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A esquerda submissa e ajoelhada

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

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O bolivarismo - versão caribenha do socialismo real - andou todos estes anos a contaminar a esquerda clássica europeia, que persiste em nada extrair das lições da história. Jean-Luc Mélenchon, o líder da chamada "França Insumissa", chegou a proclamar que Nicolás Maduro lhe servia de "fonte de inspiração" - a tal ponto que, se desembarcasse no Palácio do Eliseu, prometia transformar Paris numa das capitais da exótica Aliança Bolivariana Pelos Povos das Nossas Américas, de braço dado com o ditador de Caracas. Na Venezuela, o candidato derrotado por Emmanuel Macron nas presidenciais francesas alinha com aqueles que esmagam os insubmissos, incapaz de condenar a repressão.

Do outro lado da Mancha, o mesmo tom. Jeremy Corbyn, o Mélenchon inglês, recusa condenar o regime tirânico do sucessor de Hugo Chávez, que só nos últimos quatro meses já provocou 127 vítimas mortais em protestos de rua contra o endurecimento da ditadura e levou a Comissão de Direitos Humanos da ONU a insurgir-se contra o  "uso generalizado e sistemático da violência e as detenções arbitrárias" de opositores na Venezuela.

Louve-se ao menos a coerência do líder trabalhista, derrotado por Theresa May nas recentes legislativas britânicas: nem mesmo desafiado por deputados e membros do Governo-sombra do seu próprio partido, renega a fidelidade ao regime de Caracas. Em 2013, Corbyn proclamou Chávez como "inspiração para todos quantos combatem o neoliberalismo e a austeridade". No ano seguinte, foi exibido na televisão pública venezuelana por um sorridente Maduro, que o apresentou como seu "amigo".

Submissa afinal, a "verdadeira esquerda". Herdeira directa das esquerdas que durante décadas entoaram hossanas a Estaline, Mao, Brejnev, Honecker, Enver Hoxha e Pol Pot - a esquerda que demoniza as vítimas e glorifica os carrascos, ajoelhando em perpétuo tributo aos piores déspotas que o mundo já conheceu.

