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Os Cratos não têm vertigens

por Rui Rocha, em 04.10.14

Se bem percebo, o imbróglio da colocação de professores contratados deixou de ser uma questão técnica para tornar-se um problema político. Há, obviamente, uma diferença fundamental entre um erro grosseiro numa fórmula matemática e o não cumprimento desavergonhado de uma promessa assumida por um Ministro. Os 150 professores que tinham sido colocados e que agora viram a situação revertida sofrem naturalmente um prejuízo que Nuno Crato tinha garantido que não aconteceria. Na falta de uma correcção urgente da situação, Crato atira-se de forma deliberada para o abismo da mentira. Nada que surpreenda, no final de contas. A cara-de-pau com que tem gerido o Ministério da Educação, desdizendo e contrariando tudo quanto afirmara antes de ser Ministro, permite já uma conclusão definitiva: os Cratos não têm vertigens.

Desabafo

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.14

Os resultados do trabalho de investigação da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento, para os quais a Teresa Ribeiro já havia oportunamente chamado a atenção e de que a edição de 15 de Janeiro pp. do Público dá conta, para lá de enfatizarem aquilo que é mais chocante, ou seja, de que os portugueses quanto mais instruídos e mais ricos menos solidários são, revelam a falta de uma dimensão essencial, a mais importante da educação, que é a dimensão humana e relacional. Este aspecto é ademais sublinhado pelo investigador Lourenço Xavier de Carvalho quando refere que essa dimensão “está cada vez mais afastada dos currículos”e que “as prioridades do sistema educativo estão completamente erradas”. As pessoas embora tornando-se competitivas e tecnicamente preparadas tornam-se insensíveis aos outros.

Os resultados do estudo não constituem propriamente uma novidade para quem ande na rua, acompanhe o dia-a-dia, fale com adultos e menos adultos e, em especial, se predisponha a ouvir o que a maioria dos nossos dirigentes vai debitando.

A assinatura do memorando de entendimento com a troika, na linha do que já antes vinha dos “famigerados” PEC, o que em tempos fomos ouvindo a Teixeira dos Santos, ao ex-primeiro ministro e a alguns dos membros do seu executivo, ou que posteriormente escutámos a Passos Coelho, Vítor Gaspar, Hélder Rosalino, Mota Soares, Maria Luís Albuquerque e tantos outros, para só me referir aos mais próximos e aqueles cuja “desfaçatez” está mais presente, será apenas a ponta de um iceberg que foi paulatinamente crescendo sem que a maioria das pessoas se apercebesse das suas verdadeiras consequências e da dimensão, este sim, não o outro, do “monstro”.

É o “monstro”da insensibilidade que acompanha o desenvolvimento da ignorância global sobre a nossa própria condição e nos impede de ver o mal que daí resulta para o desenvolvimento e crescimento saudável de qualquer sociedade. Sou a favor da competição, sou um acérrimo defensor do mérito e da valorização das competências técnicas e profissionais, que fique bem claro. Mas continuo a não conceber que desenvolvimento e que tipo de sociedade será possível alcançar se os seus padrões de qualificação desvalorizam a dimensão humana das acções que nela se produzem.

E aqui, quer se queira quer não, voltamos a entrar na velha discussão sobre o papel da escola, sendo para o caso indiferente se essa é pública ou privada. Porque, se virmos bem as coisas, quando a família falha, quando o núcleo fundamental se desestrutura, seja por os tempos serem outros e vivermos numa sociedade “pós-modernista”, seja porque a indiferença se substituiu a um simples olhar para quem está ao lado, assistindo-se ao crescimento de manifestações de índole individualista que desviam a atenção do essencial e desvalorizam a dimensão humana da nossa relação com a economia, com as finanças, com a ciência, com a arte, enfim, com o mundo, falham os próprios pressupostos da formação.

O acto de ler, por exemplo, sendo um acto profundamente individualista, e não me refiro à leitura pública de textos, é um acto que nos aproxima dos outros e é incomensuravelmente mais humano e saudável do que os videojogos que invadiram as casas de todos nós e atiram adolescentes em idade de ler, ver um bom filme ou ouvir um bom disco para o recolhimento dos seus quartos ou para sofás de onde a custo se levantam na hora das refeições ou quando a bexiga aperta.

Quando a família falha e a escola também em igual medida, e ambas de uma forma crassa como se vê pelos resultados do estudo, é preciso que o Estado, que as suas instituições, aquelas para as quais os nosso impostos contribuem, fosse capaz de aparecer e colmatar o vazio, preenchendo essa vertente da formação.

No caso português a falha tem tal dimensão que não só nos mostrámos absolutamente incapazes de nos governarmos – o que significa que os dirigentes que a sociedade formou para a dirigir para além de serem recorrentemente mentirosos e aldrabões são igualmente maus do ponto de vista da gestão colectiva – como, ainda por cima, cultivámos um padrão de desenvolvimento que é a vergonha da herança de Erasmo, de Montaigne ou de Thomas More.

