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Grandes romances (9)

por Pedro Correia, em 22.09.13

 

UM HOMEM É A SOMA DOS SEUS ACTOS

A Condição Humana, de André Malraux

 

«Todos os homens se assemelham à sua dor.» (p. 39)

 

Há livros que nos marcam de tal maneira que muitos anos depois ainda recordamos certas cenas neles contidas. Pelo seu carácter pungente. Pela força que nos transmitem. Pela sedução do estilo do autor. Pelo seu incomparável registo documental. Ou por tudo isto um pouco. Basta lembrar a morte do avô, em As Vinhas da Ira, de Steinbeck. A distribuição da magra ração de subsistência aos detidos no gulague, um Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Soljenitsine. A lebre avistada a cem metros, do outro lado da cerca, pelos esfomeados  prisioneiros no campo de concentração nazi que se imaginam a comê-la, em A Centelha da Vida, de Remarque.

A Condição Humana -- romance publicado em 1933 que valeu ao seu autor, André Malraux, o prestigiado Prémio Goncourt e a consolidação da fama aos 32 anos -- tem pelo menos três cenas inesquecíveis. Recordo-as propositadamente fora da sequência cronológica por um motivo que já explicarei.

Que cenas são?

A dos detidos após a abortada tentativa de insurreição que se sabem condenados à mais cruel das mortes, disputando insuficientes cápsulas de cianeto para evitarem ser queimados vivos por aqueles que ainda na véspera eram seus aliados nos dédalos da China revolucionária.

A do antiquário francês convertido em traficante de armas que, num assomo de cobardia, deixa os minutos escoarem-se numa febril sala de roleta, crente de que "o jogo é um suicídio sem morte", e vê esses minutos transformarem-se em horas enquanto dissipa uma fortuna e condena antecipadamente à morte um amigo que só poderia ser salvo com uma palavra de advertência sua.

E, acima de todas, a cena em que Tchen, um convicto militante comunista chinês, comete pela primeira vez um homicídio. Deixei este episódio para o fim, apesar de ser o primeiro na ordem cronológica, porque nenhum outro assinala de forma tão decisiva uma fronteira moral na condição humana, justificando desde logo o título do romance.

 

 

É noite cerrada num quarto de hotel de Xangai. Tchen prepara-se para matar um inimigo político adormecido: o superior interesse da revolução assim o exige. Sabe que não falhará. E sabe que não voltará a ser o mesmo. Há uma linha muito ténue que separa a civilização da barbárie e o homem das espécies animais, que matam apenas por instinto de sobrevivência ou imperiosa necessidade de defesa.

Pouco antes de cometer o crime, em nome de fins que procuram justificar todos os meios, Tchen fere-se propositadamente com a mesma faca que lhe servirá para matar. Como se o seu sangue de algum modo redimisse o irreversível apagamento daquela vítima adormecida. E a suprema razão do partido -- tal como a chamada "razão de Estado" -- se sobrepusesse naturalmente à voz da consciência que nos induz em sentido oposto, mandando separar o homem da fera assassina. Mesmo perante o mais desprezível de todos os seres.

 

 

Nenhum intelectual como Malraux aliou tanto o pensamento à acção, na vida como na obra, enquanto testemunha directa de alguns dos mais trágicos acontecimentos do século XX -- a dolorosa eclosão do comunismo na China, a guerra civil espanhola, a resistência ao invasor na França ocupada pelas divisões blindadas de Hitler. Como a personagem central deste seu romance, acreditava firmemente que "as ideias não eram para ser pensadas, mas vividas". Porque "um homem é a soma dos seus actos, daquilo que fez e do que pode fazer". Tal como Kyo, filho de pai francês e mãe japonesa, "escolheu a acção de forma grave e premeditada como outros escolhem as armas ou o mar".

Protagonista de enredos reais que logo transportou para o imaginário colectivo, nado e criado numa família de suicidas, aquele que muitos consideram o melhor escritor francês do último século, e sem dúvida um dos mais populares, foi também um singular cronista do fracasso inscrito no destino humano. Neste seu romance, como em vários outros, todos os planos saem gorados e todos os esforços se revelam aparentemente inúteis. Mas nem a consciência antecipada do malogro faz alterar o rumo dos acontecimentos. Como se tudo estivesse condenado a um final infeliz.

No entanto, A Condição Humana -- classificado em quinto lugar na lista dos cem melhores livros do século pelo jornal Le Monde -- não é apenas o relato magistral de uma revolução falhada (a de Xangai, em 1927, afogada em sangue pelos nacionalistas do Kuomintang). Porque prenuncia à distância de quase duas décadas o domínio comunista no mais populoso país do globo e o irreversível declínio do poder europeu no Oriente (e aqui surgem também referências a Portugal, que tinha na altura uma forte comunidade em Xangai, a maior e mais cosmopolita cidade da China). Chega ao ponto de antecipar a cisão entre Moscovo e Pequim na figura de Borodin, enviado de Estaline para apaziguar os camaradas chineses.

 

Num magnífico prefácio à edição portuguesa do romance (lançada pelos Livros do Brasil em 1958), Jorge de Sena, categorizado tradutor de Malraux, sublinha com evidente acerto que esta obra é "um longo comentário moralista sobre a solidão e a morte, sobre a acção e o destino humano", servido por uma "intensa e asfixiante acção romanesca".

E também com uma galeria de personagens inapagáveis.

Tchen, o revolucionário que se torna terrorista, apostado em "dar um sentido imediato ao indivíduo sem esperança e multiplicar os atentados, não por uma organização, mas por uma ideia: fazer renascer os mártires".

Katow, o austero militante que escapara in extremis à morte na guerra civil russa, fadado para uma heroicidade que não previa.

Kyo, o jovem que troca o conforto burguês pelo trabalho como operário, cheio de certezas na política e de dúvidas na vida amorosa.

O seu pai, o velho professor Gisors, um intelectual há muito desapossado de todos os ideais, trocados pelo ópio, que "só ensina uma coisa: fora do sofrimento físico não há realidade".

O barão de Clappique, mitómano e aventureiro inconsequente.

Hemmelrich, o hesitante activista belga só impulsionado para a luta ao ser tocado por um drama pessoal.

Ferral, o poderoso homem de negócios francês, incapaz de ver na China mais do que uma fonte de lucro fácil, símbolo supremo da decadência europeia.

 

Neste romance, como sustentou Vargas Llosa, "o leitor assiste a uma tragédia clássica incrustada na vida moderna". Servido pela virtude máxima de Malraux como escritor: a sua magnífica prosa, modelar no estilo, exemplar no conteúdo, muito eficaz na criação de atmosferas envolventes e sugestivas. Virtude bem expressa em frases como esta: "A noite desolada da China dos arrozais e dos pântanos invadira a avenida quase abandonada."

