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À mercê da ira de um deus menor

por Pedro Correia, em 14.04.16

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Durante anos, o cargo de director de jornal funcionava como patamar supremo da profissão, a que apenas uns poucos acediam. Mas funcionava também como um patamar de estabilidade: um director tornava-se o rosto da publicação que liderava, dava-lhe o cunho da sua personalidade, imprimia-lhe o seu estilo. Desde logo porque tinha tempo e espaço para isso.

Sei bem do que falo. Trabalhei com excelentes directores, de quem guardo gratas memórias – grandes profissionais, como o Vicente Jorge Silva, o Joaquim Vieira ou o Mário Bettencourt Resendes, só para mencionar três exemplos.

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, "os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente".

 

Escrevo estas linhas a propósito da saída de Helena Garrido da direcção do Jornal de Negócios. Como é costume nos meios informativos actuais, em que se esconde muito mais do que se revela, quase nada se divulgou sobre as causas desta inesperada substituição, para mim injustificável. Há um comunicado lacónico em que se dá nota da mudança, anuncia-se o nome do sucessor e a orquestra continua a tocar. Como se a curiosidade jornalística embatesse nesse poderoso tabu que é o escrutínio do próprio jornalismo.

Conheço a Helena Garrido, trabalhei com ela no Diário de Notícias e enquanto leitor atento faço uma avaliação muito positiva do seu mandato como directora do Negócios. Despediu-se com um “Até sempre”, num texto sucinto e digno. É uma partida que lamento.

 

Ela dirigia o Negócios desde Novembro de 2013: manteve-se durante dois anos e quatro meses. Pode não parecer, mas aguentou acima da média actual nos cargos directivos dos media portugueses. Dos 22 directores dos órgãos de informação de carácter nacional (televisão, rádio, jornais e agência noticiosa), só cinco ocupam essas funções há mais de três anos. E metade iniciou-as desde Março de 2015, o que diz muito sobre a instabilidade do cargo. Apenas um ultrapassou a década como director: Vítor Serpa, que lidera A Bola desde 1992. Algo impensável em qualquer outro jornal.

Embora a grande distância deste caso único, é já considerável a longevidade no exercício do cargo de Octávio Ribeiro (que dirige o Correio da Manhã desde Março de 2007), Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009) e Bárbara Reis (que iniciou as actuais funções no Público em Novembro de 2009). Depois vieram José Manuel Ribeiro (director do diário O Jogo desde Maio de 2011) e Rui Hortelão (à frente da revista Sábado desde Novembro de 2013).

 

Os restantes 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) têm directores há menos de dois anos.

Vou mencioná-los por ordem cronológica de entrada em cena: André Macedo (Diário de Notícias, Setembro de 2014); António Magalhães (Record, Setembro de 2014); Afonso Camões (Jornal de Notícias, Outubro de 2014); Sérgio Figueiredo (TVI, Janeiro de 2015); Paulo Dentinho (RTP, Março de 2015); João Paulo Baltazar (Antena 1, Março de 2015); João Garcia (Visão, Junho de 2015); Pedro Camacho (Lusa, Outubro de 2015); Mário Ramires (Sol e i, Dezembro de 2015); Miguel Pinheiro (Observador, Fevereiro de 2016); David Dinis (TSF, Março de 2016); Pedro Santos Guerreiro (Expresso, Março de 2016); Ricardo Costa (SIC, Março de 2016); e Raul Vaz prepara-se para ficar à frente do Negócios. Transitando do Diário Económico, que dirigia desde Abril de 2015. Entretanto o Económico, agora só na versão digital, passou a ter direcção conjunta de Filipe Alves e Mónica Silvares. Por tempo incerto.

Vários deles, imitando Sísifo, empurram a pedra montanha acima - esforço inglório de heróis precários à mercê da ira de um deus menor.

 

Leitura complementar: Homens e mulheres para queimar

Tão longe e tão perto, Zé Paulo

por Pedro Correia, em 13.04.16

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Sentimos que começamos a envelhecer quando cada vez mais gente à nossa volta nos trata por você em vez de tratar por tu. Na segunda-feira despedi-me de uma pessoa que me tratava por tu há 33 anos - outra pessoa que parte cedo de mais, outra pessoa com quem ficaram tantas conversas por partilhar. Foi o José Paulo Canelas, um grande profissional do jornalismo, um amigo de décadas.

