qualquer outra vertente ideológica ou política.

 

O ataque de ontem ao Charlie Hebdo não é um ataque a uma publicação, a um conjunto de cartoonistas ou, "simplesmente" à liberdade. É um ataque ao humor. É que se muitos meios podem ser usados para transmitir as imagens de Maomé que enfurece os muçulmanos, apenas o humor transmite, de forma rápida e eficaz, a mensagem que se quer fazer passar. O melhor post que li até agora sobre este assunto foi o do nosso José Navarro de Andrade. Como ele, eu não gostava dos cartoons do Charlie Hebdo, os quais me pareciam subverter o propósito de um cartoon: "rir-provocar-pensar". Frequentemente começavam com a parte de provocar e não era claro que fizessem rir. Mas, como há uns anos num posto do Daniel Oliveira no Barnabé intitulado - creio - "Kit Páscoa", defendo que o humor não deve conhecer fronteiras e que é quase sempre ofensivo para alguém. Desde que não promova violência - física ou outra - qualquer cartoon deve ser publicado.

 

E, num dia em que se lamenta o ataque aos cartoonistas do Charlie, convém lembrar que estes foram "apenas" os mais violentos de uma corrente frequente. Na Turquia os cartoonistas estão sob mira de Erdoğan. No passado o humor em Espanha foi suprimido aquando da publicação de cartoons sobre a Casa Real. Em Portugal, e recuando ao passado, lembro-me de houve a censura ao Humor de Perdição.

 

Sim, a liberdade é importante, mas mais ainda que a liberdade de imprensa, a liberdade de humor é para mim fundamental. É que se uma imprensa amordaçada encontra formas de se rebelar, um mundo sem humor está a caminho da morte.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 07.01.15

Este é o maior problema da Europa actual: a liberdade seriamente condicionada pelos seus mais encarniçados inimigos. Paris, outrora Cidade-Luz, é hoje cidade ensanguentada pelo fanatismo mais extremista.

Somos todos, a partir de agora, um pouco menos livres. E trocaremos cada vez mais parcelas de liberdade em troca de segurança. Dilema ilusório. Porque nos alicerces da nossa civilização - que o terrorismo islâmico combate sem tréguas - liberdade e segurança são conceitos indissociáveis. Um não faz sentido sem o outro.

Hoje estamos todos mais inseguros e menos livres. É um dia de júbilo para os cultores da barbárie, que não estão algures em parte incerta.

Estão aqui, no meio de nós.

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A inapagável palavra Liberdade

por Pedro Correia, em 08.11.14

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«Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.»

 

 

Eu fui lá e vi.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.

Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.

Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.

 

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Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro - na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.

Símbolo sinistro da Guerra Fria.

Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.

 

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Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.

Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter der Linden, a maior avenida de Berlim.

Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, "burguesa" e "capitalista".

Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.

Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.

Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim - que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade - e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.

No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.

Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.

 

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Foi o meu baptismo do "socialismo real" no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã - que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.

No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.

Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste - a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.

Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o "muro de protecção antifascista" mandado erguer por Nikita Krutchov "a pedido" do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.

De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.

Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.

O primeiro foi um operário de 18 anos chamado Peter Fechter. O último - escassos sete meses antes da queda do muro - foi um estudante de 20 anos chamado Chris Gueffroy.

Só por terem ousado ser livres.

 

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Às vezes não há como ver para descrer.

Eu fui lá e vi.

Faz amanhã 25 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»

Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.

Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.

A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.

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Sem fotos nem vídeos

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.09.14

A propósito da divulgação não autorizada de fotos e vídeos sacados de um servidor virtual, penso ser assim que se diz, o jornal i colocou esta manhã na sua primeira página a pergunta que todos devem fazer: "Punha num servidor algures e de borla as fotos da sua intimidade?".

Não discuto o direito que cada um tem de tirar fotografias e de fazer vídeos em pelota, nas mais variadas posições e com os parceiros que muito bem entender, fazendo o que muito bem lhe apetecer. Isso faz parte da vida de cada um, da sua esfera privada, da sua intimidade.

Como não discuto que haja gente mais ou menos narcísica, que gosta de se admirar em fotos, em filmes, fazendo poses, dando cambalhotas ou exibindo as suas protuberâncias. E não faço distinção entre novos e velhos. Cada um é como é. E pode ter os gostos e hábitos que entender, mesmo que não sejam saudáveis na perspectiva de quem vê, desde que essa seja a sua opção, a escolha seja consciente e responsável e os seus gostos ou vícios privados não contendam com a minha liberdade ou não interfiram com a vida de terceiros. A mim, mesmo sendo um "conservador social-democrata liberal de esquerda não-marxista", seja lá o que isso for ou o rótulo que me ponham, nada me escandaliza. A vacuidade, a ignorância e a estupidez sim, incomodam-me. Mas quanto a isso também pouco posso fazer relativamente aos outros, ainda que em relação à minha pessoa tenha a obrigação de exigir mais e melhor, informando-me e procurando cultivar-me.