Poucos romances são tão capazes de condensar e definir o turvo século XX. Tempo em que deflagraram todas as esperanças e em que ruíram todas as ilusões. Tempo em que o homem se tornou lobo do homem, traindo o mais fundo e o mais belo e o mais inapelável da condição humana.

 

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O Delfim - Vícios privados, públicas virtudes

Grande romances (8)

por Pedro Correia, em 16.05.13

 

VÍCIOS PRIVADOS, PÚBLICAS VIRTUDES

O Delfim, de José Cardoso Pires

 

Todo o livro é irrepetível até prova em contrário. Mas há uns mais irrepetíveis que outros. Tomemos por exemplo O Delfim: livro irrepetível acima dos demais, retrato-documento de uma época de transição, breve pausa entre um mundo que ruía e outro que ia assentando alicerces ainda incertos.

É o mundo do engenheiro agrónomo Tomás Manuel da Palma Bravo, morador na Casa da Lagoa, senhor incontestado da freguesia da Gafeira, a 150km de Lisboa em dimensão física mas a uma distância muito maior em ritos e medos que aqui foram perdurando geração após geração. Este é um palco de espectros, rumores, sombras e presságios em desafio à esquadria da lógica e aos epítomes da modernidade - a começar pelos astronautas que nesse mesmo instante passeiam no espaço sideral e têm as fotografias estampadas nas capas dos vespertinos que ali só chegam nas camionetas da carreira, quase ao cair da noite.

Tomás Manuel, 11º varão da família com esse nome, vive rodeado de fantasmas ancestrais nos salões da Casa da Lagoa. "Tinham rostos nebulosos, esses cavaleiros lavradores. Emergiam de um passado intemporal em que reinavam guerrilheiros de crucifixo no bolso e onde havia lenços vermelhos a flutuar sobre as searas. E javalis nos bosques - faço questão de acentuar, não é qualquer caçador que se pode gabar de os ter enfrentado, visto que, nos tempos que correm, ninguém lhes põe a vista em cima." Palavras do escritor, insuperável na descrição de atmosferas. Palavras que se diriam quase nostálgicas em alusão a uma era da qual apenas sobram rastos de decadência.

A Gafeira, como Portugal, é um território povoado de anacronismos, simbolizados nas imagens a preto e branco exibidas no televisor sem som da mansão e reflectidas nas páginas do romance, sucedâneo do coro das tragédias clássicas aqui em versão silenciosa, num incessante desfile de "padres, militares e políticos" - espécie de assombração geral que serve de fundo à assombração muito peculiar que O Delfim deixa entrever num fio de novelo ficcional pontuado por um narrador omnipresente mas não omnisciente, que presume afinal muito mais do que realmente sabe.

 

Há romances espantosamente premonitórios, que fazem da sua circunstância a principal chave de um êxito a que talvez nunca aspirassem à partida. É o caso deste, o terceiro de José Cardoso Pires (1925-1998), após O Anjo Ancorado e O Hóspede de Job, surgido em 1968, um ano de mudanças várias nas sete partidas do globo - e nomeadamente na sociedade portuguesa, com Salazar a sair de cena após quatro décadas de poder quase absoluto, dando lugar a Marcelo Caetano, a quem se poderia pôr também o apodo de Delfim, novo guarda-mor de um regime em decomposição acelerada que este livro vislumbrava, logo no próprio título, com olhar lúcido e visionário.

Salazar é, de resto, mencionado explicitamente num trecho, muito ousado para a época, à semelhança de vários outros que percorrem esta obra ácida mas nada árida, cáustica sem contemplações - não só para a política mas para o jornalismo e a própria literatura, aqui satirizada na figura de Maria da Paz Soares, Pazinha para os íntimos, versejadora que "todos os anos publica um livro de poemas e todos os anos muda de amante que é para manter os cornos do marido em forma".

O Delfim vem estilhaçar o tranquilo provincianismo português destes anos crepusculares da ditadura, mundo dual, simbolizado nas águas estagnadas da lagoa ocasionalmente penetradas por correntes oceânicas, mundo povoado de vícios privados e públicas virtudes em que desponta um inesperado triângulo: o engenheiro, a sua esposa Maria das Mercês, suposta mulher estéril (o que porá fim à linhagem dos Palma Bravos) e Domingos, o criado mestiço que perdeu um braço e "gastara a infância nos cais do Mindelo conduzindo marinheiros americanos com a sua voz branda e amável".

 

"Pelas vidraças descidas até meio entra o ar da noite que, percebe-se agora, vem cortado de um ligeiro travo de fumo. É bom estar assim, num quarto com borralho na braseira, e receber de frente uma aragem temperada por um fio de aroma. Excelente ideia, a da braseira. Raros caçadores terão tido tantas atenções da parte de uma formiga-mestra estalajadeira."

Este parágrafo demonstra bem o talento estilístico de Cardoso Pires neste romance com claras influências de Hemingway - na caça, na pesca, no álcool, nos touros, no sangue, no trágico determinismo de um universo masculino, polvilhado de contínuas comparações de pessoas e até objectos a animais - os aldeões que pareciam "dois corvos", a dona da pensão "com cabecinha de pássaro", o potente Jaguar semelhante a um tubarão - ou a utilização destes como veículo de sátira social ("o que intriga é o instinto de classe dos cães das classes abastadas, a maneira como escorraçam o pobre e como emparceiram com o rico, ainda que o não conheçam") ou política ("os cães-polícias da GNR, insaciáveis e sanguinários").

 

É um livro que oferece ao leitor um dos melhores primeiros capítulos de toda a literatura portuguesa, um livro capaz de cruzar o olhar subjectivo do autor-narrador com descrições supostamente objectivas de relatórios oficiais, autos de inquérito policial e simples notícias de jornal, cheio de saltos cronológicos e deliberadas faltas de sincronização entre o que se imagina e o que realmente ocorreu.

Um livro com um enredo propositadamente desfocado e algumas imperfeições que permaneceram por limar ao longo de sucessivas reimpressões da obra: Maria das Mercês terá morrido no mês de Maio, supostamente de 1967, mas a data mencionada para o seu óbito é o ano anterior; o abade Agostinho Saraiva, autor da imaginária Monografia do Termo da Gafeira, é denominado Domingos por lapso (na página 46 da 10ª edição, da Dom Quixote, datada de 1988); o outro apelido de Fernando Pessoa era Nogueira e não Seabra (p. 207).

Pormenores que não alteram o fundamental: este romance vale sobretudo como símbolo de um período histórico - o do Estado Novo então já velho, sulcado de mulheres de negro, autênticas "viúvas-de-vivo", de diários "tão lavados pela Censura que sujam as mãos" e de contínuas imagens de sumidades a desfilar numa televisão sem som. "Estúpido mundo quando fala sem voz".