A Nova Ordem da Culpa

por Rui Rocha, em 08.05.17

Assistimos periodicamente à introdução de determinados temas na discussão pública que seguem os interesses de uma determinada agenda. Foi o que aconteceu, recentemente, com vários textos que pretendem fundamentar um direito de regresso (direito de regresso de quem é aliás coisa que em geral não nos conseguem explicar) sobre o apuramento e a imputação de responsabilidades pela escravatura. Vejamos:
1º Não é sem espanto que constatamos que num momento histórico em que Deus se vai progressivamente retirando do espaço público, se é que não morreu como nos afiançou Nietzsche, a ideia de culpa que era inerente e fundamental em territórios tomados pelo divino, longe de partir para parte incerta, é apropriada por alguns para construir uma nova condenação decalcada sobre a ideia de pecado original (já lá iremos no ponto 2º ao esclarecimento de que pecado é esse afinal) num sistema construído para proporcionar a esses mesmos uma redenção final sem necessidade sequer de confissão e contrição (como se verá no ponto 3º). Por agora, é suficiente sublinhar o primeiro traço da hipocrisia: são os mais ferozes soldados da guerra santa pela erradicação de Deus e da religião da comunidade que, longe de nos libertarem das amarras da heteronormatividade imposta pelo divino, quase sempre alicerçada nos conceitos operacionais de culpa e de expiação, tomam para si a missão de anunciar, evangelizar e, se os deixássemos, punir, a partir de uma ideia de culpa de cujas escrituras se arrogam agora ser os únicos intérpretes. Pense-se o que se quiser sobre a culpa com Deus (ou por Deus, ou contra Deus), mas parece óbvio que não ficaremos melhor com uma culpa que persiste sem Deus, ainda por cima com tais pastores.
2º Num mundo interconectado, com acesso amplo a informação, é fácil promover a expansão da culpa (de uma determinada culpa) no tempo e no espaço. A nossa culpa, se a quisermos tomar ou se nos deixarmos convencer dela, pode estender-se à pobreza extrema de África, à exploração do trabalho na Ásia ou às catástrofes ambientais na América. Note-se que num estado inicial, a culpa perante Deus era individual ou de um grupo, mas suportava-se num nexo de causalidade com actos próprios de que o indivíduo ou a comunidade eram responsáveis. A divindade castigava por um comportamento concreto (devassidão, apostasia, etc.) e com uma consequência directa (perda das colheitas, cheias, uma doença, para só dar alguns exemplos). Agora, o nexo de causalidade e punição perderam a sua relação unívoca com o prevaricador. A culpa tem o tamanho do mundo. Qualquer acto meu de consumo pode aparentemente desencadear a barbárie a milhares de quilómetros. Qualquer acto meu pode desencadear a punição não de mim ou dos meus, mas de pessoas que não conheço que são castigadas com incêndios ou inundações do outro lado do mundo. Esta é uma culpa universal e expansionista. Uma culpa incontrolável e insaciável. Uma culpa que se estende também no tempo. Somos culpados aqui e agora. Mas também somos culpados pelo que aconteceu há 200 anos. Ou mais, se for preciso. Mas não há então limites a essa culpa? Há, claro. Para percebermos quem e o que fica aquém e além dessa culpa é necessário interpretarmos os textos dos acólitos que nos querem impingir este novo tempo. E o traço comum a esta Nova Ordem da Culpa é a sua natureza unidireccional. Embora persistente e expansível até ao infinito no espaço e no tempo, esta culpa é apenas a da civilização ocidental. Sim, temos culpa pelo esclavagismo em África. Mas jamais poderemos culpar os muçulmanos pela invasão da Península Ibérica. Ou criticar os maridos que lêem no Corão que a palavra de Deus é infligir maus tratos às mulheres como forma de reforçar os sagrados laços do casamento. Para um determinado acto, a existência da culpa não é determinada pelo seu valor intrínseco mas pela condição de quem o pratica. É ocidental? Culpado. Não é? Então não temos nada que nos meter nisso. Temos então aqui esclarecido o novo fundamento teológico da culpa. O novo pecado original é o pecado ocidental. A culpa que interessa impôr é então infinita no espaço e no tempo mas é simultaneamente descontínua. Ali onde não se possa imputar à civilização ocidental, entendida como aquela que resulta das democracias liberais, da economia de mercado e, trema-se, do modo de produção capitalista, simplesmente não existe culpa. É este entendimento que permite a um estrénuo defensor do pecado ocidental que nos faz responsáveis pela escravatura do século XVIII, fechar no momento seguinte os olhos à carnificina de Estaline, ao genocídio de Pol Pot, à tortura de Fidel Castro ou à violência de Estado na Venezuela. Não integram no património genético o cromossoma fundador da civilização ocidental? Não são culpados, coitados. Está então desmascarado o 2º traço da hipocrisia dos sacerdotes do Templo da Culpa Ocidental: derrotados pela História, confrontados com os resultados de uma ideologia que desembocou invariavelmente na miséria, na morte e na repressão, não desistem de um impulso de desforra, ainda que para isso tenham que incorrer na mais tortuosa arbitrariedade.
3º Esta culpa que nos querem vender é então uma culpa só dos ocidentais. Mas de todos os ocidentais? Não, na verdade. Qualquer sistema de culpa inclui uma hipótese de redenção. Os judeus acertavam contas pelo sacrifício de bodes expiatórios. Os católicos redimem-se pela contrição, pela confissão e pelas avés-marias. Os vigários da Nova Ordem da Culpa encontraram um mecanismo mais sofisticado. A confissão, por exemplo, pressupõe a assunção de culpa. Os vigários querem a alma lavada mas não assumem culpa nenhuma. Para se eximirem ao pecado ocidental, identificam-se com a vítima. Quando pedem o pagamento de uma reparação pela escravatura, colocam-se do lado de lá. É como se eles próprios tivessem sido levados da costa de África em barcos de negreiros para trabalhos forçados nas roças de café do Brasil. E é isto mesmo que lhes permite usar um Iphone sem problemas de consciência. Bebem do fino mas não estão disponíveis para pagarem por ele. É este o 3º traço de hipocrisia e, no final, aquele que desmascara definitivamente a imoralidade do sistema de culpa, expiação e redenção que nos propõem e que nunca os inclui como réus do julgamento que pretendem conduzir.