Dinheiro, poder, estatuto, cartões de crédito platina, bons carros, fatos de fino corte, sapatos de luxo, viagens à Cochinchina em classe executiva, refeições estreladas pela Michelin, tudo isso tem o seu espaço numa sociedade equilibrada sem que para corrigir excessos seja necessário cortar na reforma dos mais humildes, dos que mais trabalharam e dos que mais pagaram para não terem de viver os últimos anos das suas vidas sujeitos às contingências de lares e casas de repouso, sujeitos a maus tratos e à caridade de terceiros, nem despachar os mais capazes para o outro lado do mundo contando com as remessas deles e dos seus filhos para pagarem os vícios e os excessos dos incapazes e ignorantes que tomaram de assalto todas as zonas de conforto da política, da sociedade, da diplomacia e do Estado em geral, sem nunca nada de útil terem feito para merecê-lo. Não pode haver uma sociedade equilibrada enquanto se desvalorizar tanto o olhar sobre os outros, enquanto todas as críticas forem tomadas a peito pelos visados e vistas como ofensas pessoais, enquanto o humor for sempre interpretado como chacota, gozo e inveja, e, pior que tudo, se condescender com a disfuncionalidade social e juvenil ou comportamentos aberrantes dos titulares de cargos políticos, tratando-os como inevitabilidades do século XXI ou o preço a pagar pelo desenvolvimento.

Se não formos capazes de atalhar caminho começando por “educar” os nossos dirigentes e mostrando-lhes o caminho para onde deverão seguir, com troika ou sem troika, visto que aqui a componente económico-financeira até será a mais desprezível e ainda que não possamos descurar o cumprimento das nossas obrigações internacionais, o problema jamais terá uma solução adequada que nos liberte de fantasmas e nos faça reencontrarmo-nos com o nosso passado, sem necessidade de se continuar numa espera eterna por um qualquer vulto saído do mais tacanho sebastianismo, de um vendedor de pátrias e de credos, ou iluminado vendedor de banha-da-cobra que um dia acorda com vontade de ser primeiro-ministro.

Nunca a aposta na educação foi tão fundamental para se garantir a liberdade e a independência de um povo. Nunca o Estado moderno foi tão importante. Nunca os portugueses precisaram tanto de um Estado forte e de partidos políticos e dirigentes à altura do momento. 

Ponham os olhos nele

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.01.14

Para alguns, o senhor que está junto à estatueta do Rolls Royce, Sir Run Run Shaw, será sempre recordado como aquele que projectou Hong Kong na indústria cinematográfica mundial. Para outros ficará a imagem de um homem que foi acima de tudo um doador. De esperança e de sonhos, e que ajudou a construi-los. Contas feitas, muito por alto, o homem que criou a TVB investiu mais de € 630.000.000,00 (é com estes zeros todos em euros), dentro e fora da China, em projectos ligados à educação e à saúde. Só universidades chinesas foram duas dezenas as contempladas. Mecenato foi o que ele fez. Mesmo para quem viveu 107 anos é muito dinheiro.

Os nossos ricos e excêntricos podiam pôr os olhos nele, agora que o ministro Crato anda a oferecer computadores, perdão, a fazer experiências com "tablets" nas escolas públicas. Ficavam as escolas a ganhar e poupava-se mais um ministro à figura de caixeiro-viajante.

Um texto de 2013 para 2014

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.01.14

Um texto para ler e reflectir do meu amigo Guilherme Valente, um homem sempre atento, preocupado e oportuno em matéria de educação, que é o que marca a diferença entre as nações. E também entre os homens livres e os tristes.

 

"Dou apenas o exemplo determinante da leitura. Transcrevo de Valter Hugo Mãe o testemunho insuspeito que cita:
“Chocou-me ouvir Alice Vieira dizer que os bestsellers dos anos 80 que a levavam às escolas para falar com miúdos do 6.º ano, agora são os mesmos que a levam para falar com miúdos do 12.º ano. Diz ela que, hoje, os livros que concebeu para miúdos de 13 anos, estão a ser lidos e trabalhados por miúdos de 17, no âmbito das escolas. 'O que vou fazer? Pelo menos que os apanhemos aos 17, se não estes livros para 13 anos vão ser mais tarde ou mais cedo trabalhados na universidade ou em doutoramentos e eu vou ser chamada para falar com adultos marmanjões que deviam ter entendido isto aos 13 anos'.”

A observação de Alice Vieira demonstra que temos estado, desde há muito, a recuar, que os nossos jovens aprendem cada vez mais tarde o que deviam aprender muito mais cedo." - Público, 31/12/2013

Pois não...

por Rui Rocha, em 27.12.13


Dois pesos, muitas medidas

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.12.13

Se havia ministro em quem acreditasse, em Junho de 2011, independentemente de um diferente posicionamento político-ideológico, que seria capaz de desempenhar um papel à altura das exigências do país era Nuno Crato. Com ele trazia a qualificação académica, a intervenção cívica, uma presença assídua na imprensa pensando com exigência questões pertinentes. Enfim, um conjunto de atributos e qualidades que à partida o distinguiam de alguns dos seus pares.

Volvido este tempo, em que se tornou patente o aumento da crispação dentro das escolas, a degradação do sistema de ensino, a desvalorização (a martelo) do papel da escola pública, dos professores e da comunidade educativa no seu todo, pensava eu que já estava tudo estraçalhado. Errado. Ainda faltava voltar a dar o dito por não dito pela enésima vez em matéria de avaliação de professores e de exames.