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A Peste - Ratos e homens

Grandes romances (7)

por Pedro Correia, em 12.05.13

 

RATOS E HOMENS

A Peste, de Albert Camus

 

«Sinto mais solidariedade com os vencidos do que com os santos. Creio que não tenho gosto pelo heroísmo nem pela santidade. O que me interessa é ser um homem.»

(p. 184)

 

Há livros que podem ser lidos de várias formas, permitindo diversos níveis de interpretação - sem nunca perderem o fascínio que exercem sobre o leitor. É o caso deste perturbante romance de Albert Camus sobre uma cidade no norte de África - Orão, na então Argélia francesa - sitiada devido à peste.

Li-o pela primeira vez na adolescência, sem atender ao seu mais profundo significado metafórico, e pareceu-me um poderoso retrato da fragilidade humana confrontada com um mal supremo num mundo que deixou de merecer o interesse de Deus. É muito curta a distância que vai do homem como ser supremo da natureza ao homem vítima das mil contingências causadas por essa mesma natureza que sempre tentou dominar sem nunca o conseguir.

A peste, milenar símbolo do mal, surge aqui com um significado especial num século em que o ser humano, mais que nunca, supôs ser o do progresso irrevogável. Em 1900, houve inúmeros festejos por toda a Europa saudando o advento de uma nova era que se imaginava ser de paz perpétua, luzes universais e prosperidade galopante ao dispor de todos. As ilusões podem tornar-se perigosas - como a realidade rapidamente se encarregou de comprovar.

 

Ao reler este livro muitos anos depois, no entanto, o seu significado alegórico tornou-se-me ainda mais evidente. Quase desde as primeiras linhas, quando um médico residente na segunda maior cidade argelina - "cidade sem pombas, sem árvores e sem jardins", plantada à beira do Mediterrâneo mas crescendo de costas voltadas para o mar - encontra um rato morto no patamar do edifício onde tem o consultório. Depois desse rato, surgem outros. Muitos outros. E em breve Orão estará fechada sobre si própria, de quarentena, transformada num pequeno universo concentracionário, com os seus habitantes a morrerem às centenas, aos milhares. Vítimas de uma doença atávica que todos consideravam já extinta.

O século XX, tempo de peste. Orão, símbolo da Paris ocupada pelos esbirros de Hitler entre 1940 e 1944. Os ratos, a tropa de choque nazi. As brigadas sanitárias que o Dr. Bernard Rieux organiza para combater o mal, num esforço claramente desproporcionado, um evidente paralelo com a resistência francesa ao invasor. O grande romance de Albert Camus - publicado em 1947 - libertava-se do seu significado literal, aos meus olhos de leitor já experiente, surgindo como uma assombrosa metáfora de um tempo de trevas e de um espaço submetido ao bacilo mortal do totalitarismo.

Camus, ele próprio membro da resistência e jornalista envolvido no combate quotidiano às forças ocupantes, nunca teve dúvidas sobre a missão que deve caber aos intelectuais nas encruzilhadas do mundo contemporâneo: a defesa intransigente da liberdade, sabendo que esta é inseparável da justiça. Nenhum sistema ideológico está autorizado a capturar a liberdade em nome de causas que a sufoquem nem a neutralizar a justiça a pretexto de bandeiras que a violentem.

 

De tudo isto nos fala A Peste (com antiga edição portuguesa dos Livros do Brasil e uma reimpressão surgida já em 2013, sob a mesma chancela, sempre com tradução de Ersílio Cardoso). Num estilo lento, pastoso, sublinhado pela voz quase neutra de um narrador omnisciente que confere um efeito de acrescida verosimilhança à narrativa enquanto desfilam personagens com entrada automática na galeria imortal das melhores ficções literárias de todos os tempos: Rieux, que se esgota em incessantes tentativas de cura de cidadãos anónimos mas é incapaz de salvar a mulher, vítima de outra doença implacável; o forasteiro Tarrou, que um dia descobriu com terror ser filho de um procurador que conduzira pessoas ao cadafalso e desde então decidira "recusar tudo o que, de perto ou longe, por boas ou más razões, faça morrer ou justifique que se faça morrer"; Grand, escritor falhado, eternamente em busca da expressão perfeita de um livro que nunca escreverá; o jovem jornalista Rambert, que procura evadir-se de Orão, dizendo não acreditar no heroísmo, mas que acaba envolvido na resistência; o padre Paneloux, que começa por justificar a peste como praga divina destinada a castigar os pecados humanos, com "esse clarão sublime de eternidade que jaz no fundo de todo o sofrimento", e termina a suplicar a Deus, numa inútil prece de joelhos, que evite a dolorosa agonia de uma criança inocente.

 

E no entanto, neste mundo eternamente desaguarnecido da misericórdia divina, Camus mobiliza todos os leitores para o inadiável dever da esperança: "É preciso fazer o necessário para deixar de ser um pestiferado e só isso nos pode fazer esquecer a paz ou, na sua falta, uma boa morte."

Romancista de ideias, habituado a teorizar sobre o absurdo da existência humana, este francês nascido na Argélia em 1913 e precocemente desaparecido num acidente de automóvel em Janeiro de 1960, pouco mais de dois anos após ter recebido o Nobel da Literatura, viu a sua reputação agigantar-se desde então, conquistando novas gerações de leitores em sucessivas reedições das suas obras de ficção, teatro e ensaio. O Primeiro Homem, o romance incompleto que transportava na pasta, ainda em rascunho, quando o retiraram dos escombros do veículo em que perdeu a vida, foi lançado em 1994 e aí percebeu-se como a sua popularidade se mantinha intacta: logo na primeira semana, mais de 50 mil exemplares escoaram-se das livrarias. Quantos escritores imaginariam conseguir um best seller três décadas e meia depois da morte?

Um êxito editorial que já tinha alcançado com A Peste: entre Junho e Setembro de 1947, venderam-se 52 mil cópias em três edições desta obra, galardoada nesse mesmo Verão com o Prémio da Crítica.

 

A identidade do narrador, só desvendada no final do livro, é um dos inúmeros aliciantes deste romance dividido em cinco capítulos, imitando os cinco actos das tragédias clássicas, e que alguns podem ler como um ensaio sobre ética. Não admira que tenha influenciado profundamente outros autores (há, por exemplo, um claro parentesco entre A Peste e o Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago).

Romance alegórico, sim. E romance profético também. Porque Orão viria a ser palco, na década posterior à publicação deste livro que a imortaliza, de algumas das maiores atrocidades cometidas durante a sangrenta guerra da Argélia.

A vida imitava a ficção, como tantas vezes sucede. Dando ainda mais relevância à lucidez das palavras finais d' A Peste, enquanto gritos de alegria incontida explodem de bairro em bairro. Camus sabia que "o bacilo não morre nem desaparece nunca" e que "viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz".