 

Éramos absurdamente novos, absolutamente infatigáveis, ingenuamente crentes de que seríamos capazes de tornar realidade todos os sonhos. Eu editava na altura o segundo caderno do semanário Tempo, um dos jornais com maior tiragem à época, e havia decidido remodelá-lo alterando-lhe o grafismo e até o nome - passou a chamar-se Fim de Semana. Obtive luz verde da direcção para contratar novos colaboradores e colunistas - de uma geração mais jovem e com uma linguagem mais arejada e dinâmica.

Entrou assim em cena o José Paulo, que passou a ter a seu cargo duas páginas de temas desportivos - era já então a área que preferia. Trabalhámos juntos, semana a semana, durante quase três anos: posso garantir que foi um dos raros colaboradores que não falharam um prazo. Oferecia sempre mais do que lhe era pedido em textos que me chegavam irrepreensíveis às mãos - ao contrário de outros, que precisavam de ser profundamente alterados ou mesmo refeitos de alto a baixo após julgamento sumário e condenação à guilhotina.

Finda esta experiência, reencontrámo-nos durante alguns meses na revista Nova Gente, onde fui um fugaz subchefe de Redacção. Trabalhávamos imenso mas divertíamo-nos na mesma proporção naquela indescritível cave em Queluz onde não decorria um dia sem um toque surreal. Com histórias que davam para um bom livro, garanto-vos. Ou para trechos de filmes de um Buñuel ou um Fellini.

 

Depois os nossos destinos separaram-se. Eu saí de Portugal, andei dez anos por fora, cumpri o sonho de dar a volta ao mundo. Ele seguiu a rota do jornalismo desportivo, para a qual tinha genuína vocação: passou pela Gazeta dos Desportos e pelo Record, e chegou a subdirector do diário O Jogo. Como sucede a quase todos nós, sucedeu-lhe então uma inesperada alteração de rota, especializando-se noutra área do jornalismo: chegou a director da revista TV 7 Dias e era agora subdirector da TV Guia, embora em situação de baixa há cerca de um ano.

Foi quando exercia funções directivas n' O Jogo que, estando eu de regresso ao País e sem trabalho, recebi um telefonema dele a convidar-me para editor do jornal em Lisboa. Algo que jamais esqueci, jamais esquecerei. Só quem nunca passou pelo desemprego é incapaz de avaliar a importância destes gestos.

 

Na igreja do Santo Condestável, ao princípio da tarde de segunda-feira, dizia-me o Fernando Sousa, seu primo-irmão, que o José Paulo Canelas, por mais atarefado que andasse, nunca perdia de vista os amigos e tentava sempre ajudá-los. Sou testemunha directa desta generosidade. Sempre discreta, muito à maneira tímida dele, quase como se precisasse de pedir licença para nos mostrar que tinha um coração enorme.

Naquele momento triste, reencontrando após tantos anos parte da "minha" equipa da Nova Gente, foi possível sorrirmos juntos ao lembrarmos episódios irrepetíveis em que fomos protagonistas. O espírito do Zé Paulo permanecia intacto, ali connosco.

Por breves instantes, inspirados por ele, voltámos a ser miúdos outra vez. De uma alegria contagiante, de uma energia inesgotável, com a sensação de que não há metas impossíveis e temos um tempo sem limite pela frente.

Tratamo-nos todos por tu e combinámos jantar. O Zé Paulo vai lá estar também.

Presidenciais (26)

por Pedro Correia, em 12.01.16

Oiço comentadores televisivos, muito enojados, defendendo a discriminação entre candidatos presidenciais. Do alto das suas tribunas na pantalha, onde quase nunca têm nada de relevante a dizer, alguns destes comentadores, incluindo jornalistas, proclamam ao País que vários desses candidatos não deviam ter concorrido e que é uma maçada os órgãos de informação terem o dever deontológico de acompanhar minimamente todas as campanhas no terreno.

Facto notável, este: ouvir jornalistas a defender a discriminação. Com todas as letras.

Um desses jornalistas/comentadores chegou ao ponto de defender que jornais e televisões deviam seleccionar a cobertura desta corrida presidencial em função do que dizem as sondagens, ignorando tudo quanto não se encontrar "bem posicionado" nos inquéritos de opinião. Trata-se, por sinal, da mesma figura que anda há anos a clamar pela necessidade de haver "profundas alterações" na política portuguesa, com novos rostos e novos nomes.