NOTAS FINAIS:
1) O sistema de culpa baseado no pecado ocidental funciona, mutatis mutandis, para outras questões como o colonialismo ou as questões ambientais.
2) Sou ateu mas não sou parvo (creio que ainda me vou arrepender de ter usado a adversativa). Entre culpa julgada pelo Deus do Antigo Testamento ou a vida virtuosa orientada de acordo com os ensinamentos de um Livro das Expiações ditado por Boaventura Sousa Santos, fico como o Burro de Buridan: que venha o Diabo e escolha.

O valor dos argumentos

por Diogo Noivo, em 15.02.17

Sou, sempre fui, favorável à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Porém, discordâncias à parte, tenho de aplaudir o João Pedro Pimenta pela forma como responde aos talibãs do komentariado nacional que, nesta e noutras matérias, procuram fazer da ética um argumento de disciplina (e de imposição) em detrimento de um debate são, sério e democrático. 

Frases de 2016 (36)

por Pedro Correia, em 21.12.16

«O puritanismo está hoje do lado da esquerda.»

Ricardo Araújo Pereira em entrevista à Visão, 30 de Novembro

Post de actualização periódica

por Rui Rocha, em 16.12.16

Façamos então um breve ponto de situação sobre as grandes figuras messiânicas que mereceram o desvelo da(s) esquerda(s) nos últimos tempos:

José Sócrates: corrupto.
Lula da Silva: corrupto.
Hugo Chávez: oh pá, vão mas é contar passarinhos!
François Hollande: ahahahah!
Tsipras & Varoufakis: bah, tenham lá paciência!
Fidel Castro: bah, tenham lá vergonha!
Artur Baptista da Silva: credibilidade ligeiramente acima da média da amostra.

Convenhamos, pazinhos, que é poucochinho.

Ba-ba-bababa-baba

por Rui Rocha, em 02.12.16

Uma breve e aleatória consulta do Google para uma incompleta cronologia dos factos:

13.01.2014 - PCP alerta para estratégia criminosa de Paulo Macedo.
5.02.2014 - Bloco de Esquerda acusa Paulo Macedo de preferir tratar a saúde dos credores à dos doentes.
08.07.2014 - CGTP acusa Paulo Macedo de ser o coveiro da Saúde.
10.07.2014 - PS considera Paulo Macedo inadaptado ao lugar de Ministro da Saúde.
08.01.2015: João Semedo pergunta no Parlamento a Paulo Macedo "que tragédia é preciso acontecer para o senhor mudar de política?".
27.01.2015 - PS acusa Paulo Macedo de estar em negação perante os problemas.
19.02.2015 - PS exige que Paulo Macedo resolva caos no SNS.
24.02.2015 - PS acusa o ministro da Saúde de ser "o principal responsável político" pelos problemas no acesso a medicamentos para a hepatite C, desafiando Paulo Macedo a avaliar se tem condições para se manter no cargo.
02.12.2016 - Finanças confirmam Paulo Macedo como Presidente da Caixa.

 

Num artigo de 14 de Abril de 2015, João Semedo concluía perguntando o que mais teria de acontecer para Paulo Macedo se demitir ou ser demitido. Perante esta cadeia de acontecimentos, é caso para perguntar: o que mais terá acontecido para Paulo Macedo ser agora escolhido para presidir à Caixa?

Se a esquerda quer mesmo perceber como raio é possível alguém inteligente apoiar Trump, pode começar por perguntar a muita malta inteligente de esquerda por que raio gostava tanto de Hugo Chávez.

Luís Aguiar-Conraria, n'A Destreza das Dúvidas.

Frases de 2016 (33)

por Pedro Correia, em 27.10.16

«O António Costa é um líder em formação.»

