Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um relatório negro

por Fernando Sousa, em 23.05.13

 

Tortura e outras formas de maus-tratos. Uso excessivo da força por parte das polícias. Violência de género e um balanço do Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas de pôr os cabelos em pé. Eis em poucas linhas o que diz o Relatório da Amnistia Internacional de 2013 sobre a situação dos direitos humanos em Portugal, com as medidas de austeridade a ajudar à degradação de direitos, liberdades e garantias que o Estado, esse ente estranho, cada vez mais estranho, deveria proteger, para mais quando acaba de ratificar o Protocolo Facultativo do Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, que assim aparece como um embuste - como mais um embuste. 

Irena Sendler

por Fernando Sousa, em 12.05.13

 

Irena Sendler morreu há cinco anos. Estas linhas são para que não morra mais. Assistente social quando alemães invadiram a Polónia, introduziu à socapa, no gueto de Varsóvia, comida e medicamentos para os sitiados. Valendo-se ainda da sua condição de enfermeira, resgatou, durante um ano e meio, usando de todos os truques, 2500 crianças desse símbolo maior da iniquidade, registando os seus nomes para que pudessem recuperar a identidade e as histórias pessoais. Descoberta em Outubro de 1943, foi presa e torturada. Teria sido fuzilada se um soldado alemão, subornado pela Zegota, organização clandestina de apoio aos judeus, não a tivesse levado para um interrogatório “adicional” e a certa altura ordenado: “Corra!” Irena Sendler morreu no dia 12 de Maio de 2008. Estas linhas são para que não morra mais. 

Homem lobo do homem

por José Navarro de Andrade, em 11.01.13

Yang Zhengzhong, "Família feliz", 1995

 

Uma das novidades que poderemos considerar filosóficas do novo século é a nascente ordem natural que se começou formar nalgum senso comum.

Durante milénios havia uma linha na natureza que separava o animal racional (ou espiritual) do animal irracional ou instintivo. O ponto desta separação seria a Consciência – de si, do seu estatuto, da sua diferença e distinção face à Natureza. Nem valerá a pena dilucidar aqui esta coisa da “consciência” dada a abundância de tratados que versam sobre o tema só nos últimos 4.000 anos.

Esta fronteira está ser criticada e tem vindo a ser removida para outra região. Segundo os adeptos das teorias de Peter Singer (não resisto ao mau gosto de chamar a atenção para as suas dissertações sobre o infanticídio), satélites e discípulos, o “especismo” é um erro, ou seja, a discriminação entre animais segundo uma hierarquia de espécies não deve ocorrer porque, na sua particular interpretação darwiniana, se todos os organismos físicos estão num continuum natural, então também deve haver um continuum ético entre eles.

Deste modo a fronteira deve ser traçada entre, por uma parte, os animais “sencientes”, aqueles que estão biologicamente aptos a experimentar prazer e dor e os restantes, noutra parte. Na prática isto significa que entre ti, leitor, e o teu gato há uma identidade que não existe entre o teu gato e o carapau que ambos comeram ao almoço. A nivelação entre animais sencientes, tomados como um todo, procede de uma clara opção filosófica em que se dá primazia à esfera da ética sobre todos os outros campos do saber.

E é aqui que a porca (com o devido respeito) torce o rabo, porque se confunde a dor, que é um sistema de alarme fisiológico proporcionado pelo sistema nervoso, com “crueldade” que é o acto de provocar dor intencionalmente. “Intencionalmente” é de facto a palavra-chave: quando o leão ferra as suas mandíbulas no esófago e na carótida do búfalo, matando-o muito devagar por asfixia e exaustão, estará a ser cruel? Presumo que não, por uma simples razão: ele não é racional, logo não delibera em termos éticos, logo sabe o que é a dor mas ignora o que é a crueldade.

Usando outro caso concreto:

O Zico não teve culpa do seu acto, pelo que não deve ser abatido, reclamam os defensores de uma amnistia para o cão que atacou uma criança. Este argumento é fatal precisamente para quem o profere. Se o conceito de culpa não é imputável a um cão, quer dizer que a ética humana não cobre essa situação que entre os humanos seria clara. Ou seja, não há um continuum ético. Mais: se querem dar uma “segunda oportunidade” ao cão, que não a reivindicou (julgo) e não a reconhecerá (presumo que a um cão será estranho o conceito de mortalidade), o que estão a fazer é do mais radical etnocentrismo, pois pretendem impor os ditames éticos intrínsecos a uma espécie sobre outra.