Quanto a esta última parte duvido que neste momento, para além dos visados, que têm sido tratados como bolas de golfe sujeitas às pancadas de um principiante da modalidade num driving range, alguém acreditasse na virtualidade de um modelo, qualquer que ele fosse, imaginado na 5 de Outubro.

O golpe de misericórdia acabou agora de ser dado. Inscrições obrigatórias, e pagas, ameaças várias, promessas sem fim, conferências de imprensa sem sentido e todo um rol de situações aparentemente sem solução, no final resumia-se a uma questão de números.

As proclamatórias declarações de princípio - e não apenas do ministro e do ministério mas também de alguns sindicatos - foram convertidas em números e sumariamente negociadas. Como na lota. Para quem deve, e continua a dever, quase tudo o que é hoje à escola pública e aos seus professores, e acompanha de fora, e longe, o permanente e surreal folclore negocial, torna-se difícil acreditar se será possível algum dia reconstruir o que se destruiu, restaurar a credibilidade das instituições, a estabilidade do sistema educativo e prestar um serviço capaz à comunidade. O espectáculo é deprimente.

Reformar todos viram que não foi possível. Mais difícil será amanhã um professor, com o sentido da sua missão, explicar a um aluno interessado, em termos que este possa entender e que um dia isso lhe possa ser útil, o que é uma questão de princípio. E, em especial, para que serve.

O cheque-asinino

por João André, em 15.11.13

Alegrem-se almas liberais: as arengas liberais de José Manuel Fernandes estão agora perfeitamente disponíveis para quem as queira ler (com o limite de 20 vezes por mês). A mais recente é em relação à escola pública e aos cheques-ensino.

 

É divertido ler JMF hoje em dia. Deixou de vez a inteligência nalgum bengaleiro de uma conferência sobre o liberalismo e limita-se a arengar palermice atrás de palermice. Obviamente (para quem me leia) que não sou a favor dos cheques-ensino, mas até compreendo as razões de quem sabe argumentar em favor dessa solução. JMF não é uma dessas pessoas.

 

Em relação à sua "análise" dos rankings e do ataque à Parque Escolar, leia-se o Daniel Oliveira, que dissecou bem melhor o assunto do que eu o poderia fazer. Eu limito-me a apontar as falácias de JMF.

 

1. Os "maus resultados" da Escola Pública justificados por contextos socio-económicos. Antes de mais, refira-se que os "resultados", bons ou maus, que JMF refere são os dos rankings. Esse assunto despachei acima. Pessoalmente não acho os resultados da Escola Pública como maus. São bons. São mesmo óptimos. A Escola Pública oferece ensino à totalidade da população portuguesa (e não só a alguns). A Escola Pública anulou em relativamente poucos anos o analfabetismo do país. A Escola Pública continua a preparar os alunos para um ensino universitário que é de qualidade (o resto da Europa gosta imenso de ter portugueses). A Escola Pública tem maus alunos, porque inclui toda a gente. Ter maus alunos não equivale a ter "maus resultados". É apenas o resultado de políticas inclusivas.

 

2. Os maus alunos podem sê-lo porque o seriam sempre (nem toda a gente tem os genes certos para ser bom nos estudos tal como nem toda a gente nascerá com capacidade para ir aos Jogos Olímpicos). Os maus alunos também o podem ser porque nunca existiu um ambiente conducente aos estudos ou sequer à valorização dos mesmos. Neste segundo caso, a escola poderá substituir-se ao ambiente familiar (ou social), mas para tal não pode encafuar o aluno no meio de outros 35, onde as suas especificidades são ignoradas. Terá talvez de passar mais tempo sob acompanhamento. terá de ser incentivado. A escola necessita, em resumo, de mais meios para esse aluno. Meios que a escola privada nunca usará, mesmo que os tenha. Por definição, a escola privada quer o lucro. A escola pública quer ensinar.

 

3. Prestar contas. JMF diz que as escolas privadas têm que prestar contas aos pais e as públicas ao ministério. Ou seja, as privadas mostram resultados aos clientes e as públicas a uma entidade independente dos pais. As escolas privadas só precisam então de formar alunos para fazer exames e dar-lhes resultados bons ao longo do ano. A qualidade do ensino em si mesmo é pouco importante.

 

4. Liberdade de escolha: a maior falácia. Não existe, pura e simplesmente. Se amanhã se iniciasse um sistema de cheques-ensino para todos, as escolas privadas seriam inundadas por pedidos. Para manterem a qualidade não poderiam aumentar o número de alunos, ou seja, teriam de seleccionar. Fá-lo-iam por dois caminhos: ou aumentariam as propinas (e os pais com dinheiro continuariam a pagar a duplicar) ou passariam a escolher com base em critérios deles (notas, ambiente socio-económico, etc). Os outros iriam para a escola pública. Se as escolas privadas aumentassem até poderem abranger o completo universo de potenciais alunos, a qualidade iria por aí abaixo, porque passariam a receber maus alunos e maus professores e ainda acabariam pior que as públicas porque deixariam de gastar recursos a compensar os piores alunos.

 

Nada tenho contra escolas privadas. Entendo que devem existir. Os pais de alunos nessas escolas até poderiam receber algumas vantagens fiscais. Mas nem as escolas deveriam receber um tostão que fosse do Estado nem deveriam ser vistas como algo de diferente de qualquer outra empresa. São negócios, é assim que devem ser tratadas. Quando se fala do futuro do país, não se deve entregá-lo a um negócio, independentemente do que rankings artificiais nos digam.

