Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Lá, como cá!

por Helena Sacadura Cabral, em 23.03.15

UN APERÇU DE LA CULTURE DES ADOS :

 

Quel est le plus grand navigateur au monde ?

- Internet Explorer !

 

Quelle est la capitale de Taïwan ?

- Made-In

 

De quelle œuvre est issue la phrase "To be or not to be" ?

- De "Questions pour un champion".

          

Pourquoi dit-on de Jules César qu'il était un dictateur ?

- Car il savait dicter plusieurs lettres à la fois ; il était très rapide.

 

Quelle est la taille de Hong-Kong ?

- 10 m, peut-être plus ; il est très grand !

 

Qui était Léonard De Vinci ?

- Un très grand écrivain ; son œuvre principale est Da Vinci Code.

 

Qui était Galilée ?

- Un grand savant. Avant lui, la terre ne tournait pas.

 

Qui était le Général de Gaulle ?

- Un homme dans le dictionnaire. Il fut un protestant très pratiquant, catholique même. C'est pourquoi il a été enterré dans un village avec deux églises, à Colombay.

 

Expliquez-moi la règle des probabilités.

- C'est une règle mathématique mais on ne sait si elle existe ou pas.

 

Vous êtes certain ?

- Eh non, puisqu'elle n'est que probable !

 

Quelles sont les trois grandes périodes de l'humanité ?

- L'âge de la pierre, l'âge du bronze et l'âge de la retraite. Ce dernier est le plus court.

 

Comment est mort Napoléon ?

- Il a été décapité, comme Bonaparte et tous les rois, d'ailleurs.

 

Parlez-moi des croisades.

- C'est un voyage organisé. Il a été organisé par le Pape pour que les chrétiens se rencontrent et discutent entre eux.

 

Pouvez-vous me parler de l'âge de pierre ?

- Oui, Pierre avait entre 30 et 35 ans ; c'était un apôtre du Christ.

 

Parlez-moi de la Révolution française.

- Les Français s'insurgent ; ils prennent la Bastille. Cela se termine le 14 juillet avec des feux d'artifice.

 

Parlez-moi des capacités du cerveau

- Le cerveau a des capacités tellement étonnantes que, aujourd'hui, presque tout le monde en a un.

“Je n'en suis pas persuadé !” a répondu le professeur

 

Qui a inventé le zéro ?

- Personne ne le sait. On peut dire que devant, il ne sert pas à grand-chose mais il est très utile car c'est le seul chiffre qui permet de compter jusqu'à 1. Sans lui, on aurait commencé à 2.

 

Et encore:

 

- La solidarité sociale a poussé l'Etat français à construire des H&M.

 

- Un ovale est presque rond mais quand même pas.

 

- La décolonisation est quelque chose de nécessaire car on ne peut laisser les enfants en colonies de vacances toute l'année.

 

- Si De Gaulle n'apparait pas sur les photos de la conférence de Yalta c'est parce que c'est lui qui les a faites... évidemment!            

 

-  Pendant la guerre, les gens étaient très occupés par l'occupation

 

Ah, que c'est bon de savoir que les ados ont de l'humour.

 

Podiamos pensar que exemplos destes só se passavam em Portugal. Afinal estamos bem acompanhados pela sabedoria dos adolescentes franceses que nasceram na terra da cultura...

Tags:

Um festival da diplomacia cultural dirigido aos sentidos

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.05.14

Em 1993, o Consulado Geral de França em Hong Kong e Macau deu início a um conjunto de iniciativas que se têm vindo a repetir anualmente e são actualmente conhecidas como "O Maio Francês". Em rigor, Le French May é bem mais do que um simples festival porque não só não se esgota em Maio como consegue prolongar-se por todo o mês de Junho, com extensão, num caso pelo menos, até Setembro, congregando exposições, cinema, música e gastronomia. Este ano terá lugar a vigésima segunda edição e o que aí vem é um verdadeiro festim para os sentidos, celebrando os 50 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre a França e a China.