Seria mais sensato exigirem que o cão fosse julgado por um coletivo de juízes constituído por um homem, uma vaca e um panda; pelo menos assim combater-se-ia coerentemente o especismo entre animais sencientes.

Não há em mim um pingo de revolucionário, mas...

por José Gomes André, em 08.09.12

... ultimamente tenho lido com renovado interesse um texto antigo: "A prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança." (Thomas Jefferson, Declaração de Independência dos EUA, 1776).

Lal Bibi

por Rui Rocha, em 26.07.12

Uma história de dignidade e valentia contra a barbárie.

Como se a culpa fosse das vítimas

por Pedro Correia, em 05.06.12

 

Mesmo numa região como o Médio Oriente, habituada às maiores atrocidades, este foi um massacre particularmente chocante: 108 pessoas mortas a sangue-frio, degoladas ou assassinadas com tiros na cabeça à queima-roupa, incluindo dezenas de crianças. Aconteceu em Houla, no centro da Síria: as chocantes imagens desta barbárie correram mundo, não tardando a ser disseminadas pelas redes sociais e fazendo abrir os olhos a alguns que ainda condescendiam com a feroz ditadura de Bachar al-Assad. Por unanimidade, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou estas atrocidades, atribuídas à milícia pró-governamental Shabiha. Ao contrário do que sucedeu em ocasiões anteriores, desta vez China e Rússia juntaram-se à condenação, que deixa o ditador de Damasco ainda mais isolado.

"Os responsáveis por estes crimes brutais serão responsabilizados", garantiu o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, enviado desta organização e da Liga Árabe à Síria. Enquanto Barack Obama se confessava "horrorizado" por estas atrocidades e diversas capitais - incluindo Washington, Paris e Londres - expulsavam diplomatas sírios em sinal de vigoroso protesto. Assad pode vir a ser julgado por crimes contra a humanidade, admite Navi Pillay, alta-comissária das Nações Unidas para os direitos humanos.

O mundo comoveu-se com a história do menino de 11 anos que se fingiu de morto, esfregando-se com sangue do seu próprio irmão assassinado, para poder escapar com vida e contar aqueles momentos aterrorizantes que o assombrarão para sempre. "Eu estava apavorado. Todo o meu corpo tremia", relatou o pequeno Ali, que viu a sua família mais próxima ser massacrada.

Não admira, por tudo isto, que o tirano sírio conte cada vez com menos adeptos. Mas, embora poucos, são indubitavelmente fiéis. Com destaque para o Avante! "O massacre está a ser atribuído ao regime, mas o governo liderado por Bashar Al Assad nega a responsabilidade pelo crime e acusa os grupos terroristas", tranquiliza-nos o jornal comunista numa notícia com onze parágrafos em sintonia com as teses do ditador. Como se a culpa fosse das vítimas e não dos verdugos.

Ao fim de 14 meses, a revolta popular síria já provocou cerca de 13.400 vítimas mortais, mas nem isso perturba o inabalável Avante!: noutra notícia desta mesma edição, o órgão central do PCP relata que os "povos estão em luta do norte de África ao Médio Oriente". Mas não na Síria, claro. Com uma chocante indiferença pelas vítimas de Assad. E um solene desprezo pela sensibilidade e pela inteligência dos seus leitores.