Genéricos, sff

por jpt, em 08.08.13

A Carolina passou para o 7º ano. Fomos comprar os livros (mais os cadernos de actividades e os CD's). Ainda falta o livro de matemática, ainda no prelo (como se dizia) pois a ser actualizado e já partiram 290 euros. Mais ou menos metade para a Leya mais ou menos metade para a Porto, que isto na escola são salomónicos. Antevejo que com o livro que falta - e o (vasto) material escolar - isto irá até aos 400 euros. 80 contos em moeda verdadeira. Por filho.

Pois, isto da necessidade dos livros novos e sempre diferentes, da pluralidade. Isto da liberdade de escolha dos agentes educativos. Isto da necessária actualização, dos diversos enfoques e visões. Todo o discurso a fazer-me lembrar o debate sobre os medicamentos, a manipulação das ideias democráticas ao serviço do lucro, das punções sobre as famílias (por via directa, por via indirecta através de impostos).

Livro escolar? Genéricos, sff.

  

É costume ouvir e ler queixumes sobre o estado actual do ensino em Portugal, críticas aos modelos pedagógicos, aos currículos, ao ordenamento estatal (ministerial), aos paradigmas vigentes (o celebrado "eduquês"). Tudo isso, diz-se, que implica um défice das capacidades dos cidadãos. Não vou discordar, ignorante que sou das múltiplas dimensões da(s) problemática(s). Mas ocorre-me, talvez mais do que nunca, que a hipotética existência desse problema assume uma dimensão histórica, o "tempo longo", pois será uma questão de décadas, no mínimo. Deduzo isso pela constatação da generalizada iliteracia. Detecto-a agora, nestes últimos dias, na quantidade de textos vistos in-blog, in-facebook, nos sítios electrónicos dos jornais, nas tvs, em que os seus autores [gente entre os 30 e os 60 e muitos, na maioria licenciados e todos, visivelmente, com um mínimo de frequência do ensino secundário] afirmam, sonora e arreigadamente, que não são capazes de compreender a reduzida complexidade  deste texto.

 

Não se tratará de um défice de habilidades hermenêuticas, também elas disponibilizadas pelo sistema de educação. É mesmo uma questão de iliteracia, a um nível ainda mais básico. Que remete a tal crise para décadas bem anteriores, quando esta mole agora locutora frequentou os vários níveis do ensino nacional.

 

Mas há um outro registo, muito positivo. Esse lamento público (potenciado agora pela avalanche da palavra pública, via redes sociais e massificação da comunicação social) denota, vigorosamente, que as pessoas já não têm vergonha de publicitarem a sua ignorância, a sua incapacidade. Assim demonstrando que a percebem já não como uma natureza (até vergonhosa, num quadro de valores culpabilizador) mas sim como um estado transitório, algo a ultrapassar. Uma extrema e saudável mutação cultural, laica, democrática. E que convoca o sistema de educação nacional a acudir a tantos excluídos, apesar dos títulos académicos e conclusões "liceais", de uma corriqueira utilização da língua portuguesa. 

 

A realfabetização de adultos impõe-se. Haja recursos para tal.

Inteiros numa fé talvez sem causa

por Pedro Correia, em 17.06.13

 

Vários colegas de blogue já comentaram a greve dos professores. Eu prefiro comentar estas declarações, para mim espantosas, da presidente da auto-intitulada Associação de Professores de Português (quantos professores representa esta associação?) que vem contestar o carácter "dúbio" do exame do 12º ano hoje realizado.

Dúbio, para a professora Edviges Antunes Ferreira, é algo que merece crítica. Como se a literatura pertencesse ao reino das matemáticas, em que dois mais dois serão sempre quatro.

Admira-se esta docente que houvesse "questões dúbias" sobre Ricardo Reis, por sinal um dos mais dúbios autores da literatura portuguesa, heterónimo de um poeta que ultrapassava os restantes naquela ambiguidade que por vezes molda o génio.

Dúbio, em literatura, não é defeito: é qualidade. Queria o quê, doutora Edviges? Um teste à americana, cheio de quadradinhos, como quem preenche um boletim do Euromilhões?

"Tem quatro questões e duas delas podiam ser mais objectivas", queixa-se a docente, esquecendo talvez que o enunciado em causa não se destinava a alunos do ensino básico mas a um exame do 12º ano de escolaridade, em que se pressupõe que qualquer estudante esteja apto a interpretar textos que ultrapassem a linearidade objectiva de uma notícia de jornal. "O poema, só por si, é subjectivo", pasma a doutora Edviges. E nós pasmamos com ela. Como se a subjectividade, inerente à melhor literatura, fosse defeito em vez de qualidade.

Queixa-se ainda a presidente da APP de, noutra parte do exame, estar incluído um texto de António Lobo Antunes, que exige - como qualquer texto deste escritor - "uma leitura muito atenta". E aponta o dedo acusador, segundo as declarações recolhidas pela Lusa: "Não chegaria uma vez. Os alunos teriam de encontrar as respostas ao longo de todo o texto". Até porque os alunos eram "obrigados a ter uma percepção global do texto" para conseguirem "responder a essas questões de uma forma correcta".

