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Estrelas de cinema (11)

por Pedro Correia, em 07.02.12

 

QUANDO A VINGANÇA DÁ LUGAR AO PERDÃO

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Passamos demasiado tempo imersos na cultura da vingança, do olho-por-olho, do salve-se quem puder, para atentarmos na virtude do perdão. A própria palavra - perdão - tem hoje ressonâncias obsoletas, como algo irremediavelmente ultrapassado. E o cinema contemporâneo, espelho fiel da mentalidade dominante, traz-nos quase invariavelmene histórias de vingança. De cá-se-fazem-cá-se-pagam.

Pensei nisto enquanto via Os Descendentes, de Alexander Payne, surpreendente candidato a melhor filme de 2011 por designação da Academia de Hollywood. E surpreendente precisamente por se revelar contra a cultura dominante: é um filme terno, que sugere e não impõe, que prefere o sussurro ao grito e nos fala em linhas e entrelinhas da importância dos laços humanos num mundo que se vai desumanizando a olhos vistos.

Este era já um traço que percorria filmes anteriores de Payne, como Confissões de Schmidt e Sideways: o da revalorização dos pequenos gestos do quotidiano, indispensáveis para a construção de uma sociedade mais amena, mais amável, mais tolerante e tolerável.

Não desvendo a trama nem necessito disso para acentuar a notável capacidade de ludíbrio do realizador, que a todo o instante parece encaminhar o filme para um clássico enredo em torno de um ajuste de contas e afinal opta pelo rumo menos previsível, à margem das convenções de género - ao ponto de nunca sabermos bem se estamos perante um drama ou uma comédia. A indefinição, neste caso, contribui para o inesperado fascínio deste filme sem personagens exemplares nem pirotecnia tecnológica que confirma Alexander Payne como excelente director de actores, militante de um cinema onde o indivíduo se sobrepõe às organizações colectivas e o ser humano se sobrepõe à máquina.

É talvez desconcertante para alguns que tudo isto se passe no luxuriante Havai com os seus cenários de bilhete postal. Mas como o próprio narrador (George Clooney, numa admirável interpretação que lhe valeu também uma designação para o Óscar) nos adverte logo de início, ao apresentar-nos a mulher há 23 dias em coma, também neste cenário de paraíso ocorrem tragédias, o que nos deve servir de especial aviso.

Nós, cinéfilos, até já sabíamos, embora talvez andássemos esquecidos: é o Havai que surge como cenário desse magnífico filme de amor e guerra chamado Até à Eternidade (Fred Zinnemann, 1953). E nenhum paraíso está imune à semente do mal. Pearl Harbor aconteceu precisamente ali.

 

Os Descendentes (The Descendants, 2011). De Alexander Payne. Com George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie, Beau Bridges, Judy Greer, Matthew Lillard.

Estrelas de cinema (10)

por Pedro Correia, em 22.10.11

 

HEMINGWAY REVISITADO POR WOODY ALLEN

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Os intelectuais norte-americanos são herdeiros directos da cultura europeia: nada menos surpreendente que lhe prestem homenagem. E em nenhuma outra área artística isso é tão notório como no cinema. Foram, de resto, cineastas nascidos no Velho Continente que moldaram o cinema americano -- cineastas como Charles Chaplin, Josef von Sternberg, Fritz Lang, F. W. Murnau, Frank Capra, Ernst Lubitsch, Max Ophüls, Alfred Hitchcock, Jacques Tourneur, Billy Wilder, Otto Preminger e Elia Kazan.

Woody Allen é um ilustre herdeiro desta linhagem, mas está muito longe de ser único, ao contrário do que alguns críticos apressados garantem. Aliás o que este nova-iorquino de gema confirma, nos seus filmes mais recentes, é uma atracção pela Europa que vem desde o início da sua obra. Allen teve a sua fase bergmaniana (Interiors, 1978) e felliniana (Stardust Memories, 1980) muito antes de sonhar sequer que viria a filmar em Paris, Londres, Veneza ou Barcelona.