Ainda Amina Filali

por Ana Vidal, em 17.03.12

Ainda sobre o revoltante caso de Amina Filali, que é o mesmo que dizer, sobre o revoltante caso das mulheres árabes: uma lei que "castiga" um violador obrigando-o a casar com a sua vítima, não o castiga: premeia-o. Castigada é a vítima, uma vez mais. Muitas vezes mais, melhor dizendo, já que passa a ser legitimada e "abençoada" a agressão. Perpetuar esta monstruosidade é a suprema humilhação. É o mesmo que dizer a uma mulher que nunca mais serviria para ninguém a não ser para o seu carrasco, e só porque ele é obrigado a isso. É o mesmo que dizer-lhe que é uma sorte que ele se disponha a oficializar a violência. Se qualquer mulher muçulmana já pouco vale, uma vítima de violação vale zero no "mercado" dos casamentos. Que alternativa restava àquela rapariga depois da vergonha pública, não só para ela como para toda a sua família? O ostracismo de qualquer outro homem, a total impossibilidade de refazer a vida com um mínimo de dignidade e de normalidade, valha o conceito o que valer. O peso da culpa de estar a mais, de ser uma chaga aberta na reinante hipocrisia das relações entre sexos. Ou a capitulação, deixando-se diluir no estranho submundo feminino que habita o fundo das casas árabes, que suspira por detrás dos altos muros brancos e se desgasta em lutas de poder tão indignas como estéreis. Aos desasseis anos, Amina Filali apenas escolheu o mal menor. A única libertação possível. Enquanto não mudar esta lógica da inquestionável superioridade dos homens perante o baixo valor das mulheres, a tão festejada "primavera árabe" não passará de um triste simulacro de mudança.

Amina Filali somos tantos

por Rui Rocha, em 17.03.12

 

Amina Filali morreu. Dizem que se matou. Não é verdade. Mataram-na. Matou-a, primeiro, o animal que a violou pela primeira vez. E que a voltou a violar e a maltratar depois de casarem. E matou-a o artigo do Código Penal marroquino que permite que os autores de violação possam escapar a uma pena de até 20 anos de prisão se casarem com as vítimas. E mataram-na o pai e a mãe, incapazes de se interporem entre a sua filha e a bestialidade de um homem, da lei, dos usos e das tradições. O acto final a que chamam suicídio tem, neste caso, apenas o valor de uma autópsia que Amina fez a si própria. Porque o seu corpo e a sua alma, agora que tinha dezasseis anos, estavam já mortos desde o dia em que, quando tinha quinze anos, o animal a violou pela primeira vez. Não há nada de novo nesta morte. Igual à de tantas mulheres que foram e vão morrendo em vida. Mas, há algo de muito novo na vida que ficou e que prossegue. A indignação já não é um sentimento que se manifesta apenas a norte do Mediterrâneo. Em Marrocos, ali onde um homem e as leis que mataram Amina cavalgam na contramão da história e do sentimento da mais elementar humanidade, há vozes que se levantam pela primeira vez. São vozes que se manifestam, são gargantas que se revoltam num grito novo por aqueles lugares. Amina Filali não somos todos, porque muitos ainda são lá dentro iguais ao homem que a matou. Mas, a cada rajada de vento de liberdade que sopra do deserto esses recuam um milímetro, calam e engolem em seco. Amina Filali não somos todos, mas somos tantos. E sabemos agora que muitos estão lá, onde sopra o vento do deserto. A sul do Mediterrâneo.

No Dia da Mulher ou noutro qualquer

por Pedro Correia, em 08.03.12

Nunca é de mais lembrar que bestas como esta andam por aí. Perto, demasiado perto.

Importante

por Ana Vidal, em 24.02.12

 

Não seja indiferente. A sua assinatura é mais poderosa do que pensa.

Há sempre alguém que diz não

por Pedro Correia, em 07.01.12

A iniquidade não pode vencer. Um emocionado e emocionante texto de Paulo Varela Gomes, a propósito dos 50 anos do golpe de Beja, a que cheguei via Joana Lopes. Fica a transcrição, com a devida vénia aos dois.

As fronteiras da liberdade

por Pedro Correia, em 24.11.11

 

Em dia de greve geral suscita-se a questão: como vamos em matéria de direitos laborais por esse mundo fora? O melhor é consultar o relatório anual da Confederação Internacional de Sindicatos: nenhuma organização está tão bem informada nesta matéria.

O documento fica aqui, à consideração de quem o quiser consultar. Por mim, tomo a liberdade de citar alguns exemplos:

 

Bielorrússia: «Os sindicalistas têm sido detidos e demitidos.»

 

China: «Restrições maciças à liberdade de associação e ao direito à greve.»

 

Coreia do Norte: «Na prática, os direitos sindicais não existem.»

 

Cuba: «A lei não reconhece especificamente o direito à negociação colectiva nem o direito à greve.»

 

Irão: «Os sindicatos são severamente condicionados e as greves estão proibidas.»

 

Síria: «A negociação colectiva quase não existe e é praticamente impossível convocar uma greve legal.»

 

Vietname: «O Governo continua a reprimir os sindicatos independentes.»

