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Só peca por ser tardia

por Pedro Correia, em 22.09.16

Assunção Cristas anunciou hoje que o CDS apresentará durante o debate do Orçamento do Estado para 2017 uma  proposta destinada a obrigar os partidos a pagar IMI.

Aplaudo a proposta, naturalmente.

Que "justiça fiscal" há nisto?

por Pedro Correia, em 22.09.16

A-pergunta-de-Mariana-Mortágua-ao-melhor-CEO-da-E

 

A expressão “justiça fiscal” anda na boca da classe política. Muitas vezes para camuflar as verdadeiras intenções de quem as profere. Nenhum governo proclama em campanha a intenção de baixar impostos, nenhum governo deixa de subi-los mal inicia funções.

O actual Executivo não foi excepção nesta tendência para aumentar a carga fiscal visando atenuar deficiências estruturais da nossa economia – a começar pela despesa pública, sempre acima dos recursos financeiros disponíveis.

 

Ontem Mariana Mortágua – reiterando a vocação para funcionar como porta-voz do Executivo em matéria orçamental – reafirmou que o Governo vai mesmo avançar com o controverso imposto sobre o imobiliário, indiferente ao coro de indignações registado entre os próprios socialistas. Figuras do PS como Sérgio Sousa Pinto, Paulo Trigo Pereira,  Paulo PedrosoVital Moreira – além do ex-ministro das Finanças Fernando Teixeira dos Santos – já criticaram este aumento da tributação. Percebe-se porquê: "acabar com os ricos" nunca foi um meio eficaz de acabar com os pobres, como toda a história do século XX demonstra.

“Justiça fiscal”, insiste a jovem deputada do Bloco de Esquerda, recorrendo com ar cândido ao chavão que nada explica. Parecendo indiferente aos riscos que este novo imposto directo acarreta: afugentar o investimento no sector imobiliário, dinamitar o incipiente mercado de arrendamento, tornar o País ainda mais exposto à concorrência internacional e agravar a crónica falta de competitividade da economia portuguesa. 

"Tratem bem a galinha e não a estraguem", alerta Teixeira dos Santos, pregando no deserto.

 

Alega a maioria de esquerda que pretende financiar em 2017 o aumento das pensões de dois milhões de portugueses – despesa avaliada em cerca de 200 milhões de euros - com as receitas desta nova tributação. Não falta quem aponte excesso de optimismo às contas do Executivo. A realidade já forçou o ministro das Finanças a rever em baixa as suas sucessivas previsões para o crescimento do PIB em 2016, o que legitima todas as dúvidas.

E afinal bastaria o Governo revogar a absurda descida do IVA da restauração que vigora desde 1 de Julho para embolsar 350 milhões de euros – mais do que as receitas de que necessita para o anunciado aumento das pensões. Ditada por um impulso demagógico, aquela medida nada fez para estimular o consumo interno: limitou-se a aumentar a margem de lucro dos proprietários de cafés e restaurantes, à custa do contribuinte.

Que "justiça fiscal" pode haver nisto?

Do "Imposto Mariana Mortágua"

por José Maria Gui Pimentel, em 20.09.16

A discussão política em Portugal exaspera-me. Constantemente, trata-se variáveis contínuas como discretas, discute-se decisões necessariamente relativas em termos absolutos, mistura-se a avaliação da justiça de determinada medida com a aferição da sua eficácia.

 

O caso recente do já denominado Imposto Mariana Mortágua (IMM) é exemplo disto mesmo. A extrema-esquerda deseja-o porque o considera justo, defendendo-o por esse motivo, não se importando se – já agora – for também eficaz. Já a direita considera-o injusto, mas percebe que é melhor refutá-lo na base da sua alegada ineficácia.

 

Ora seria justo o IMM? Certamente não pelos motivos invocados pela esquerda, sintomáticos da habitual sanha aos “ricos”. Mas poderá sê-lo noutro prisma, enquanto meio para reequilibrar o saldo das medidas de austeridade tomadas ao longo dos últimos anos, na medida em que tem sido tributado sobretudo o rendimento, deixando a riqueza de parte. Ora, sendo a riqueza nada mais do que rendimento acumulado, tributar somente o rendimento actual protege necessariamente aqueles cujo rendimento foi mais elevado nos tempos de bonança.