O aspecto mais interessante de Meia-Noite em Paris, filme em exibição nas salas portuguesas, é a forma como cruza cinema com literatura: a sua homenagem à Cidade Luz é, afinal, uma homenagem a um dos expoentes máximos das letras norte-americanas -- Ernest Hemingway. As falas de diversas personagens do filme -- Gertrud Stein, Scott Fitzgerald e o próprio Hemingway -- são extraídas de trechos da magnífica homenagem que o autor de Por Quem os Sinos Dobram fez à capital francesa no seu livro-testamento, Paris é uma Festa. E consegue fazê-lo com uma eficácia cinematográfica que deve tanto aos seus dotes artísticos como à sua longa experiência como artesão da Sétima Arte -- uma experiência que não o impede de cair em erros de casting, como a escolha de Owen Wilson para personagem principal ou a inclusão no elenco de Carla Bruni, muito menos expressiva do que a estátua do Pensador, de Rodin.

Meia-Noite em Paris é, no fundo, um fascinante conto de fadas -- também nada de novo na obra de quem dirigiu A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e Toda a Gente Diz que te Amo (1997). A novidade aqui é toda a fantasia ser protagonizada por nomes que se celebrizaram na vida real como figuras fundamentais da cultura e do espectáculo -- de Picasso a Buñuel, de Gauguin a Cole Porter, de Degas a Jacqueline Baker, de Toulouse-Lautrec a T. S. Eliot, de Juan Belmonte a Salvador Dalí.

Os deliciosos anacronismos que povoam o filme, conferindo ao espectador a ilusão do regresso a uma era de ouro que afinal nunca existiu, limitam-se a seguir a pista que o próprio Hemingway deixou impressa no seu livro de memórias parisienses - alusão a um tempo irrepetível, em que foi "muito pobre e muito feliz".

Num dos seus livros, Paul Auster -- outro americano que presta tributo sem complexos à cultura europeia -- ensina-nos que "razão e memória raramente andam a par". Talvez por isso, alguns dos mais talentosos cultores da saudade enquanto expressão artística, como Allen e Hemingway, parafraseando Pessoa, chegam a fingir que é nostalgia a nostalgia que deveras sentem.

Onde começa o artifício e termina a realidade? É irrelevante. A arte tanto imita a vida como a vida imita a arte: eis um princípio válido para todas as horas de todas as épocas em todas as cidades do mundo. Experimentem atravessar a Ponte Alexandre III à meia-noite na próxima vez que visitarem Paris. Daí pode resultar um filme ou um livro. Daí pode resultar um daqueles momentos mágicos que funcionam como fios que vão tecendo a eternidade.

 

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011). De Woody Allen. Com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kathy Bates, Adrien Brody, Carla Bruni, Michael Sheen

Estrelas de cinema (9)

por Pedro Correia, em 24.08.11

 

OS EXTRATERRESTRES ESTÃO NO MEIO DE NÓS

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"A prova mais evidente de que existem outras formas de vida inteligente no universo é que nenhuma delas procurou alguma vez contactar-nos." A frase, dita por Calvin a Hobbes, é bem reveladora de um certo cinismo fin de siècle. Quando eu tinha a idade do Calvin, vivia-se a última das três décadas prodigiosas do pós-guerra, marcadas pelo maior crescimento económico de que há registo na História - uma era de pleno emprego e de expansão do Estado-providência, pouco propícia a cinismos. Fiz parte da primeira geração formada e formatada pelos ecrãs de televisão, ainda sem reality shows. A ficção televisiva moldava-nos o imaginário: tão depressa cavalgávamos nas pradarias norte-americanas, à semelhança dos heróis do Bonanza, como viajávamos ao encontro de novos universos, tal como víamos em Espaço 1999 ou O Caminho das Estrelas. Éramos crentes, éramos crédulos: o impossível estava ali ao virar da esquina. A banda desenhada que líamos compulsivamente e os filmes de Steven Spielberg indiciavam-nos isso. Ao contrário do que viria a dizer Calvin ao seu tigre, nem púnhamos em causa que os extraterrestres nos visitassem: bastava-nos estar no lugar certo e à hora certa para os recebermos em festa e júbilo.