Eu é que pasmo cada vez mais. Mas qual é o problema de um exame requerer "leitura atenta" de quem o faz, doutora Edviges? A senhora prefere cultivar o facilitismo na escola em contraste com as crescentes dificuldades na vida extra-escolar? Algum dos seus alunos se sente capaz de interpretar um texto sem ter uma "percepção global" daquilo que lê? À luz de que patamares mínimos de exigência se deverá elaborar um enunciado destes que não implique uma "leitura atenta"?

E volto ao princípio: que critérios pedagógicos a senhora adopta, poupando "subjectividades" e "leituras atentas" aos seus alunos? Como sei de antemão que ficarei sem resposta, respondo eu próprio. Com estes versos - muito subjectivos - de Ricardo Reis: «Seja qual for o certo, / Mesmo para com esses / Que cremos serem deuses, não sejamos / Inteiros numa fé talvez sem causa.»

Também aqui

Newsflash: Bloco de Esquerda suaviza posição

por José António Abreu, em 17.06.13
Depois de meses a exigir a demissão do governo, exigiu hoje apenas a demissão do Ministro da Educação.

Uma gestão desastrosa.

por Luís Menezes Leitão, em 17.06.13

 

Não me lembro de ter assistido a uma gestão mais desastrosa de uma greve como a que foi realizada pelo Governo. Desde o início ignorou o descontentamente existente na classe dos professores, julgando que tinha instrumentos à sua disposição para minimizar os efeitos da greve. Primeiro surgiu uma artilharia de comentadores, a tentar convencer a opinião pública de que a greve era ilícita ou imoral, tentando assim desmobilizar os professores. Depois o Governo ameaçou com a requisição civil, contando que o Tribunal Arbitral decretasse serviços mínimos, apesar de o ensino não estar legalmente tipificado como um dos sectores em que é possível essa designação. Perante a recusa do Tribunal Arbitral em decretar esses serviços mínimos, o Primeiro-Ministro ameaça alterar a lei, fazendo lembrar o Ministro da Guerra de Salazar, Santos Costa, que quando era acusado de estar a violar a lei, respondia que a lei estava na ponta da sua caneta.

 

Impossibilitado de decretar serviços mínimos, Nuno Crato lembrou-se então de convocar todos os professores para a vigilância, levando assim a que cada grevista tivesse nove suplentes. Mas mesmo com esta medida, a greve teve impacto e inúmeros alunos ficaram sem exames. O resultado foi pior de que se ninguém tivesse feito exame, levando a um enorme protesto dos alunos. Imagine-se como se sentirão alunos que viram os seus colegas com exame realizado, enquanto que eles não o puderam fazer, tendo necessariamente que fazer um diferente, o qual pode ser mais fácil ou mais difícil, discriminando uns estudantes em relação a outros.

 

Uma conclusão: para se ser Ministro da Educação não basta ter escrito um livro sobre o eduquês, por muito correcto que o livro seja. É necessário ter capacidade de gestão política, o que tem faltado totalmente a este Governo.

Greve dos professores portugueses

por jpt, em 04.06.13

 

Leio, estremunhado, que os professores portugueses ameaçam fazer greve nos próximos dias. E com isso afectando o processo final de avaliações e talvez até os próprios exames finais. Preocupo-me um pouco com a minha filha, empenhadíssima na conclusão da sua 6ª classe, e com viagem para férias em Portugal já marcada para o logo depois dessas provas finais. Espero que a sua concentração, tão organizada, e as suas férias, tão merecidas, não sejam prejudicadas pelas lutas sindicais dos seus professores.

 

A este propósito leio também umas choraminguices das confederações de pais. Que, sim Senhor, os professores têm toda a razão, a culpa "disto tudo" é do(s) governo(s), que a greve é justa, que o direito à greve é fundamental, mas ... por favor stôres não prejudiquem os nossos petizes, coitadinhos, deêm-lhes as notas e façam-lhes os exames, não lhes questionem o direito à educação. Que coisa! As greves são para serem feitas quando doem mais, para potenciar os seus efeitos de pressão. Quando doem aos patrões/empregadores e aos consumidores/utentes. Com limites claro, da racionalidade económica (sobrevivência organizacional), política (a das boas modalidades do regime) e, em última análise, do interesse nacional. Objectivamente nada disso está em causa com um hipotético atraso dos exames por via de uma greve.

 

Os professores consideram que devem fazer uma greve (por razões que desconheço, sendo que até tenho um longínquo apreço pelo actual ministro)? Façam-na. Como deve ser. Quando atrapalha mais. E quanto aos paizinhos: ou são contra os motivos da greve, e contestam-na. Ou aceitam-nos, e deixam-se de choradinhos.

 

(é claro que não haverá greve aos exames, é bluff para as primeiras páginas dos jornais. Ainda bem para a Carolina. Que não mereceria esta confusão. Mas que, com toda a certeza, não veria os seus (sacrossantos) direitos postos em causa caso ela viesse a ser realizada).

