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Delito de Opinião

Trecho para um livro que nunca vou escrever

Francisca Prieto, 28.06.15

Se me tivessem deixado escrever a história da minha vida, as coisas teriam tomado outro rumo. Havia de ter arranjado maneira de me escapar à sucessão de acontecimentos desgovernados que deixaram mortos, feridos, perdas e estilhaços.

Controlo de danos, é o que tenho andado a fazer nos últimos anos, a viver numa não felicidade, na passividade de me deixar perdurar neste limbo de esforço, encurralada entre dois imanes de pólos opostos. Eu, uma figura parada com a vida a atropelar-me para a esquerda e para a direita, a cair no desnorteio do turista continental que atravessa uma rua de Londres.

Se tivesse sido eu a escrever a história da minha vida, contava-a em fotogramas, como fazem os realizadores de Hollywood, que arranjam maneira de meter pessoas a apaixonarem-se em Nova Iorque.

Nova Iorque no Outono é um sofá de dois lugares com uma manta de xadrez.

Eu, da primeira vez que me apaixonei, foi no largo do Calhariz e era Inverno. Caía uma chuva molha-parvos que me molhava. Um senhor de fato escuro, na paragem do autocarro, ofereceu-me o guarda chuva. Tinha olhos claros e, provavelmente, pena de mim.

Trecho para um livro que nunca vou escrever

Francisca Prieto, 05.06.15

 

F  G  T  D  A

 

- - - - - - - - - - - - -

 

Trrrrrrrrrrrrrrrr

 

J  T  P  E  R

 

Tlim

 

(linha abaixo)

 

Ontem escrevia-te de saudades. Deixei correr os dedos ao acaso, como se os caracteres aleatórios do significando pudessem produzir a alquimia do significado.

Escrevo agora  S  A  U  D  A  D  E  S

A léguas de ti.

Trecho para um livro que nunca vou escrever

Francisca Prieto, 01.06.15

 

Girl travelling.jpg

 

Ontem dei com estas duas telas inacabadas, ou melhor, com esta tela em versão díptico. Coisas das minhas artes plásticas caseiras que tinha feito, há já uma data de tempo, para ti. Faltava aperfeiçoar uns quantos pormenores que tinham ficado toscos na experiência original.

Um dia conserto os borrões, volto a fotografá-las, e ofereço-te.

Ou se calhar, não. Se calhar somos mesmo assim, um par inacabado com meia dúzia de borrões que nos tornam imperfeitos e, por isso, irremediavelmente humanos.

 Eu gostava de ser a miúda das pernas esguias da tela da esquerda, e embarcar no comboio da direita rumo à Patagónia. E tu, o que gostavas de ser?

 

Velho o comboio e desgastados os carris. Deve ser assim na Patagónia. Nunca lá fui senão pela prosa de Chatwin e de Sepúlveda.

Imagino uma jornada longa, com muitas paragens inexplicáveis em lugares onde faz frio.

(nós os dois encostados ombro a ombro e tu a tapares-me as pernas com uma camisola de pêlo grosso)

Não se viaja pelo mundo de calções. Não se abraçam continentes com blusas de manga curta. Para correr mundo exige-se um casaco, ou duas embalagens de Tylenol.

(atchim. pingo no nariz. beijo a 37 graus centígrados)

Vê-se logo que a rapariga da tela foi recortada de uma Vogue. As miúdas da Vogue nunca chegam a lado nenhum por causa dos resfriados. Não se agasalham como deve ser.

Teologia da distância

José António Abreu, 13.05.15

Há um tema proibido em qualquer reunião da minha família: as peregrinações a Fátima. Inevitavelmente, com a insídia que caracteriza a maioria dos seus membros – provavelmente similar à que caracteriza a maioria dos membros da maioria das famílias – alguém acaba sempre por aproveitar um instante mais calmo nas conversas cruzadas para o abordar, desde que a tia Amélia e a tia Natalina estejam na sala. A discussão teológica que se segue tem tanto de novo como as cenas mais conhecidas dos velhos filmes portugueses mas, como elas, permite o conforto de verificar a constância de certos comportamentos e, ocasionalmente, que se atinjam momentos de surpreendente profundeza (se alguém parasse um pouco para reflectir sobre eles, o que está longe de ser o caso).

Irmãs do meu pai, a tia Amélia e tia Natalina aproximam-se dos setenta anos de idade. Nasceram ambas na velha casa de Vila Verde, vendida depois da morte dos pais. A tia Amélia é a mais velha. Casou há perto de cinquenta anos com um vendedor de tractores e alfaias agrícolas e mudou-se para Vinhais, distante de sete quilómetros. O meu pai, cinco anos mais novo, acabou por segui-la mas a tia Natalina foi parar mais longe. No casamento de um tio encontrou um rapaz da Marinha Grande e, após muitos lamentos da mãe (o rapaz era simpático e parecia de boas famílias mas a Marinha Grande ficava tão longe), casou-se com ele e mudou-se para lá. Apesar da distância, as duas irmãs mantiveram contacto, nas primeiras décadas através de cartas frequentes e telefonemas raros (as chamadas ficavam caras), ultimamente recorrendo ao telemóvel e ao Facebook, de que são fãs incondicionais.

A tia Amélia teve dois filhos, que – refere-o com um sorriso de orgulho, como se nada na vida ficasse a cargo da sorte e, por conseguinte, o mérito fosse todo seu – nunca lhe causaram preocupações. Já a tia Natalina deu à luz três crianças. Até hoje, duas tiveram apenas as doenças normais para qualquer pessoa mas à outra – a minha prima Cristina – foi diagnosticado um cancro há cerca de doze anos. Desesperada, a tia Natalina prometeu ir a Fátima se o tratamento resultasse. Cristina sobreviveu e a mãe cumpriu a promessa logo no mês de Maio seguinte.

A polémica começou num dia de Natal em que a tia Natalina descrevia novamente o quão andara preocupada e como, apesar de ter ficado com os músculos doridos e os pés cheios de bolhas, sentira uma paz imensa ao chegar ao santuário. Pouco impressionada, a tia Amélia resmungou: «Até parece que fizeste um grande esforço.»

Foi o bastante para iniciar uma discussão que se prolongou durante um par de horas, destruindo completamente o espírito natalício, a qual ainda hoje tem sequelas que seguem um guião mais ou menos fixo: a tia Amélia diz que ir da Marinha Grande a Fátima – «São o quê? Quarenta quilómetros?» – não é grande feito; a tia Natalina responde que lá sabe ela, que nunca andou mais de quinhentos metros de cada vez; a tia Amélia diz que andou, sim senhora, e por caminhos bem mais irregulares, além do que pode não ter ido a pé a Fátima mas conhece muita gente que já foi e dali mesmo, de Vinhais, que fica a uns quatrocentos, e que como todos sabem há pessoas que vão de Bragança e do Minho inteiro e certamente também do Algarve, e que essas é que são peregrinações difíceis; a tia Natalina replica que cada um vai de onde mora, que não tem culpa de morar relativamente perto do santuário, que há pessoas que ainda moram mais perto e não merecem ser apoucadas daquela forma, e que, no fundo, o que conta é a intenção; a tia Amélia responde que se contasse apenas a intenção não era preciso fazer a viagem, que também é necessário algum sacrifício concreto para a promessa valer alguma coisa e que, acima de tudo, é um descaramento e um pecado uma pessoa andar depois a gabar-se de ter feito um grande esforço quando na verdade não fez. Esta acusação tira a tia Natalina do sério e, se ninguém as parar (nesta fase é difícil) ficam para ali durante horas a discutir a importância da distância no valor da promessa enquanto os maridos continuam a jogar sueca ou dominó, fingindo não ouvir. Os restantes elementos da família primeiro divertem-se, depois tentam pará-las, por fim desinteressam-se e iniciam conversas paralelas.

É isto uma e outra vez. Entretanto, a minha prima Cristina confidenciou-me que a mãe, recusando embora admiti-lo para não dar o braço a torcer perante a irmã, já percorreu a pé os trinta e tal quilómetros até Fátima mais duas vezes. Para que a Deus não restem dúvidas acerca do seu empenho. Prometi a Cristina manter o segredo mas, a cada nova reunião de família, pergunto-me se não seria mais caridoso - mais cristão, até - deixar escapar a verdade.

 

Também aqui.

DRH

José António Abreu, 14.02.15

Bate à porta duas vezes, com pouca força, e depois entreabre-a.

«Dá licença?»

«Ah, entre, João. Como está?»

«Bem, obrigado.»

Ela não se levanta. A mão que lhe estende é longa e magra e tem um anel com uma pedra azul no dedo médio. João aperta-a com cuidado. O toque é firme e suave, exactamente como esperava que fosse, mas ainda assim deixa-o perturbado. A mão dela está fria. Pensa em retê-la um pouco no interior da sua, para a aquecer, mas ela puxa-a. Ele segue a mancha azul com os olhos.

«Sente-se, João.»