Deixo aqui para os leitores do DO uma pequena ideia dos eventos, mas gostaria em especial de sublinhar a exposição de doze obras primas da pintura mundial, que estará patente no Museu de Arte de Macau, e que justificou o maior seguro alguma vez feito por estas bandas, isto é, qualquer coisa como o equivalente a € 300.000.000,00 (trezentos milhões de euros). Entre as obras que estarão à vista de quem nisso tiver interesses sublinho Le Balançoire, de Renoir, Le Verrou, de Fragonard, o retrato de Francisco I, de Clouet, e Pintor e Modelo em Estúdio, de Pablo Picasso. As obras virão directamente para Macau do Museu D'Orsay, do Louvre, de Versailles e do Centro Pompidou. 

 

Para quem é apreciador de Rameau, tantas vezes esquecido e aqui há uns anos justamente homenageado no CCB, num programa da Festa da Música, destaco  Le Concert d'Astrée com Emmanuelle Haïm, a soprano Katherine Watson e o tenor Anders Dhalin. Por ser uma das minhas obras favoritas, espero que seja possível escutar Rondeau des Indes Galantes. Mas também virão Philippe Jaroussky & The Venice Baroque Orchestra, Roland Dyens, O Fausto, de Gonot, numa co-produção da Ópera de Nice Côte d’Azur, da Ópera de Avignon e do Théâtre de Saint-Étienne, dirigida por Paul-Emile Fourny, Sons d'Auvergne pela Filarmónica de Hong Kong e a mezzo-soprano Clara Mouriz.

Muito mais haveria a dizer, como haverá depois a contar, mas convém que para os lados da Gomes Teixeira e das Necessidades se reflectisse também sobre se não fará mais sentido uma ofensiva da nossa diplomacia cultural, em larga escala, que atrás dela levará a diplomacia económica, do que andar a vender apartamentos com títulos de residência acoplados, a preços inflacionados e sem verdadeira criação de riqueza.

De qualquer modo, deixando estas considerações para outra altura, se o leitor está a começar a planear as suas férias de Verão, tem uma deslocação prevista para estas bandas ou está simplesmente indeciso, talvez não fosse mau começar a pensar na hipótese de aproveitar a viagem e gozar os prazeres de Le French May. Ao contrário de outras saídas, em que o risco é nosso e a gestão por conta dos outros, esta seria uma saída limpinha. Pode ter a certeza de que tudo aquilo que puder ler, ver, ouvir e degustar por estes lados, nunca ninguém lhe poderá tirar.

Barrete

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.02.14

Um tribunal escreve no respectivo acórdão que a expedição de um conjunto de obras de Miró foi "manifestamente ilegal". E para que não haja dúvidas acrescenta "não ser necessário argumentação sofisticada para concluir que a realização do leilão pela leiloeira Christie's das obras de Joan Miró comprometeria gravemente o cumprimento dos deveres impostos" pela Lei de Bases do Património "e reduziria a nada a concretização dos deveres de protecção do património cultural" (socorro-me da citação do Público).

Que o presidente do Conselho de Administração da Parvalorem olhe para as obras e em vez de arte e património veja notas de euros, parece-me normal tratando-se de um economista, tendo em atenção as funções que exerce e as tarefas que lhe foram cometidas de espremer as tetas de uma vaca exaurida. Menos curial será a posição do secretário de Estado da Cultura, que depois de atirar para o Governo anterior as culpas do País ter "herdado", contra vontade, é certo, uma colecção de excepção, ainda se permitiu, quando questionado sobre a manifesta ilegalidade do seu despacho que autorizou a exportação das obras, perguntar se "seria normal que por causa de uma questão deste género eu pondere a demissão?".