Pensei nisto tudo enquanto via Super 8, de J. J. Abrams. E como poderia não ter pensado se eu tinha a idade daqueles adolescentes em 1979, ano em que decorre a acção do filme, e também andava de câmara super 8 em punho? Também eu tive um grupo de cinema onde havia apenas uma rapariga entre vários rapazes, também eu vivi pelo menos um ano inteiro a pensar de manhã à noite na realização de um filme de ficção do qual só acabariam por restar alguns fragmentos.

Super 8 -- produzido por Spielberg, não por acaso -- é isto: um filme em que toda a verosimilhança fica suspensa, numa espécie de pacto implícito entre o realizador e os espectadores. O que vemos resulta da imaginação frenética e galopante de um adolescente que confunde a vida real com um episódio de Twilight Zone. O desfecho, empolgante para alguém da minha geração, pode parecer pueril e absurdo para quem cresceu já após a ressaca dos 30 anos mais prodigiosos da História da Europa e dos EUA, adolescentes da era Calvin que olham para E. T. e só conseguem ver água com açúcar.

Não foi o meu caso: J. J. Abrams fez-me voltar aos 15 anos e reviver o grupo Focus, que fundei, fez-me trautear de novo aquela saborosa canção do Chico Buarque ("agora eu era o herói / e o meu cavalo só falava inglês..."), fez-me sentir uma vontade irreprimível de procurar aquelas velhas bobinas amarelas da Kodak onde estão registadas em super 8 as minhas incipientes tentativas de candidato a George Lucas. Ficção e realidade interpenetram-se a tal ponto que é necessário permanecermos mais dois minutos na sala escura, enquanto decorre o genérico final, para percebermos definitivamente que tudo aquilo é apenas um filme.

E se quase tudo na vida dava um filme porque não também a matéria de que são feitos os nossos sonhos?

 

Super 8 (Super 8, 2011). De J. J. Abrams. Com Joel Courtney, Kyle Chandler, Elle Fanning, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso.

Estrelas de cinema (8)

por Pedro Correia, em 08.05.11

 

O CAIXEIRO-VIAJANTE IA DE GÔNDOLA

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Angelina  Jolie está deslumbrante nesta longa-metragem que parece ter sido (e provavelmente foi mesmo) subsidiada pelo Turismo de Veneza. Quem nunca a viu noutros filmes (no deslumbrante Changeling, de Clint Eastwood, por exemplo) ficará certamente rendido a tanta fotogenia. Quem já a conhece, no entanto, percebe que aqui não se vislumbra sequer um simulacro de actriz: deparamos apenas com uma capa de revista.

Por outro lado, quem nunca foi a Veneza deixa-se hipnotizar provavelmente por esta colecção de bilhetes-postais. Porque O Turista, no fundo, nada mais é que isto: Angelina Jolie em pose e uma sucessão de postais. Mas o melhor mesmo é ir lá: agora até há viagens baratinhas graças aos voos de baixo custo. Alguns custam pouco mais do que um bilhete de cinema. Caro, só andar de gôndola...

E Johnny Depp? Faz de caixeiro-viajante, em propaganda nada dissimulada aos cigarros electrónicos. Se fosse português, chamar-lhe-íamos Chico Esperto. Sem exagero de qualquer espécie.

Qualquer semelhança entre isto e cinema é pura coincidência. A mim, confesso, deu-me até para bocejar.

 

O Turista (The Tourist, 2010). De Florian Henckel von Donnersmarck. Com Johnny Depp, Angelina Jolie, Paul Bettany.