 

Já em relação à eficácia do imposto há inegavelmente dúvidas legítimas. Por um lado, o rendimento acumulado não foi todo convertido em imobiliário. Por outro lado, é sempre mais fácil fugir a impostos sobre a riqueza do que sobre rendimento. Finalmente – e, porventura, principalmente – analisando a sua eficácia no sentido lato, a criação deste imposto representaria mais uma machadada na estabilidade fiscal que tanto afasta investidores estrangeiros. Com efeito, alterações fiscais são, muitas vezes, um jogo de soma negativa.

 

Seja como for, importa sobretudo ter presente que sem um debate rigoroso – que separe as várias vertentes de análise – é impossível o esclarecimento daqueles que não têm já um pré-conceito em relação ao tema em causa.

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Pelo visto, a Mariana Mortágua veio tentar esclarecer (já sabemos o que se diz sobre a clareza de uma proposta quando quem a fez tem necessidade de a vir esclarecer) que "tirar riqueza acumulada não é taxar poupança". Quer a Mariana dizer que o alvo da sua intervenção é apenas a riqueza acumulada de forma ilícita? Não sabemos porque a Mariana continua a não explicar-se bem. Mas, se for, devia ter dito isso logo durante o Encontro do Partido Socialista em Coimbra. Nesse caso, em vez de aplausos da assembleia era bem capaz de ter recebido vaias e apupos. Porque se for para "tirar" riqueza a quem a acumulou ilicitamente é provável que o PS seja contra.

ADN

por Rui Rocha, em 19.09.16

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O mundo ao contrário

por João André, em 19.09.16

Só uma perspectiva rápida ao conceito de «ir buscar dinheiro a quem o está a acumular» e fazendo a ressalva inicial (que vai ser ignorada) que estou contra isso: um dos países que os liberais da nossa praça mais admiram, a Holanda já o faz.

 

Na Holanda, o Estado taxa as poupanças dos seus contribuintes privados. Na declaração de impostos, feita online através do sistema de DigiD. Quando a declaração é preenchida online, os montantes existentes em todas as contas na Holanda já estão previamente preenchidos e apenas é necessário confirmá-los.

 

Em relação a taxar as poupanças, o valor a taxar é o montante total que existe nas diversas contas acima de um determinado patamar (que anda por volta dos 21.000 €). Abaixo desse valor o valor não é taxável. Acima dele, o montante extra é passível de ser taxado (por exemplo, quem tenha 25.000 € pagaria imposto sobre 4.000 €). O imposto parte do princípio que o valor tem um retorno anual de 4% e esse retorno fictício é taxável a 30%. Ou seja, se o retorno for inferior (e habitualmente é-o em contas poupança simples), o contribuinte pode pagar mais do que recebe de juros. Aliás, sei por experiência própria que é possível receber de juros apenas uns 30-40% do valor a pagar.

 

Este caso é apenas aplicável aos montantes em investimentos financeiros e, no caso do imobiliário, apenas a segundas habitações. Também se aplica a valores a partir dos 21.000 € (ou o dobro no caso de casais), valor que parece elevado. No entanto, se um indivíduo (ou casal) da classe média não quiser (ou tiver oportunidade) de comprar casa, é relativamente simples atingir tais níveis de poupanças na Holanda.

 

O caso português é diferente, claro está, mas quando alguma direita aponta o dedo a alguma esquerda em questões de sigilo bancário ou de taxar as contas bancárias, talvez fosse bom colocar os olhos num país que, em certos aspectos, foi mais longe no seu socialismo que se poderia esperar. E depois é elogiado pelo seu liberalismo.

 

Conclusão: não gosto de taxas às poupanças (outra coisa é taxar os juros ou retornos de investimento) e considero-o um ataque ao direito de cada um em fazer o que quiser com o dinheiro que ganhou e sobre o qual já pagou impostos. Por outro lado, é irónico ver que alguma esquerda portuguesa parece estar com vontade de seguir as melhores práticas de países ditos "liberais". É o mundo ao contrário.

Dúvida ingénua

por José António Abreu, em 16.09.16

E os partidos políticos? Vão ser obrigados a pagar o novo imposto ou, como sucede no IMI, ficarão isentos? Em especial o PCP, o mais rico de todos, com os seus 15 milhões de euros em património imobiliário?