Pois a mim parece-me que fazendo Barreto Xavier parte de um executivo liderado por uma organização juvenil do PSD, afinal o mesmo executivo de onde saiu o senhor Relvas depois de uma fantástica conferência de imprensa, de onde se demitiu "irrevogavelmente" o dr. Portas e de onde fugiu o dr. Vítor Gaspar, depois de um acto de contrição que durou meses a ser preparado, não seria nada normal que ponderasse sequer a hipótese de demissão. Qual demissão qual quê, pá, está tudo doido? Nem por uma "questão deste género" nem por nenhuma outra. O senhor Barreto Xavier ainda se arriscava a ser praxado e não seria bonito vê-lo de gatas com aqueles tipos e aquelas tipas que querem ter "o direito à humilhação" a mandá-lo fazer "béubéu". Nem pense nisso.

O senhor Barreto Xavier deve continuar onde está. Se possível indefinidamente. E se alguma vez tiver a triste ideia de ponderar a hipótese de sair, o melhor é só fazê-lo depois de garantir, pelo menos, um louvor e a imprescindível condecoração do Prof. Cavaco. Hoje em dia, como sabe, esses ornamentos são fundamentais para a apreciação do mérito de um funcionário, até mesmo dos piores, e o senhor não é menos do que estes. Dava-lhe jeito e teria o efeito dos portugueses já não estranharem na hora da promoção. Fique onde está, homem, tente continuar sempre assim, marimbe-se (esta é do saudoso Azevedo) para a ilegalidade e para essa trampa dos "mirones" e vai ver que chega ao fim do mandato. É limpinho. Fazer figura de parvos, aplaudir filósofos baratos, comer gato por coelho e enfiar barretes, vindos sabe-se lá de onde, tudo isso é connosco. Siga para bingo, sem crise.

Blogue da Semana

por Ana Cláudia Vicente, em 28.12.13

 [FLS, MAFLS]

 

Antes de mais, e já que ainda vos apanho na oitava natalícia, faço votos para que (trabalhando ou feriando) continuem a celebrar a quadra com ternura e boa disposição.

Gostava de vos recomendar nesta semana um blogue cuja minúcia e detalhe vão bem a par da sua matéria: chama-se Memórias e Arquivos da Fábrica de Loicas de Sacavém. Através da exposição das razões e inspiração inscritas em cada objecto, o seu autor - que não consegui identificar- torna possível sabermos um pouco mais sobre o nosso país na época da sua produção. Para mais, o dito autor/a parece tão ou mais recomendável que a obra: uma busca no Sapo permite intuir um daqueles polígrafos inspirados e curiosos que as novas plataformas de publicação em rede têm trazido ao conhecimento público. Um caso a seguir.

A excepção cultural

por jpt, em 24.09.13

Há alguns meses Durão Barroso comentou a posição francesa sobre a excepção cultural no seio da liberalização comercial. A reacção francesa foi iracunda e bastante desvalorizadora da Comissão Europeia, algo que vindo da pátria de Monnet e de Delors não deixou de ser surpreendente. Em Portugal li, logo, algumas céleres vozes criticando o dito de Durão Barroso. Claro, e para além do assunto, há que bater no homem. Por várias razões, uma das quais é esta esquizóide forma de xenofobia lusa, a de dizer mal de qualquer patrício mal ele tenha assomado além fronteiras. A barbárie barrosista foi logo proclamada, não só mas também pela intelectualidade bem-pensante. Na altura lembrei-me disto que se segue, mas não sabia onde estava, depois fui de férias e passou-me. Agora saltou da estante, esta delícia de Amselle, um belíssimo antropólogo francês ("Branchements", 2001, pp. 14-15).