 

Zimbábue: «Trabalhadores da administração pública não têm o direito de formar sindicatos nem gozam do direito à greve.»

 

ADENDA: faz agora um ano, neste blogue, escrevi isto.

Os Buíças de Sirte

por Pedro Correia, em 24.10.11

Pensava que a esquerda radical era claramente favorável ao tiranicídio. Pensava que a esquerda radical gostava de ver ditadores executados pelas "massas populares" em vez de os ver placidamente confiados à "justiça burguesa". Afinal enganei-me: o Bruno Carvalho e a Helena Borges, que nunca choraram qualquer lágrima pelas vítimas de Kadhafi, andam a chorar a forma como o ditador foi executado. Tratou-se de um acto brutal e repugnante - de acordo. Mas será que no mesmo blogue onde escreve quem celebrou o regicídio de Fevereiro de 1908, elegendo até esse duplo crime que chocou a Europa como acto fundador da república portuguesa, sobrará um pingo de moral a alguém para se indignar agora contra os Buíças de Sirte?

Quando a justiça é condenada

por Pedro Correia, em 20.10.11

 

O Estado português tem vindo a ser condenado por sucessivos entraves à liberdade de expressão, o que devia envergonhar os tribunais nacionais. Nos últimos dias foram conhecidas duas novas sentenças condenatórias: o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem contestou as decisões da magistratura portuguesa em dois processos judiciais de alegado abuso da liberdade de expressão. António José Laranjeira fora considerado culpado de crime de violação do segredo de justiça e de difamação pelo Tribunal de Leiria ao denunciar em 2000, no semanário Notícias de Leiria, um caso de abuso sexual de uma paciente por um médico ex-autarca. José Manuel Mestre também fora condenado, por suposta difamação a Jorge Nuno Pinto da Costa, pelo Tribunal Criminal do Porto. Em causa estava uma pergunta que o jornalista da SIC fez ao secretário-geral da UEFA, em 1996, questionando o facto de o presidente do FCP, na altura também presidente da Liga de Clubes, se sentar no banco de suplentes da sua equipa, à frente do árbitro, de quem era 'patrão' por inerência.

Crime - disseram os juízes portugueses, confirmando uma visão redutora da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. O tribunal europeu pensa de maneira diferente. E actua em conformidade, invertendo a jurisprudência portuguesa neste domínio ao contrariar sistematicamente os absurdos acórdãos condenatórios produzidos em território nacional.

Nas análises periódicas dos prós e contras da nossa integração europeia este aspecto costuma ser omitido. Mas é um dos mais importantes: fazer a nossa justiça acertar enfim o passo com a melhor tradição humanista em matéria de direitos fundamentais. Único problema: são os contribuintes a pagar os erros dos juízes que conduzem à condenação do Estado.

Indignação

por Pedro Correia, em 16.10.11

 

Vários noticiários televisivos e radiofónicos revelaram-nos ontem a existência de manifestações de indignados "em todo o mundo". Isso seria, sem dúvida, uma boa notícia para o mundo. Acontece, porém, que a notícia não é verdadeira. Na China - o país mais populoso do planeta - não houve manifestações de indignados. Nem na Coreia do Norte. Nem no Vietname. Nem em Cuba. Nem no Zimbábue "socialista" do tiranossauro Mugabe. Nem na Guiné Equatorial. Nem no Iémene. Nem na Síria. Nem na Argélia. Nem na Bielorrússia, onde reina a última ditadura da Europa. Nem no Irão dos aiatolás. Nem sequer em Angola.

As generalizações apressadas costumam ser fontes de equívocos. Convém não nos deixarmos iludir: em grande parte do mundo contemporâneo o direito de manifestação continua a ser uma miragem. Seria bom, aliás, que os indignados de cá começassem por se lembrar disso. Solidarizando-se expressamente com os indignados de lá - aqueles que não podem sair à rua em protesto contra os respectivos governos porque se sujeitam a ser presos, torturados e até mortos.

Nada deve suscitar maior indignação que isto.

 

Isto é, Ana: em 2015 as mulheres sauditas poderão votar, se os maridos deixarem, nos candidatos que os maridos escolherem.

Confundir democracia com ditadura

por Pedro Correia, em 24.05.11

 

Do alto da sua senilidade, Fidel Castro pergunta se a NATO também tenciona "bombardear Espanha" para travar manifestações de rua. Confundindo, desde logo, legítimos protestos em democracia com levantamentos populares contra uma ditadura.