A mudança na cara depois de cada nova dose

por Rui Rocha, em 21.04.16

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Centeno de errata em errata

por Pedro Correia, em 13.02.16

 

4 de Fevereiro

Governo aprova Orçamento do Estado

 

5 de Fevereiro

Orçamento recompõe a carga fiscal e recupera o rendimento

 

11 de Fevereiro

Governo já entregou errata do Orçamento do Estado

 

12 de Fevereiro

Errata ao Orçamento tem 46 páginas

 

12 de Fevereiro

Afinal Orçamento prevê manutenção da carga fiscal para 2016

 

12 de Fevereiro

Finanças fazem errata à errata: carga fiscal desce

 

Uma questão de justiça fiscal

por Pedro Correia, em 11.02.16

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Que critério de equidade, no segundo Orçamento do Estado com maior aumento de carga fiscal entre nós, forçará os contribuintes a subsidiar o crescimento das margens de lucro dos proprietários de restaurantes?

O pregador evangélico.

por Luís Menezes Leitão, em 07.02.16

António Costa resolveu justificar o brutal aumento de impostos que decretou, com apelos à luta contra o vício e o pecado. É assim que este pregador evangélico recomenda aos seus fiéis que "usem mais transportes públicos", "deixem de fumar" e "moderem o recurso ao crédito". Já se sabia do ódio cego que António Costa nutre aos automóveis, desde que na Câmara de Lisboa a única coisa que fez foi criar barreiras à circulação, com os resultados que estão à vista. O que não se sabia é que, além de querer reduzir os portugueses a simples peões, ainda pretende que os mesmos sejam isentos de vícios e poupadinhos. Atreves-te a fumar? Pagas mais imposto. Queres um crédito ao consumo? Pagas ainda mais, que o Estado também quer consumir.

 

Não é novidade nenhuma o lançamento de impostos sobre o vício e o pecado. O que já é novidade é o descaramento do discurso moralista que lhes está associado. Mas, se bem conheço os vícios do Estado, ainda acabarão, como no Yes, Prime Minister, a louvar os fumadores, declarando que são benfeitores nacionais, já que sacrificam a sua vida e saúde a bem da receita fiscal, morrendo cedo, o que ainda permite poupar na segurança social. É pena que este discurso moralista não seja aplicado aos gastos do Estado. Cobrar tantos impostos para sustentar o despesismo público em verdadeiros disparates, como a segunda rotunda do Marquês, não será um vício muito maior? 

Tempo Novo

por Rui Rocha, em 06.02.16

Se bem percebi, em 2015 o Estado tirava-te o dinheiro directamente do salário. Em contrapartida, em 2016, o Estado fica-te igualmente com o dinheiro mas tens o trabalho acrescido de entregar uma parte numa bomba de gasolina.

Raisparta ao Diabo

por Francisca Prieto, em 08.01.16

Imagine que se voluntaria para abrir um negócio solidário. Reúne 50 voluntários, arranja maneira de conseguir doações permanentes de bens e até arranja um parceiro que lhe oferece o espaço. Tudo para que 100% dos lucros revertam para uma instituição.

Mas quer fazer tudo como manda a lei, que se é para ser voluntário não quer chatices com as finanças. De maneira que funda uma Associação, tão transparente como um copo de água, compra um software de facturação homologado, vê-se às aranhas para perceber como é que a geringonça funciona, mas lá regista todas as vendas, que é para ficar tudo certinho, certinho.

No primeiro ano a actividade corre sobre rodas. De maneira que é para continuar. Só que, para continuar, agora é preciso pagar IVA.

Ou seja, 50 pessoas trabalham de graça, gastam tempo, gasolina e estacionamento do seu bolso. Centenas de pessoas oferecem bens vendáveis. Uma entidade oferece espaço. Tudo para que seja possível reverter 100% da angariação para uma causa.

E, depois de um ano de benevolência por parte do Estado, agora só vai ser possível reverter 94% desse valor; há 6% que vão direitinhos para os cofres das finanças.

Da minha parte, fico com uma tremenda sensação de injustiça. Estão a obrigar-me a oferecer 6% do meu tempo e do meu esforço para o estado (reforço que ganho 0 euros e que trabalho praticamente a tempo inteiro para a Associação). Também deduzo que as pessoas que doam os bens com a intenção de que sejam convertidos em fundos de caridade, não achem piada nenhuma que uma percentagem siga para uma entidade que não a instituição que pretendem privilegiar.

Mas é assim que teremos de funcionar. Raismapartam.