Escuto outra, eleição após eleição, suspirando de nostalgia: antigamente, sustenta esta, é que havia campanhas políticas feitas de emoção e com personalidades de altíssimo nível. Esquece que nessa altura ela própria já falava assim das anteriores. Para certas criaturas o tempo óptimo é sempre aquele que ficou para trás. Um dia dirão isso mesmo do tempo actual.

Adoro estas certezas de geometria variável, sempre sujeitas aos ventos dominantes. Alguns, quanto mais apelos fazem à mudança, mais desejam que nada mude.

José Rodrigues dos Santos!!!!

por Patrícia Reis, em 08.10.15

Ontem, Telejornal da RTP, 20h42, peça sobre os novos deputados na Assembleia da República pós eleições de 4 de Outubro. José Rodrigues dos Santos, que terá mérito em muitos dos trabalhos feitos ao longos dos anos, diz algo absolutamente impensável, ofensivo, deontologicamente questionável, sem qualquer hesitação: "o deputado Alexandre Quintanilha foi eleito ou eleita..." vou repetir, para quem possa estar distraído: ELEITA!
Se Portugal fosse um país com coluna vertebral, se estivéssemos porventura nos EUA, havia um pedido de desculpa formal e este senhor seria despedido. Por favor, partilhem, vejam, comentem como entenderem. É preciso entender que há uma dimensão de serviço público, há jornalismo e depois há preconceitos, falso humor que nunca foi jornalismo (pese o facto de estar na moda ter humoristas a fazer de jornalistas dentro e fora do país). Não sou amiga de Alexandre Quintanilha, sou amiga do marido, Richard Zimler, porém tenho uma enorme admiração pelo percurso deste homem que tanto tem ensinado a muitas gerações. Podia ser outra pessoa qualquer? Podia. José Rodrigues dos Santos não tem este direito, nem como jornalista, nem como cidadão com visibilidade pública. Lamento, ganhei um inimigo? Não lamento nada, o senhor que vá para casa escrever romances que muitas pessoas comprarão e serão felizes assim. Aí pode tecer as suas considerações à vontade. Já se sabe que a escrita permite tudo, ou quase tudo. O jornalismo não.

"A eleição que ninguém quer ganhar"

por Helena Sacadura Cabral, em 31.08.15

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Durante o mês de Agosto o Diário de Notícias, que voltei a ler, publicou uma série de textos de ficção política que me fizeram lembrar, muito, outros que sob matérias diversas o Monde também publicou. Chamava-se "A eleição que ninguem quer ganhar" e, só título, já dizia quase tudo!

Se escrever sobre a realidade já é um exercício de “fino trato”, fazê-lo sobre o imaginário, com requintes de autenticidade, é um enorme teste à qualidade jornalística do autor.

Durante todo este tempo em que li aqueles exercícios - e com os quais cheguei a dar boas gargalhadas – admiti várias hipóteses para a sua autoria. Uma delas foi Ferreira Fernandes, nome que acabo de confirmar e que, sem qualquer sombra de dúvida, é um dos grandes da nossa imprensa.

Tão importante é, que nos quadrantes em que movo, nunca ouvi uma opinião negativa a seu respeito. Mas, a meu ver, o que nele é absolutamente excepcional é a sua capacidade de – exercendo simultaneamente a profissão e a cidadania – criticar sem liquidar e sem ofender.

Ter em Portugal, nos dias de hoje, essa enorme ousadia e vê-la publicamente reconhecida é algo que merece o maior elogio.

Bem haja, Ferreira Fernandes, pelos deliciosos momentos que, no DN, me fez e faz passar. Volte depressa!

Os patriarcas (2)

por Pedro Correia, em 15.07.15

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FERNANDO CORREIA

 

Há vozes que nos acompanham desde a infância: são elas que nos vão transmitindo a convicção de que não existem saltos bruscos no tempo mas uma perpétua linha de continuidade da madrugada ao crepúsculo da existência. Vozes treinadas, bem timbradas, em que cada sílada se entende. Vozes de um tempo que já não é bem este - cheio de gente a arfar aos microfones, incapaz de fazer pausas no momento certo, com defeitos de pronúncia de pasmar.

Quando Fernando Correia se estreou na rádio, com apenas 19 anos, as ondas hertzianas estavam circunscritas àqueles que sabiam colocar a voz e a tinham bem treinada, sem aquelas convulsões asmáticas que se tornaram corriqueiras nestes dias em que até os gagos se ufanam de picar o ponto em antena.