Se me perguntarem se acho bem que cada um faça o que lhe apetecer, acho óptimo, sendo-me indiferente o que fazem desde que não me perturbem. E se quiserem andar nus pelas nuvens e arquivar na rede os seus orgasmos para mais tarde recordarem é problema deles. Mas, respondendo à pergunta que o i sensatamente coloca, a minha resposta seria obviamente não, mesmo que no meu íntimo sentisse uma incontrolável necessidade de me fazer fotografar com Isabella Ragonese para não me esquecer de como era a diva e fazer sucesso junto dos amigos. A não ser, hipótese que admito, que confiasse cegamente nas novas tecnologias e tivesse interesse em entregar a guarda das minhas intimidades a terceiros que desconheço quem sejam, nem o que podem fazer com a minha informação.

Por muito retrógrado que seja, uma coisa é guardar artigos científicos na nuvem, outra será ser famoso e andar nu pela nuvem, quer dizer, pela casa, aproveitando para conviver com quem aparece, sem saber quem tem acesso à "casa", isto é, à nuvem, nem quando nem como, sempre com as janelas escancaradas e a luz acesa. E outra, ainda bem diferente, será ir para a janela em pêlo para ver a vista e aproveitar para mostrar as mamas e o rabo, fazendo de conta de que não há vizinhos, que na rua não passa ninguém, que ninguém boceja nas varandas ou que não aproveita o momento para tirar fotografias ao pôr-do-sol.

De qualquer forma, em conclusão, e porque me limito a expressar o que penso sujeitando-me naturalmente à crítica, e independentemente de há muitos anos ter escrito e defendido a introdução da cidadania digital, acabando com o anonimato na rede e tornando-a num espaço efectivo de liberdade e responsabilidade, entendo que todas as violações da privacidade devem ser severamente punidas, mas que quem quiser defender a sua terá de ser o primeiro a protegê-la, não se expondo ao voyeurismo alheio e não colocando a sua estupidez à mercê da intromissão de terceiros. Enquanto for possível andar nu e invisível pela Internet será difícil proteger a privacidade de quem nela se expõe, também a de cada um de nós, que é como quem diz a nossa própria liberdade. Ricos, famosos, exibicionistas e estúpidos incluídos, que nessa matéria, como em quase tudo nesta vida, não faço discriminações.

 

P.S. Penso que por aqui também respondo a quem há dias, a propósito de um comentário a uma entrevista de um companheiro de blogue, perguntava qual era o meu sentido da liberdade. Em termos resumidos é o que aqui fica.

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É pena que a Laura não perceba nada de suspensórios...

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.08.14

... Pois que, quanto ao resto, a rapariga até não esteve mal. E a ti, Adolfo, havendo muita coisa discutível, bastou-te uma frase para estares bem melhor: Freedom is the most important political value for me. It comes before anything else"

Esta é a frase que muita gente, à direita e à esquerda, no teu e no meu partido, e pelo que se lê nas caixas de comentários de muitos blogues, continua a não entender. É ela que marca as diferenças; mas é também por causa dela, apesar dessas diferenças, que aqui continuamos.

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Penso rápido (20)

por Pedro Correia, em 09.07.14

Quando dei os primeiros passos numa profissão que exerci durante 30 anos, os jornalistas eram poucos e os órgãos de informação eram muitos. Mesmo sem novas tecnologias e redes digitais.
Hoje os jornalistas são muitos e os órgãos de informação são cada vez menos. Mais insólito ainda: apesar de serem muitos, os jornalistas não chegam para as encomendas pois passam o dia agarrados às "plataformas multimédia", acorrentados a linhas de montagem. Como Chaplin em Tempos Modernos. Tão acorrentados que mal saem do local de trabalho. Como se não houvesse mundo fora das quatro paredes da redacção. O mundo real é substituído pelo mundo virtual. E a visão fica cada vez mais desfocada. E processa-se cada vez mais em sentido único. O que diz um, dizem todos. O que um mostra, todos mostram.
Todos diferentes, todos iguais. O pluralismo é cada vez mais estreito. Outro paradoxo do nosso tempo, aparentemente tão livre.

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Freedom

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.14

 

We must be free not because we claim freedom, but because we practice it
William Faulkner, November 11, 1955

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Antes ir ao encontro dela do que "de encontro"...

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

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Livre 'ma non troppo'

por Pedro Correia, em 11.02.14

Rui Tavares, o principal mentor do partido Livre, é desde 2009 deputado no Parlamento Europeu. Que tem sede na Bélgica, uma monarquia.