Estrelas de cinema (7)

por Pedro Correia, em 01.03.11

 

PASSAR AO LADO DE UM GRANDE FILME

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Jorge VI, pai da actual Rainha Isabel II, era um homem introvertido e ensimesmado, que nunca sonhou ser monarca. A sucessão do rei-imperador Jorge V, neto da rainha Vitória, estava garantida para o filho mais velho, David, que viria a adoptar o nome de Eduardo VIII ao subir ao trono, em Janeiro de 1936. Eram tempos difíceis, para Inglaterra e para o mundo. Mussolini ocupara a Abissínia, Hitler preparava-se para marchar em direcção a Viena, as tropas de Franco não tardariam a revoltar-se contra o governo da Frente Popular em Madrid, dando início à mais sangrenta guerra civil de que há memória em território europeu.
Eduardo VIII e o duque de York – que se chamava Alberto mas viria a escolher o nome de Jorge VI ao tornar-se rei – eram dois irmãos muito unidos. Mas de feitios opostos: o primeiro, extrovertido e frívolo, adorava aparecer nas colunas sociais; o segundo era de uma timidez desconcertante, agravada pelo facto de ser gago. Falar em público, para ele, constituía um pesadelo.
O maior pecado de Eduardo – e que acabaria por lhe custar o trono – era a sua notória atracção pela Alemanha nazi. Uma conspiração da classe política britânica – com o primeiro-ministro conservador Stanley Baldwin à cabeça – forçou-o a renunciar ao trono. E ele assim o fez, numa dramática alocução radiofónica aos súbditos, em Dezembro de 1936. Pretexto invocado: a sua anunciada intenção de casar-se – aos 42 anos – com uma americana divorciada, Wallis Simpson, algo reprovável para os costumes da época. Mas o dilema mais fundo, neste drama de bastidores, era o Reino Unido vir a ter um monarca amigo de Adolf Hitler em vésperas da eclosão de uma guerra mundial. Jorge VI, portanto, subiu a um trono que jamais desejou e Eduardo VIII rumou a um exílio perpétuo. Os dois irmãos, que tanto se estimavam, praticamente nunca mais se viram.
Tom Hooper tinha aqui material para um excelente filme. Infelizmente, desperdiçou todas estas pistas ao assinar uma longa-metragem reverente, pomposa, académica e previsível, centrada no exercício de virtuosismo de dois grandes actores – o britânico Colin Firth e o australiano Geoffrey Rush, já galardoado em 1996 com o Óscar de melhor actor pelo seu desempenho em Simplesmente Genial. O Discurso do Rei, galardoado com o Óscar de melhor filme de 2010, centra-se na gaguez de Jorge VI e nos esforços que fez para se curar. Tema interessante mas que não justifica os 113 minutos de duração do filme: a história poderia ser contada com mais eficácia em apenas hora e meia. Mas imperdoável é mesmo esta sensação de que o realizador passou ao lado de um grande filme com o material temático de que dispunha: dois irmãos, ambos reis, separados por preconceitos morais e pelas primeiras nuvens negras de uma tempestade política sem precedentes na história humana. Que um deles fosse gago, para o caso, é um pormenor quase irrelevante.

 

O Discurso do Rei (The King's Speech, 2010). De Tom Hooper. Com Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Derek Jacobi

Estrelas de cinema (6)

por Pedro Correia, em 06.12.10

 

TODOS OS HOMENS SÃO PECADORES

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O Americano é um filme que coloca os espectadores perante um dilema moral: poderemos julgar alguém pelos seus actos sem conhecermos as suas motivações? Estamos aqui perante uma situação limite: praticamente nada sabemos da personagem principal, começando pelo seu verdadeiro nome, a não ser que cometeu um crime brutal. E no entanto damos por nós a recear pelo destino desta figura aparentemente execrável, destituída de qualquer escrúpulo, contratada para matar.  Assalta-nos aqui um novo dilema moral, ainda mais perturbante: será lícito defendermos um assassino?