José Sócrates, em entrevista à TVI, 26 de Outubro

Quem os viu e quem os vê (1)

por Pedro Correia, em 17.10.16

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É chocante o silêncio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista sobre o condicionamento das pensões mínimas, únicas que poderão ficar sujeitas à  condição de recursos em 2017, sem serem abrangidas pelo aumento extraordinário previsto para as restantes no Orçamento do Estado. Chocante desde logo porque estes dois partidos reclamam a todo o momento solidariedade com os mais frágeis e desfavorecidos da sociedade - precisamente aqueles que auferem as magras pensões sociais (do regime não retributivo) e pensões rurais (do antigo regime rural), que oscilam entre 202,34 euros e 380,56 euros.

Que diferença entre a apatia actual e o tom enérgico usado por Jerónimo de Sousa em Novembro de 2014, vergastando em simultâneo o PS e os partidos à direita dos socialistas. "Foi o PS que abriu a porta aos cortes dos salários, à condição de recursos para tirar abonos e outras prestações sociais, ao congelamento de pensões mínimas, ao Pacto de Agressão e outras malfeitorias, mas é preciso dizer também com estreita colaboração e apoio do PSD e CDS que se aproveitaram mais uma vez da mão amiga do PS para arrombar as portas todas da injustiça e da exploração!" [sublinhados meus].

Que diferença entre a apatia actual e o tom categórico usado pela deputada bloquista Mariana Aiveca em Março de 2011, vergastando em simultâneo o PS e os partidos à direita dos socialistas sobre este mesmo tema, enquanto saía em defesa de "quem tem uma pensão tão mínima como 189 euros ou 227 euros" num debate parlamentar em que lembrou que "mais de um milhão e 600 mil pensionistas" se mantinham abaixo do limiar da pobreza. "Pela nossa parte, continuamos a pensar que a pensão mínima tem de caminhar no sentido da convergência com a remuneração mínima mensal garantida, até porque esse é o valor a partir do qual se considera que há alguma dignidade de vida. Esta é uma questão da qual o BE não abdicará", declarou a deputada, falando em nome do seu partido [sublinhados meus].

Bastou transitarem da oposição para a órbita do poder para os dois partidos baixarem os decibéis reivindicativos. Antes produziam declarações tonitruantes, agora sussurram baixinho. Não vá o ministro Mário Centeno sentir-se incomodado.

O mundo ao contrário

por João André, em 19.09.16

Só uma perspectiva rápida ao conceito de «ir buscar dinheiro a quem o está a acumular» e fazendo a ressalva inicial (que vai ser ignorada) que estou contra isso: um dos países que os liberais da nossa praça mais admiram, a Holanda já o faz.

 

Na Holanda, o Estado taxa as poupanças dos seus contribuintes privados. Na declaração de impostos, feita online através do sistema de DigiD. Quando a declaração é preenchida online, os montantes existentes em todas as contas na Holanda já estão previamente preenchidos e apenas é necessário confirmá-los.

 

Em relação a taxar as poupanças, o valor a taxar é o montante total que existe nas diversas contas acima de um determinado patamar (que anda por volta dos 21.000 €). Abaixo desse valor o valor não é taxável. Acima dele, o montante extra é passível de ser taxado (por exemplo, quem tenha 25.000 € pagaria imposto sobre 4.000 €). O imposto parte do princípio que o valor tem um retorno anual de 4% e esse retorno fictício é taxável a 30%. Ou seja, se o retorno for inferior (e habitualmente é-o em contas poupança simples), o contribuinte pode pagar mais do que recebe de juros. Aliás, sei por experiência própria que é possível receber de juros apenas uns 30-40% do valor a pagar.

 

Este caso é apenas aplicável aos montantes em investimentos financeiros e, no caso do imobiliário, apenas a segundas habitações. Também se aplica a valores a partir dos 21.000 € (ou o dobro no caso de casais), valor que parece elevado. No entanto, se um indivíduo (ou casal) da classe média não quiser (ou tiver oportunidade) de comprar casa, é relativamente simples atingir tais níveis de poupanças na Holanda.