Obedece. A cadeira é dura e baixa. João sabe ser quase dez centímetros mais alto do que ela mas naquele gabinete, sentados ela atrás da secretária e ele à frente, são da mesma altura. Repara no pequeno sinal castanho que ela tem junto ao olho esquerdo – e depois desvia o olhar.

«Anda tudo bem consigo, João?»

O tom de voz é neutro, impessoal, mas ainda assim ele sente um frémito. Hesita. Ela fez a pergunta a olhar para baixo, para os papéis em cima da secretária. Não estará verdadeiramente interessada na resposta, pensa João. Diz: «Dentro do possível.»

«Ainda bem, João.»

«A minha mulher morreu.»

Ela nem sequer ergue os olhos.

«Mas já foi há uns tempos, não foi?»

A reacção dela fá-lo arrepender-se de ter mencionado o assunto. Claro que ela tinha de saber. É directora de pessoal.

«Há oito meses. Quase nove.»

Ela levanta finalmente a cabeça. João repara que tem outro sinal, mais pequeno, do lado direito da testa, quase na têmpora. Não se vê bem porque às vezes o cabelo tapa-o.

«Ainda lhe sente a falta?»

Ele não sabe que resposta dar. Não quer mentir mas dizer que quase já não pensa na mulher, ainda por cima depois de ter puxado o assunto, vai parecer mal.

«Tento não pensar nisso.»

Ela continua a olhá-lo durante mais um instante. Depois diz: «É capaz de ser o melhor» e volta a baixar os olhos para os papéis. João sente desvanecer-se o orgulho de ter conseguido uma resposta inteligente.

João não apenas pensa pouco na falecida mulher como já nem se lembra bem dela. Houve um par de ocasiões em que tentou recordar-se das suas feições e não conseguiu obter uma imagem precisa. Mas recorda-se de muitas outras coisas. Recorda-se, por exemplo, de quando a directora de pessoal chegou à empresa, três anos antes, tinha ele já vinte e seis de casa. Disse-se que vinha de outra empresa do mesmo sector. Que nessa outra empresa liderara um processo de despedimento colectivo e depois fora também mandada embora. Claro que pode não ter passado de um boato. Uma forma de a diminuir e fragilizar logo à partida. João também trabalhara noutra empresa antes – mas há uma eternidade, entre os quinze e os vinte e um. Depois viera para esta. A constatação de que haviam decorrido vinte e nove anos (quase trinta, na verdade) deixa-o confuso e indisposto. Especialmente por isso o lembrar de que está a chegar aos cinquenta anos de idade. E sente-os. Gostaria de não sentir, por vezes tenta convencer-se de que não sente, mas sente.

A directora de pessoal deve ter trabalhado em mais empresas, não apenas na anterior e nesta. Ou então passou muitos anos na anterior. No início, quando ela chegara, João tivera dificuldades em determinar-lhe a idade. Magra, elegante, bem vestida, quase sempre de saltos altos, parecia não ter mais de trinta e cinco. Mas depois observava-se-lhe a cara e ficava-se na dúvida se a maquilhagem não servia para disfarçar os efeitos de um número de anos mais elevado. João perguntara a alguns colegas e fora gozado por isso mas acabara por descobrir: quarenta e um. Isto há três anos. Agora andará pelos quarenta e quatro. João pensa que ela não os parece. E depois, como em inúmeras ocasiões nos três anos anteriores, que é apenas seis anos mais nova do que ele.

Ao chegar à empresa era casada mas entretanto divorciara-se. Tinha um filho, que João vira apenas uma vez, logo no primeiro Natal. Nessa altura a empresa ainda fazia uma festa, com distribuição de presentes às crianças dos trabalhadores. O filho dela andaria agora pelos oito ou nove anos, o que significava que ela o tivera por volta dos trinta e cinco. João sabe que hoje em dia poucas mulheres têm filhos antes dos trinta e cinco. A carreira é mais importante. Ele também tem um filho. E uma filha. Mas ambos já acima dos vinte. Haviam nascido, com menos de dois anos de intervalo, numa época em que tanto João como a mulher andavam pelos vinte e cinco – praticamente a idade que o filho tem agora. Estão fora de casa, ele numa empresa de metalomecânica na Alemanha, ela a acabar o curso de assistente social no Porto. Espera-a o desemprego, é o que todos dizem, mas João tenta não pensar nisso. Desde que ficou sozinho em casa esforça-se por não pensar no futuro. A mulher é que fazia questão de estar sempre antecipar o futuro – constantemente cheio ameaças.

Ela fala de novo: «João, não sei se desconfia da razão por que quis falar consigo.»

No decurso daqueles três anos João vira-a poucas vezes. Apesar de ser directora de recursos humanos, raramente vai à fábrica. Mas ele lembra-se de que houve uma época em que andava abatida. Foi antes e logo depois do divórcio que – João ouviu-o não sabe a quem – coincidiu com a morte da mãe. Um dia, por volta das três e meia da tarde, João ia a sair, depois de concluir o turno, quando a viu dirigir-se para o carro. Parou. Trabalhando em horários desencontrados, nunca tinha oportunidade de falar com ela. Mas agora ali estava, saindo mais cedo por qualquer razão. Começou a caminhar na direcção do carro dela, tentando lá chegar ao mesmo tempo que ela. Estavam ambos a cerca de dez metros quando ela o viu. João notou as olheiras e o ar cansado e ficou sem coragem para meter conversa. Disse «Boa tarde» ao passar por ela e continuou a caminhar. Que se lembre, ela não falou. João só olhou para trás quando ouviu o carro arrancar. Depois foi para casa.

Apercebe-se de que ela disse qualquer coisa que lhe escapou.

«Desculpe, o quê?»

Ela olha-o rapidamente e depois desvia os olhos.

«A empresa não faz isto com agrado, João, mas os tempos estão complicados e é necessário reduzir os custos.»

«Vou ser despedido?»

«Não tome isto como uma questão pessoal, João. A empresa precisa de reduzir o pessoal. Vai ser cortado um turno e vão ser dispensados alguns elementos da área administrativa.»

João consegue agora perceber que o sinal mais pequeno não é bem preto. É escuro mas ligeiramente rosado. Ou talvez fique assim quando ela está nervosa.

«Evidentemente, serão pagas todas as indemnizações devidas. Tenho aqui o valor da sua.»

Mas é difícil ter certeza de que está nervosa. Parece mais cansada do que nervosa. E aborrecida - ou talvez farta. João pensa que não deve ser fácil ter de dar aquelas notícias. Pega no papel que ela lhe estende.

«Porquê eu?»

«Você está no sector onde temos mais excesso de capacidade. E depois não tem família a seu cargo.»

«A minha filha ainda está a estudar. Sou eu que lhe pago os estudos.»

Ela olha para os papéis.

«Deve estar a acabar o curso, não deve? E você vai ter subsídio de desemprego. De qualquer forma, a maioria dos seus colegas tem filhos mais novos.»

É verdade. Não obstante a empresa ter muitos trabalhadores com idade parecida com a dele, raros foram pais antes dos trinta ou trinta e cinco anos. Toda a gente tem filhos mais tarde, hoje em dia.

João não tem vontade de discutir a situação. Olha para o papel. Ela diz: «Não é um valor baixo. Você já cá trabalha há muitos anos.»

Ele não sabe o que dizer. Não lhe apetece discutir. Não com ela, pelo menos. Ficam assim, em silêncio, durante vários segundos que parecem acabar por ser mais desconfortáveis para ela.

«Quer fazer alguma pergunta, João, ou dizer alguma coisa?»

Está a olhar para ele, agora. Mas neste momento é a João que apetece desviar os olhos. Perpassa-lhe pela mente a ideia de que a comunicação dela e o papel que tem na mão são provas do seu falhanço. Em vinte e nove anos de serviço (falhará os trinta por dois meses) não conseguira tornar-se importante para a empresa. Pelo contrário: é dos menos importantes. E é ela quem lhe comunica o facto.

«Não.»

«Não leve isto pessoalmente. Não deixe que o afecte. E, se precisar de falar comigo outra vez, esteja à vontade.»

Estende-lhe a mão. João levanta-se da cadeira e aperta-a. Continua fria.

«Boa sorte, João», diz ela.

«Obrigado.»

João roda e dirige-se para a porta. Pára junto dela e roda outra vez.

«Talvez volte. Vou pensar no assunto e depois talvez volte.»

«Claro, João. Mas marque primeiro, está bem? Se aparecer sem avisar pode estar cá alguém e eu não o poder atender.»

João faz que sim com a cabeça. Abre a porta e sai. Enquanto a fecha, aproveita para a olhar uma última vez. Está de novo a prestar atenção aos papéis.

 

(Também aqui.)

Conto de Ano Novo

José António Abreu, 31.12.14

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os quatro homens e as duas mulheres deslizaram suavemente uns até junto dos outros e abraçaram-se. Um dos americanos mantinha o olhar no painel de instrumentos.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os dois americanos trocaram um high-five. Os dois russos bateram no ombro um do outro e abraçaram a colega russa. A italiana, mais efusiva, fez questão de abraçar toda a gente.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Excepto por uns quantos sorrisos, ninguém se manifestou. Um dos russos perguntou: «Dá tempo para abrir a garrafa?»