 

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As Vinhas da Ira - Fazer das fraquezas força

 

Grandes romances (6)

por Pedro Correia, em 05.05.13

 

FAZER DAS FRAQUEZAS FORÇA

As Vinhas da Ira, de John Steinbeck

 

«Eu vi a miséria do Meu povo no Egipto e ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores. Conheço, pois, a sua dor. Estou decidido a libertá-lo das mãos dos egípcios e a conduzi-lo para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel.» Êxodo, 3: 7-8

 

A pobreza foi inúmeras vezes abordada na literatura - tanto em obras de ficção, com destaque para os clássicos de Dickens ou Zola, como em livros de reportagem de grandes escritores que anteciparam em décadas Truman Capote no seu conceito de romance de não-ficção. Escritores como Jack London, com O Povo do Abismo (1903) ou George Orwell, com Na Penúria em Paris e Londres (1933). Obras-primas no seu género e que deveriam ser incluídas nos planos curriculares de todos os cursos de comunicação social. Porque os livros podem substituir-se à vida no despertar da consciência social, algo indissociável da profissão de jornalista.

Mas de todos os livros que li até hoje nenhum me revelou de forma tão crua, tão impressiva e tão inesquecível o drama da pobreza extrema - aquela que se confina ao limiar da sobrevivência física - como As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1939), enorme romance-reportagem sobre a saga de uma família empurrada pela fome da sua aldeia de Sallisaw, no Oklahoma, até à Califórnia, suposta terra da promissão. Há um fôlego épico nesta penosa travessia que vamos acompanhando com crescente angústia, à medida que os membros da família adoecem ou morrem, tornando-se inevitável um paralelo com a saga dos judeus no Êxodo. Com duas diferenças assinaláveis: Deus parece ter abandonado este povo errante e afinal a soalheira Califórnia acaba por não se revelar uma terra por onde escorrem o leite e o mel.

 

 

A família Joad, que partira quase sem nada num calhambeque prestes a desconjuntar-se após ter perdido a casa por falta de pagamento da hipoteca bancária e ter visto todas as sementeiras destruídas por acção dos ventos ciclónicos, passa a ter por lar a extensa fita de alcatrão que a conduzirá aos dourados laranjais da orla do Pacífico. São trabalhadores rurais há incontáveis gerações. Nada têm de seu: eis-nos perante os mais pobres dos pobres.

Ao longo do trajecto - nesta espécie de antevisão do On the Road, de Kerouac, em sentido inverso e sem qualquer intuito hedonista - vão desfilando paisagens de outros Estados norte-americanos: Texas, Novo México, Arizona. De todos surgem novas legiões de migrantes internos, deserdados da sorte, em desesperada busca de meios de subsistência no seu próprio país. Ao desaguarem na próspera Califórnia, verificam que não há ali lugar para todos. E uma nova luta começa então: a luta por um salário digno, disputado ao cêntimo pela mão-de-obra exangue num cenário em que a oferta de trabalho excede largamente a procura.

 

John Steinbeck (1902-68) escrevia sobre uma realidade que conhecia bem, na sua Califórnia natal. Ele próprio praticara mil ofícios numa minuciosa aprendizagem da vida que lhe seria muito útil como escritor. E nunca escreveu de forma tão apaixonada como neste seu vibrante fresco dos EUA na era da Grande Depressão nos anos que antecederam a II Guerra Mundial, em pleno mandato do presidente Franklin Roosevelt.

O futuro Nobel de 1962 já tinha publicado romances também comprometidos com os pobres, tanto em atmosfera rural (A um Deus Desconhecido, 1933) como em ambiente urbano (O Milagre de São Francisco, 1935), mas só neste revelou toda a dimensão do seu talento. O livro valeu-lhe fama instantânea: recebeu o Pulitzer e o Prémio Nacional de Literatura norte-americana. Também em 1939, cedeu os direitos de adaptação cinematográfica à 20th Century Fox, daí nascendo no ano seguinte um filme excepcional, sob a direcção de John Ford. A obra-prima da literatura encontrava prolongamento natural na obra-prima do cinema (a foto que encima este texto é desse filme, protagonizado por Henry Fonda).

 

As Vinhas da Ira é um livro escrito com um arrebatamento quase juvenil, atento às particularidades do discurso oral, das diferentes pronúncias, das falas geracionais. Um livro dotado de uma original estrutura narrativa: os capítulos em que acompanhamos o trajecto dos Joad, escritos invariavelmente na terceira pessoa, alternam com outros em que o autor nos vai transmitindo impressões e dados sobre a América e a sociedade do seu tempo, numa cumplicidade acrescida com o leitor que o leva a abandonar o registo impessoal.

É um livro com imperfeições narrativas: uma personagem secundária, adjunto de xerife, chega a ter três nomes - Joe, John e Mike; o irmão mais velho de Tom, Noah, desaparece na página 215 de forma pouco credível e nunca mais saberemos dele. Mas é um livro inconfundível na sua autenticidade e na urgência de nos relatar uma ficção ancorada em factos. E com um invulgar poder descritivo: não conheço nenhum outro romance que nos seja tão capaz de transmitir uma sensação física de fome. O que diz tudo sobre o mérito do autor, editado desde os anos 40 em Portugal, onde As Vinhas da Ira foi o segundo título da popularíssima colecção Dois Mundos.

Por mim, gostaria que a editora Livros do Brasil actualizasse a velhinha tradução de Virgínia Motta, o que ainda não sucedeu no recente lançamento da obra completa de Steinbeck entre nós.

 

Se há romance onde pulsa a vida, mesmo quando as suas personagens estão no limiar da morte, é este. Um romance onde nos sentimos também a desfilar estrada fora com o clã Joad, encabeçado por Tom e pelo seu pai, Tom como ele. Lá vão a mãe, a avó, o orgulhoso avô William James Joad, os irmãos Noah e Al, a irmã Rosaharn, os miúdos Ruthie e Winfield, o tio John Joad, o cunhado Connie Rivers e tantos outros que se juntam à caravana.

Fabuloso mosaico de uma América em transição, a América rural que bateu no fundo mas sonha levantar-se, quer levantar-se, ousa levantar-se em resposta a uma voz de comando que vem do mais fundo de si própria, contra todas as inclemências do tempo, contra todas as prepotências dos poderosos. Uma América que faz das fraquezas força para demonstrar que nenhuma adversidade a derrubará.

 

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Grandes romances (5)

por Pedro Correia, em 01.05.13

 

VOZ DO SANGUE, VOZ DA TERRA

Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev

 

«Uma folha seca do ácer arrancou-se e cai no chão; o seu movimento é perfeitamente idêntico ao voo de uma borboleta. Não é estranho? O mais triste e morto parecido com o mais alegre e vivo.» (p. 142)

 

A família, matéria-prima do romance por excelência. Dela tudo nasce, a ela tudo regressa com uma espécie de fatalismo que seduziu tantos escritores. O título desta obra não engana: escrevendo na Rússia imperial, com o czar Alexandre II no trono, Ivan Turguéniev (1818-1883) faz da família o principal condimento deste livro, que Vladimir Nabokov não hesitou em considerar o melhor romance do prolífero autor, "um dos maiores do século XIX" - opinião corroborada em listas como esta.