 

O caso português é diferente, claro está, mas quando alguma direita aponta o dedo a alguma esquerda em questões de sigilo bancário ou de taxar as contas bancárias, talvez fosse bom colocar os olhos num país que, em certos aspectos, foi mais longe no seu socialismo que se poderia esperar. E depois é elogiado pelo seu liberalismo.

 

Conclusão: não gosto de taxas às poupanças (outra coisa é taxar os juros ou retornos de investimento) e considero-o um ataque ao direito de cada um em fazer o que quiser com o dinheiro que ganhou e sobre o qual já pagou impostos. Por outro lado, é irónico ver que alguma esquerda portuguesa parece estar com vontade de seguir as melhores práticas de países ditos "liberais". É o mundo ao contrário.

Trocar Marx por Astérix

por Pedro Correia, em 19.09.16

 

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Nunca a extrema-direita esteve tão próxima de ganhar eleições decisivas em França – incluindo a eleição presidencial. Mas, apesar disso, também nunca a Frente Nacional francesa beneficiou de um silêncio tão complacente de uma parte da esquerda europeia, sem excluir a portuguesa, que prefere virar baterias contra o actual primeiro-ministro Manuel Valls, um reformista moderado. O mesmo silêncio resignado que em Janeiro de 2015 acolheu a formação da coligação governamental em Atenas entre o Syriza e o partido xenófobo Gregos Independentes, da direita musculada.

Marine Le Pen, líder da FN, beneficia desta tolerância de sectores situados à esquerda do PS – e até de algumas franjas socialistas – por confluir com elas no discurso eurofóbico, na retórica anticapitalista, na declarada simpatia pela Rússia de Putin, na hostilidade à NATO, no apego ao Estado como motor da economia. Une-os o combate à democracia liberal, o culto do proteccionismo económico e o ódio aos Estados Unidos.

Esta esquerda, que sempre foi internacionalista, abraça hoje fervorosamente o nacionalismo e marcha sem pudor de braço dado com a direita extremista no combate à globalização. Outrora sonhava edificar o socialismo à escala universal. Agora, pelo contrário, sonha com um Ocidente entrincheirado em fronteiras inexpugnáveis. Com cada nação transformada numa aldeia gaulesa de banda desenhada, nutrida pela poção mágica de Moscovo.

Trocou Marx por Astérix. Marine – loira como o herói de Uderzo e Goscinny – sorri e agradece. O Eliseu já se vislumbra ao virar da esquina.

As tácticas da política portuguesa

por Diogo Noivo, em 13.06.16

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Usei aqui um tweet de Catarina Martins para expor a descarada dualidade de critérios do Bloco de Esquerda e do PCP. Houve quem visse nesse post uma táctica difamatória. E eu expliquei-me. Hoje roubo ao 31 da Armada estas duas declarações, a primeira feita por Pedro Passos Coelho e a outra por António Costa. Separam-nas 5 anos. O que disseram BE e PCP sobre as declarações proferidas por Passos Coelho e como avaliam agora as declarações do actual Primeiro-Ministro? Há, sem dúvida, muita táctica nisto. Mas duvido que seja de direita.

Tácticas à esquerda

por Diogo Noivo, em 11.06.16

O João André, meu colega de blogue, publicou aqui no DELITO um texto no qual se insurge contra um post por mim publicado. Diz o João que o post em causa não passa de uma mera “boca”. Tem toda a razão. É, de facto, uma “boca”. No que a isto diz respeito, pela minha parte, não há polémica.

 

No entanto, a dita “boca” não foi movida por qualquer ânimo de difamação, ao contrário do que é sugerido pelo João André. O meu único propósito foi o de obter concordância linguística. Passo a explicar. Desde a sua fundação, uma parte substancial da actuação política do Bloco de Esquerda incide precisamente em provocações “simples e destituídas de reflexão”, cujo único intuito é o de achincalhar os seus adversários. Recordemo-nos, por exemplo, do célebre debate televisivo onde Francisco Louçã disse que Paulo Portas não podia falar de aborto porque não era pai. E, para não desfiar um rosário de boutades inenarráveis do mesmo teor, fiquemo-nos pelo caso recente do cartaz “Jesus também tinha dois pais”. Isto para não me alongar sobre aquilo que é a despesa política quotidiana do Bloco, onde as palavras “fascista” e “ladrão” são usadas de forma acrítica – aqui sim, João, “acrítica” – para expressar indignação. Mas enfim, pelo que posso perceber, para o João André nada disto tem um móbil difamatório ou é insultuoso. Só a minha “boca” é que foge ao tom.