O americano que vigiava o painel abanou a cabeça. «Não. Ainda estamos em 2015 mas não vai durar.»

Ficaram todos em silêncio durante algum tempo.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Oh, que se lixe. Feliz Ano Novo.»

Ninguém se mexeu. Ouviu-se uma voz: «Alfa, tudo bem?»

O americano respondeu: «Tudo normal.» Depois acrescentou: «Da próxima vez abrimos a garrafa.»

Passaram alguns minutos. A italiana disse qualquer coisa sobre uma tradição milanesa. A russa comentou que em Vozdvizhenka os costumes eram mais asiáticos do que europeus. Um dos americanos perguntou: «Isso é mesmo ao lado da Coreia do Norte, não é? Como é que eles celebram a passagem do ano?» A russa não sabia. O outro americano disse: «Vêem The Interview na internet.» Os americanos riram, a italiana também.

Instalou-se o silêncio. Apesar do espaço ser exíguo, os três russos formavam um grupo ligeiramente à parte. Nas últimas semanas, os dois homens, pilotos da força aérea, vinham-se perguntando qual a forma adequada de lidar com os americanos, agora que os problemas na Ucrânia haviam levado não apenas a um arrefecimento nas relações entre os dois países como a uma crise económica na Rússia. A colega, engenheira, tendia a contemporizar. Dizia que a política não era para ali chamada.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Feliz Ano Novo. Acho que podemos abrir a garrafa.»

O outro americano disse: «Mas a passagem ainda não é definitiva.»

Um dos russos disse: «Para a Rússia, é.»

O americano que anunciava as passagens replicou: «Essa é uma posição egoísta. Se era para ser assim, mais valia não nos termos reunido.»

O outro americano resmungou entre dentes: «E ainda faltam cinco meses.»

A italiana tentou contemporizar: «Alora, calma.»

O primeiro americano disse: «Podes falar. Itália também está quase. Aliás, já está.»

A italiana sorriu e levantou os braços, numa celebração irónica. O americano cedeu e deixou escapar um sorriso.

O russo que falara antes disse: «Estamos a demorar demasiado.»

A russa aproveitou: «Pois estamos. Fica para a próxima.»

«дерьмо», resmungou o colega.

O silêncio caiu de novo. A italiana teve a impressão de que passavam horas sem ninguém o voltar a quebrar. Evidentemente, tratava-se apenas de uma sensação.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«2015 outra vez.»

O russo mais impaciente pegou na garrafa.

«Cuidado com a rolha. E não deixes sair champanhe. Parece que no ano passado deu merda.»

A italiana sorriu. «Deve ser giro beber champanhe em suspensão no ar.»

«Pois. O problema é quando atinge os instrumentos.»

Tudo correu bem e o champanhe pareceu suavizar o ambiente - de tal modo que, bastante mais tarde, o americano que anunciava as passagens admitiu: «Raios, distraí-me. Estamos outra vez em 2014.»

Ninguém lhe ligou.

 

«2015.»

«Oh, cala-te.»

 

 

A Estação Espacial Internacional tem a bordo seis astronautas: dois russos, uma russa, dois americanos, uma italiana. Demora 92,74 minutos a dar a volta ao planeta, rodando com uma inclinação orbital de 51,65º. Como o movimento rotacional da Terra é bastante mais lento, na noite de passagem de ano a Estação vai ficando cada vez mais tempo em fusos horários que já se encontram no ano que entra, antes de voltar a fusos ainda no ano que sai. Isto se não me enganei na lógica da coisa. Em qualquer dos casos: Feliz Ano Novo, Happy New Year, Felice Anno Nuovo e С Новым годом.

Conto de Natal

José António Abreu, 25.12.14

Era de prever. Levava-a fisgada, claro. Logo que a sentaram ao colo do Pai Natal, na praça do Centro Comercial, olhou para cima, para a imensa barba branca, e franziu ligeiramente os olhos, numa expressão que o pai conhecia bem: usava-a sempre que um plano dava certo. O Pai Natal fez-lhe uma pergunta que ela ignorou. Em vez de responder, estendeu a mão, agarrou-lhe a barba e puxou com força. A barba afastou-se cerca de dez centímetros da cara do Pai Natal. Ela sorriu em triunfo. As crianças que aguardavam vez gritaram. O Pai Natal sobressaltou-se e quase a deixou cair. Isto fez com que ela largasse a barba, a qual, pelo efeito do elástico, embateu com força na cara espantada do Pai Natal. Ele soltou um grito estranhamente agudo e tê-la-ia deixado cair dos joelhos se o pai não a estivesse já a agarrar. Quando a levou dali, ela não parava de dizer: «Não é verdadeira. É falsa. O Pai Natal é falso.»

Soube há pouco da história, durante o almoço de Natal. Fui ter com ela. Sentei-a no sofá a meu lado. «Tenho que contar-te um segredo.» Disse-lhe:

«Foi no ano passado. Estava tudo pronto no Pólo Norte: os presentes embrulhados e metidos no saco; o trenó com patins novos e a revisão dos cinco milhões de quilómetros efectuada; as renas bem alimentadas, bem penteadas e em excelente forma física: tinham andado a ser treinadas durante meses, fazendo provas de força contra ursos polares e voando até mais de um quilómetro de altura por várias vezes; no sistema GPS do trenó (GPS é uma maneira de se encontrarem os sítios, como no carro dos teus pais) tinham sido introduzidas as moradas de todas as crianças cristãs, e de todas as crianças que, mesmo não sendo cristãs, tinham sido muito boazinhas durante o ano, e de todas as crianças que podem vir a ser cristãs no futuro (sabes que o aumento do número de casamentos entre pessoas de religiões diferentes dificultou muito o trabalho de selecção do Pai Natal nos últimos anos) e de todas as crianças que, apesar de se terem portado mal, são familiares dos principais financiadores do Pai Natal, com a rota definida de modo a aproveitar os ventos e a evitar as tempestades. Tudo pronto, apesar das dificuldades encontradas durante o ano anterior.»

«Dificuldades?»

«Sim. Muitas dificuldades. Tudo começou com os problemas de financiamento – quer dizer, era muito difícil arranjar dinheiro para fabricar os brinquedos. As empresas que costumavam dar dinheiro à empresa do Pai Natal tinham cortado nas doações, apesar dos seus chefes terem pedido muitas desculpas. O aumento do preço dos combustíveis tinha levado a uma enorme subida da factura de energia, que é uma das fatias maiores dos custos de operar a partir do Pólo Norte. Tornou-se difícil pedir dinheiro emprestado aos bancos porque os spreads (sabes o que são spreads? Não importa, é uma coisa má que os adultos têm de suportar quando pedem dinheiro emprestado) eram cada vez mais elevados. A situação agravou-se ainda mais quando duas das três agências internacionais de notação (não posso evitar as palavras difíceis, querida, mas vais ver que no fim percebes) baixaram o rating da empresa de fabrico e distribuição de brinquedos do Pai Natal, por considerarem que uma empresa com problemas de localização e que não cobra dinheiro pelos produtos que faz estava especialmente mal preparada para enfrentar tempos de crise. (Já ouviste falar na crise, não já? Óptimo.) Em Março, o Pai Natal foi forçado ao despedimento colectivo de dois terços dos duendes, que ficaram muito zangados porque não há outras empresas no Pólo Norte nem sistemas de segurança social.»

«Então o Pai Natal é mau?»

«Não, as pessoas às vezes têm que fazer coisas que parecem más mas é por um bom motivo. Se ele não fizesse isso todos ficariam no desemprego e os meninos do mundo inteiro não recebiam os presentes de Natal.»

«Ah.»

«Em Abril, o fabrico da maioria dos brinquedos foi transferido para a China e isso trouxe muitas complicações (foi o que os adultos chamam um pesadelo logístico). O sistema de qualidade da empresa do Pai Natal obriga a que nenhum brinquedo para crianças com menos de três anos – tu já tens mais, não já? Já és uma menina crescida –, nenhum brinquedo, dizia eu, pode ter peças que possam ser engolidas e as tintas usadas em todos os brinquedos (mesmo todos) não podem fazer mal à saúde e, se possível, até devem ser gostosas. Assim, de modo a garantir a qualidade da produção, os duendes restantes eram forçados a muitas viagens à China, onde alguns desapareceram, não se sabe se por terem-se apaixonado por meninas orientais, acontecimento muito comum devido – é o que se pensa – a serem da mesma altura, se por terem sido mortos e servidos como pratos afrodisíacos em restaurantes de Pequim.»

«O que é afrodisíacos?»

«É a mesma coisa que ‘muito bom’. São pratos que dão um grande prazer durante muito tempo.»

«Como chocolate?»

«Exactamente. Como chocolate.»

«Ah. Mas então os chineses comem duendes?»

«Não se tem a certeza.»

«São maus?»

«Os chineses?»

«Sim.»

«Não. Quer dizer, mais ou menos. Mas podes estar descansada que eles não comem criancinhas. Isso era mais os russos. Acho eu.»