Cortar sem pensar

por João André, em 29.05.13

Desde 1993 - ano em que entrei para a universidade - que ouço falar disto. Ou melhor, que presto atenção a este assunto (provavelmente é muito mais antigo). As universidades oferecem cursos sem interessados que acabam com uns 2 ou 3 gatos pingados a cada ano. Alguns deles foram sendo descontinuados (adoro este termo) e outros foram continuados à força de duas ou três pessoas por ano. Em Coimbra, o caso paradigmático era engenharia de minas, com a qual a AAC tinha frequentemente de gerir o interesse dos estudantes (não queriam que o curso acabasse) e da universidade (desperdício de recursos).

 

No passado, como a notícia esclarece, já se tinha cortado o financiamento a cursos com menos de 20 inscritos (pessoalmente parece-me um número baixo). Agora o governo decidiu mesmo acabar com os cursos com menos de 10 inscritos. Autonomia das universidades? Um termo giro.

 

Já os cursos e a necessidade de profissionais na área são ignorados. Não conheço todos os casos e admito que a maioria seja de cursos que, de facto, não tem saída. Algumas áreas haverá, no entanto, que não necessitando de muitos profissionais por ano, vão necessitando de alguns. Volto à engenharia de minas: passados uns anos encontrei alguns engenheiros num encontro internacional. Explicaram-me que tinham frequentemente que pagar valores exorbitantes pelos poucos engenheiros de minas portugueses ou para trazer outros do estrangeiro. Não era para trabalhos de minas. Era para construção de pontes, túneis, edifícios, estradas, etc. Não eram necessários muitos por ano, explicaram-me, mas havia necessidade deles.

 

E é isso que, mais uma vez, o Governo (e aqui falo do Governo em geral, não só deste) volta a falhar. Não há uma ideia real para o ensino superior em Portugal. Ao invés de fechar a maioria desses cursos mas mantê-los abertos em menos universidades, para continuar a fornecer estes profissionais, o Governo fecha. Contenção de gastos e cobrança de propinas, é a palavra de ordem. Uma visão, boa ou má, é aquilo que nunca aparece.

 

Voltarei a este assunto numa série de posts que ando a escrever.

Teletrauma

por Ana Vidal, em 07.05.13

 

Há coisas que não percebo. Em vez de proibirem as suas criancinhas de levar telemóveis para um exame - por iniciativa própria e sem que sejam precisas recomendações exteriores, como seria lógico e natural - os pais dos alunos que fizeram hoje o exame do 4º ano vêm para a televisão insurgir-se contra o terrivelmente traumatizante pedido de assinatura de um papel que garante que os meninos não estão a conversar com os amigos em vez de estarem concentrados no exame. Insurgir-se, no fundo, contra a introdução das primeiras e utilíssimas noções de responsabilidade, ética e compromisso nas mentes dos filhos.

 

Esta nova forma de educar (ou de não educar, mais precisamente) com base no pressuposto de que tudo traumatiza as crianças, deixa-me seriamente preocupada. Primeiro, porque cria gerações sucessivas de florzinhas de estufa que não podem ser contrariadas nem suportam qualquer espécie de autoridade, o que as deixa totalmente impreparadas para o que vão enfrentar na vida real. Depois, porque torna quase insuportável o trabalho dos professores, desautorizados por um muro acusatório constituído por alunos mal educados e pais incapazes de autoridade que os apoiam incondicionalmente, tenham ou não razão. Finalmente, porque não vejo este excesso de protecção aplicado depois a outras frentes, como por exemplo à enorme exposição a que essas mesmas crianças estão sujeitas com a net, a televisão, a "noite" precoce, etc. Seria bom que estes pais pensassem um pouco mais em tudo isto, em vez de saltarem escandalizados, com acusações que não têm pés nem cabeça, para o microfone que a voraz media lhes estende à porta da escola.

 

Cultura científica

por João André, em 19.03.13

Este post do João fez-me voltar a um dos meus temas de estimação: a falta de cultura científica da população portuguesa. Não que o João (ou sequer o Samuel de Paiva Pires) a demonstre, antes que o post original demonstra, perante a colecção de propostas de temas que exclui completamente a ciência, uma alergia a tudo o que não seja cultura "clássica" (história, literatura, filosofia ou arte). Isto não é algo que venha apenas do post do João, é algo extensível à sociedade portuguesa em geral. Note-se este artigo de opinião de Luís Francisco no Público. É essencialmente uma tentativa de humor. Para mim falhada, mas não é aí que lhe aponto o dedo, antes é ao facto de o autor ter decidido escrever sobre ciência apenas do lado do humor, sem qualquer tentativa de a compreender. Várias vezes  nos leva a pensar se está a brincar com alguns títulos ou simplesmente não compreendeu que os mesmos são absolutamente relevantes. Aquilo que o artigo demonstra é que a ciência, em Portugal, é para ser tratada como nicho de gente esquisita ou com humor.

 

Não vale a pena voltar aqui ao tema das "Duas Culturas" de C.P. Snow, quem quiser pode ler sobre o assunto. Trata-se tão só de notar que a sociedade portuguesa continua a contribuir para esta falta de cultura científica e a menorizar quem a possui. Quem numa conversa de café puxar do assunto do uso da luz por Rembrandt pode ser visto secretamente como um "chato", mas raramente lhe pedirão que se cale. Quem quiser antes falar do facto de existirem duas teorias da Relatividade e aquela que estabelece o limite da velocidade da luz ser a mais simples e "trivial" será imediatamente ignorado pela maioria.