Foi animador de emissão e repórter radiofónico durante quatro anos nos Emissores Associados de Lisboa. Em 1958 entrou por concurso na Emissora Nacional e viria a destacar-se nesta estação a partir de 1964 como relator desportivo. "Locutor de 1ª classe" desde 1966, conforme atestava a sua carreira profissional, é um dos raros sobreviventes dessa era de ouro da rádio portuguesa. Em que cada voz era inconfundível.

Trabalhou em vários jornais, incluindo o Record, e continua a ser presença regular nos ecrãs televisivos. Passou pelo Rádio Clube Português e destacou-se mais ainda, após o 25 de Abril, na Rádio Comercial - num dos melhores períodos da actividade radiofónica no nosso país. Lembro-me dele desde miúdo, quando acompanhava os relatos da bola com o transístor de pilhas encostado ao ouvido. Aquelas Tardes de Desporto, domingo após domingo, perdurarão para sempre na memória de quem as escutou.

E nem só de futebol viveu a magnífica carreira profissional de Fernando Correia: outras modalidades, como o hóquei em patins e o atletismo, foram igualmente valorizadas com os seus relatos que nunca deixavam de ser empolgantes sem perder a elegância. Foi pela voz dele que acompanhámos em maratonas radiofónicas as inesquecíveis vitórias olímpicas de Carlos Lopes em Los Angeles (em 1984) e de Rosa Mota em Seul (1988).

Comandou durante 16 anos a Bancada Central na TSF - de segunda a sexta-feira, das 21.15 às 22 horas. Depois abriu o Lugar Cativo, no renovado (e efémero) Rádio Clube Português. Agora podemos escutá-lo na Rádio Amália e na Sporting TV. Adepto leonino desde sempre, mas sem sectarismos de qualquer espécie, tem amigos de todas as cores futebolísticas. É, acima de tudo, um excelente conversador. Porque não se limita a falar bem: também sabe ouvir.

Continua a trabalhar com o entusiasmo de um novato temperado com a veterania de quem já viu de tudo um pouco. E ainda arranja tempo para escrever livros: este ano lançou o comovente Piso 3, Quarto 313. 

"Vou continuar até ter voz", promete. E nós, seus ouvintes de sempre, fazemos votos para que a voz nunca lhe falte.

 

Fernando Correia, nascido a 16 de Julho de 1935, faz amanhã 80 anos.

Frases de 2015 (8)

por Pedro Correia, em 17.03.15

«A senhora devia tomar mais banho porque cheira mal.»

João Araújo, advogado de José Sócrates, para uma jornalista

Homenagem ao Albano (1955-2015)

por Pedro Correia, em 19.02.15

Em cima da hora, com bons reflexos jornalísticos, o Fernando falou ontem dele aqui. O DN traça-lhe hoje um extenso perfil que lhe presta homenagem.

Albano de Melo Matos (1955-2015) foi um dos mais competentes jornalistas da sua geração ao longo de um percurso profissional que tive ocasião de acompanhar desde o início. Um percurso que se estendeu durante três décadas e meia -- incluindo 26 anos no Diário de Notícias, onde só não exerceu funções na direcção: foi editor executivo adjunto, grande repórter, editor da cultura e editor do internacional, além de membro do Conselho de Redacção.

Era uma das melhores penas da imprensa portuguesa, como reconhecem colegas dos mais diversos quadrantes. E desapareceu demasiado cedo do convívio dos leitores -- razão primeira e última da profissão de jornalista quando é exercida com manifesta vocação, como era o caso.

Há poucos meses, foi injustamente afastado do DN numa "reestruturação" (eufemismo modernaço e parolo para evitar a todo o custo a incómoda palavra despedimento) do jornal a que permaneceu teimosamente fiel durante 26 anos. Mais do que a esmagadora maioria dos casamentos contemporâneos, quase o decurso de uma vida.

 

Jornalista Albano Matos morreu aos 59 anos

Foto Leonardo Negrão/DN

 

Pagou por ter vestido a camisola do centenário matutino num tempo em que isso não é encarado como qualidade mas como defeito: quem acaba de chegar passa sempre à frente.

Pagou também por não ter visto reconhecido internamente o talento que todos no exterior lhe reconheciam nesta era em que a experiência e a memória são varridas sem remorso das redacções dos jornais, que se tornam cada vez mais amnésicas e monolíticas.