«Ahn?»

«Nada, esquece. Vou continuar a história, está bem?»

«Está.»

«O desaparecimento de tantos duendes deixou ainda mais trabalho para os restantes. Alguns exigiram subsídios de deslocação, que o Pai Natal foi obrigado a recusar porque as despesas com viagens tinham quadruplicado em relação aos anos anteriores e ele estava a tentar poupar para outra coisa: desde que tivera de dispensar o pessoal doméstico, a Mãe Natal exigia uma série de electrodomésticos para lhe facilitar a vida em casa e ameaçava passar a dormir noutro quarto, que era uma coisa que o Pai Natal não queria porque depois a rena Rodolfo ia querer dormir com o Pai Natal e o Pai Natal sabia que ela ressonava.»

«Como o papá?»

«Er, sim, provavelmente.»

«A mamã também diz que vai dormir para outro quarto.»

«Er, ok. Vamos continuar, está bem?»

«Está.»

«As despesas com viagens tinham então aumentado imenso, até porque não há companhias de aviação low cost (são as que fazem preços mais baratos) a operar no Pólo Norte. O único ponto positivo era que, com as milhas acumuladas, o Pai Natal esperava poder oferecer à Mãe Natal uma viagem de sonho às Maldivas (que são umas ilhas com praias bonitas) depois do Natal. A situação estava neste ponto quando os brinquedos chegaram da China e o Pai Natal teve mais uma péssima surpresa: o papel em que vinham embrulhados tinha a imagem de pequenos Confúcios, que é como se fosse um Deus chinês, em vez de Meninos Jesus. Foi preciso desembrulhar todas as prendas e voltar a embrulhá-las com um papel mais adequado: como já era Novembro e não havia dinheiro, usou-se papel de patrocinadores, lojas como a Toys ‘r’ Us e a Worten ou empresas como a Coca-Cola, que sempre manteve uma excelente relação com o Pai Natal. Para que tudo estivesse pronto a tempo, foi preciso readmitir parte dos duendes despedidos. Fizeram-se contratos com a duração de apenas um mês mas foi preciso pagar-lhes um valor muito elevado, quase o triplo do que eles ganhavam antes.»

«Bem feito.»

«Exacto. Chama-se a isto ‘economia de mercado’. Em meados de Dezembro chegou a última crise: a Mãe Natal, ainda sem os electrodomésticos que desejava, recusou-se a preparar a roupa vermelha e branca do Pai Natal. ‘Não a vou lavar à mão e secar à lareira’, disse. O Pai Natal contactou novamente as tais lojas de patrocinadores mas havia tempestades fortes nos céus da Europa e da América do Norte e era muito difícil fazer os electrodomésticos chegar ao Pólo Norte. Tentou convencer as renas a irem buscá-los mas elas recusaram. Se o tempo estava mau para os aviões, argumentaram, imagine-se o esforço que seria para elas. A menos, claro, que o Pai Natal pagasse a deslocação. Por uma questão de princípio, o Pai Natal recusou. Finalmente conseguiu que, por um preço quase tão elevado quanto o que as renas pediam, lhe enviassem por trenó puxado por cães (que são animais que trabalham por pouco dinheiro, desde que sejam levados a pensar que estão a divertir-se) uma máquina de lavar e outra de secar roupa de uma fábrica da Electrolux, perto de Estocolmo (que é uma cidade da Suécia, não muito longe do Pólo Norte). A Mãe Natal não ficou totalmente satisfeita (queria também uma máquina de lavar louça, um microondas e um ferro de engomar com caldeira) mas acabou por ceder e tratou da roupa do Pai Natal.»

«Ele não podia tratar dela sozinho?»

«Boa pergunta. E tens razão: ele devia saber fazer essas coisas. Mas o Pai Natal é velhote e nunca lhas ensinaram.»

«Mas podia aprender.»

«Talvez ainda aprenda. Vamos continuar, está bem? Estava, pois, tudo pronto na tarde do dia vinte e quatro. Foi então que o Pai Natal decidiu ir arranjar a barba e o cabelo, para estar bonito na noite mais importante do ano. Sentou-se na cadeira do barbeiro da pequena aldeia do Pólo Norte e, como costumava fazer, adormeceu de imediato. Nessa altura os duendes despedidos, há muito decididos a vingarem-se, invadiram a barbearia, arrastaram o barbeiro para a sala dos fundos e ataram-no com restos do fio de embrulho. Depois subiram para cadeiras e raparam o cabelo e a barba ao Pai Natal.»

«Então os duendes são maus?»

«Não. Às vezes as pessoas que têm pouco poder têm de defender os seus interesses e mostrar que não gostaram do que lhes fizeram. E eles não aleijaram o Pai Natal; apenas lhe cortaram a barba e o cabelo. Quando acordou e se viu ao espelho, o Pai Natal apanhou um grande susto e quase teve um ataque cardíaco (que era uma coisa que ele sabia poder acontecer-lhe, porque o médico lhe dizia há anos para comer menos e emagrecer). Saiu da barbearia a gritar e, enterrando as pernas na neve, observado por todos os habitantes da aldeia que se riam às gargalhadas, correu para casa. 'Está tudo perdido', lamentou-se. 'Não é possível que o Pai Natal não tenha barba nem cabelo. O que vou fazer?' A Mãe Natal não se alarmou. Foi buscar duas esfregonas de limpar o chão (uma nova, a outra já um pouco usada) e construiu uma cabeleira e uma barba falsas. Colou-as à cabeça do Pai Natal com fita adesiva e disse-lhe: 'Pronto, servem muito bem e até te dão um aspecto mais moderno.' O Pai Natal não ficou totalmente convencido mas nada podia fazer. Duas horas depois saiu para a sua volta da noite de Natal e desde então (lembra-te que isto foi no ano passado), usa barba e cabeleira postiças enquanto o seu próprio cabelo e barba não voltam a crescer (vão ser precisos muitos anos). É por isso que elas se soltam quando alguém as puxa. Mas isso não significa que não se esteja perante o verdadeiro Pai Natal. E também já percebes por que é que ele fica envergonhado quando alguém faz o que tu fizeste.»

Os olhos dela estavam agora brilhantes. Receei que chorasse. Sorri-lhe.

«Mas tu não voltas a fazê-lo, não é? E vais ser especialmente boazinha para ele, quando o vires?»

Fez que sim com a cabeça.

«Óptimo. E também há boas notícias, pequenina, sabes? Para agradecer à Mãe Natal, o Pai Natal ofereceu-lhe a melhor máquina de secar roupa, o melhor microondas e o melhor ferro de engomar com caldeira que encontrou. E prometeu que este ano iam às Maldivas - onde, a esta hora, devem estar quase a chegar.»

«Com as renas?»

«Er, sim, claro. As renas também gostam de praia.»

«E os duendes?»

«Acho que os duendes ficaram a tomar conta das coisas no Pólo Norte. Mas os duendes não podem apanhar muito sol. Faz-lhes mal à pele. E também não podem tomar muitos banhos de mar. Correm o risco de encolher ainda mais, como às vezes acontece à roupa depois de ser lavada.»

Ficou em silêncio, pensativa. Sorri-lhe. Hesitante, retribuiu. Aproveitei e devolvi-a aos pais.

 

(Republicado.)

 

 

O racista cego

José António Abreu, 15.11.14

Era racista mas uma doença deixara-o cego. Depois disso tinha imensos problemas em manifestar o racismo às pessoas certas. Fazia-o por ouvido. Quando alguém lhe soava a negro – ou amarelo, pois era um racista abrangente – fazia comentários depreciativos, trejeitos de desagrado ou, nos dias de maior comedimento, afastava-se. Normalmente os alvos suportavam a atitude com estoicismo. De resto, que poderiam fazer? Esmurrar um cego?

Enganava-se imensas vezes – não apenas porque os círculos em que se movimentava eram quase exclusivamente caucasianos mas também porque as pessoas o evitavam ou então se divertiam às suas custas, imitando sotaques africanos ou orientais. Chegaram a trocar-lhe a bengala branca por uma pintada de preto. Andou com ela vários dias, gerando hilariedade nos que o conheciam mas correndo riscos sérios de ser derrubado num passeio ou atropelado ao atravessar a rua, uma vez que muitos transeuntes e automobilistas  não se apercebiam da sua condição de cego.

Como seria de esperar, a dada altura ele começou a aperceber-se das partidas. Isso não o tornou mais prudente. Pelo contrário: aumentou-lhe a paranóia. Recusou um cão-guia com medo que lhe arranjassem um com pêlo preto ou de raça estranha (ninguém chegou a perceber que raças eram aceitáveis mas ficou evidente que abominaria ser guiado por um cão de água). Justificando-se com a premissa de que «quem apoia a perda da identidade branca não merece respeito» insultava toda a gente. Como nem sequer conhecia outros racistas assumidos, não abria excepções. Alguém afirmou um dia: «É uma besta mas, desde que perdeu a visão, bastante igualitária.» Vai-se a ver e descobre-se aqui uma lição de moral.