 

"À cet égard, plutôt que de protester contre la domination américaine et de réclamer un état d'exception  culturelle assorti de quotas, il serait préfèrable de montrer en quoi la culture française contemporaine, son signifié, ne peut s'exprimer que dans un signifiant planétaire globalisé, celui de la culture américaine. Si celle-ci, à l'instar de la culture française au XVIIIe siècle, est devenue un opérateur d'universalisation, ainsi que le démontre le sens - France-États-Unis - dans lequel sont produits les remake, cela ne correspond pas pour autant à une situation d'aliénation ou de colonisation de l'esprit français par la puissance américaine, situation stigmatisée naguère par Étiemble à l'aide du vocable "franglais". Parler franglais, c'est peut-être, pour les Français, énoncer la vérité de leur culture, de même que, pour le groupe sarcellois Bisso na Bisso, se brancher sur le rap américain est le meilleur moyen de retrouver ses racines congolaises. Contrairement à ce que pensent les obsédés de la pureté des origines, la médiation est le chemin le plus court vers l'"authenticité" ... Par le biais du "samplage" (sampling) s'exprime l'originalité d'une culture dont on serait bien en peine de dire si elle est française, américaine ou africaine.

 

Talvez pouco interessante para muitos. Mas, e repito, uma delícia, principalmente quando recordo alguns indignistas, furibundos facebuquistas. Colegas, ou quase.

Programar um evento cultural pode ser divertido ou um tormento. No caso da conferência do Tempo, no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva - é sempre uma diversão. Laborinho Lúcio fez uma conferência inaugural brilhante, os debates correram bem, a SIC Notícias esteve em directo, até mesmo o programa Expresso da Meia Noite, tivemos cinema (ainda decorrem filmes a esta hora!) e discoteca (que continua em crescendo e sempre um bom pretexto para ver os amigos). Defeitos? Nada. Apenas um cansaço súbito e uma dor nos pés.

A equipa do pavilhão está de parabéns, bem hajam pelo empenho e entusiasmo. Vocês são os maiores.
Amanhã a coisa continua, festejamos o tempo, a entrada no Verão e das 9 da manhã com ginástica até à conversa final com João Lobo Antunes, há ateliers diversos, exposições, workshops, debates. Enfim, uma programação de luxo que merecia mais público? Sim, é verdade. Temos a desculpa da música no Terreiro do Paço, de ser sexta-feira, de um qualquer jogo de futebol. Quem esteve e encheu o auditório para ouvir e fazer perguntas ficou a saber muitas coisas e terá ficado com curiosidade sobre outras tantas. Aviso: no Observatório na Ajuda, no domingo, pelas 21h00 podem ver a lua cheia e aprender mais com Rui Agostinho, o homem que desfez todo o meu imaginário sobre o Planeta e o tempo:) Ah, esqueci-me: amanhã continuam os jogos matemáticos. Já não teremos a prova de vinho - obrigada à Fundação Eugénio de Almeida - e também não teremos o movimento slow food, mas há maneiras de fazer gelatina que nem imaginam.

Tomem nota: 24 horas sobre o Tempo, no Pavilhão da Ciência Viva, Parque das Nações, dia 21 para 22, entrada livre a partir das 18:00 até às 18:00 do dia seguinte.

Vejam o programa e tragam o corpo, sim?
Vão ser 24 horas que começam com Laborinho Lúcio, mais debates, filmes, dança, comes e bebes, workshops e mais não sei o quê! Partilhem, por favor, divulguem e apareçam, é cultura e é nossa e de borla. É preciso dizer mais? É para todas as idades e para todos os gostos, façam o favor de divulgar.

Nota: esta programação pode ser alterada.

Tags:

...

por Patrícia Reis, em 12.06.13

FESTIVAL DO DESASSOSSEGO vai até dia 13, na Casa Fernando Pessoa, procurem a programação. Vale a pena.

Ontem ao fim da tarde, na Casa Fernando Pessoa,
houve leitura de poemas. Presentes, os poetas António Cícero
(Brasil), Gastão Cruz, Golgona Anghel, Nuno Júdice e Maria Teresa Horta,

Entre outros poemas, Maria Teresa Horta leu este inédito:

POEMA DE AMOR

Quando me despes
visto a roupa toda

Quando me vestes
tiro o meu vestido

Eu sou aquela
que desgoverna o fogo

E a ordem do amor
insubordino

Tags:

Sugestões

por Ana Vidal, em 07.04.13


Sábado cultural: visita à exposição da Clarice Lispector, na Gulbenkian. Magnífica e imaginativa forma de expor tantas palavras essenciais. O mistério de Clarice intacto, apresentado em gavetas que ora escondem ora revelam. Como ela própria. Um aplauso a quem teve a ideia.
A seguir, visita à exposição da Joana Vasconcelos, na Ajuda. Depois de Versailles já não é arrojo, já não é coragem. Coragem teria sido começar aqui a "profanação" de um palácio real, assim é apenas a repetição de uma receita de sucesso. Uma batota que infelizmente repete a fórmula do costume e revela a sempiterna saloice nacional: primeiro a segurança da aprovação dos outros, depois o reconhecimento fácil e garantido.
Finalmente, à noite, o filme Night train to Lisbon. De novo o jogo de espelhos entre nós e os outros. Um Jeremy Irons sem surpresas, sempre superlativo. E a estranheza de uma história nossa, caseira, vista por olhos estrangeiros. Aí, sim, a surpresa da intensidade com que de repente nos vemos a nu: trágicos, labirínticos, incumpridos e infinitamente nostálgicos.

A avaliar por este relato do Samuel de Paiva Pires, diria que a prova de Cultura Geral do concurso externo de ingresso na carreira diplomática é curiosamente parecida com esta: 

 

 

E, já agora, gostaria muito de saber qual é a resposta que os critérios de correcção da dita prova consideram correcta para a pergunta "qual o planeta por onde passaríamos se viajássemos da Terra até Urano pelo caminho mais curto".

Tags:

E mais uma boa notícia

por Ana Vidal, em 07.02.13

 

Sobretudo para quem, como eu, se deixou há muito fascinar pela personalidade magnética e a escrita única de Clarice Lispector. Se é o seu caso, leitor, espreite aqui.

Um genocídio mental

por Ana Vidal, em 12.01.13


Uma destas manhãs fui "obrigada" a ver parte do programa da manhã da TVI. No espaço de pouco mais de meia hora registei as seguintes pérolas:
1. Uma florista de bouquets para noivas que se inspira em Confúcio para as suas criações artísticas, explicando: "é um senhor chinês antigo que está agora a vir à tona". Muitas palmas do público.
2. Uma blogger fashionist (ainda estou para perceber o fenómeno, mas o defeito deve ser meu) que se refere às "tendências 2013" em shorts e mini-saias com a gravidade e a reverência com que Vítor Gaspar anuncia outras reduções, bem menos apetitosas. Muitas palmas do público.
3. Um anunciante de produtos naturais de emagrecimento e saúde que oferece como brinde, para compras acima de x euros, "a Bíblia Sagrada, um livro de auto-ajuda". Muitas palmas do público.

Acabar com o serviço público de televisão, por muito insuficiente e criticável que ele seja, é reduzir a esta estupidificação colectiva a oferta televisiva nacional. Ainda tenho esperança - mas eu sou uma optimista, já se vê - de que os responsáveis pelos destinos da RTP2 percebam isto.

 

Em comentário ao meu post de ontem à noite, o Rui Rocha indicou-me este vídeo. Como o Rui, sendo de Braga, não pode dizer mal de Guimarães aqui no blogue (seria demasiado óbvio), transformo-o eu em post. E vivam o dinheiro dos contribuintes e a macrobiótica parabólica polaroid.