Todo o enredo, desenrolado como um novelo, é aqui pura filigrana. Tendo na mira principal dois jovens estudantes, Arkadi e Bazárov, de visita às respectivas casas paternas, algures na Rússia profunda. Vêm iluminados pelas luzes e pelas letras da cosmopolita Petersburgo e ambos, cada qual à sua maneira, sentem um choque cultural neste regresso às origens, no contacto subitamente reatado com o país rural que parece perpetuar-se na imobilidade desde os confins dos tempos.

São duas personagens em movimento constante, contrastando com esse aparente imobilismo da pátria-mãe - vão de casa em casa, de emoção em emoção, de paixão furtiva em paixão furtiva. Viajam em duplo sentido - no espaço e no tempo, trocando confidências incessantes que permitem ao leitor estabelecer laços de intimidade com qualquer deles.

Arkadi é mais cordato, mais convencional. Bazárov, aprendiz de biólogo, proclama-se niilista e resume toda a sua filosofia ao livre fluir das sensações, apossado por uma insólita fúria de viver: «Cada homem está pendurado por um fio, o abismo pode abrir-se por baixo dele a qualquer momento.» Conhecem-se há tempo suficiente para se considerarem o melhor amigo um do outro, ignorando ainda que a voragem dos dias não tardará a diluir os alicerces dessa amizade à medida que outras personagens forem surgindo em cena.

E este é precisamente um livro com riquíssimas personagens, em que a paisagem humana configura toda a atmosfera do romance.

 

Arkadi é filho de um próspero aristocrata rural, que confunde a voz do sangue com a voz da terra. O pai, viúvo, apaixonara-se na sua ausência por uma rapariga órfã que acolheu em sua casa e entretanto lhe dera outro filho, ainda bebé. Na mansão familiar vive também um tio solteirão, Pável, que "entrava naquele tempo incerto, crepuscular, em que as nostalgias se parecem com esperanças e as esperanças se parecem com nostalgias, em que a juventude já passou e a velhice ainda não chegou".

Bazárov - "primeiro bolchevista surgido na literatura russa", na opinião de alguns críticos - é o maior orgulho de um casal humilde, simultaneamente dilacerado pela ausência do filho único. Quando regressa, por apenas três dias ao fim de três anos, enche de alegria a velha mãe que já pensava nunca mais o ver.

Os dois jovens têm sonhos grandiosos - querem singrar na vida, pretendem distinguir-se da massa informe dos restantes mortais, ambicionam atingir patamares de felicidade nunca alcançados pelas gerações precedentes. O destino, no entanto, encarrega-se de comprovar que existe sempre um abismo entre o sonho e a realidade. Cada geração tende, muitas vezes, a emular o conservadorismo e a mentalidade conformista das gerações precedentes numa espécie de tributo ao instinto de sobrevivência. Quando isso não sucede, o preço a pagar pode ser a morte.

 

Pais e Filhos, publicado originalmente em 1862 (com excelente edição portuguesa da Relógio d' Água, datada de 2007 e traduzida do russo por António Pescada), contribuiu em larga medida para a sólida reputação da ficção russa do século XIX - talvez a mais invejada e decalcada de todos os tempos. A par de Tolstoi, Dostoievski, Gogol e Tchekov, Ivan Turguéniev é uma das figuras cimeiras dessa ficção que mudou para sempre a literatura universal e continua a assombrar o mundo.

Este foi um romance que inspirou muitos jovens a iniciar-se na escrita literária: aconteceu, por exemplo, com Ernest Hemingay, que o leu pela primeira vez em Paris, na década de 20, e nunca deixou de incluí-lo  entre os seus livros preferidos. Percebe-se bem o fascínio do autor de Adeus às Armas por Turguéniev, aliás na vida real também caçador e viajante como ele: nestas páginas, como em todos os bons romances de Hemingway, a personagem principal é tocada pela tragédia e enfrenta a morte com corajosa galhardia.

Esse fascínio prolonga-se nas gerações contemporâneas. E não custa explicar porquê: como sempre sucede na melhor literatura, a de Turguéniev é profundamente ancorada na sua época - abordando temas como os primórdios da emancipação feminina e a inaceitável servidão feudal - sem deixar de ser também profundamente universal ao falar-nos de temas que nunca passam de moda, confirmando o que dizia Balzac: "O romance é a história privada das nações."

 

Pais e Filhos fala-nos do que permanece imune à passagem do tempo, da natureza que cumpre o seu destino indiferente às paixões humanas e dos genuínos afectos, capazes de formar de modo mais decisivo um carácter do que toda a sabedoria académica.

É um romance quase musical, cheio de admiráveis diálogos e onde inesperadamente surge um trecho de Schubert ou Mozart que imaginamos mesmo escutar, tal é o poder sugestivo do escritor. Ivan Turguéniev acreditava - como depois dele aconteceria com Henry James ou Joseph Conrad, por exemplo - que o maior dever moral de um romancista é escrever bem.

E é também um romance cheio de cenas inesquecíveis. A do fugaz beijo trocado entre Bazárov e a jovem madrasta de Arkadi. A do duelo que culmina uma relação de ódio entre o biólogo niilista e o aristocrata eslavófilo, incapaz de aceitar os novos tempos. A do definitivo adeus de Bazárov, que tantas vezes se despede neste romance. A daqueles pais revisitando o túmulo do filho, amparando-se mutuamente num afago cúmplice que por vezes só a dor propicia, com um pranto indizível perante um ciclo existencial que inesperadamente se quebrou.

O sangue do seu sangue devolvido à terra, raiz e fim de tudo.

 

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Outros textos desta série:

O Velho e o Mar - Um homem destruído mas não vencido

O Poder e a Glória - Ler para crer

Mrs. Dalloway - Esplendor na relva

Santuário - Sombras profundas num Sul sem sol

Grandes romances (4)

por Pedro Correia, em 30.09.12

 

SOMBRAS PROFUNDAS NUM SUL SEM SOL

Santuário, de William Faulkner

 

William Faulkner quis provar a si mesmo, no final da década de 20, que era capaz de escrever um romance policial. Deitou mãos à obra e bastaram-lhe quatro vertiginosos meses para concretizar o projecto. Concebera-o como outra espécie de desafio pessoal: uma ficção que contivesse como ingredientes tudo quanto conseguisse imaginar de mais sórdido e macabro.