Para MM

Patrícia Reis, 25.04.14

(com 24 horas de atraso)

Era um sítio onde nada existia porque era também onde tudo tinha nascido. Ali a olhar o vulcão, o fim da tarde e o silêncio ancestral das casas brancas, escadas azuis, portadas de madeira por abrir. Ela deixou-se ficar assim por um instante. E lembrou-se de coisas. Pequenas e estranhas coisas que faziam dela o centro a partir dali, da ilha. Primeiro a absoluta convicção de um fim qualquer. Depois os detalhes desse fim: minuciosos pontos avessos à realidade. Ela gostava, já se vê, de metáforas. Não por serem simples de conceber, pelo contrário, mas por serem uma forma simplificadora de tudo o resto. Explicar com clareza é exaustivo. Ela acreditava nisso. Mesmo olhando os barcos que deixavam riscos como trilhos terrestres nas águas duras, a beleza era - e seria sempre - sofrimento. Produzida por essa imensa dor que ela carregava. Ninguém sabia disso, claro. Era uma verdade dela. Talvez fosse a sua imagem. Quem sabe? Não se ajustava a nada daquilo que pertence ao imaginário dos outros, ideias seguras e certeiras sobre anjos e heróis e até, porque não?, sobre Deus.
Ao contrário de todos, ela sabia exactamente o cheiro do bafo do criador, a textura da sua pele, o odor mais cansado só dele, os gestos milenares de incompreensão, de amor e desamor. Sim, desamor. Deus também tinha essa capacidade única de deixar de amar e, depois de tanto tempo, era só disso que ela tinha receio. Não, não era receio, era medo. Um sentimento comum a todos os seres vivos, pensava ela na sua pose de vigilante do vulcão, da ilha e do mar. Ali estava o ralo do mundo. Se alguém poderoso suspeitasse a água desapareceria para sempre, fugindo rápida no ralo do mundo que conduz ao fim do universo. Ela também acreditava nisso: Deus, o ralo, alguém poderoso, no medo e no desamor. Para alguém com as suas responsabilidades era quase cómico prever as desgraças da Humanidade, acreditar na bondade da natureza.
Deus perdoa sempre, o homem por vezes, a natureza nunca, ouvira sentenciar uma vez, longe dali, na voz de um padre inspirado. E assim era.
A natureza é quem manda, é uma criação que tomou conta do criador, que goza na cara dele, que faz e desfaz qualquer sonho. A natureza não é uma forma bondosa de sobreviver e evoluir. Nada pode ser encarado com essa premissa tão fácil. Ela já o sabia. Quando se afastou do muro caído de branco, fixou o chão azul grego e seguiu, rápida, resolvida a procurar alguém para salvar.

Salvar uma pessoa não é o que se espera. A maioria das pessoas não quer ser salva, agarram-se a ideias, depois a coisas e de imediato ao tal medo dominador que tolda até os mais inteligentes. Ela era determinada e, por isso, ocupava grande parte do seu tempo nessa procura: alguém para salvar de uma forma eficaz, para sempre. Não tendo asas de anjo ou capa de super-herói, o seu lugar no mundo estava limitado. Era apenas mais uma, quem sabe se a precisar de salvação. Ninguém a reconhecia de imediato e, com o tempo, havia mesmo quem nunca chegasse a reconhecê-la. Para cada indivíduo ou situação ela era transformável. Se fosse preciso era boa ouvinte; se necessário não se calava; se argumentava, lutava; se lutava, argumentava. Andava contra a maré dos outros. A impor respeito, regras, sabedoria. Não tinha a certeza. Havia pessoas que diziam que o destino estava marcado no ciclo sanguíneo do código genético. De quem vens? Como serás? És o que outros foram? A tua inteligência é apenas a do outro e sem o outro não és nada? Ela não compreendia essa lógica. Ela não decifrar qualquer espécie de exercício lógico, fosse qual fosse. O seu papel era outro. Caminhar ao lado, levitar se fosse caso, mas nunca desvalorizar o potencial vislumbre de um génio descarnado. Um incompreendido. Um sofredor. Todos esses - com ou sem código genético inspirado no caldo cultural certo - eram a inteligência do mundo, mantinham-no a funcionar, contribuíam para a sua rotação. Quanto mais fora do padrão, melhor. A sobrevivência da natureza era apenas isso: encontrar pessoas fora daquilo a que se designava a ordem das coisas, a normalidade, e salvá-las para que tudo começasse de novo. Uma fórmula simples. Ela procurava nos pobres, nos ricos, nos sem abrigos, nas ilhas e nos continentes, pelos desertos e savanas. Ela tinha mais de um milhão de anos. Ela era chave de tudo. E ali, na Grécia, onde tudo começa e acaba, haveria também alguém para salvar, alguém importante. Era a sua missão. Sentiu-o quando chegou à ilha, sempre de barco, sempre na tal água dura e cristalina, uma água com a cor do coração dela, transparente e limpa, profunda e escura por vezes; implacável. Ninguém a imagina. Nem ela se imagina nesse tormento, é apenas uma vida, a dela. E agora parte pelas ruelas brancas de sombra fresca e junta-se à multidão para ir ver o pôr-do-sol em Oia, vai na onda humana que se desloca para a ponta da ilha. Recorda-se de um soneto e diz alto, como fazem os loucos nas grandes cidades, diz alto porque aqui não importa o que achem dela e porque também ninguém a vê, não é?

Vi que, durante a longa travessia
Das águas cor de vinho, num sinal
De passagem divina, o mar ardia
Com brancas labaredas de cristal.

E vi depois, ao pôr do sol, em Ia,
Coberto o céu de líquido metal
Num resplendor de aurora boreal.
E o povo, ateu, ao culto se rendia.

É que, ao ver a beleza do teu rosto,
A natureza se equivoca. E crê
Que um deus voltou. E, perturbada, vem

Fazer raiar auroras no sol-posto
E a água incendiar. Bem sei porquê:
Vejo o teu rosto e engano-me também.

Ela não se enganava. Estava à beira de um outro muro branco e o mar chamava-a, raios de prata, rasgos de luz, movimentos subtis, correntes e marés, vozes de outras margens, sentidos distintos. Quando o sol adormeceu no fim daquele desenho, as pessoas bateram palmas, alguns tímidas, outras esfusiantes. E foi então que, pela sombra, percebeu o seu destino, a alma a salvar. A sombra dizia tudo: o corpo pequeno, encolhido, a cabeça baixa, numa combinação de desistência e de melancolia que tantas vezes se confunde com tristeza. Ela caminhou na direcção da sombra.

Foi bom o pôr-do-sol.

É sempre bom. É o sol.

Diz isso como se não tivesse importância.

Disse? Não dei contei. Talvez tenha dito. Hoje nem estive a ver até ao fim, entristece-me o fim, sabe?

Quer dizer, quando o sol desaparece por fim?

Não, antes, quando fica aquela nesga de luz amarela ou laranja, não se sabe, a esconder-se do outro lado daquela ilha.

Compreendo.

Não é para compreender.

Talvez não seja, mas eu compreendo. Julgo sempre que o sol fica do outro lado, intacto, à espera. Bastaria ir à outra ilha, do outro lado, e lá estava ele...

Pois, pode ser, mas não é assim que sinto.

Como é que sente? Se não se importa que pergunte...

Não me importo. Não a conheço, não sei quem a senhora é. Não faz mal.

O homem não disse como se sentia e ela não insistiu. Ficaram ali. O vento começou a fustigar os toldos dos restaurantes, os vasos com flores, as cortinas das janelas por fechar. Quando percebeu o gesto dele, a mão na pedra do chão junto à anca, ainda sem esforço, ela fez o que fazia melhor: apagou a luz. Oia encheu-se de uma escuridão natural. Todos os candeeiros se apagaram, os restaurantes levariam um momento a repor a luz com geradores ruidosos, velas brancas em frascos coloridos. E, por um segundo, o coração dele parou, ela viu, e ficou, estático, perante o enorme céu, um manto de estrelas sem fim, uma outra perspectiva. Não conseguiu deixar de sorrir. Havia momentos em que valia a pena ser o que era. O corpo do homem abandonou-se à contemplação e ela voltou a perguntar

Como se sente?

Pequeno.

O céu tem esse efeito.

Não. Quer dizer, sim, é verdade que o céu é de uma imensidão sem fim. Eu sinto-me pequeno perante tudo. Estou a chegar a um fim.

Qual fim?

O fim do amor.

É por isso que está aqui sentado?

Lá em cima, na varanda da casa que aluguei, deve estar a minha mulher, a roer as unhas, a ler um livro, a falar ao telefone...

Ou a chorar, à sua espera.

Não. A minha mulher não chora por mim. Já não.

Ela calou-se. Não tinha previsto uma salvação amorosa. Não era o seu forte. O amor desassossegava-a. Fugia dos amorosos, dos perdidos e desiludidos, desses que eram capazes de exibir um coração partido com uma quase precisão médica. O tempo provara-lhe que o amor tinha sempre um rasto de desencantamento. O homem ali ao lado era apenas mais um fio desse rasto. Suspirou. E, depois, com um excesso de generosidade e paciência, preparou-se para cumprir a sua missão.