 

Este é um sentimento que se perpetua através da falta de educação científica, da pouca relevância da ciência nos media (ver o cartoon que ilustra o post, retirado daqui) e do próprio preconceito popular (quantos não foram para Humanidades para "fugir à matemática"?). Este problema acaba por se notar de forma clara depois também nos tais exames de cultura geral de acesso à carreira diplomática. Fazem-se perguntas que até são simples, mas que nenhuma relevância terão para as funções. Acabam portanto por se valorizar as ciências (ou disciplinas) que tenham reconhecido valor científico (informática, energia) e ignorar aquelas que explorarão o conhecimento fundamental (física, matemática). Isto não só é uma tragédia em si mesmo, mas acaba por ignorar que muitos avanços tecnológicos fundamentais para a humanidade se fizeram a partir da ciência fundamental.

 

Resolver este problema não é fácil e não é tarefa para 4 ou 5 anos, antes para uma geração. Antes de mais, creio ser necessário um programa de "alfabetização científica" em Portugal. Um programa que, sem esconder a dificuldade do estudo da ciência, mostre o quanto é fundamental para a vida de todos os indivíduos. Por outro lado, seria necessário que se eliminassem as oportunidades para fugir à ciência. Matemática e Ciências (genéricas) deveriam fazer parte dos currículos de qualquer curso, mesmo na Filosofia, Línguas ou História. Paralelamente, claro, Literatura, História e Filosofia deveriam fazer parte dos currículos de todos os cursos (fossem eles Biologia, Engenharias ou Matemática).

 

Sei que muitos se insurgirão contra uma possível intromissão do Estado nas liberdades individuais, mas eu não a vejo como mais que uma extensão das funções educativas do Estado (caso contrário deixamos de alfabetizar a população). Todos beneficiariam. Mesmo aqueles que preferissem não o fazer.

Na entrevista à TVI, Passos Coelho disse:

“Temos uma Constituição que trata o esforço do lado da Educação de uma forma diferente do esforço do lado da Saúde. Na área da Educação, temos alguma margem de liberdade para poder ter um sistema de financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal directa que é assumida pelo Estado.”

 

No dia seguinte, o Ministro da Educação disse (escreveu):

"Nunca o Governo pôs em causa a gratuitidade da escolaridade obrigatória".


Ontem, Passos Coelho disse:

"Em primeiro lugar, eu nunca fiz qualquer referência a essa matéria (co-pagamento) e posso mesmo dizer que isso nem tem qualquer sentido. De resto, o senhor ministro da Educação esclareceu-o muitíssimo bem. Não é possível, em termos de ensino obrigatório, criar taxas dessa natureza".


Temos, então, que Passos Coelho diz que não disse o que disseram que tinha dito. Demos de barato que foi assim (eu sei, eu sei... mas façamos um esforço, vá). Sobra, mesmo asim, um ponto fundamental que deve ser escalarecido: se o que disse não foi o que se diz que disse, que raio é que quis dizer quando disse o que disse?

Perder a empatia

por José António Abreu, em 27.10.12

Afirma que as redes sociais e a Internet estão a mudar o cérebro dos adolescentes. Porquê?

É uma questão muito complexa. É como perguntar se um carro é bom ou mau. Tudo depende da forma como se conduz.

Mas é muito crítica em relação ao uso das novas tecnologias informáticas.

Nunca disse que os computadores são maus para o cérebro. O que disse foi que o cérebro humano se adapta ao ambiente que o rodeia, por isso somos uma espécie tão bem sucedida. E nos últimos anos houve mudanças enormes no ambiente e nos estímulos que rodeiam a mente humana, sobretudo devido ao aparecimento da Internet e de outras tecnologias informáticas. A situação actual é semelhante às alterações climáticas. Eu chamo-lhes alterações mentais. Há quem diga que estamos condenados, outros defendem que a ciência pode ajudar a resolver o problema.

Como?

Essa mudança mental tem a ver com a forma como o cérebro processa a informação. Alguns pais dizem que os filhos terão acesso às novas ferramentas informáticas quer queiram quer não. Mas eu defendo que devemos controlar esta área.

De que forma?

O acesso a alguns sites e às redes sociais influencia muito a forma como as crianças e os adolescentes se relacionam uns com os outros, assistimos a uma perda de empatia nas novas gerações. Muitos jovens têm problemas de identidade e de relacionamento com os colegas. Os videojogos são altamente viciantes, podem gerar distúrbios de atenção e agressividade. Os motores de busca estão a alterar a forma como processamos a memória e armazenamos os conhecimentos.

Os estudos mais recentes mostram que há mesmo alterações físicas no cérebro, por causa do uso frequente da Internet, dos videojogos e das redes sociais...

Exacto. Os dados mostram que há zonas do cérebro com anormalidades devido ao uso excessivo de videojogos e tecnologias informáticas. Uma das alterações é a forma como se liberta dopamina [a molécula produzida no cérebro responsável pelas sensações de prazer]. Verificou-se que as crianças que jogam videojogos começam a ter padrões cerebrais idênticos aos jogadores viciados em casinos.

[...]

No seu estudo encontrou casos dramáticos de dependência da Internet?

Sim, há casos de crianças que passam o tempo fechadas no quarto a brincar com o computador.