Ir fazendo sem alarido

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.12.15

Sobre o que então pensei da oferta de carros pelo fisco já me tinha pronunciado. A sério, meio a brincar e a gozar. Por isso fiquei admirado quando li isto. Mas agora parece que a estupidez vai ser efectivamente corrigida.

A notícia da LUSA de que vários jornais dão conta esta manhã  (incluindo o Observador, como os mais cépticos das minhas fontes poderão confirmar) sobre o fim da oferta dos automóveis de uma marca que fazia as delícias de um motociclista do anterior Governo, e que o fisco andou a oferecer para que uma empresa privada pudesse ir ganhando algum dinheiro à custa dos contribuintes, é para mim motivo de satisfação e um sinal de como as coisas devem ser feitas. Ao oferecer certificados de aforro o Estado mostra como se deve comportar no combate à evasão fiscal, ao mesmo tempo que deixa de favorecer uma empresa em particular para favorecer todos. Diminui-se a factura energética e poupa-se no ambiente, em termos insignificantes é certo, mas dá-se um sinal aos portugueses no sentido do estímulo à poupança. De qualquer modo, uma solução que acabasse já com a oferta dos automóveis, em vez de relegá-la para Abril, seria para mim a ideal.

Notas políticas (10)

por Pedro Correia, em 07.12.15

"Na primeira grande entrevista como primeiro-ministro", como o Público hoje justamente lhe chama na primeira página, António Costa deixa bem claro: "Não temos condições financeiras para eliminar integralmente a sobretaxa para todos os contribuintes."

É perceptível, nestas declarações do chefe do novo Governo, o primeiro recuo numa das mais emblemáticas  promessas eleitorais dos socialistas: a eliminação geral para metade (isto é, de 3,5% para 1,75%) da sobretaxa do IRS no próximo ano e a sua eliminação integral em 2017.

Haverá portanto uma redução mais gradual do que fora inicialmente previsto. Enfim, nada muito diferente do que tinha sido anunciado por Maria Luísa Albuquerque.

Ao que parece, a isenção abrangerá de imediato os contribuintes com rendimentos colectáveis até sete mil euros por ano. São 68% do total, mas pagam apenas 67 cêntimos por ano, como salientou o Jornal de Negócios - o que basta para se perceber até que ponto tem sido feita demagogia em torno do "impacto social" da eliminação da sobretaxa.

Como os contribuintes com mais elevados rendimentos (acima de 80 mil euros anuais) são apenas 0,23% do total, não restam dúvidas sobre os encargos adicionais que afectarão a classe média (entre sete mil e 80 mil euros de rendimento colectável anual) para garantir o equilíbrio das contas públicas em 2016.

O que diz Costa de concreto na entrevista, surgida no mesmo dia em que se confirma o PS atrás do PSD nas intenções de voto? Fiel a um hábito recente, refugia-se num nevoeiro de palavras: "Há várias soluções possíveis e estão a ser trabalhadas de forma a poder beneficiar o mais rapidamente possível um maior número de contribuintes, mas dentro daquilo que são os limites da capacidade financeira do Estado."

Ah, como é consolador sabermos que "a austeridade terminou".

Uma saga

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.06.15

Depois do que noutras ocasiões se relatou, nomeadamente  em 29/05/2015 e em 06/06/2015, relativamente ao mau funcionamento da máquina fiscal, importa aqui dar conta de mais uma situação da qual os contribuintes são vítimas. A forma como os seu direitos são actualmente espezinhados pelas modernices do sistema é sinal dos tempos conturbados que se vivem e um aviso quanto àquilo que se poderá esperar se os cidadãos não agirem, se os contribuintes se mantiverem conformados e pacientes perante a asfixia que lhes é imposta, e não se mostrarem capazes de exercer os seus direitos de cidadania perante toda a actuação prepotente e abusiva de uma máquina fiscal e administrativa que não tem rosto e nada quer saber dos direitos daqueles que a pagam. Sim, porque os outros, os que não pagam nem querem pagar, estão protegidos nos paraísos sem rosto onde a mão dos cobradores do Terreiro do Paço não chega.

Confrontados com a necessidade de nomearem representantes fiscais em Portugal, para poderem acautelar a defesa dos seus direitos durante a sua ausência do país, dois cidadãos residentes no estrangeiro contactaram nesse sentido a Administração Fiscal. Verificada informaticamente a sua situação, através do tenebroso sistema, foi-lhes dito que não poderiam fazê-lo, porque primeiro teriam que alterar a respectiva residência nos documentos de identificação através dos serviços consulares do país de residência. Até aí tudo bem.