Este é um filme onde a duplicidade impera, desenrolado entre as paisagens gélidas da Suécia no Inverno e o aconchego meridional de Itália. Um filme onde a beleza do cenário contrasta de forma quase chocante com o carácter sombrio de quase todas as personagens, sem excluir sequer o sacerdote que se revela demasiado ansioso por libertá-las do pecado, ouvindo-as em confissão. "Todos os homens são pecadores, padre", diz-lhe - numa das cenas mais memoráveis - um quase irreconhecível George Clooney, que o realizador aposta em apresentar como um homem destituído de qualquer glamour hollywoodesco. Aposta arriscada mas obviamente ganha: todo o filme gira em torno deste homem atormentado por fantasmas íntimos que jamais descortinaremos. Damos por nós a tentar interpretar pistas atrás do seu olhar impenetrável e dos seus enigmáticos silêncios. Nada dele sabemos no início, quase nada dele saberemos à beira do fim.

Quem diria que este Clooney confinado ao seu refúgio de silêncio, condenado a jogar a vida num tiroteio à semelhança dos cowboys de Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone, que a televisão do café da aldeia exibe, é o mesmo actor que ainda há pouco surgiu nos ecrãs como a exuberante e tagarela figura central do filme Nas Nuvens? Este não é o menor dos contrastes que O Americano propicia. Anton Corbijn, conhecido por ter filmado os Joy Divison, sabe que o cinema vive sobretudo de atmosfera visual - e neste aspecto é igualmente bem sucedido, embora nos interroguemos por vezes se a deslumbrante paisagem dos Montes Abruzos não se impõe em excesso às personagens de film noir que nela se movimentam, anulando de algum modo o impacto negativo de todos os seus crimes e todos os seus pecados - por pensamentos, palavras, actos e omissões. E se o paralelo final com a Viagem a Itália, de Rossellini, parece algo forçado, na cena da procissão, já a personagem da prostituta, com as suas ressonâncias bíblicas, tem pleno cabimento neste filme que a todo o tempo nos coloca perante desafios no plano moral.

Quem não é pecador que atire a primeira pedra.

 

O Americano (The American, 2010). De Anton Corijn. Com George Clooney, Thekla Reuten, Violante Placido, Irina Björklund, Paolo Bonacelli.

Estrelas de cinema (5)

por Pedro Correia, em 09.11.10

 

 

CINEMA 'FEELGOOD', COM BILHETE POSTAL

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Depois dos livros de auto-ajuda, que hoje ocupam secções inteiras nas livrarias e nos tops de vendas, eis que chega agora também um filme de auto-ajuda: Comer, Orar, Amar. Com tópicos banalíssimos sobre a “felicidade” e o modo de atingirmos a “paz interior”. E a dose necessária de correcção política, fazendo equivaler todos os quadrantes geográficos e todas as culturas: a terapia começa com umas rezas na católica Itália, prossegue com meditações conduzidas por uma guru fashion na Índia e – de chorrilho de banalidades em chorrilho de banalidades – culmina com os ditames de um curandeiro numa aldeola de Bali. O mundo unido num abraço ecuménico ao serviço da felicidade universal e da multiplicação dos cifrões em Hollywood.
Julia Roberts, a estrela de turno, tem aqui dois registos de representação: sorri quando está feliz e esconde o belo sorriso que bem lhe conhecemos desde Pretty Woman quando se sente tristonha. É uma gama de emoções superior à média actual da “indústria” cinematográfica, que movimenta muito box office e transforma certos críticos em meros divulgadores de sinopses, fazendo equivaler receitas de bilheteira a qualidade cinematográfica.
Comer, Orar, Amar é tão esquemático e rudimentar enquanto filme como a receita “terapêutica” que propõe aos espectadores mergulhados num vazio espiritual: uma sucessão de bilhetes postais que não evita o cliché, antes o procura deliberadamente. Do dolce far niente na luminosa Roma, com refeições de sonho e sempre bem regadas, ao americano de meia idade angustiado por “culpas” várias que procura a redenção entre os deuses hindus, seguindo a rota inaugurada pelos Beatles nos anos 60. Mas o cliché máximo é atingido com a entrada em cena de Javier Bardem, interpretando um playboy brasileiro curtido ao sol da Indonésia, numa espécie de caricatura de si mesmo. Ao som de Bebel Gilberto, neste filme que não perde uma oportunidade de exibir um estereótipo, Bardem cumpre o que lhe pedem: devolver o sorriso a Julia Roberts. Na praia, entre coqueiros.
Quando isso acontece, como todos sabíamos que iria acontecer, já se percebeu que o próprio Bardem – depois de filmar com Almodóvar, Joel Coen e Woody Allen – não leva este papel minimamente a sério. E, por uma espécie de mecanismo de sabotagem interna, quase introduz uma espontaneidade neste filme que nunca a tem. Julia sorri no final, como também já sabíamos desde o início que iria suceder. E nós também sorrimos, claro: não procurámos a sala de cinema para outra coisa.
Chama-se a isto, no jargão contemporâneo, cinema feelgood. O cinema autêntico é outra coisa.