Então, conte lá. Eu sou uma desconhecida e gosto de histórias de amor.

Esta não é uma história de amor. É sobre o fim do amor, já lhe disse.

Conte lá.

E o homem contou. Conhecera a sua mulher por acaso. Havia até, pensando nisso, uma série de acasos e consequências, que o levaram a ficar junto a ela numa inauguração de uma exposição. Estavam os dois a tentar decifrar uma escultura feita com panelas e tachos. E a mulher disse

É demasiado conceptual.

Tudo o é nos dias que correm.

Tem toda a razão.

E a mulher rira-se de uma forma tão amorosa, delicada, que ele deixou de ver a escultura e concentrou-se nela: baixa, morena, algumas sardas, cabelo preso, calças pretas, camisa branca, mãos de unhas rentes, demasiado rentes, o final dos dedos arredondados adequados à sua condição de vítima. Era uma mulher bonita. Esperta. Viva. Ele soube logo estas coisas todas e outras que a vida confirmou mais tarde. Tomaram vinho tinto. Trocaram telefones e seguiu-se o resto até ao amor infantil do reconhecimento dos corpos, primeiro tímido, depois audaz com a sorte que os deuses reservam a estes casos. Era quase perfeito quando nada o é. Ela ria-se e deitava a cabeça para trás. Ele pegava-lhe na mão assim que chegavam à rua. Ao fim de um ano eram capazes de terminar as frases um do outro ou ainda; muito mais surpreendente para terceiros, dizer exactamente a mesma coisa ao mesmo tempo. Era uma operação matemática. Ele e ela e os dois e depois tudo o resto e o resto valia nada.

Foi assim durante dez anos.

E depois? O que aconteceu?

Acho que foi a vida. Deixámos de falar.

Mas já tentou, não tentou?

Falar? Sim, falar, conversar, discutir, ficar irritado e depois bater com a porta. É a minha especialidade.

Pode sempre dar a volta.

Dar a volta a quê? À Terra?

Não. Ao desamor.

O homem ficou a pensar naquilo. Ela fechou os olhos e suspirou de novo, um suspiro quase imperceptível. As luzes de Oia continuavam por acender, um capricho seu, mas isso agora não importava. Estava decidida a tirar o homem do fundo do nada, devolvê-lo à vida. Para isso era preciso o céu e as estrelas luminosas, a estrela do norte tão forte mesmo ali ao lado.

Já viu a estrela do norte?

Sim. Brilha muito.

É porque mantém o brilho. A questão é sempre essa: manter.

Pois, talvez. Eu não me mantive apaixonado e agora estou aqui preso numa ilha com a minha mulher e não tenho como fugir.

Bom e se caísse uma estrela cadente? Que desejaria?

Voltar atrás.

Onde? Exactamente...

Àquele momento em que o amor se perdeu.

O amor não se perde.

Ah, isso é tão fácil de dizer.

O homem não arredava da sua angústia e ela viu-se obrigada a ceder. Fez cair uma estrela cadente. Tocou no braço do homem para que ele a visse cair, o brilho como um desenho de arquitecto no topo do mundo. O homem levantou-se num repente. Ficou parado a olhar a queda da estrela. Ela levantou-se e disse

Agora já tem a sua oportunidade: volte atrás e mantenha o brilho aceso. Não existe nada de semelhante ao fim do amor. Se quiser, teve sorte, teve-me hoje só para si e eu decidi tomar conta, salvá-lo.

Dito isto, levantou-se devagar e começou a descer as escadas em direcção ao porto. Confundiu-se com as paredes e as casas esculpidas nas rochas, seguiu ligeira, sempre olhando o mar. As luzes de Oia regressaram, o céu voltou a esconder as estrelas e tudo regressou ao burburinho habitual dos turistas e locais. Já não viu o homem, continuou sempre em frente, descendo, até que os pés tocaram na pedra fria do pontão, passaram dois barcos atracados e o corpo dela mergulhou inteiramente no berço do mundo. Naquele dia não haveria mais ninguém a salvar.

(poema de Hélia Correia)

da enorme dificuldada de se ser

Patrícia Reis, 24.01.14

Não vamos discutir o sentido da vida que isso é uma chatice e não adianta.

 

Se tu dizes.

 

Vamos discutir a nossa vida.

 

Alguém me disse, há muito tempo, que quando começamos a falar da nossa relação é porque esta terminou.

 

Que pessimista.

 

Queres falar sobre o quê?

 

Tu estás satisfeita?

 

Satisfeita com o quê?

 

Com a relação?

 

Nunca pensei nisso. Tu estás?

 

Preciso de tempo para pensar.

 

Ah.

 

Decidi ir uns dias para fora... Para pensar.

 

Mas...

 

É o melhor.

 

Para ti ou para mim? Ou para nós?

 

Para todos.

 

Ainda bem que pensas assim. Vais ali como quem vai comprar cigarros?

 

O que queres dizer?

 

Quero saber se voltas ou se posso mudar a decoração da porra da sala e tirar o plasma enorme e desproporcionado, desactivar a BenficaTV e mais umas porras?

 

Estás muito agressiva?

 

Achas? Não me parece. Sinto-me bastante calma.

 

O homem levantou-se da mesa. Saiu da sala e reapareceu, minutos depois, com um saco desportivo na mão.

 

São uns dias.

 

A mulher serviu-se de mais vinho e sorriu. Acendeu um cigarro e olhou pela janela. Continuava a chover.

 

(nota: este diálogo é pura ficção. Agradecida)

23:59:59

José António Abreu, 31.12.13

Às 23:59:59 do dia 31 de Dezembro todos os relógios pararam na Nova Zelândia, Fiji, Kiribati e outras ilhas do Pacífico. As pessoas, que já levantavam os braços para festejar a passagem do ano, ficaram imóveis nas ruas, nos restaurantes e nas casas, sem saber o que fazer. Exactamente duas horas mais tarde aconteceu o mesmo em Sydney e noutras cidades da costa Leste australiana. Depois foi a vez das cidades da Austrália central e do Japão. Cinco horas após o início do fenómeno, os relógios pararam em Perth, em Hong Kong, em Xangai, em Pequim. Entretanto, já os governos estavam reunidos e as forças militares em alerta máximo. Quando, outras cinco horas decorridas (dez desde o momento inicial), os ponteiros se aproximaram da meia-noite em Moscovo, São Petersburgo, Bagdade e Nairobi, milhares de cidadãos permaneciam nas praças e ruas, muitas delas enfeitadas com luzes coloridas e sistemas de som, mas a expectativa e o receio haviam substituído a alegria. O salto das 23:59:58 para as 23:59:59 foi o último que os ponteiros dos segundos efectuaram. O mesmo se passou sessenta minutos depois em Helsínquia, Bucareste, Jerusalém, Damasco, Cairo, Maputo, Pretória. Nas cidades e aldeias dos países onde os relógios ainda funcionavam normalmente, as pessoas juntavam-se agora por curiosidade e medo, para estarem juntas de outras pessoas quando os relógios parassem. Especialistas avançavam teorias nas rádios e televisões. Questões climáticas, excesso de magnetismo, uma arma desconhecida. As comunicações dependentes de sistemas de contagem do tempo bloqueavam. Deixava de se conseguir telefonar ou navegar na internet. Enquanto, com a inexorabilidade de um relógio em perfeito funcionamento, o tempo deixava de ser contado na Europa e em África, muitos olhos voltavam-se, desconfiados, para os Estados Unidos. O presidente norte-americano fez uma declaração ao país e ao mundo garantindo que o seu governo nada tinha a ver com o assunto. Por todo o lado, cientistas verificavam os mecanismos dos principais relógios, mediam todos os parâmetros em que conseguiam pensar (a intensidade do campo magnético, os níveis de radioactividade, o grau de vibração da superfície terrestre) e vigiavam o cosmos, pois era opinião de muita gente que um tal acontecimento só podia ter origem no espaço: a Terra, afirmavam vozes apocalípticas um pouco por todo o planeta, estava prestes a ser atacada. Questionavam-se os fabricantes de relógios mas estes não tinham respostas: a Suíça era um país em estado de choque. Começando em cidades como o Rio de Janeiro, Brasília e Montevideu, também no continente americano os relógios foram deixando de funcionar às 23:59:59. Buenos Aires, Recife, Salvador. Manaus, La Paz, Halifax. Toronto, Nova Iorque, Quito. Manágua, Cidade do México, Minneapolis. A última região do continente a ser afectada foi o Alaska, com os relógios de Anchorage parando exactamente vinte e duas horas após o mesmo ter sucedido aos relógios de Auckland. Uma hora mais tarde encravaram os últimos relógios ainda funcionais do planeta, em arquipélagos do Pacífico como a Polinésia Francesa e Samoa. Iniciou-se então um período em que não era possível medir o tempo pelos meios a que os humanos se haviam habituado pois todos os relógios, independentemente do tipo de mecanismo que os fazia operar (mecânico, de quartzo, atómico, de água) haviam deixado de funcionar. Pela primeira vez em séculos, o tempo não foi dividido em horas, minutos e segundos. Entretanto, a noite voltara a cair na Nova Zelândia onde, com excepção das crianças, ainda ninguém pregara olho. As pessoas já não estavam nas ruas mas reunidas em casa ou em bares, defronte de televisores. Discutia-se o que poderia estar por trás do acontecimento mas também muitos outros assuntos. Dever-se-ia ir trabalhar no dia seguinte? Como acordar na altura certa? De que forma seriam garantidos os horários? Como marcar reuniões? E então, de repente, sem aviso nem espalhafato, os relógios recomeçaram a funcionar. Clique. Clique. Passaram para as 00:00:00 e depois para as 00:00:01 e depois para as 00:00:02 e não mais pararam. As pessoas entreolharam-se e muitas voltaram a sair para a rua e ergueram os olhos para o céu. Tudo parecia normal. A noite estava limpa, com o firmamento coberto de estrelas e a lua a brilhar. Progressivamente, com as mesmas diferenças horárias que se tinham verificado ao pararem, os relógios voltaram a trabalhar em todos os pontos da Terra. Na televisão, especialistas não se sabe bem em que assunto diziam que os relógios haviam estado parados exactamente vinte e quatro horas. Por razões que se desconhecem, nesse ano o tempo recusou comemorar a passagem do ano e saltou por cima do dia 1 de Janeiro.