O glamour da cultura ou talvez a cultura do glamour

por José António Abreu, em 27.11.12

Panfleto distribuído à entrada de espectáculos incluídos no programa de Guimarães 2012. Desconheço se o conteúdo tem razão de ser mas não me custa a acreditar que sim. Este tipo de projectos é propenso a megalomanias em que as considerações económicas são detalhes mundanos e irritantes, afastados com garantias de ganhos significativos mas nunca directamente contabilizáveis. Os benefícios de «imagem», a criação de «hábitos», o desenvolvimento de uma «indústria cultural» e mais uma catrefada de chavões vencem sempre o cepticismo. No fundo, tudo não passa de um afinal provinciano desejo de parecer culto e inteligente; tão provinciano que acaba invariavelmente misturado com a satisfação de interesses particulares – pois se artistas «menores» e colaboradores diversos correm o risco de não serem pagos, as «mentes» organizadoras, os seus amigos e os artistas consagrados nunca têm razões de queixa. Claro que muitas vezes também é bem feito para os tais artistas menores, que vêem nestas feiras de vaidades uma oportunidade para se «afirmarem» e ganharem muito dinheiro de repente, à custa do erário público. Mas talvez o mais curioso seja que, depois, valeu sempre a pena, foi sempre um sucesso retumbante. Com o lixo empurrado para debaixo do tapete, as críticas desvanecidas pelo tempo e pelo cansaço, e as contas pagas pelo contribuinte. Cultura? Provincianismo puro.

Um filme ressuscitado

por Pedro Correia, em 17.11.12

Comprei bilhete com antecedência para um acontecimento cinematográfico - a estreia em Lisboa, numa sessão única, da cópia recentemente restaurada do filme As Portas do Céu, apresentada há dois meses, no Festival de Veneza, pelo realizador Michael Cimino. Não exagero ao utilizar a expressão acontecimento cinematográfico: trata-se de um filme quase com estatuto mítico por vários motivos. Desde logo por ter uma aura equivalente à de  O Quarto Mandamento / The Magnificent Ambersons, de Orson Welles, quatro décadas depois.

Cimino era em 1980, ano da estreia desta longa-metragem, um dos mais célebres cineastas do planeta depois de ter sido galardoado com o Óscar, dois anos antes, pelo excepcional - do ponto de vista da qualidade cinematográfica e da controvérsia que suscitou - O Caçador, talvez o mais polémico filme de sempre sobre a guerra do Vietname. Tal como sucedeu com Welles logo após ter estreado Citizen Kane, quando se tornou o realizador-estrela da RKO, a então próspera United Artists deu a Cimino liberdade total para rodar o filme seguinte, que foi precisamente este. Um projecto megalómano, desmedido, descomunal, bigger than life, que conduziu o histórico estúdio à falência e condenou o incómodo cineasta a uma longa travessia do deserto.

 

Tal como sucedeu com a película de Welles, tornada quase irreconhecível pelos executivos da RKO à revelia do realizador depois de lhe ter sido dada carta branca para filmar o que quisesse e como entendesse, também esta foi severamente amputada, acabando por circular em cópias adulteradas de 141 ou 149 minutos, que suprimiam segmentos decisivos. A versão original, de 219 minutos, foi praticamente retirada de circulação logo após o fiasco da estreia e do coro de críticas negativas que recebeu nos Estados Unidos: duas gerações de espectadores jamais puderam vê-la.

Felizmente, ao contrário do que sucedeu com o segundo título da filmografia de Orson Welles, cuja montagem original se perdeu para sempre, neste caso foi possível recuperar Heaven's Gate sob a supervisão do próprio Cimino. É um notável trabalho de restauro que faz inteiro jus à magnífica fotografia de Vilmos Zsigmond, agora restituída ao esplendor original.

 

Comprei o bilhete no início da semana antecipando uma provável enchente hoje à tarde no Monumental, onde seria possível ver o filme em ecrã grande, como merece - iniciativa meritória do Festival de Cinema de Lisboa e Estoril, que decorre até amanhã com a exibição de películas de Luis Buñuel, Otto Preminger, Brian de Palma, Monte Hellman, Lindsay Anderson, François Ozon, Hou Hsiao-Hsien, Bernardo Bertolucci, Alain Resnais, Stephen Frears e Abel Ferrara, entre outros realizadores.

Afinal, nesta sessão única, a sala estava praticamente vazia: este filme de culto, debatido na proporção inversa à das oportunidades de ser visto, passou quase clandestino numa Lisboa preguiçosa e distraída, que esbanja sucessivas oportunidades para se cultivar e abrir horizontes - oportunidades que os residentes noutras zonas do País bem gostariam de disfrutar.