Quando terminou, achou-se perante algo diferente do que havia imaginado: em vez de uma história com detectives, produzira aquilo que André Malraux viria a definir como uma "tragédia grega transplantada para o policial". Uma obra dura, intensa, capaz de esquadrinhar os mais negros recônditos da natureza humana - com os seus fantasmas, as suas obsessões, os seus traumas.

É uma obra que ilude todos os rótulos, espécie de cruzamento entre o realismo e o expressionismo, onde várias personagens surgem apenas esboçadas ou são configuradas como sombras espectrais. Existe um persistente lapso temporal entre a acção e os fragmentos dela que vão sendo transmitidos ao leitor, como se assinalassem a distância intransponível entre a literatura e a vida. E o próprio título do romance é ilusório: o Santuário aqui descrito é afinal um pequeno mundo de lassidão moral mal disfarçado pelas convenções sociais e pela letra da lei, sempre distorcida ao sabor das conveniências de ocasião.

Faulkner, apostado em profissionalizar-se como escritor, escrevera pouco antes O Som e a Fúria, em ambiência rural, e quis fazer algo completamente diferente - tanto ao nível do estilo como do tema. O cenário continua a ser o chamado 'Sul profundo' dos Estados Unidos (centrado na sua região natal do Mississípi, convertida literariamente no condado de Yoknapatawpha) mas aqui estamos num ambiente urbano - ou pelo menos contaminado pela cidade, enquanto palco simbólico da erosão dos padrões éticos. Sob o filtro deste "mestre da observação genuína e do conflito interior", como lhe chamou Allen Tate.

 

Significativamente, as primeiras páginas de Santuário (1931) decorrem de dia, sob o intenso clarão do sol, mas à medida que a acção se adensa tudo passa a acontecer em atmosfera nocturna. Tudo o quê? Mentira, contrafacção, crueldade, corrupção, traição, impotência, prostituição, piromania, racismo, alcoolismo, enforcamento, violação, assassínio, castração, incesto, linchamento: ingredientes descritos ou apenas sugeridos neste romance que o New York Times enalteceu como um "assombroso estudo sobre o triunfo do mal" em 1981, quando surgiu finalmente no prelo a versão original do romance, que o editor rejeitara por poder chocar as almas mais sensíveis. Faulkner reescreveu-o parcialmente, limando algumas arestas e esbatendo o protagonismo da figura central, Horace Benbow, um advogado destituído de coragem física e perturbado pela ambiguidade moral. Os capítulos iniciais do primeiro rascunho tinham uma óptica subjectiva: os factos eram transmitidos ao leitor pelo olhar de Horace.  

Apesar das mudanças - e das inúmeras gralhas tipográficas que foram perdurando de impressão em impressão e só vieram a ser definitivamente expurgadas em 1993 - Santuário impôs-se como um marco fundamental da ficção literária do século XX, contribuindo - a par de outros títulos, como Luz de Agosto, Absalão, Absalão e o já mencionado O Som e a Fúria - para a atribuição em 1949 do Nobel da Literatura a este descendente de uma próspera família de proprietários rurais condenada à pobreza endémica após a Guerra da Secessão (1861-65).

A arte narrativa teve nele um dos principais cultores de sempre. "Em todo o romance é a forma - o estilo em que está escrita e a arquitectura da narração - o que decide a riqueza ou a pobreza, a profundidade ou a superficialidade da história. Mas em romancistas como Faulkner a forma é algo tão visível, tão palpável na narração que faz as vezes de protagonista e actua como mais uma personagem de carne e osso ou figura como facto", observa justamente Vargas Llosa, outro galardoado com o Nobel, em La Verdad de las Mentiras.

 

O sortilégio da escrita de Faulkner resiste inclusive ao crivo implacável e arbitrário da tradução. Repare-se, a título de exemplo, numa cena capital, a da violação de Temple Drake (no capítulo 13 do romance, onde nada surge por acaso), em duas versões portuguesas de Santuário - ambas da Editorial Minerva.

A primeira, assinada por Marília de Vasconcelos, na colecção Capa Amarela (anos 50):

"Popeye virou-se e fitou-a. Baloiçou um pouco o revólver antes de o guardar no bolso, e encaminhou-se para Temple. Andava com passos silenciosos. A porta, aberta, escancarou-se e foi bater no umbral, também sem o menor ruído: dir-se-ia que as leis do som e do silêncio estavam invertidas."

A segunda, assinada por Fernanda Pinto Rodrigues, na colecção Minerva de Bolso (anos 70):

"Virou-se, olhou-a, agitou um momento a pistola antes de a guardar na algibeira e aproximou-se. Os seus passos não produziam nenhum som. A porta liberta do fecho abriu-se e bateu contra a ombreira, mas também não produziu nenhum som. Dir-se-ia que som e silêncio se tinham invertido."

A grande literatura é assim: surpreende e fascina em todas as épocas, em todos os idiomas, em qualquer versão. E não custa intuir quando estamos perante um romance de excepção, como sucede aqui: ao chegarmos ao fim, sabemos de antemão que jamais nos livraremos dele. Havemos de regressar a qualquer momento ao condado de Yoknapatawpha, para reviver a magia do primeiro assombro. É uma ligação para a vida: estejamos onde estivermos, livros como este irão connosco.

 

Outros textos desta série:

O Velho e o Mar - Um homem destruído mas não vencido

O Poder e a Glória - Ler para crer

Mrs. Dalloway - Esplendor na relva

Grandes romances (3)

por Pedro Correia, em 23.09.12

 

ESPLENDOR NA RELVA

Mrs Dalloway (Virginia Woolf)

 

«Quando as pessoas se sentem felizes têm uma espécie de jardim secreto onde se recolhem.» (p. 109)

 

Há um momento, na dobra das nossas biografias, em que a vida vivida nos começa a preencher mais o pensamento do que a vida sonhada. Somos assaltados a todo o momento por uma infindável série de recordações.

Clarissa Dalloway entra no Outono da existência precisamente num encantador dia de Primavera em que a natureza parece entoar um cântico de louvor à bonomia universal e Londres desperta banhada em sol. A frase de arranque do romance, de uma limpidez exemplar, ilustra bem esta atmosfera: "Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself."

Havia sinais de esperança um pouco por todo o lado naquele Reino Unido que superara cinco anos antes o pesadelo da Grande Guerra. Em Junho de 1923 nada parecia ensombrar os dias de uma senhora bem casada da alta sociedade britanica - íntima de ricos e poderosos, "sempre rodeada de gente aborrecidíssima e sem o menor interesse" - que daria nessa noite uma festa na sua mansão de Westminster destinada a perdurar na memória de quantos nela participassem.