Pagou também por ter padecido de excessiva modéstia -- ele, que era tão orgulhoso -- num tempo em que qualquer mediocridade avulsa se pavoneia sem pudor em bicos dos pés.

 

Durante anos, alimentou o sonho de escrever um romance. Até já tinha título: Uma Italiana em Nova Iorque. Mas não concretizou o sonho devido a outra virtude que acabava por virar-se contra ele: não se levava excessivamente a sério. E respeitava demasiado os escritores (José Cardoso Pires, Nuno de Bragança, Mário-Henrique Leiria, por exemplo, brindando sempre ao catalão Manuel Vásquez Montalbán, outro dos seus eleitos) para se imaginar um deles. Embora não lhe faltasse a verve literária, patente em qualquer dos seus textos. Por vezes até em legendas ou títulos. Lembro-me sempre de um deles, quando escreveu o perfil do Professor Horus, um "vidente" que nos anos 80 esteve muito na moda e fora praticante de pugilismo na juventude: «O astrólogo que veio do boxe».

Bastava ler o título para se perceber que era "do Albano", como todos lhe chamávamos -- sem adornos nem adjectivos escusados, à semelhança da sua escrita. Como bastava ler as linhas iniciais de qualquer artigo, mesmo sem assinatura, para se detectar que vinha dele.

 

Parte demasiado cedo, com apenas 59 anos -- separado abruptamente da profissão que amou e serviu com espírito de missão. Merecia -- e merece -- ver uma colectânea de textos seus editada em livro. São tantos, e tão bons, sepultados nos arquivos de diversos jornais - desde a Reconquista, da sua terra natal (Castelo Branco), até ao DN. Passando pelo Tempo, onde o conheci em 5 de Dezembro de 1980 -- horas após a trágica morte de Francisco Sá Carneiro, data que prenunciava um destino jornalístico para qualquer dos dois.

 

Espero que esse livro venha a ser editado. E tomo a liberdade de transcrever já aqui um desses textos, com a devida vénia à sua memória.

....................................................................................

 

AS BESTAS CÉLERES

«Leio, semana a semana (até por dever de ofício), as listas dos livros mais vendidos em Portugal. Apesar das naturais diferenças de uma cadeia de livrarias para outra, essa lista tem uma lógica coerente ao longo de quase todo o ano. Uma lógica que obedece a critérios de promoção, notoriedade do autor, tema mais ou menos na moda, ainda que por razões extraliterárias, etc. Por muito que isso custe a muito boa gente, é até inevitável que assim seja tratando-se de uma lista de livros mais vendidos, é natural que prevaleçam os critérios que presidem à lógica do consumo e do mercado e que seja quase invisível a influência de uma crítica hoje dispersa, errática, amiguista, pouco profissional.

Quando chega o Verão, porém, qualquer aparência de lógica desaparece. Ou as montras das livrarias se põem a dançar com volumes colocados de forma arbitrária ou os compradores rompem subitamente com os seus interesses habituais, a verdade é que as listas de best-sellers se enchem com títulos estranhos, obscuros, inesperados. Mais do que o costume, é nesta altura que faz todo o sentido a célebre expressão de Alexandre O'Neill a "besta célere".

De facto, quando a "besta célere" parte em desfilada não há tendências literárias que se aguentem. Só poderemos lamentar o desperdício de tanta floresta. Como se não fosse já suficientemente trágica a perda de tanto hectare nos incêndios.

Do mal o menos a "besta célere" é, por definição, o livro que todos compram mas ninguém lê. No regresso a casa, já voou e outros candidatos se acotovelam nas livrarias, lançando das capas, cada vez mais berrantes, convite ao potencial freguês.

A "besta célere", escrevia O'Neill, "é feita a pensar num leitor 'espremido' por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer objecto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo...) e cumpre, quase sempre, o seu papel, virada a última folha."

Apesar de tudo, passada a onda, um resquício de racionalidade regressa ao mercado e mesmo as "bestas céleres" adquirem uma certa patine.»