 

Comer, Orar, Amar (Eat Pray Love, 2010). De Ryan Murphy. Com Julia Roberts, James Franco, Richard Jenkins, Viola Davis, Billy Crudup, Javier Bardem.

Estrelas de cinema (4)

por Pedro Correia, em 02.09.10

 

PRIORIDADE À PIROTECNIA

* *

Confesso ter cada vez menos paciência para filmes cheios de pirotecnia visual, onde tem de “acontecer” qualquer coisa de 30 em 30 segundos e em que a “acção” é um objectivo que parece esgotar-se em si mesmo. Filmes como o tão elogiado A Origem, talvez a mais propagandeada longa-metragem do ano. É uma espécie de cruzamento de géneros, meio thriller meio ficção científica, com um Leonardo di Caprio cheio de energia a comandar o elenco. Poucos filmes me irritaram tanto, nos últimos meses, como este. Desde logo por ver desperdiçado o talento de Marion Cotillard, provavelmente a melhor actriz de cinema da sua geração, num papel secundário que não exige quase nenhum dos atributos que a têm distinguido. E sobretudo por perceber como uma boa ideia pode ser desperdiçada por uma produção apostada em gastar todo um cardápio de efeitos virtuais, transformando cada cena no equivalente a uma árvore de Natal cheia de luzinhas.

A boa ideia é esta: o aproveitamento da tecnologia pode levar pessoas pouco ou nada escrupulosas a manipular os sonhos dos outros. Uma ideia que exigiria um pouco mais de interiorização, algum desenvolvimento das características psicológicas das personagens em vez deste frenesim constante num filme que se prolonga por duas horas e meia. E no entanto há por vezes cenas arrebatadoras, deixando antever que nas mãos de outro cineasta, mais virado para a arte e menos para a indústria, A Origem poderia ser um filme bem diferente. Refiro-me, por exemplo, às cenas em que Di Caprio e Ellen Page caminham numa Paris onírica, feita à dimensão dos sonhos que teimam em tornar-se realidade. Christopher Nolan – autor de Memento e A Insónia – opta pela via mais fácil, privilegiando a trepidação e a violência.

Pode ter descoberto o caminho para uma boa receita de bilheteira, mas passou ao lado de uma obra-prima. Foi pena.

 

A Origem (Inception, 2010). De Christopher Nolan. Com Leonardo di Caprio, Ken Wanatabe, Joseph Gordon- Levitt, Marion Cotillard, Elle Page, Tim Hardy, Gillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine.