Que Castro, a cuja família pertence o nada invejável troféu correspondente à mais longa ditadura do hemisfério ocidental, confunda democracia com despotismo é algo que não deve admirar ninguém.

O problema, como sempre sucede nestas coisas, são os discípulos. Tantos deles mais papistas que o papa. Reparem neste texto do Renato Teixeira. Mete tudo no mesmo saco: a luta contra tiranias e festivos acampamentos de rua em capitais democráticas. Desvirtuando, de caminho, o significado de uma canção que deixou rasto como símbolo de resistência à feroz ditadura militar brasileira - e também ao regime salazarista.

É intolerável identificar a Tunísia do deposto Ben-Ali, a praça Tahrir e os opositores a Assad na Síria com protestos em cidades europeias como Atenas, Madrid e Londres. O Renato Teixeira sabe muito bem que é uma profunda desonestidade intelectual confundir aqueles que ousam erguer-se em revolta contra sistemas ditatoriais com os que reclamam contra as naturais imperfeições da democracia. Os primeiros correm o risco de ir parar anos a fio aos cárceres, sofrerem torturas ou até perderem a vida. Os segundos só correm o risco de uma constipação se cair uma chuvada mais forte.

Frases das Conferências do Estoril

por Pedro Correia, em 08.05.11

Howard Dean:

«Tenho idade suficiente para me lembrar como eram o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco há 40 anos. Não há comparação possível com os países que são agora.»

«Nos EUA os jovens, quando não encontram emprego, criam o seu próprio emprego. Mas temos uma rede de segurança social menos forte do que a europeia. Na Europa, pelo contrário, existe uma rede de segurança tão forte que por vezes estrangula a inovação.»

«O capitalismo é o sistema mais extraordinário inventado pelos seres humanos para maximizar a produtividade. Até os chineses estão de acordo, pois têm um capitalismo de Estado. O maior perigo do capitalismo são os capitalistas.»

Nouriel Roubini:

«O programa de austeridade em Portugal será doloroso mas é necessário.»

«Um dos maiores problemas dos países periféricos [da União Europeia] é a falta de reformas estruturais, que estão a decorrer de forma muito lenta.»

«A zona euro é uma experiência importante, a nível mundial. Mas não podemos enfiar a cabeça na areia: é fundamental haver crescimento económico. O essencial é saber se conseguiremos restaurar o crescimento em Portugal, na Grécia e na Irlanda. Caso contrário a situação na Europa tornar-se-á insustentável.»

Larry King:

«Nunca senti que aquilo que fazia [jornalismo] era trabalho. Para mim sempre foi algo muito melhor do que trabalho.»

«Não consegui encontrar a plena paz interior. Não conheço ninguém que a tenha conseguido.»

«O mundo é surpreendente. Eu não consigo fazer previsões. Por isso é que quero viver para sempre: quero saber o que vai acontecer.»

Francis Fukuyama:

«Uma das grandes armadilhas dos novos processos democráticos [no mundo árabe] é a corrupção. Não há nada que mine mais a sua legitimidade.»

«Portugal, em 1974, recebeu muito apoio dos sociais-democratas e dos democratas-cristãos europeus, o que se revelou decisivo para o sucesso da transição democrática.»

«Grande parte dos jovens licenciados que saem de Harvard vão para Wall Street. Não vão para a medicina, para a advocacia, para a indústria transformadora... Há má distribuição dos recursos humanos nos EUA.»

 

Dominique de Villepin:

«A austeridade, em si mesma, não é a única resposta. Não podemos ter austeridade sem crescimento económico.»

«Temos de lembrar à Alemanha que não há uma solução boa para a Europa que seja apenas boa para um só país.»

«Alguém se sente europeu olhando para as instituições europeias?»

Mohamed ElBaradei:

«O Egipto é hoje uma panela de pressão. Como resultado da repressão, a sociedade está muito fragmentada. Há muitas tendências a apontar para muitos caminhos. A coesão social é inexistente.»

«As pessoas na Tunísia apressaram-se a adoptar o lema de Obama: 'Yes, we can'. Depois os egípcios pensaram: se os tunisinos conseguem, nós também vão conseguir.»