 

Diário de Notícias, 14 de Agosto de 2005

A História na primeira pessoa

por Pedro Correia, em 22.10.14

Katherine Graham, proprietária do Washington Post, e Ben Bradlee, que dirigiu o jornal durante dez mil dias. Ambos permaneceram imunes às pressões da Casa Branca durante o caso Watergate

 

Editam-se em Portugal cerca de mil livros por mês. Nada mau, para um país com tão poucos hábitos de leitura. Mas continuo a espantar-me com a ausência de títulos importantes no nosso mercado editorial. Talvez o livro que hoje mais gostasse de ver com edição portuguesa fosse a autobiografia de Ben Bradlee. Sabem quem é? Esse mesmo: o jornalista que transformou o Washington Post num dos jornais mais célebres à escala planetária. Fala-se muito em Bob Woodward e Carl Bernstein, os repórteres que revelaram ao mundo todas as implicações do caso Watergate. Fala-se muito menos em Bradlee, que na altura dirigia o Washington Post, então uma espécie de parente pobre na alta roda da imprensa norte-americana, sempre à sombra do poderoso rival New York Times. Mas nenhum dos artigos de Woodward e Bernstein (a dupla que ele baptizou de “Woodstein”, nos longos serões de trabalho no jornal durante a revelação do escândalo que conduziria à demissão do presidente Nixon) teria sido possível sem a firmeza de Bradlee, que lhes deu destaque em sucessivas manchetes. Contra todas as pressões do poder político.
 

A Good Life, de Ben Bradlee, que li na versão espanhola – editada pela casa editorial do diário El País, sob o título La Vida de un Periodista - é uma extraordinária lição de jornalismo escrita por este homem nascido em 1922, combatente na II Guerra Mundial e velho tarimbeiro das redacções. Começou pela melhor escola americana, no jornalismo de província, e teve um percurso fulgurante, que o levou a chefe da delegação da revista Newsweek em Paris, correspondente de guerra na Argélia e no Suez, e enfim a Washington, onde passou a dirigir o Post em 1962. A curta distância da Casa Branca, onde então pontificava John Kennedy, seu amigo pessoal.
Bradlee relata-nos a odisseia do relançamento do Post, que à época era apenas o terceiro jornal mais vendido na capital americana. Ele arejou o grafismo, destacou a imagem, criou um suplemento chamado Style, que dava prioridade ao lazer, valorizou o espaço de opinião, criou um provedor de leitores (em 1969!) e deu um novo impulso à reportagem. Bastando-lhe adoptar como lema a velha lição que recebera da professora da instrução primária: “O melhor possível hoje, melhor ainda amanhã.”
A qualidade foi sempre um objectivo a atingir. “A detecção de talentos nunca cessa num periódico”, afirma Bradlee, então “decidido a que cada jornalista fosse o melhor da cidade no seu ramo de actividade”. Este foi um dos segredos do sucesso do jornal, a par das normas de exigência postas em vigor. O Post deixou de usar a ambígua expressão “segundo as nossas fontes”, instituiu a norma da verificação dos factos junto de duas fontes autónomas e recomendou aos seus repórteres que nunca esquecessem o sábio preceito de Camus, que também foi jornalista: “Não existe a verdade. Só existem verdades.”
 
La Vida de un Periodista dá-nos retratos deliciosos de jornalistas. Howard Simons, director-adjunto do Post, que cunhou a expressão SMERSH para designar a secção dedicada a estes temas (segue em inglês para se entender melhor): Science, Medicine, Education, Religion & All That Shit. Art Buchwald, o incomparável humorista. Jim Truitt, que permaneceu 47 horas sentado à máquina de escrever, produzindo uma lista com mais de mil sugestões no dia em que Bradlee protestava contra a “falta de ideias” na redacção. E, obviamente, a dupla “Woodstein”: Watergate nunca teria sido o que foi sem a “destreza e persistência” destes repórteres, que transformaram este velho ofício num mito: nos anos 70 e 80, o jornalismo tornou-se a profissão mais cobiçada do planeta.
Bradlee permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal. A good life indeed.
 
Reedito este texto em homenagem a Ben Bradlee, ontem falecido em Washington, aos 93 anos

Morrer de botas calçadas

por Pedro Correia, em 12.10.14

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As novas tecnologias permitem estas coisas. Graças ao mecanismo de gravações automáticas agora disponível na TV Cabo, revejo o Jornal da Noite da SIC da passada quarta-feira. Contém o último trabalho jornalístico do Fernando de Sousa, elaborado na cimeira de Milão, poucas horas antes da sua morte súbita, naquela cidade. Uma peça em que exibe as qualidades tantas vezes sublinhadas nos últimos dias por gente dos mais diversos quadrantes: separação de notícia e opinião, descodificação de matéria complexa, tom sereno, linguagem objectiva.