Estrelas de cinema (3)

por Pedro Correia, em 15.02.10

   

 

A FESTA DA MÚSICA NA SÉTIMA ARTE

* * * * *

 

As notícias da morte do cinema musical eram francamente exageradas, como havia sido demonstrado por filmes como Moulin Rouge (Baz Luhrmann, 2001) e Chicago (Rob Marshall, 2002). O género regressa agora aos ecrãs com Nove, prodigiosa recriação – em termos libérrimos – de 8,5, de Federico Fellini (1963). Com um elenco de luxo, onde se destaca o desempenho de Daniel Day-Lewis, que se transfigura em cada papel que encarna.
Outra longa-metragem já clássica do musical surgiu também como homenagem à película de Fellini: All That Jazz, de Bob Fosse (1979). Mas Nove supera-a na qualidade da partitura e da ficha artística. Temas como 'Take it All', 'Folies Bergères' e 'Cinema Italiano' conferem ao seu autor, Maury Yeston, um estatuto que o aproxima dos grandes nomes da época de ouro da MGM. Irving Berlin, Cole Porter, Jerome Kern e Harold Arlen teriam certamente gostado de compor este naipe de canções, capaz de electrizar qualquer plateia. A aposta fica totalmente ganha quando Fergie, vocalista dos Black Eyed Peas, dá corpo e voz a 'Be Italian', a mais espectacular canção deste filme, que recria (e amplia) o musical homónimo estreado em 1982 na Broadway.


Nove (Nine, 2009) é uma explosão festiva, em que todos os actores cantam e dançam. Day-Lewis, no papel de Guido Contini, um cineasta mitómano, prisioneiro da fama e em manifesta crise de inspiração. Marion Cotillard (noutro fabuloso desempenho, atestando a justiça do Óscar conquistado em 2008 por La Vie en Rose), no papel da sofrida mulher do realizador. Penélope Cruz, cada vez mais transbordante de talento, como amante de Guido. Nicole Kidman (a musa), Kate Hudson (a jornalista) e Judi Dench (a colaboradora mais próxima e confidente do cineasta) são outras actrizes superiormente dirigidas por Rob Marshall, que confirma aqui os atributos já revelados em Chicago (Óscar de melhor filme de 2002). E a homenagem à Sétima Arte, que Nove também é, culmina com a entrada em cena de Sophia Loren – a melhor ponte entre duas cinematografias de excepção – a italiana e a norte-americana – e várias gerações de intérpretes.
“Be a singer be a lover / pick the flower now before the chance is past / be Italian  / be Italian / live today as if it may become your last.”
Saímos da sala a trautear esta letra, como noutros tempos saíamos ao som de 'Singin’ in the Rain', 'America' ou 'That’s Entertainment'. Como se George Sidney e Vincente Minnelli ainda estivessem em actividade e o leão da Metro não tivesse deixado há muito de rugir.

 

Nove (Nine, 2009). De Rob Marshall. Com Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson.

Estrelas de cinema (2)

por Pedro Correia, em 22.03.09

 

MORANGOS SEM AÇÚCAR

* * * *

É uma das mais interessantes películas que chegaram já este ano a Portugal. Passou praticamente despercebida na estreia em Lisboa devido às actuais contingências da distribuição. Mas felizmente consegui vê-la numa cidade de província, onde o cineclubismo permanece vivo. Refiro-me ao filme A Onda, de Dennis Gansel – uma singular incursão numa turma do ensino secundário que funciona como retrato exemplar da sociedade alemã actual. Tudo se passa nas aulas de Autocracia, em que o professor – muito mais vocacionado, de início, para leccionar Anarquia, uma disciplina alternativa – opera uma verdadeira revolução pedagógica na sala, acabando por se tornar vítima do seu próprio sucesso. Numa cena crucial, que serve de chave a todo o filme, o professor Rainer Wenger pergunta aos estudantes que o ouviam, ainda entediados: “Acham que seria possível a repetição de uma ditadura na Alemanha?” A resposta surge em coro: negativa. Mas o rodar dos dias – e das aulas – demonstra como esta percepção é profundamente errada: muitos de nós, a qualquer momento, ficamos disponíveis para aplaudir um projecto ditatorial, seja de direita ou de esquerda. Ninguém está imune ao ovo da serpente.