Desde então, como por vezes sucede perante acontecimentos que os humanos se revelam incapazes de explicar, um véu de silêncio tombou sobre o assunto. Mas a possibilidade de que possa suceder novamente, e até com consequências mais graves, permanece no inconsciente colectivo um pouco por todo o planeta. É também por isso que hoje, às 23:59:59, milhares de milhões de pessoas susterão a respiração, exalando apenas quando os ponteiros dos relógios saltarem para a meia-noite.

 

(Republicado com ligeiras alterações. Boas entradas e bom ano.)

a traição por um dia

Patrícia Reis, 04.09.13

A traição começa na cabeça, ele sabe, é um homem do mundo, nada de carências, é rápido e aceita o que há, seja lá isso o que for.

A traição começa no corpo e o corpo deixa-se ir, em movimentos sincopados, sem cadência, mas com um ritmo que ele sabe ser o certeiro, recusa a culpa e diz que o sexo é amor e, por isso, a saudade aumenta. Pode ser. A vida corre na rua, lá fora, pelo mundo sem certezas. As janela não cedem. Os telefones em silêncio. Olha para a mulher que se deixa ir. Não é é ele. É como no Carnaval, um palco que invade o corpo e as palavras e nada é o que parece.

Ou não.

Furgoneta

José António Abreu, 11.08.13

Viajo numa furgoneta velha, cor da ferrugem que tem. Uma Volkswagen Pão-de-Forma, não fosse o cliché e os níveis de poluição. Ando por muitos países, paro onde me apetece, meto conversa gestual com as pessoas e tiro fotografias com uma Leica M. No tejadilho da carrinha há uma antena discreta, no seu interior equipamento informático topo de gama e muitos livros – tantos que não preciso de cadeiras nem de cama, apenas de um colchão disposto sobre eles. Mantenho um blogue onde descrevo as viagens mas minto acerca da minha localização. Quase sempre sob pseudónimo, publico fotografias fabulosas, que trazem o mundo siderado. No Tibete, sob o olhar atento de um militar chinês, um monge aponta para a furgoneta e, rindo-se, diz-me qualquer coisa que não percebo. Rio-me também, digo «Tashi delek» e ele parece satisfeito mas o militar continua desconfiado. Na Argentina, o condutor de uma carrinha de caixa aberta onde se pode ver um conjunto de boleadoras grita-me «Boludo!» quando me ultrapassa na estrada, e eu berro-lhe, pondo a cabeça de fora da janela, «Gracias!», o que o leva a erguer a mão esquerda no ar com o dedo médio espetado a apontar para cima. Encontro-o dez minutos mais tarde, num bar poeirento à beira da estrada, e acabamos a beber cerveja Quilmes e a discutir as hipóteses das selecções argentina e portuguesa no mundial de futebol (eu elogio Messi, ele elogia Ronaldo, eu estou pessimista quanto às chances de Portugal, ele garante que a Argentina será campeã). Passo da Indonésia para a Austrália num ferry que a internet me dissera não existir e fico dois dias parado no deserto a algumas centenas de quilómetros de Ayers Rock, lutando com aranhas e escorpiões que entram na carrinha pelos muitos buracos que ela tem, à espera que me tragam as peças de que necessito para poder continuar. No deserto do Saara fico trinta e duas vezes atascado nas dunas e sou libertado por um tuaregue que, após a quarta operação de socorro, me segue a cerca de cinquenta metros de distância no seu jipe Nissan, e se esforça por conter o sorriso de cada vez que pára ao meu lado, depois de eu ficar novamente preso na areia. Numa zona pouco habitada do noroeste do Irão sou cercado por uma patrulha militar que me acusa de trabalhar para os americanos, ou para os israelitas, ou para a Agência Internacional de Energia Atómica. Os computadores e a antena não ajudam mas consigo finalmente convencê-los de que os inspectores da Agência não andam em furgonetas ferrugentas e que o equipamento funciona tão mal que eu até pensava estar no Azerbeijão. Mesmo assim, depois de me autorizarem a seguir viagem, vejo-os a olhar para o céu com expressões apreensivas, como se esperassem a chegada de mísseis israelitas. Em pleno Inverno siberiano tento saber se, colocando correntes nos pneus da furgoneta, conseguirei atravessar o Estreito de Bering até ao Alaska. Todos me dizem que estou сумасшедший, ou pelo menos é isso que percebo, e, porque na realidade nunca estive tão são na minha vida mas quero mesmo visitar o Alaska, acabo por decidir lá chegar pelo outro lado. Numa estrada secundária portuguesa querem multar-me por não ter feito a inspecção da carrinha e por não trazer colete reflector, mas começo a falar uma mistura de cantonês e hebraico (as poucas palavras que sei em cada uma das línguas) e os elementos da GNR entreolham-se e resolvem mandar-me embora. Na Escócia, enquanto limpo a Leica sentado nas margens de um lago perto de Inverness, tiro inadvertidamente a primeira fotografia em décadas que parece mostrar Nessie com nitidez. Em todo o lado tentam vender-me sexo e droga e até armas mas recuso, excepto quando sinto que seria indelicado fazê-lo. Vivo de quê? É segredo. Se não fosse, todos poderiam fazer o mesmo e as estradas ficariam sobrelotadas com furgonetas iguais à minha.

 

(Este post não inclui fotografias porque seria um desperdício utilizá-las apenas para ilustrar o texto. Usem a imaginação, acrescentem uma pitada de pôr-do-sol. E mantenham os olhos abertos porque elas vão surgindo por aí.)

 

(Republicado para ver se arranjo coragem.)

Comunhão com a Natureza

José António Abreu, 16.03.13

Atendendo à quantidade de posts sobre a relação entre os humanos e os animais colocados no Delito nas últimas semanas, não resisti a recuperar esta extravagância.


 

«Toma alguma coisa?»