Mas no Livre "não há lugar para posições monárquicas".

Ficamos todos a saber qual o conceito de liberdade do Livre. É idêntica ao do Clube do Bolinha. Menina não entra - se for monárquica.

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Mandela

por Patrícia Reis, em 05.12.13

 

Nelson Mandela. 27 anos numa prisão com direito a uma visita por ano. Considerado um terrorista por Thatcher e Reagan. Mandela um nome que equivale a liberdade.

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Mudam-se os tempos

por Ana Vidal, em 21.06.13


É emocionante ver como as questões ideológicas, pelas quais tanto se matou desde sempre em todo o mundo, estão a ficar ultrapassadas e afastadas do essencial das lutas dos homens. Seja em regimes de esquerda ou de direita, por todo o lado os povos saem à rua em protesto contra aquilo que é transversal a todos esses regimes: a falta de liberdade de expressão, as injustiças e desigualdades sociais, a corrupção, os abusos de poder, a degradação das condições de vida, a negação do direito a um futuro melhor para os filhos. Chamem-me utópica, mas parece-me um sinal claro de que a humanidade está a evoluir, a conquistar a sua maturidade. A exigir que seja respeitada a sua impressão digital e a fazê-lo com voz própria, sem intermediários. E fico feliz por viver numa época em que este passo é visível.

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Compromisso entre segurança e liberdade

por João André, em 17.06.13

Nas democracias costuma haver a figura de imunidade parlamentar. Tanto quanto julgo saber, e apesar das diferenças entre sistemas, esta serve para proteger os deputados de consequências das suas acções em exercício das suas funções. Quando as acções são julgadas como potencialmente criminosas, os paralmentos podem então levantar essa imunidade para permitir o julgamento. Penso que, no essencial, será este o conceito.

 

Lembrei-me da imunidade parlamentar quando li este artigo do José Vítor Malheiros no Público acerca do PRISM (o programa secreto de recolha de metadados telefónicos e electrónicos). E porque razão me lembrei dele? Porque o princípio é o mesmo: o cidadão/deputado é à partida considerado como não sendo criminoso.

 

Não irei debater a famosa questão de quem "guarda os guardiões". Essa questão é essencialmente filosófica e política. Penso apenas no princípio civilizacional da liberdade: como se pode defender uma liberdade quando a mesma é violada? Do meu ponto de vista isso não é possível. O essencial numa sociedade é que os seus cidadãos possam agir sem constrangimentos, independentemente das suas preferências. Um acto que é perfeitamente aceite por um indivíduo pode não o ser por outro. A possibilidade de verificar esse acto retira a liberdade a quem o queira praticar.

 

Imaginem-se duas situações.

 

1. Indivíduo A é verdadeiramente frustrado. Odeia o chefe, tem questões pessoais mal resolvidas, se calhar bebe uns copos a mais. Todos conhecemos gente assim, certo? Imaginemos que, um dia, furioso por uma coisa ou outra, manda um e-mail a um amigo onde escreve "Estou a pensar em comprar adubo para fazer uma bomba e rebentar com o Parlamento. Na Net encontram-se receitas para isso". no dia seguinte não se lembra sequer da estupidez (ou lembra-se mas, aliviado, nem liga à palermice). Dois dias depois aparece-lhe a polícia em casa, algema-o e leva-o por uns tempos para interrogatório, mais ou menos suave.

 

2. Indivíduo A quer um dia cometer um acto terrorista e planeia tudo nesse sentido. Vai cometê-lo se deixado em paz. Para manter a fachada estabelece uma relação normal com colegas, vizinhos e amigos. Um deles é um amigo (assumamos que existem ligações pessoais entre eles) que vai recebendo uns e-mails com piadas ou anedotas, tudo inócuo. Todos os dias os recebe. Também combinam para se encontrar com regularidade e costumam ligar um ao outro aproximadamente à mesma hora do mesmo dia da semana, todas as semanas. Tudo inocente. Um dia, o amigo é detido pela polícia por ligações a um conhecido terrorista.

 

Será isto correcto? Parece-me (a mim) evidente que não. Os metadados podem ser mal interpretados. Se existirem dados reais de comunicação, também. Não há capacidade em termos de pessoal para fazer uma investigação correcta. Os programas que monitorem a comunicação podem ser facilmente enganados (nos dois sentidos). A única solução é a de dar liberdade aos cidadãos sabendo que disso decorrem riscos para a segurança. É o compromisso. Prefiro esse à alternativa.

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Cravo

por Patrícia Reis, em 25.04.12

Hoje é o dia da Liberdade. Dos cravos e das canções do Zeca Afonso e da voz de Paulo de Carvalho. Hoje é o dia que não pode  ser esquecido porque, afinal, vivemos há menos tempo em democracia do que vivemos sem ela.