Mas sucede que uma coisa que faz todo o sentido, e é ela própria reveladora do sentido que os cidadãos têm do cumprimento das suas obrigações, deixa de fazer sentido se tal for transmitido a quem procedeu à referida alteração em Agosto de 2014 e em Março do corrente ano, junto dos referidos serviços consulares, e a verificação da inexistência das alterações atempadamente concretizadas ocorre em Junho de 2015. Gente que depois de solicitadas as alterações, passados alguns dias, recebeu pelo correio nas suas moradas no estrangeiro as notificações respectivas com os códigos confirmativos das mudanças, deslocando-se então de novo aos serviços consulares, com prejuízo das suas obrigações profissionais, para que houvesse lugar à inserção dos referidos códigos, de maneira a que se tornasse efectivo o que fora solicitado.

Face à incapacidade do moderníssimo sistema para colaborar com os contribuintes, a solução encontrada pelos serviços tributários foi à moda antiga: levar os códigos das alterações para se verificar o que se passava ou, então, declarações assinadas pelos próprios a nomear os seus representantes fiscais, em papel, as quais deveriam ir acompanhadas das fotocópias da praxe (cartões de cidadão e documentos que atestem as alterações).

O problema acabaria por ser solucionado dias depois, por um terceiro que a pedido dos contribuintes ausentes ficou com o encargo de ir regularmente confraternizando com a Administração Fiscal, tendo o sistema finalmente assumido as novas moradas e as representações fiscais.

Da chatice e dos incómodos não se livraram os contribuintes cumpridores, sublinho esta última parte, nem quem lhes tratou do assunto. Mas é assim que andamos. Entre o bom oó que um senhor com o ego mais do que satisfeito da política recomenda aos  jornalistas e as "reformas" dos zelosos funcionários que o centrão, desde há décadas, se encarregou de profissionalizar na política.

Déjà vu.

por Luís Menezes Leitão, em 07.05.15

 

Quem ouve um político falar em alteração dos escalões do IRS, sabe muito bem o que é que isso significa: mais impostos para os pretensamente mais ricos, ou seja na verdade a classe média. O pretexto é sempre baixar os impostos aos mais pobres, mas na verdade os pobres já não pagam impostos nenhuns. Por isso o esquema é sempre o mesmo: multiplicam-se os escalões de baixo onde já não se paga imposto e sobem-se os impostos dos escalões de cima, onde se pagam efectivamente os impostos. E em Portugal quem ganha 80.000 por ano é considerado pelo fisco como milionário, sendo obrigado a sustentar os delírios despesistas da classe política.

 

Já se sabia por isso qual é a receita que António Costa propõe para Portugal: impostos, impostos e mais impostos. Antes de sair da Câmara, ainda teve tempo de lançar um adicional ao IMI de 12,5%, a que eufemisticamente chamou "taxa de protecção civil", e que irá será cobrado aos lisboetas no próximo semestre. É por isso que qualquer pessoa percebe que, a partir do momento em que ele fala em alteração aos escalões do IRS, quer ir mais uma vez ao bolso dos contribuintes. No fundo é a velha estratégia socialista de aumentar os impostos, seguida por Hollande, e que teve resultados tão brilhantes que até Depardieu decidiu emigrar para a Rússia.

 

Só o Expresso é que pelos vistos não percebeu o óbvio. E, num verdadeiro acto de negação, achou que havia uma promessa de Costa baixar o IRS, semelhante ao "read my lips" de George Bush. Só que como não é preciso ler lábios para saber o que António Costa quer, já teve o jornal que corrigir o tiro, asssumindo a verdade de que a proposta de Costa é precisamente a de aumentar o IRS. Espero por isso que os portugueses dêem a António Costa a mesma resposta que os americanos deram a Walter Mondale quando ele anunciou que se fosse eleito iria aumentar os impostos. Em 2000 tínhamos a taxa máxima de IRS a 40% e a taxa normal de IVA a 16%. Será que não chega o que entretanto subiu, sempre com os mesmos pretextos? Tudo isto soa muito a déjà vu.