 

Três horas e meia de exibição que passaram muito mais depressa do que supus. É uma oportunidade rara, assistirmos à segunda vida deste western atípico que nos revela a face negra do sonho americano - um filme maldito, perseguido desde o primeiro dia por um rasto de controvérsia, amado por um punhado de críticos e renegado pela poderosa indústria de Hollywood. Com deslumbrantes cenários naturais rodados no estado de Montana, uma banda sonora inesquecível e um elenco de luxo - Kris Kristofferson, Christopher Walken, John Hurt, Sam Waterston, Isabelle Huppert, Jeff Bridges, Joseph Cotten (outra coincidência: foi ele o actor eleito de Welles e protagonista de Citizen Kane e The Magnificent Ambersons), Brad Dourif, Mickey Rourke e Willem Dafoe (este no seu primeiro papel em cinema).

Só foi pena a sala quase vazia. Um sinal da crise, que não é apenas financeira - é também de hábitos culturais. A Sétima Arte clássica, vocacionada para a exibição em sala, vai morrendo aos poucos, mês após mês, ano após ano. Um dia, talvez não muito distante, haveremos todos de lamentar o encerramento do último cinema do nosso bairro, da nossa vila, da nossa cidade, do nosso país.

Demasiado tarde, como é costume.

 

O Mais e o Menos

por Laura Ramos, em 26.10.12


Fui às minhas reservas fotográficas para reavivar a memória e vos falar do Jorge Barreto Xavier que eu conheci.

Nesta altura ainda não era político. Ou antes, era. No melhor sentido do termo... Interventor, empenhado, consistente, profundamente conhecedor dessa disciplina difícil e fascinante a que se chama Gestão das Artes, free lancer comprometido no 'bom governo' da cultura.

Neste projecto inteiramente da sua autoria, por exemplo, revelou bem quanto tinha, em doses certas, de pensamento e de acção. E demonstrou uma observação apurada e reflectida acerca dos riscos em que incorrem as administrações culturais desnorteadas, sem capacidade de planificação, empolgadas pela quantidade em detrimento da qualidade (o mais e o menos...).
Mais uma vez, a receita que aqui se aplicava ao local aplicar-se-ia também, como uma luva, ao nacional (ia pensando eu na altura).

Depois disso, sim: veio a ser o Director-Geral das Artes de Gabriela Canavilhas, com quem conseguiu trabalhar com grande dificuldade. Demitiu-se mais tarde, usando de uma discrição notável, a contrastar com o show off  ruidoso, despeitado e sobranceiro da Ministra que jamais entendeu quem tinha realmente nas suas fileiras, confundindo-o com as restantes figuras de xadrez arregimentadas por critérios festivaleiros e pouco atentos ao mérito.

Não há tempo mais difícil do que este para conseguir o crescimento do “lugar político” para a Cultura e a sofisticação das equipas decisoras que o Jorge Barreto Xavier preconizava.

Mas parece-me - aviso já - que podem contar com rigor e clarividência. Com uma forte noção do bom uso dos recursos disponíveis. E com umas contas diferentes acerca do mais e do menos dos caminhos e dos resultados da acção política.

Foi uma boa aposta.

 

Irra! Nem a cultura se safa

por Patrícia Reis, em 09.09.12

A TVI termina com o único programa cultural digno desse nome, o único na grelha actual e anterior. João Paulo Sacadura, além de ser uma pessoa excelente, é um profissional de mão cheia. Por mim, agradeço tudo o que fez, o interesse, a divulgação, o trabalho árduo, a constante vontade de fazer mais e melhor num país onde a cultura é sempre o parente pobre. É muito simples: a cultura é a nossa identidade nacional. Leiam o Mattoso, o Eduardo Lourenço, tudo o que Eduardo Prado Coelho escreveu, o que escreve Maria Alzira Seixo, Helena Vasconcelos e tantos outros ros. Daqui a pouco é a a RTP a terminar com o excelente Ler+, Ler melhor, apresentado pela maravilhosa Teresa Sampaio? Se for, temos o caldo mesmo entornado. Para azedar as coisas o FB pergunta-me se quero adicionar Miguel Relvas como meu amigo. Acham isto normal? Estou deprimida, vou fazer máquinas de roupa e esquecer que a conta vem no final do mês.