Liberdade tem vários sinónimos, um deles é reciprocidade, paridade, o ser para os outros na mesma medida em que são para nós. Não há gavetas e caixinhas. Liberdade são pessoas, rostos de todos os feitios e formatos, que podem conversar e sorrir.

Este dia é, todos os anos, um dia feliz. Hoje será um pouco menos porque uma mãe perdeu um filho e esse filho amava, tanto quanto a mãe, a liberdade ganha. Não está cá para a celebrar. Assim, quando for à feira do livro, logo à tarde (se São Pedro ajudar) levarei um cravo pela Helena, pelo Miguel e por todos os que não o podem trazer ao peito. Em sinal de que a memória não se apaga nunca. 

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No silêncio, entre cadáveres

por Pedro Correia, em 05.04.12
Albert Camus escreveu um dos mais fabulosos textos que conheço para uma alocução proferida em Novembro de 1948, num encontro internacional de escritores. Este texto, intitulado "O Testemunho da Liberdade", tem uma espantosa actualidade perante os vertiginosos acontecimentos que se sucedem no mundo de hoje. É uma reflexão que devia constituir uma espécie de código de conduta para todos os intelectuais contemporâneos.
Passo a transcrever alguns trechos*:

"Os verdadeiros artistas não dão bons vencedores políticos, pois são incapazes de aceitar levianamente, ah, isso sei eu bem, a morte do adversário! Estão do lado da vida, não da morte. São os testemunhos da carne, não da lei. (...) No mundo da condenação à morte, que é o nosso, os artistas testemunham o que no homem é recusa de morrer. Inimigos de ninguém, a não ser dos carrascos! (...) Um dia virá em que todos o hão-de reconhecer e, respeitadores das nossas diferenças, os mais válidos de nós deixarão então de se dilacerar, como hoje o fazem. Hão-de reconhecer que a sua profunda vocação é a de defender até ao fim o direito dos seus adversários a não terem a mesma opinião que eles. Hão-de proclamar, consoante o seu estado, que mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres."

Hoje, mais que nunca, estas palavras devem merecer-nos profunda meditação.

* Tradução (excelente) de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes para a editora Contexto (2001)

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USSR: sugestões para pôr a bandeira?

por João Carvalho, em 11.02.12

 

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Não há paz sem liberdade

por Pedro Correia, em 15.01.12

 

Não há paz sem liberdade. E não há liberdade sem esperança. Um político de excepção vislumbra motivos de esperança mesmo entres os clarins da guerra. Um desses políticos foi Abraham Lincoln, autor da mais memorável mensagem de esperança, proferida em plena Guerra Civil norte-americana, a 19 de Novembro de 1863.

Foi o chamado Discurso de Gettysburg: demorou apenas cerca de três minutos. Três parágrafos, 255 palavras - não era necessária nenhuma mais. As forças da União haviam ali derrotado quatro meses antes o insurgente exército confederado do Sul que se batia contra a abolição do esclavagismo, cortando amarras com a política humanista do Norte. Mas Lincoln, embora galvanizado por essa vitória militar recente, pôs de lado a retórica triunfalista e deixou no cemitério local um apelo digno de um estadista: "Compete-nos a nós, os sobreviventes, garantir que aqueles que caíram no campo de batalha não morreram em vão e que nesta nação, sob os auspícios de Deus, renasça a liberdade - e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareça da face da Terra."

Cem anos mais tarde, este discurso teria sequência num outro, proferido junto ao Memorial Lincoln, em Washington, por Martin Luther King. "Tenho o sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o significado autêntico do seu credo -- termos por verdade evidente que todos os homens foram criados iguais. Tenho um sonho -- o sonho de que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos donos de escravos se sentarão juntos à mesa da fraternidade", declarou o reverendo justamente distinguido em 1964 com o Nobel da Paz.

No tempo de Abraham Lincoln ainda não havia Nobel. Mas ele tê-lo-ia merecido, mais do que todos os presidentes americanos que viriam a ser galardoados no século e meio seguinte -- de Theodore Roosevelt a Barack Obama. Pela força inspiradora do seu exemplo. Pela eloquência dos seus vibrantes apelos em defesa da dignidade humana. Pela tenacidade e pela coragem de que deu provas no cumprimento de um ideal: nenhum ser humano merece ser condenado à escravatura. Um ideal que lhe custou a vida: Lincoln viria a ser assassinado em 1865. Mas o seu apelo de Gettysburg ainda hoje ecoa -- nos Estados Unidos e no mundo.

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Imagem: Luther King no Memorial de Lincoln, em Washington (1963)

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