«Personalidades como Henry Kissinger e George Shultz, que estiveram no olho do furacão durante a Guerra Fria, defendem hoje um mundo sem armas nucleares. Porque corremos o risco da autodestruição.»

Os valores acima dos interesses

por Pedro Correia, em 07.05.11

 

A Líbia constitui "o pior pesadelo" dos dias que correm. A opinião, sem rodeios de qualquer espécie, foi ontem expressa por Mohamed ElBaradei nas Conferências do Estoril, que encerraram esta segunda edição com chave de ouro ao darem o palco ao ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Prémio Nobel da Paz de 2005. Durante cerca de hora e meia, que pareceu pouco a quem assistia no Centro de Congressos do Estoril, o candidato à próxima eleição presidencial no Egipto defendeu uma intervenção mais activa da comunidade internacional para impedir a continuação dos massacres da população civil às ordens dos esbirros de Muammar Kadhafi, o ditador que permanece no poder desde Setembro de 1969, cego e surdo às aspirações de liberdade dos líbios.

Voz autorizada na defesa dos direitos humanos, participante activo na revolução de Fevereiro que levou à queda do regime despótico de Hosni Mubarak no Cairo, ElBaradei foi claro: "Não podemos aceitar que os ditadores massacrem os seus povos. Gostaria de ver uma intervenção internacional mais robusta, mais activa na Líbia." Na sua perspectiva, as relações internacionais contemporâneas são indissociáveis do respeito permanente da dignidade humana. "Temos de agir como mebros da mesma família global. A Líbia é um grande teste. Temos de espalhar esta mensagem: não continuaremos quedos e mudos, não assistiremos impávidos ao massacre de civis."

'A natureza das revoluções no Magrebe e no Médio Oriente' foi o tema abordado nesta excelente conferência, acompanhada com atenção por uma vasta plateia, em que se integravam muitos jovens. Baradei afirmou que o mundo "pode e deve ajudar" as populações do mundo islâmico que lutam pela liberdade - contribuindo para o "desenvolvimento económico, a coesão social e a promoção dos direitos humanos" em países como o Egipto, onde os militares estão com "demasiada pressa" em devolver o poder aos civis. Na sua perspectiva, a elaboração de uma nova Constituição devia ser o primeiro passo para fundar um regime democrático no Cairo - de preferência com um artigo basilar inspirado na primeira norma da lei fundamental da Alemanha: "A dignidade humana é inviolável."

Esta foi a grande mensagem que deixou no Estoril: "Não podemos pôr os interesses antes dos valores." Uma mensagem que contraria os cultores da realpolitik, sempre prontos a estabelecer relações cordiais com os piores tiranos contemporâneos. "Os EUA e a Europa apoiavam as ditaduras [na Tunísia e no Egipto] recorrendo ao argumento da estabilidade. No segundo dia das revoltas populares, Hillary Clinton chegou a dizer que o governo de Mubarak era estável. Como pode um regime que governa durante 30 anos com lei marcial ser um modelo de estabilidade? Nunca há estabilidade quando os governos não são livremente eleitos pelo povo."

Estive entre a assistência que o aplaudiu com entusiasmo ao fim da tarde de ontem. Gosto de ouvir um Nobel da Paz falar assim.

Os inimigos da liberdade

por Pedro Correia, em 05.05.11

         

 

O que há de comum entre Robert Mugabe, Hu Jintao, Mahmoud Ahmadinejad, Raúl Castro e Kim Jong-il? São todos inimigos da liberdade de imprensa. A lista completa, agora divulgada pelos Repórteres Sem Fronteiras, inclui também organizações criminosas, como a Mafia e a ETA. Vale a pena consultá-la aqui. Uma lista com 38 nomes - menos dois do que em 2010 devido à queda dos ditadores do Egipto e da Tunísia, duas das melhores notícias do ano.

Com lugar cativo na lista figura um ditador que ainda não caiu - o sírio Bachar al-Assad, responsável por 632 mortes e pelo menos três mil detenções desde que começaram os protestos populares contra o regime de Damasco, a 15 de Março. E também o ditador líbio, Muammar Kadhafi, que persiste em bombardear Misrata, cidade-mártir, surdo aos apelos à demissão feitos até por antigos aliados como o primeiro-ministro turco Recep Erdogan, agora estupefacto por ver que o tirano líbio condena o seu próprio povo a "sangue, lágrimas e opressão".


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D