E que consequências tem isso?

Desligam-se dos amigos e têm muita dificuldade em interpretar os sentimentos de outras pessoas, não conseguem descodificar a linguagem corporal e o tom de voz em situações normais. Não conseguem distinguir se uma pessoa está triste ou alegre porque estão desligadas da realidade. As relações sociais precisam de muito treino, cara a cara, e há uma nova geração que só comunica por computador.

Isso pode explicar a falta de compreensão, os incidentes violentos, os tiroteios, por exemplo?

Se eu disser "O meu pai morreu" e a resposta for "Isso não me interessa nada", seria algo que me perturbaria muito. Ora este tipo de respostas está a aumentar. Este Verão, um atleta olímpico britânico, Tom Daley, cujo pai tinha morrido pouco tempo antes das provas, recebeu mensagens horríveis quando ganhou a medalha de bronze e não a de ouro, como se esperava. Eram coisas do género: "O seu pai teria vergonha da sua prestação." Esse tipo de atitude era impensável há alguns anos. As pessoas estão a perder a empatia.

 

(Da entrevista de Luís Silvestre a Susan Greenfield, cientista britânica, especialista em fisiologia do cérebro, professora de farmacologia sináptica na Universidade de Oxford, na revista Sábado desta semana.)

Da inutilidade dos livros

por José António Abreu, em 13.10.12

Numa espécie de resposta à pergunta deixada pelo Rui Rocha:

 

Duas raparigas de mini-saia sentam-se entre espelhos e sorrisos, de unhas pintadas de cinco cores diferentes, embora iguais nas mãos e nos pés, expostos, como gemas polidas, nas sandálias com um palmo de salto. Encomendam saladas e desembainham os smartphones. Não trocam palavra. Teclam em silêncio, nos seus iPhones, não se sabe o quê. Mensagens, números?

A chegada da comida desperta-lhes sorrisos. Debicam com pauzinhos, mergulham de novo nos telemóveis. Uma delas sabe inglês suficiente para perceber a pergunta – Já leram Mo Yan, que acaba de ganhar o Nobel da Literatura?

“Quem? Yang? Shang? Ichan? Não sei o que é. Um escritor?” O café fica no interior do Centro Comercial KK, que ocupa cinco andares de um edifício de 100, todo em vidro e luzes que acendem e apagam formando as palavras e números de anúncios de empresas e produtos, ao longo dos 442 metros de altura da frontaria.

“Shong? Bem, nós não costumamos ler livros”, explica Liu, aka Jane, falando pelas duas. Ou mais. O café está cheio de jovens com roupas estudadamente modernas e caras, agarrados aos telemóveis ou tablets. “Quando andava a estudar só tinha tempo para ler os livros da escola. Agora que já trabalhamos, usamos os tempos livres para vir ao centro comercial, ou jogar no telemóvel”, continua Jane (na China, os jovens que aprendem inglês adoptam um nome inglês).

Liu (jane) e Song, de 22 e 21 anos, trabalham num SPA. Vieram para Shenzhen há dois anos. Na aldeia-natal de cada uma, nas províncias de Hunan e Hubei, os pais dedicam-se à agricultura. Nos primeiros tempos na grande cidade, as duas raparigas trabalharam numa fábrica. Depois subiram na escala social. Agora têm dinheiro para estar no centro comercial. Um nome. Só um nome de um escritor chinês: “Não sei. Mao Zedong?”

Amy, 25 anos, Relações Públicas numa grande empresa de telemóveis, a Huawei, tem a mesma dificuldade em nomear um escritor. “É mais fácil jogar jogos. Os livros são muito complicados”.

Zheng, 24 anos, finalista de Medicina em Nanjin, também nunca ouviu falar do nome. Nem num nem no outro. “Prémio quê? Não sei o que é”. Tirando os compêndios clínicos, Zheng orgulha-se de nunca ter lido um livro.

Shenzhen é uma cidade recente. Há 30 anos um pequena aldeia, hoje tem 14 milhões de habitantes, graças às reformas de Deng Xiaoping e à criação de uma Zona Económica Exclusiva. Representa a nova China, eufórica com o desenvolvimento. Em toda a cidade, é possível visitar centenas de centros comerciais, e milhares de lojas de telemóveis baratos, mas não assistir a um concerto ou peça de teatro. Shenzhen não parece precisar de vida cultural.

“Mo Yan? Conheço sim. Escreveu livros sobre o período da guerra com os japoneses”. Yang Woo, 59 anos, é oriundo de Guangzhou, a antiga Cantão, e proprietário, em Shenzhen, de um restaurante de peixe na Avenida Huaqiang, a Meca da electrónica. Admite sem problemas que deve o seu êxito empresarial muito ao facto de ser membro do Partido Comunista. “Mo Yan é um escritor muito interessante, que promove os valores da harmonia. Se o Nobel é importante? Não. A China não precisa disso”.

Reportagem de Paulo Moura, no Público de ontem.

 

Ou, em meia dúzia de palavras: capacidade de concentração, de elaborar raciocínios ponderados, de enfrentar o silêncio e a solidão. No fundo, de desacelerar e pensar. Consigam lá isto com a internet.

Matar o livro de texto?

por Rui Rocha, em 13.10.12

 


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