 

Para acabar de vez com a cultura? (3)

por Ana Vidal, em 11.07.12

 

Quando perguntaram a Churchill quanto cortaria na cultura em nome da austeridade, a resposta foi esta: "Nada! Se cortássemos na cultura, o que nos faria lutar a seguir?"

 

Em Portugal, a verba para a cultura não chega sequer a 1% do Orçamento de Estado. Dispensamos um Ministério (bah, para que servem essas esquisitices?) e mesmo a Secretaria de Estado deve estar em hibernação prolongada, porque nunca mais deu notícias. Obcecados com a austeridade, os nossos governantes parecem não perceber uma coisa tão simples como isto: um país sem uma sólida identidade cultural e um ensino de qualidade não pode evoluir, não tem futuro. Muito menos numa Europa agonizante e dominada pelos gurus da economia. Talvez seja esta, afinal, a explicação para a nossa tão falada imobilidade: não temos por que lutar.

 

Nota: Eu sei, Woody, passo a vida a roubar-te os títulos. Desculpa lá o abuso.

 

Adenda: Nem de propósito, este impressionante desabafo que encontrei aqui. Sintomático.

Generalizando

por Ana Vidal, em 10.07.12

 

Há dois erros que procuro não fazer, embora nem sempre com os melhores resultados, sobretudo no que toca ao primeiro: cair em generalizações perigosas e dividir o mundo em dois blocos, a direita e a esquerda. Nada é assim tão taxativo, há muito que aprendi essa regra básica. Mais: faço questão de aplicá-la a mim própria (correndo o risco de ser considerada incoerente, coisa que não me incomoda nada) e diverto-me a fintar os infalíveis vedores do pensamento político alheio. Mas - e é aqui que começam as generalizações - tenho de admitir que há tiques que facilmente identificam cada uma das barricadas nas suas versões mais radicais: à direita, uma espécie de desprezo blasé por tudo o que pareça ter sido conquistado com esforço; à esquerda, o apego arrogante ao estafado baluarte da superioridade intelectual.

 

Tive hoje mais uma demonstração deste último, que me deixou a pensar em como a esquerda continua a considerar-se dona e senhora da cultura neste país. Não é que eu não reconheça alguma legitimidade histórica nessa pretensão, afinal a direita sempre teve a seu desfavor uma tradicional preguiça e as limitações impostas pela religião. Mas aquilo de que a esquerda parece não dar-se conta, ao refugiar-se no seu inatingível Olimpo cultural, numa atitude que tem tanto de elitista como de preconceituosa, é da negação liminar de um dos seus mais caros cavalos de batalha programáticos: a democratização da cultura.

Elvas e as suas muralhas

por João Carvalho, em 30.06.12

 

As muralhas de Elvas passaram a ser hoje património mundial classificado pela UNESCO na categoria de bens culturais. Uma classificação justíssima para um extenso conjunto de património histórico construído que inclui todas as fortificações da cidade, um forte do século XVII e outro do século XVIII, três fortins do século XIX, três muralhas medievais, uma muralha do século XVII e o aqueduto.

Trata-se da maior fortificação abaluartada do mundo. O conjunto remonta, nos seus primórdios, ao reinado de D. Sancho II e tem um perímetro com cerca de dez quilómetros e uma área que ronda os 300 hectares.

Cenário de contadas e recontadas batalhas e de encontros e desencontros luso-espanhóis, Elvas pode ser uma bela visita de férias, pela exemplar conservação patrimonial que versa grandes momentos da nossa História e agora com o interesse a que acresce a honrosa classificação.


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D