Impressiona-me rever o Fernando aparentemente tão vivo, ali no ecrã, sabendo-o já desaparecido. Mas consola-me saber que foi sempre um profissional realizado e respeitado, por um lado, e que a morte - prematura, como todas as mortes - o surpreendeu antes desse patamar da decrepitude que para muitos jornalistas é o da reforma por imposição do bilhete de identidade, quando se limitam a consumir notícias em vezes de difundi-las.

Era um profissional mais preocupado com o rigor dos factos do que com adornos de qualquer espécie, fiel à escola da BBC, onde trabalhou vários anos e ganhou aquela entoação tão específica. Foi aliás lá que o conheci, em 1989, no majestoso edifício da Strand, quando estive a um passo de aceitar uma proposta de trabalho na secção portuguesa da BBC, de tão boa memória. O Fernando, que viria a reencontrar anos depois na redacção do DN, era um jornalista sem peneiras, acessível a qualquer um, disposto a ajudar todos os colegas. Alguns, com metade do currículo e da experiência dele, andam por aí armados aos cucos, ostentando uma importância que nenhum leitor ou telespectador lhes outorgou.
Morreu com as botas calçadas, a trabalhar. Honra à sua memória.

Excerto sem númeração

por Patrícia Reis, em 12.08.14
Excerto do livro, As casas de Mirandela, Dóris Graça Dias, 1991
"Ela, quando o vir caminhando pela longa varanda, na sua direcção, encostar-se-á à parede (que fica entre a porta da cozinha e um espaço aberto, onde dois tanques servem momentos de lavar roupa) com as mãos atrás das costas para sentir o frio da pedra e, quando ele estiver a distância suficiente para a ouvir, perguntar-lhe-á:
– Como te chamas?
Ele parará de imediato. Estenderá a mão direita para o suporte de ferro do estendal e abandonará o corpo num desenhar de ângulo agudo em relação ao chão. O braço esquerdo pendendo. Livre. Dir-lhe-á o nome. Ficará à espera, desatento, que ela lhe diga o seu. Ela não lho dirá, antes perguntará:
– Quantos anos tens?
Ele endireitar-se-á encostando o frágil corpo ao ferro no mesmo instante em que o envolverá com o braço direito. Estenderá a mão esquerda, mostrando-lhe quatro dedos abertos e dirá:
– Est... quatro!
Ela, precipitadamente, dirá:
– Sou mais velha que tu um ano...
Esclarecerá:
– Tenho cinco!
Ele olhá-la-á desinteressado.
Mais tarde, quando passarem horas na invenção de jogos, ele, repetidas vezes afirmará:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
E ela, repetidas vezes o contrariará nessa inversão do tempo. Dir-lhe-á a impossibilidade dessa ultrapassagem. Dessa mentira. Julgá-lo-á tonto, despropositado. Depois, reconsiderará. Esperará o ano que a ele falta, para entender, como ela entende, essa incapacidade temporal e então dir-lhe-á:
– Agora, eu tenho seis anos e tu cinco: continuo a ter...
Ele interromper-lhe-á a frase e, no mesmo tom dos quatro anos, dirá:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
Será nessa altura, nessa idade que ela conhecerá, pela primeira vez, desejo de bater.
Não o fará. Recorrerá ao quarto. À sua irmã."

Mais 10 jornalistas de Abril (10)

por Pedro Correia, em 10.05.14

 

 

António Paulouro

Mais 10 jornalistas de Abril (9)

por Pedro Correia, em 09.05.14

 

Carlos Gil

Mais 10 jornalistas de Abril (8)

por Pedro Correia, em 08.05.14

 

 

Victor Cunha Rego

Mais 10 jornalistas de Abril (7)

por Pedro Correia, em 07.05.14

 

 

 

José Manuel Barata-Feyo

Mais 10 jornalistas de Abril (6)

por Pedro Correia, em 06.05.14

 

 

Vicente Jorge Silva

Mais 10 jornalistas de Abril (5)

por Pedro Correia, em 05.05.14

 

Helena Vaz da Silva

Mais 10 jornalistas de Abril (4)

por Pedro Correia, em 04.05.14

 

Alfredo Cunha

Mais 10 jornalistas de Abril (3)

por Pedro Correia, em 03.05.14

 

Francisco de Sousa Tavares

Mais 10 jornalistas de Abril (2)

por Pedro Correia, em 02.05.14

 

Álvaro Guerra


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