 

O meu post é, como referi, uma “boca”. Como essa é a linguagem do Bloco, pareceu-me adequado. Contudo, ao contrário da praxis bloquista, não fui ofensivo. Quis tão simplesmente pôr em evidência a gritante e descarada dualidade de critérios do BE. Quando há um partido de esquerda no Governo (sobretudo com o Bloco a apoiar esse Executivo), os princípios são uns. Quando há um Governo de direita, já são outros. Faz lembrar um pequeno conto do Rubem Fonseca, autor descrito – e bem – pelo nosso Pedro Correia como um “dos maiores prosadores da língua portuguesa”. Nesse micro conto, escreve o magnífico autor brasileiro que “o que é nosso é sempre bom, pode ser um peido ou uma xícara de café; o que é dos outros é sempre ruim, pode ser um peido ou uma xícara de café”. E assim anda o Bloco. Há anos. E é tudo uma questão de propriedade privada.

 

Vamos então ao radicalismo que, segundo o João André, é um termo desadequado para caracterizar o BE e o PCP. Portanto, quem tem as suas origens e matriz política fundadas no marxismo-leninismo ou numa amálgama de trotskistas e maoistas é moderado. Fico mais descansado, João. A conversa podia ficar por aqui, mas não resisto a um momento chave no argumento do meu colega de blogue: PCP e BE não são radicais porque têm “representação parlamentar e [porque] seguem as regras da democracia.” Ou seja, porque elegeram deputados, porque respeitam os resultados eleitorais e porque respeitam os procedimentos institucionais do Estado não são radicais. Certo. Depreendo, portanto, que a Frente Nacional francesa, a AfD alemã e a Aurora Dourada grega não são formações políticas radicais. Lamento, João, mas temo que as nossas concepções de “radicalismo” e de “democracia” sejam irreconciliáveis. Creio que isto responde à insinuação pedestre a respeito da minha opinião sobre Donald Trump. Se não responder, João, lê este texto – tem “bocas”, desculpa – e vê as ligações que nele constam.

 

Por último, entendo que, segundo o João André, um blogue é um espaço onde apenas podem existir opiniões “altamente justificadas e fundamentadas”. Discordo, pois considero que há espaço para tudo. Porém, se só existe espaço para teses “altamente justificadas e fundamentadas”, há aqui no DELITO inúmeros posts dignos do teu repúdio, caro João. Mas escolheste o meu. Fico grato e tomo boa nota.

 

Termino manifestando uma certa ternura pelo intróito do João André. Escreve o meu colega de blogue que é de esquerda, mas que tem “sempre respeito por quem tem opiniões diferentes” das suas. Mutatis mutandis, é igual à advertência encalacrada atenção-que-eu-tenho-um-amigo-gay!, dita por quem se prepara para soltar uma qualquer alarvidade homofóbica.

Tácticas à direita

por João André, em 10.06.16

Quem me lê sabe perfeitamente que eu sou de esquerda. Devido às minhas posições e ao contraste com os da maioria dos autores do blogue, muitos confundem o meu posicionamento político. Tento esclarecer o máximo possível as minhas posições, mas na realidade não me incomoda muito quando alguém confunde as minhas coordenadas.

 

Esta introdução, apesar de eu a considerar vã, é feita para poder esclarecer que, qualquer que seja a minha posição política, tenho sempre respeito por quem tem opiniões diferentes das minhas. Estou há muito afastado da política e não tenho interesse em a ela regressar, pelo que as minhas opiniões são minhas e, se coincidem ou não com as de outros, isso é sempre bem-vindo, desde que isso suceda por reflexões reais.