"Agora, depois de ter passado as fases do casamento e da maternidade, pouco mais lhe restava para além da hipótese de se juntar aos outros e subir Bond Street devagar, na companhia da multidão. O certo é que ainda lhe custava resignar-se a ser Mrs. Dalloway, apenas Mrs. Richard Dalloway, já que lhe fora retirado o privilégio de responder pelo nome de Clarissa." É assim que Virginia Woolf nos apresenta a personagem desta sua obra-prima publicada em 1925 que rompeu os cânones da literatura tradicional (edição portuguesa Europa-América, tradução de Lucília Rodrigues).

Este é um romance que tem algo de Proust e algo de Joyce. O primeiro, na súbita vaga de reminiscências que assalta a protagonista e a leva a conduzir-nos a alguns dos mais recônditos pormenores do seu passado - com o calor primaveril no lugar das célebres madalenas proustianas. O segundo porque, tal como sucede em Ulisses, toda a acção de Mrs. Dalloway decorre num dia, uma quarta-feira, de manhã à noite. Este é um romance sem divisão em capítulos mas percorrido pela presença obsessiva de relógios destinados a demonstrar como é exíguo o tempo que nos resta e "o fracasso parece estar sempre à espreita", nem que seja sob a forma de velhice - talvez o mais cruel dos seus disfarces.

 

Mrs. Dalloway surge-nos com uma surpreendente estrutura coral, ao melhor estilo modernista, em que os diálogos alternam com os solilóquios, discurso indirecto e directo se entrelaçam, um narrador omnisciente tão depressa aparece como se retira e o fluxo narrativo é como um rio por vezes de margens mais estreitas, atento aos pormenores, por vezes de margens mais largas, centrado em reflexões sobre o tempo, o amor, a vida e a morte ("a única certeza que nos acompanha").

A autora, neste seu quarto romance que lhe valeu o aplauso da crítica contemporânea e é frequentemente mencionado entre as cem melhores obras literárias de todos os tempos, capta de forma minuciosa a atmosfera daquela prodigiosa década de 20, breve intervalo entre os dois mais sangrentos conflitos da história humana. A guerra comparece aqui na pessoa de um ex-combatente, Septimus Warren Smith, espécie de contraponto lunar à aparente existência solar de Mrs. Dalloway, outra figura perseguida pelas sombras do passado. Os dois percorrem o livro em linhas paralelas, sem se cruzarem, mas a trágica morte de Septimus é motivo de conversa na festa onde a acção culmina, quase todas as personagens se encontram e para onde o enredo naturalmente conflui.

À medida que cai a noite, vamos conhecendo cada vez melhor Clarissa Dalloway - mulher de fachada resplandecente, mulher de face oculta. "Só ela sabia o quanto era diferente da imagem que dava de si mesma - uma mulher sentada na sala que se transformava numa luz, num refúgio capaz de salvar algumas existências solitárias". Enquanto ela própria, de modo quase imperceptível, ia caindo nas malhas da solidão. Certa de que, como na ode de William Wordsworth, "nada pode devolver-nos a hora do esplendor na relva, da glória em flor".

Nada excepto a nostalgia das manhãs douradas do passado que nos preenchem o fio da memória enquanto os grãos de areia tombam no fundo da ampulheta a uma cadência inexorável.

Grandes romances (2)

por Pedro Correia, em 14.07.12

 

LER PARA CRER

O Poder e a Glória (Graham Greene)

 

«E vós sereis odiados por todos, por causa do Meu nome. Mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.»

Mateus, 10: 22

 

Um homem acossado percorre montes e vales, refugia-se em grutas e becos, vai a pé ou sobre o lombo errante de uma mula: é um padre clandestino no estado de Tabasco, algures durante o mandato do presidente Plutarco Calles ou do seu sucessor, Lázaro Cárdenas, no auge das perseguições religiosas desencadeadas pelo poder político mexicano sobretudo entre 1926 e 1934. Nessa época, pelo menos 4500 padres foram mortos ou expulsos do país.

Em 1935 não havia nenhum em 17 estados mexicanos.

Jamais conheceremos a identidade deste sacerdote. Mas sabemos que é um ser torturado: vive há oito anos sem poiso certo, acolhido por pobres camponeses - os mais humildes entre os humildes. Está antecipadamente condenado ao pelotão de fuzilamento como outros padres acabaram condenados à morte civil, forçados ao casamento para escapar à prisão e destituídos do direito de voto num estado onde todas as igrejas foram incendiadas ou encerradas. Apenas por ter cometido o delito da fé: ser crente no México daqueles presidentes apostados em banir toda a devoção religiosa era algo mais condenável do que o crime de homicídio.

 

Graham Greene (1904-91) viveu alguns meses no México em 1938 e trouxe de lá concebido O Poder e a Glória, considerado pela Time um dos cem melhores romances em língua inglesa editados desde 1923, ano da fundação da revista. Publicado em 1940, com uma modesta tiragem de 3500 exemplares, tornou-se desde logo um marco da literatura. Se não tivesse lançado mais nenhum romance, bastaria este para dar justa fama ao escritor britânico que se converteu ao catolicismo após atingir a idade adulta.

Nas palavras categóricas do Nobel da Literatura William Golding, Greene "captou como ninguém a consciência do homem do século XX". John Updike, num artigo publicado em 1990 no New York Times, considerou O Poder e a Glória "uma obra-prima". Mario Vargas Llosa, num ensaio inserido no seu livro La Verdad de las Mentiras, pronuncia-se deste modo: "Continua a ser um poderoso romance, que através de uma história simples mas eficaz, magnificamente narrada, dramatiza o velho antagonismo entre a razão e a fé, ou, numa perspectiva mais abrangente, o das utopias cruzadas do espiritualismo e do materialismo."

 

É um romance muito engenhoso no inesperado desenvolvimento das duas personagens centrais, ambas sem nome: o padre e o tenente da polícia que o persegue com obsessão fanática. O segundo, austero e abstémio, parece muito mais virtuoso do que o primeiro, pecador que jamais alguém ouvirá em confissão. Mudassem as circunstâncias e o tenente que vive indiferente às paixões da carne numa espécie de cela monacal poderia ser padre. Mas o ódio à religião consome-o com uma voracidade directamente proporcional ao seu anseio de libertar os conterrâneos das amarras da injustiça. Sem reparar que nada pode ser tão injusto como certas engenharias sociais apostadas em eliminar o direito natural à fé.

"Por amor deles, era capaz de uma chacina; primeiro a Igreja, em seguida o estrangeiro, o político depois; até o seu próprio chefe, um dia, teria de ser eliminado. Queria começar de novo o mundo com eles, num deserto." Assim era o tenente. Na sua autobiografia, Greene reconhece que havia muito de realidade nas figuras do romance, mas confessa ter idealizado o perseguidor do padre: "Não encontrei o idealismo nem a a integridade do tenente entre os polícias e os pistoleros com quem me cruzei no México. Foi invenção minha."