Gansel assina um excelente trabalho, protagonizado por um conjunto de actores ainda adolescentes. A Onda é um filme que nos interpela, que nos incomoda. Não conseguimos ficar indiferentes à sua perturbante mensagem: nenhuma sociedade democrática está definitivamente implantada – a democracia é uma conquista de todos os dias. Eis um tema que gostaria de ver abordado numa obra de ficção portuguesa. Infelizmente, quando se trata de pôr adolescentes nas telas, ainda não passámos da fase Morangos com Açúcar.
 
A Onda (Die Welle, 2008). De Dennis Gansel. Com Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelf, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz.

Estrelas de cinema (1)

por Pedro Correia, em 03.03.09

 

 

NA EUROPA COMO NA AMÉRICA

* * * *

Vicky Cristina Barcelona é uma película sobre o desencontro de dois continentes separados por um largo oceano: a Europa e a América. E também uma homenagem pessoalíssima de Woody Allen ao Velho Mundo, onde passou a gostar de trabalhar, largando âncora da sua idolatrada Nova Iorque natal que ele tanto ajudou a imortalizar em filme.

Depois de Veneza, Paris e Londres, coube agora a vez à capital catalã, cujo Executivo abriu os cordões à bolsa na esperança de que o grande realizador norte-americano ajudasse a promover a imagem da cidade em contraponto à rival Madrid.
Se o Governo autonómico esperava uma colecção de bilhetes postais, cheios de tipicismo, enganou-se: Woody Allen limita-se a utilizar a cidade – e também a bela Oviedo, nas Astúrias – como pretexto para uma variação ao tema da permanente incompreensão entre homens e mulheres. Nova Iorque também surge esporadicamente neste filme – mas é uma Nova Iorque sem glamour, pragmática e materialista, rendida ao tecnicismo, em contraponto à boa Europa que sabe apreciar os prazeres da mesa e da cama.
 
 
 
Nesta homenagem de Woody ao continente que mais tem demonstrado amar a sua obra, a Europa sai claramente a ganhar. É pelo espanholíssimo Javier Bardem que Vicky e Cristina – uma loira, outra morena – se apaixonam. Mas a paixão só fugazmente é correspondida: Europa e América terminam de espaldas após um breve flirt que bem pode servir de metáfora aos complexos jogos políticos da vida real.
Bardem, melhor aqui do que no filme dos irmãos Coen que lhe valeu o Óscar em 2008, ganha a parada no campo da representação: chega e sobra para três actrizes ao mesmo tempo. Mas a grande revelação é Rebecca Hall, que também podemos ver num interessante papel em Frost/Nixon, igualmente em exibição. O mais convincente retrato psicológico desta película é precisamente o desta mulher dividida entre a razão e o coração. Scarlett Johansson, numa actuação sem chama, está muito distante do irrepetível desempenho em Match Point, também de Allen. E Penélope Cruz, num overacting apropriado à personagem que lhe foi entregue, de uma exuberância caricatural, só brilha nos diálogos em castelhano com Bardem, aliás um dos aspectos mais interessantes deste filme, em boa parte bilingue.
 
 
Woody Allen abandonou o bairrismo novaiorquino para se exibir como cidadão adoptivo da ancestral Europa, que ama e odeia os EUA em partes iguais. Felizmente para nós, continua a ser capaz de se reinventar em cada filme povoado de personagens credíveis e de histórias interessantes que mais tarde serão vistos como precioso documento de uma época. É este precisamente o caso de Vicky Cristina Barcelona, enésima longa-metragem sobre as eternas armadilhas do amor. Um tema inesgotável – em qualquer tempo, em qualquer lugar.
 
Vicky Cristina Barcelona. De Woody Allen (2008). Com Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson, Patricia Clarkson, Kevin Dunn, Rebecca Hall, Chris Messina.


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