 

Comentários como o do Diogo Noivo aqui abaixo não mais é que uma "boca" gratuita, sem reflexão e com a intenção de difamar um partido. Nesses intuitos falha por várias razões. O primeiro é simples: sem definir o que é ser-se "esquerda radical", Diogo Noivo apenas pretende que se associe o Bloco de Esquerda ao epíteto de "radical" para desacreditar o partido. Se fizesse um exercício de reflexão honesto sobre o assunto, chegaria à conclusão que por muito que as posições sejam diferentes, "radical" não é algo que possa atribuir-se ao BE, a não ser que se tenha uma visão muito restrita do termo.

 

Por outro lado, tenta difamar ao associar o BE ao PCP. Dado que se trata de dois partidos com representação parlamentar e que seguem as regras da democracia portuguesa, a associação pode querer confundir os dois partidos mas para qualquer pessoa objectiva acaba por falhar o alvo - por muito que se copiassem, PCP e BE não seriam "radicais".

 

Por último, falha quando associa os dois partidos por causa de um comentário. Suponho que pela mesma lógica também associasse Donald Trump ao PCP, já que tem andado a atacar os grandes interesses económicos nos seus comentários populistas e, esses sim, violentamente radicais (sim, violentamente, é intencional e literal).

 

É um comportamento típico de todos os partidos, à esquerda e à direita, de se tornarem curiosamente míopes em relação às falhas dos próprios partidos (ou partidos próximos) quando no governo e de atacarem os outros partidos de forma cada vez mais forte e gratuita quando na oposição. No entanto, se a esquerda tem a tendência de ignorar os dados e se cingir cegamente à sua ideologia quando ataca um governo à direita, a direita opta por usar ataques cujo único propósito é conotar os governos de esquerda com algo de negativo.

 

Neste caso, o Diogo Noivo tenta meter dois partidos num único saco e dizer que são radicais, tentando assim, de uma única penada despachar os dois sem ter uma argumentação que se veja. O mesmo quando se fala na "geringonça", um termo que pegou e que é um disparate pegado, como qualquer democrata o perceberá (mas que escapará para sempre à cabecinha de Passos Coelho).

 

Mais abaixo o Luís, noutro tom, parece escolher os meios que lê ao escrever este post. Eu, que leio menos jornais que ele, já tinha percebido que a palavra "crise" andava a desaparecer dos jornais há um ano. Discordo em muito com o Luís sobre as razões e os supostos méritos do govrno de Passos Coelho, mas é um facto que o governo PS herdou um situação mais desafogada que a de há quatro anos. É por isso natural que o tom mude. E mesmo que não mudasse, que a crise estivesse apenas como antes, a simples fatiga leva os jornais a dar menos atenção. É algo que ele, como jornalista, saberá perfeitamente, mas terá esquecido no post. Por outro lado, não deixo de ler criticas constantes ao governo do PS, inclusivamente vindas da esquerda. Talvez eu tenha apenas sorte.

 

Seja como for, e seja lá quem for que esteja envolvido, irrita-me imenso quando a direita tenta lençar nuvens de poeira sobre o desempenho de um governo, olimpicamente ignorando factos quando lhe convém (hábito à esquerda e à direita) e, pior, tentando difamação por associação. Melhor seria ler posts como este da Ana, altamente justificado e fundamentado e o qual subscrevo.

 

Há muito por onde se pegar para qualquer ataque aos governos, é escusado andar a inventar nuvens negras.

Ventos de Espanha

por Pedro Correia, em 22.05.16

Imaginem o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, coligados, ultrapassando o PS como força eleitoral. É o equivalente a isso que ressalta da sondagem de hoje do El País sobre as intenções de voto para as legislativas de 26 de Junho em Espanha.

Esquerda-cigarra e PS-formiga

por Pedro Correia, em 18.04.16

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Acabou o tempo da retórica frentista: a necessidade de cumprir o Pacto de Estabilidade e Crescimento porá à prova a estabilidade da precária e conjuntural maioria de que António Costa ainda dispõe no Parlamento - maioria que aliás se dissolveu já na votação do orçamento rectificativo destinado a concretizar o processo de resolução do Banif.