 

The Power and the Glory (tradução de António Gonçalves Rodrigues para a edição portuguesa dos Livros do Brasil) é uma obra escrita por um católico firme no combate às ortodoxias. Em 1953 - quando o romance já tinha sido adaptado ao cinema, seis anos antes, por John Ford - a Santa Sé pronunciou-se com reservas sobre o seu conteúdo, considerando-o "paradoxal". Palavras produzidas por alguém mais papista que o Papa. Ao receber o escritor no Vaticano, em 1965, Paulo VI confidenciou-lhe que tinha apreciado este livro que estabelece um paralelo quase herético entre o padre em pecado mortal e o Cristo que nos surge eternamente vivo nas páginas do Evangelho de Mateus.

É uma obra cheia de cenas que nos ficam gravadas na memória. O encontro do sacerdote com a filha ("a luxúria não é o pior de tudo. É só porque a luxúria se pode transformar em amor que temos de a evitar. E quando amamos o nosso pecado em verdade estamos condenados"). O dramático instante em que, faminto, disputa um osso com uma cadela quase moribunda. A conversa travada num quarto de pensão infestado de baratas com o corrupto chefe da polícia que lhe bebe todo o vinho destinado à consagração nas missas clandestinas. A espantosa cena em que o padre José, autêntica ruína moral, se nega a satisfazer a última vontade do seu irmão de fé mesmo quando incentivado a isso pelo tenente. A noite passada numa cela superlotada ("palpitava-lhe no íntimo um afecto enorme e irracional pelos habitantes da prisão"). O momento em que o mestiço, como Judas, o entrega ao tenente, curiosamente acompanhado por 12 soldados numa alusão simétrica - e também quase herética - aos apóstolos.

"Era fácil morrer pela bondade ou pela beleza, pela pátria ou pelos filhos ou por uma civilização, mas só um Deus podia morrer pelos maus e pelos corruptos."

 

É um romance em grande parte passado de noite - metáfora recorrente do México daqueles anos - e sob a presença obsessiva dos bútios, ave de rapina que se alimenta de cadáveres. Um romance dominado pelo impiedoso exame de consciência do sacerdote que se sabe condenado: resistiu às iniquidades mais que os outros não por ser santo ou herói mas pelo que considera o seu orgulho desmedido.

Mas é também um livro que reivindica de forma inigualável o direito à esperança, interpelando as convicções de todos - crentes e não crentes: "A esperança é um instinto que só o raciocínio humano pode matar. Os animais desconhecem o desespero."

Um livro dicotómico, percorrido pelas trevas mas que termina de forma luminosa. Basta ler para crer.

 

Ilustração principal: fotograma do filme O Fugitivo, de John Ford (1947)

Grandes romances (1)

por Pedro Correia, em 09.06.12

UM HOMEM DESTRUÍDO MAS NÃO VENCIDO

O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)

 

Em Janeiro de 1953, uma das obras mais memoráveis da literatura universal encabeçava o top de vendas nos Estados Unidos: O Velho e o Mar. Com esta novela que assombrou o mundo literário logo ao surgir nos escaparates, quatro meses antes, Ernest Hemingway relançava espectacularmente a sua carreira, desmentindo os críticos que lhe tinham antecipado o epitáfio. Não tardaria o Pulitzer. Nem o Nobel, que lhe foi atribuído em 1954.

"Um homem pode ser destruído, mas não derrotado" é o mote desta comovente saga de um ser frágil em luta desigual contra as mais inclementes forças da natureza."Hei-de lutar enquanto tiver remos", diz para si próprio o velho pescador Santiago, protagonista do livro. No final, perdido o espadarte que pescara no alto mar e esgotadas as forças, basta-lhe a recompensa de nunca ter virado a cara à luta - mensagem que transcende épocas e modas, tornando-se numa alegoria da condição humana. A Dignidade do Homem foi, aliás, o título inicial que Hemingway concebeu para a novela, cuja trama era antecipada num dos primeiros contos do autor - Os Invencíveis (1925) - em que um toureiro figurava no lugar do pescador.

"Esta é uma obra que nos eleva à contemplação da dignidade do homem e do mundo", escreveu Jorge de Sena no prefácio à edição portuguesa do livro, que ele próprio traduziu. Portugal foi um dos países onde O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea) cativou gerações de admiradores, funcionando muitas vezes como iniciação à literatura de qualidade.

Hemingway congeminou durante 15 anos a história do velho Santiago que nunca voltou costas aos tubarões, concebendo-a desde logo como uma homenagem aos pescadores de Cojímar, belíssima aldeia piscatória situada a poucos quilómetros de Havana. Era ali que o escritor costumava ancorar o seu iate Pilar na década de 50, quando Cuba se tornou a sua pátria adoptiva.

Publicado inicialmente nas páginas da revista Life, no dia 1 de Setembro de 1952, O Velho e o Mar teve um sucesso imediato: só em dois dias, a revista vendeu mais de cinco milhões de exemplares. Um sucesso prolongado em livro, uma semana mais tarde. Com 50 mil cópias vendidas logo na edição inaugural, a obra manteve-se nos seis meses seguintes no top americano, tornando-se objecto de estudo em escolas francesas, alemãs, italianas e japonesas. Portugal acabou por não fugir à regra.

 

Santiago, um homem no limiar da pobreza mais extrema e praticamente escorraçado da sociedade, tem apenas como amigo um rapaz chamado Manolín. Só esta criança - única personagem do género na obra romanesca de Hemingway - mantém toda a confiança nas capacidades do velho pescador que se prepara para enfrentar o derradeiro desafio da sua vida no mar das Caraíbas. Por isto, O Velho e o Mar também constitui um hino à amizade.

Numa carta dirigida ao crítico Bernard Berenson, poucos dias após a publicação da obra, Hemingway confessava que o seu "único fim na vida" era ser um velho sábio, à imagem e semelhança de Santiago. No auge da carreira, quando era rico e famoso, o futuro Nobel da Literatura não escondia o fascínio por um estoicismo de raiz evangélica. A simbologia cristã percorre aliás as páginas desta obra - do nome do protagonista aos três dias em que decorre a acção, culminando na cena final com Santiago a levar os utensílios de pesca às costas, como Cristo rumo ao Gólgota. O velho adormece enfim, exausto, com as palmas das mãos viradas para cima e os braços estendidos em forma de cruz. 

 

Nota. Dedico este início de uma nova série no DELITO à leitora Ilda Pontes, que nesta caixa de comentários me alertou para algo que eu ignorava: a inclusão do meu texto sobre O Velho e o Mar no livro Plural - de língua portuguesa, destinado aos alunos do 9º ano -, da autoria de Elisa Costa Pinto e Vera Saraiva Baptista (Raiz Editora). Um texto publicado originalmente em Janeiro de 2003, no Diário de Notícias. O sortilégio dos blogues também passa por surpresas deste tipo.

 


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