«Um café.»
«Prefere ir lá para dentro?»
«De maneira nenhuma. Gosto mais de estar ao ar livre. Aqui vê-se o mar, sente-se o vento. Adoro estar em comunhão com a Natureza»
«É que não está muito calor e o vento está forte.»
«Nada disso me incomoda.»
«Muito bem, então. Comecemos: desde quando é que a ecologia o interessa?»
«Desde que me lembro de ter consciência. E um dos primeiros momentos em que tive consciência foi quando era miúdo e tentei fazer uma festa a um gato.»
«Sim?»
«Foi aí que percebi que gostava de animais.»
«Ah. Estou a ver. Era o gato lá de casa?»
«Não. Era de um vizinho. Tinha um temperamento super-independente. Arranhou-me todo.»
«A sério?»
«Fiquei com três sulcos na mão direita e um na face. Ainda há poucos anos se via. Comecei a perceber nesse momento que a Natureza (os animais fazem parte dela, como é óbvio, mesmo os domesticados) deve ser respeitada.»
«Que idade tinha?»
«Uns três anos. Talvez quatro.»
«E pensou nisso assim, conscientemente?»
«Sempre fui precoce, sabe? Mas, para dizer a verdade, é uma ideia que se foi instalando progressivamente.»
«Não me diga: o gato arranhou-o mais vezes?»
«Com alguma gravidade, mais cinco.»
«Cinco vezes?»
«Sim. Percebi então que a Natureza, para além de ter que ser respeitada, quer ser deixada em paz.»
«É uma conclusão de grande perspicácia para uma criança.»
«Obrigado.»
«Foi o único problema que teve com animais, enquanto criança?»
«Não gosto do termo 'problemas'. Mas não. Também fui mordido sete vezes por três cães diferentes, apanhei uma doença por causa de uma picada de mosquito, fui ferrado por duas abelhas, levei duas marradas do carneiro do rebanho dos meus avôs, parti a perna direita quando um cavalo da polícia se espantou e me pisou, e a primeira vez que fui ao jardim zoológico um macaco mordeu-me. Creio que estava com pena de que ele estivesse preso e tentei chegar-lhe. Também tentei chegar aos tigres e aos ursos mas os meus pais e a rede de protecção (detesto redes à volta dos animais) impediram-me. Ah, e tive um surto de piolhos mas isso não conta, não é?»
«Com essa consciência ecológica tão precoce, deve ter sido desagradável ter de os matar…»
«Pode ter a certeza. Fartei-me de chorar e de tentar fugir da minha mãe quando ela me queria pôr o produto na cabeça.»
«Não acha estranho, tantos acidentes?»
«Acho que foram um sinal.»
«Um sinal? Um sinal de quê?»
«Uma forma dos animais me alertarem para os seus problemas. Da Natureza me fazer prestar atenção.»
«Ahn, estou a ver. Avancemos um pouco. Foi já essa consciência que o fez tirar o curso de biologia?»
«Com certeza. Na adolescência eu já não tinha qualquer dúvida quanto à minha vocação. Mas tenho de confessar que o curso foi uma desilusão. Muito teórico. Eu queria era andar ao ar livre, em comunhão com a Natureza… Olhe para aquele cão. Que fantástico animal, não é? É um crime que provavelmente passe quase todo o dia preso num apartamento.»
«Vem para cá.»
«Os animais têm uma extraordinária capacidade de perceber em quem podem confiar.»
«Mas parece-me que…»
«…»
«…ele lhe vai urinar nas calças.»
«Bolas. Mas é natural, sabe? É a demonstração de que não me vê como uma ameaça. Se pensarmos bem no assunto, até é lisonjeiro. Repare que ele não urinou nas suas pernas…»
«Pois…»
«A sério que não me importo. A si o cheiro não o incomoda, pois não? É um odor perfeitamente natural.»
«Não, quase nem noto. Acho que o vento está a soprar deste lado.»
«Isto está-me sempre a acontecer.»
«Ah, sim?»
«É verdade. Como lhe disse, é um elogio.»
«Claro.»
«Está um vento fantástico, não está?»
«Um bocado forte demais para o meu gosto. Nestas últimas semanas tem sido terrível…»
«Ora, não diga isso. O vento é uma das mais maravilhosas formas de expressão da Natureza.»
«É uma boa maneira de ver a questão. Bom, voltemos ao ponto onde ficámos. O que fez quando acabou o curso?»
«Fiz um estágio nas Berlengas. Foi um período fantástico. Andava sempre coberto de excrementos de gaivota e fui bicado mais de uma dúzia de vezes. De uma delas quase fiquei sem o olho direito. Eram para ser três meses de estágio mas ao fim de um e meio, num dia de vento forte (olhe, um bocado como o de hoje), uma gaivota errou a trajectória, raspou-me na cabeça e eu caí num buraco e parti duas costelas e o braço esquerdo.»
«Tem a certeza de que a natureza gosta de si? Estão-lhe sempre a acontecer coisas desagradáveis…»
«Não brinque. Já lhe expliquei a lógica por trás de tudo o que acontece.»
«Claro, desculpe. Continue, por favor»
«Bom, depois de recuperar entrei para a Associação. Como sabe, temos duas vertentes: a de investigação e a de denúncia e activismo político.»
«Participou nas duas, segundo sei.»
«Todos os membros o fazem.»
«É capaz de nos contar alguns dos projectos em que esteve envolvido, em cada uma das áreas?»
«Com prazer. Nunca me esquecerei do tempo que passei em África a seguir um grupo de elefantes. Acabei por ser mandado de volta porque um deles, assustado (devíamos ter mantido uma distância maior, na verdade), carregou sobre mim e me partiu a perna esquerda. Em dois locais. Outra expedição de que me lembro bem foi uma viagem de barco às Selvagens que, infelizmente, acabou antes de lá chegarmos porque uma tempestade afundou o barco. Morreram dois colegas meus. Nunca recuperámos o corpo de um e do outro só recuperámos parte; o resto tinha sido comido por tubarões. Eu gostava de morrer assim, sabe? Em contacto com a natureza e assegurando que a cadeia alimentar se mantém activa... Enfim, estive também ligado a um projecto que estudou as plantas capazes de subsistir na Serra da Estrela durante o Inverno. Foi suspenso quando uma avalanche nos apanhou. Deve lembrar-se disso: vocês noticiaram-na como a única avalanche na Serra da Estrela em não sei quantas dezenas de anos. Fiquei preso e cheguei a entrar em hipotermia mas sobrevivi. Só me amputaram a ponta do nariz e andei umas semanas quase sem conseguir respirar porque um pedregulho que vinha no meio da neve me partiu seis costelas, as duas que já se tinham partido no acidente das Berlengas e mais quatro. Na Austrália acompanhámos um projecto cuja finalidade era tentar descobrir se não existirão ainda exemplares vivos do tigre-da-tasmânia. Um escorpião picou-me mas resisti bem ao veneno e só abandonei o projecto, que acabou por apenas descobrir uma nova espécie de canguru, quando um diabo-da-tasmânia (vêm sofrendo um terrível surto de tumores na boca, não sei se sabe) me mordeu. Foi ele que me levou estes dois dedos. Quer dizer, os dois dedos que antes aqui estavam.»
«Estou a ver… E no campo do activismo?»
«Participei em muitas acções de que toda a gente ainda se lembra. Protestei várias vezes contra o uso de peles. Numa delas utilizámos tinta vermelha para manchar casacos à saída dos Globos de Ouro da SIC. Levei uma bofetada da filha da mãe da Clara de Sousa e o curioso é que ela nem sequer estava com casaco de peles. Invadimos um matadouro de suínos para chamar a atenção para o modo como os humanos tratam os animais, criando-os em condições degradantes e assassinando-os de forma grotesca. Nem deve ser preciso dizer que sou vegetariano embora preferisse nem plantas ter de comer; infelizmente, somos forçados a comer alguma coisa, não é? Mas, voltando à invasão do matadouro: prendemos os trabalhadores numa câmara frigorífica e libertámos os porcos todos. Na confusão (eles estavam tão excitados, vendo-se em liberdade), fui atirado ao chão e alguns passaram-me por cima, partindo-me o braço direito e uma das costelas que já se tinha partido nas Berlengas e na Serra da Estrela. E, claro, manifestei-me na Dinamarca contra o aquecimento global, no pino do Inverno. Cheguei a destruir duas montras mas depois escorreguei num pedaço de gelo e cortei-me todo nos fragmentos de vidro. Houve ainda aquela vez em que...»
«Cuidado com a gaivo…»
«Ah!»
«Caramba, acertou-lhe em cheio. Deviam ter aqui um guarda-sol.»
«Não tem importância. Já lhe expliquei: estou habituado aos dejectos de gaivota. É verdade que se entranham no cabelo e o deixam empastelado. Mas acabo por nem ligar. Às vezes uso um capuz mas sinto-me a fazer batota com a Natureza.»
«E isso é que não pode ser...»
«Obviamente. Não está a ser irónico, pois não?»
«Claro que não. Desculpe. Quais são os seus planos para o futuro?»
«Continuar a lutar pelos direitos dos animais, por ecossistemas equilibrados e por políticas que assegurem a sobrevivência do planeta, claro. Sabe que, se mantivermos as políticas actuais, dentro de...»
«Sim, sim. Fizemos uma reportagem sobre isso na semana passada. Mas agora é capaz de ser mais difícil para si, não lhe parece?»
«Farei o que estiver ao meu alcance. E posso servir como símbolo da luta pelos direitos dos animais e da preservação da natureza. Como o Tom Cruise se tornou num símbolo contra a guerra do Vietname no filme Nascido a 4 de Julho. É por isso que aceitei dar a entrevista.»
«Claro. E eu agradeço-lhe que o tenha feito. Acabámos. Quer ajuda com a cadeira de rodas?»
«Não, obrigado. Já me vou habituando a ela. Está a ver como consigo manobrá-la? Não gosto dela (é um objecto artificial, de metal e plástico; horrível) mas tento integrá-la o melhor que posso na minha visão do mundo. Foi por isso que a pintei de verde.»
«Não falámos sobre o acidente que o obriga a usá-la porque já toda a gente o conhece. Foi muito noticiado.»
«Eu entendo. Vai para que lado? Para ali? Eu também.»
«Mas se quiser dizer alguma coisa sobre o assunto, esteja à vontade.»
«Digo-lhe o que digo sempre: as touradas são uma aberração que tem de acabar. Não me arrependo nada de termos invadido aquela herdade em protesto contra o destino dos touros. Que um me tenha acertado e partido a coluna é uma prova da raiva que eles próprios sentem.»
«Hum-hum. Claro. Olhe, obrigado mais uma vez. Bolas, o vento está cada vez mais forte. É melhor ter cuidado com esses degraus.»
«Estou a vê-los.»
«E olhe o cão.»
«O quê?»

«CUIDA... Merda.»