A deliberada rispidez de Catarina Martins, interpelando cinco vezes Costa em tom crispado no debate quinzenal da passada sexta-feira, prenuncia novos ventos. Que soprarão cada vez com mais força caso se confirmem as exigências adicionais da Comissão Europeia hoje divulgadas no Correio da Manhã: veto ao aumento do salário mínimo para 600 euros até 2019 e chumbo da semana laboral de 35 horas na administração pública, por exemplo. Além de um "ajustamento orçamental" que possibilite a redução de 0,6% do défice português. Isto enquanto aumentam os juros da dívida e o FMI antecipa uma significativa redução das receitas fiscais anunciadas para 2016.

O colete que Bruxelas quer ver ainda mais apertado, somado à degradação acelerada do nosso frágil sistema financeiro e aos alertas que sucessivas entidades - como a OCDE e a Universidade Católica - vêm lançando como duche frio nas risonhas previsões do ministro Mário Centeno, não augura nada de bom para a saúde da esdrúxula coligação formada em Novembro. Uma coligação parlamentar de três partidos e um apêndice em que apenas o PS-formiga assume responsabilidades governativas enquanto a esquerda-cigarra vai mandando bitaites, replicando os treinadores de bancada.

Este é o dilema estratégico que Costa deverá defrontar a curto prazo: ou alarga o elenco governativo a esses partidos, forçando-os a um grau de compromisso muito maior do que o actual, ou não tardará a reviver os dias agrestes de José Sócrates no malogrado biénio 2009-11 - que acabou como sabemos. Entre este penoso cenário e a nada invejável hipótese de tornar-se o Tsipras português, resta-lhe uma via estreita e sinuosa. Mas é preferível que comece a trilhá-la desde já.

 

Leitura complementar: Notas políticas (7)

Comentário político vaudeville

por Diogo Noivo, em 13.03.16

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O governo português está com dificuldade em reunir os votos necessários para aprovar um pacote de ajuda à Turquia. O Bloco de Esquerda está a sair do guião estabelecido por António Costa e a coisa pode não se concretizar. Mas, como é evidente, a culpa é da direita. Pelo menos foi isso que nos disse esta tarde um profissional do comentário – e digo ‘profissional do comentário’ porque não lhe é conhecida qualquer outra profissão. Calvo de ideias, mas grávido de certezas, o comentador disse ficar mal ao PSD a recusa em aprovar o referido pacote de ajuda e, consequentemente, não ser solidário com o governo de Ancara e com os refugiados (uma simplificação grosseira, típica da criatura em apreço, mas adiante). Ou seja, as esquerdas juntam-se e viabilizam um governo com base no pressuposto de serem capazes de gerar uma solução política estável e funcional. Quando, ao passar da teoria à prática, se vê que a estabilidade da esquerda não é grande coisa, a culpa (pasme-se) é da direita. Percebi hoje que “tempo novo” equivale a “novo patamar de desfaçatez intelectual”.

Queremos uma esquerda "à séria"!

por Rui Rocha, em 02.03.16

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O Costa que presida ao Conselho de Ministro em fato de treino. O Carlos César que use rabo-de-cavalo. O Jerónimo de Sousa que pregue um xoxo ao Ferro Rodrigues durante o próximo debate quinzenal.

Frases de 2016 (17)

por Pedro Correia, em 18.02.16

«Governo não é de esquerda. E falta muito para ser de centro-esquerda.»

Arménio Carlos, Expresso, 14 de Fevereiro

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 01.02.16

«A esquerda marxista clássica lia os grandes livros. Pelo contrário, a nossa doméstica esquerda pós-moderna confunde a bruta e fera realidade, onde se joga o destino pessoal e colectivo de dez milhões de portugueses, com um teste à sua boa consciência. Nem a tragédia do esmagamento da Grécia do Syriza lhe parece ter ensinado a perceber a desagradável diferença entre virtude e razão de Estado.»

Viriato Soromenho-Marques, no Diário de Notícias


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