Pelo visto, o extraordinário Yannis Varoufakis, depois de ter sido remetido a uma posição mais recatada nas negociações com a troika, digo com as instituições, tem agora mais tempo para se dedicar à reflexão sobre medidas originais para dar a volta à situação grega. O próximo coelho a saltar-lhe da carola poderá bem ser, ao que se diz, uma amnistia fiscal para os concidadãos que declarem a existência de depósitos no estrangeiro. À primeira vista, a coisa pode causar algum estupor: mas então não eram Varoufakis e o Syriza a luzinha que nos alumia, o símbolo da mudança da própria Europa, os percursores de um novo caminho que seria trilhado cantando hossanas por vultos da dimensão de António Costa, Mário Soares (Tsipras, de quem sou amigo), Catarina Martins, Boaventura Sousa Santos e outros subscritores de manifestos e participantes em iniciativas cidadãs, foruns, plataformas, movimentos e iniciativas? Não estarão, perguntarão muitos, Varoufakis e o Syriza a abastardar a sua linha política, a vender-se ao capital (iiiiiiiih!), a trair os ideais de esquerda, a renegar os valores da alternativa, ó horror, a roer a corda? É que, se bem virmos, dirão os mesmos, não deve ser o grego comum, o grego vítima da crise humanitária, o grego esmagado pela Merkel, o titular típico dessas (ler a partir de agora com os dentes cerrados e expressão a meio caminho entre a raiva e o nojo, como faz o Louçã) cooooontas no estrrrrrangeirrro oooonde cerrrrtamente se acumularrrrrão grroooossos capitaiiiiiis subtrrrraídos aos impoooostos e ao pooovo (dar agora um gritinho de indignação e voltar a ler normalmente)... Mas dizer isso é, lamento, ter vistas curtas. A genialidade da medida está aqui: vinda da cabeça de qualquer outro perigoso governante de qualquer outra geografia, a amnistia fiscal é compadrio com o capital, com os tubarões, com os especuladores e agiotas, é favorecimento de amigos; vinda da cebeça pelada de Varoufakis, a amnistia fiscal tem o objectivo de favorecer os inimigos. Isto é, apela à paz no mundo e promove a concórdia. A amnistia fiscal pensada por Varoufakis é como a baixa da TSU dita por Costa: bebe da pureza dos ideais do homem novo e solidário. Quanto ao trabalhinho de casa, é só isto: procurar no Google declarações de camaradas do Bloco de Esquerda sobre amnistias fiscais e imagens de abracinhos ao Tsipras.

 

Nota: o autor é contra amnistias fiscais em geral, abrindo excepção apenas para as que forem ou tenham sido propostas por Varoufakis ou por governos do Partido Socialista português.

Boa pergunta

por Teresa Ribeiro, em 10.02.15

Se há questões que não devem passar pelos intervalos da chuva, esta é uma delas. Infelizmente nem sempre um bom artigo de jornal é replicado vezes suficientes para que se transforme num assunto incómodo para os poderes que interpela. Na Imprensa portuguesa acontece com demasiada frequência e é uma pena.

Durma sobre os impostos

por João Campos, em 11.11.14

O que assusta no adiar da "taxa de dormidas" de António Costa para 2016 é a possibilidade de nesse ano já ele ser primeiro-ministro - e, com a iluminação que se lhe conhece, de pretender levar a ideia um pouco mais longe. Para quê limitar a ideia às dormidas em hotéis, hostels, pensões e similares de Lisboa quando pode taxar todas as dormidas em todo o país - incluindo, como é bom de ver, as dos cidadãos do dito país nas suas respectivas camas? Contas feitas, são dez milhões de sonos por dia (por alto), algo entre cinco a oito horas diárias (idem), que ainda não pagam impostos. Basta para isso um aparelho, que por ora designaremos de hipnímetro -, e cuja construção até pode ser adjudicada sem concurso público a uma empresa amiga, só vantagens - de aquisição obrigatória por todos os portugueses, a colocar debaixo da almofada (por via das dúvidas até pode ser obrigatória a aquisição de um segundo, a colocar no encosto do sofá - importa evitar perda de receita fiscal caso se adormeça em frente à televisão). O dito aparelho contabilizará as horas de sono dormidas e a partir daí é só taxar com criatividade. Por duração de sono, por ciclo de sono, por volume do ronco, com tarifa agravada para quem estica o descanso pela manhã de Sábado - enfim, o céu é o limite, e imaginação fiscal é coisa que pelos vistos não falta ali para os lados do Largo do Rato. 

Já o mesmo não se pode dizer do bom senso, mas não se pode ter tudo. 

 


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