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Um mau exemplo

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.02.15

Ele pode ser o melhor do mundo, ser insuperável na sua arte, ser um prodígio de força, de técnica e de classe. Mas três bolas de ouro depois, e já condecorado por Cavaco Silva, começa a revelar por que razão títulos, muito dinheiro e prémios não chegam para fazer dele um homenzinho. A condecoração dou-a de barato, estando aliás ao nível de quem o condecorou antes do tempo. Têm sido tantos os condecorados que o seu valor é ridículo. Gostava sim que Cristiano Ronaldo, cujo futebol deveras aprecio, fosse efectivamente um exemplo para a sua geração, em todos os aspectos, mas quer-me parecer que alguma coisa deve estar a tolher-lhe a mente. As exuberantes manifestações de novo-riquismo e frivolidade começam a ganhar terreno ao exemplo do profissional, do futebolista e do homem que serve de modelo inspirador a muitas crianças e jovens. Primeiro foi aquele vermelho directo na sequência de uma estúpida agressão a um colega de profissão. Agora são os detalhes da sua festa de aniversário. Alguns dirão que são isso mesmo, detalhes, e que tudo lhe deverá ser perdoado. Não creio. A um Cristiano Ronaldo tem de se exigir muito mais na imagem que de si próprio quer transmitir para as gerações vindouras, tanto nas suas manifestações públicas como nas privadas que são publicamente divulgadas. E, em especial, perante os seus concidadãos. Numa época em que a crise se manifesta a todos os níveis, era de esperar da sua parte maior contenção, menos exuberância nos gastos, mais discrição na estroinice. Que imagem pode ser transmitida de quem derrete um rio de dinheiro numa noite? O dinheiro que muitas famílias levam anos para ganhar trabalhando arduamente. E se não era para ser divulgado, então devia ter sabido escolher os convivas.

Se é verdade que gastou 400.000 euros num único dia com a sua festa de aniversário, isso não pode servir de exemplo para ninguém. Muito menos para o seu filho. E é mais próprio de um estroina parolo e afectado, a quem por um bambúrrio saiu a taluda, do que de um desportista excepcional, de um homem feito a pulso, cujo exemplo deverá perdurar. Alguém devia dizer-lhe que num tipo como ele há comportamentos que uma exposição pública não tolera. E que só servem para dar cabo, em meia dúzia de minutos, de uma imagem que levou anos a ser construída. Há coisas que a juventude já não desculpa, Cristiano, e que era preferível não terem acontecido. Mas que tendo acontecido seria preferível não se saber.

Passaram mais de dois mil anos sobre o nascimento de Cristo do qual bebemos a mensagem e o legado. E mais de 300 sobre a aurora do pensamento iluminista. Escreveram-se bibliotecas inteiras de filosofia moral. Fomos desenterrar os clássicos gregos e romanos para refundar o pensamento humanista. Proclamaram-se milhares de juras de fidelidade ao princípio irrenunciável da liberdade de expressão. E a cada volta do discurso os nossos ouvidos rejubilaram. Invocámos Voltaire e imaginámo-nos, tu, eu, cada um de nós, a morrer de peito aberto pelo direito de alguém dizer tudo aquilo com que não concordávamos. Erradicámos o crime de blasfémia do nosso ordenamento jurídico. Abominámos a condenação por delito de opinião. Viamo-nos assim. Puros, inteiros, justos, livres, airosos, tolerantes, conciliadores, modernos, arejados. Até ao dia em que o Figo ousou afirmar que jogou com outros melhores que o Messi (com essa podemos nós bem, que se lixe o piolho) e que o nosso, o nosso sim, Cristiano Rónaldo. A lata do sacana peseteiro e trânsfuga. Com uma só afirmação, um lampejo de sinceridade, trouxe-nos de volta àquilo que sempre fomos:  umas bestas incorrigíveis, uns fanáticos irreversíveis. Incapazes de perdoar aos que não se conformam com as nossas mais extraviadas crenças. Sim, porque quem não sente, não é filho de boa gente.

Uma lição

por Pedro Correia, em 13.01.15

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Na gala em Zurique onde ontem Cristiano Ronaldo recebeu a terceira Bola de Ouro da sua carreira (já tinha sido galardoado em 2008 e 2013), perguntaram-lhe qual foi o melhor golo da sua carreira.

Resposta imediata do nosso campeão: «O próximo.»

Nesta resposta percebe-se bem o que leva Ronaldo a superar todos os obstáculos. Em vez de contemplar o passado, como é hábito entre os portugueses, fixa sempre novos objectivos a conquistar no futuro.

Uma lição para todos nós.

Ronaldo, o modesto

por Rui Rocha, em 22.12.14

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O retorno

por Helena Sacadura Cabral, em 29.08.14

Judite de Sousa voltou ontem ao ecrã da TVI, com uma entrevista a Cristiano Ronaldo. As marcas da dor pela qual passou - e passa - estão bem visíveis. Não no rosto, ou no vestuário, impecáveis. Mas no olhar e na voz porque, esses, não há tecnologia que disfarce. Pelo contrário, intensifica-os.

Nunca escondi a minha admiração por Cristiano Ronaldo. Pelo homem que veio menino sozinho para Lisboa traçar o seu futuro, pelo desportista que fez mais pelo nome de Portugal do que muitos "emproados" que a tal se outorgam e pelo chefe de família em que se transformou. Mas, sobretudo, por esse orgulho de ser quem é, de ser português e de nunca renegar as suas origens. Não é pouco, no mundo actual. O resto são floreados.

A primeira parte da longa entrevista referiu-se, sobretudo, à vida profissional. Não sendo especialista na matéria, julgo que Cristiano respondeu sabiamente às perguntas que lhe foram feitas. Já não é, mais, o jovem que cometeu alguns erros. É um homem que soube tirar deles as devidas lições e que os não nega. 

Tocou, aliás, numa matéria muito importante: a ideia que cada um tem de si próprio. Para dizer que precisa de se considerar o melhor para fazer o que faz, mas que isso não implica que ele seja o melhor. Só esta resposta merecia, por si só, uma entrevista. A ele Cristiano e a muitos de nós.

Judite esteve bem. Triste, mas boa profissional. Hoje veremos, ao que sei, a parte afectiva e familiar do nosso craque. Da qual falarei amanhã, se a matéria o justificar.

Mas dei por bem empregue o tempo que passei junto ao televisor. É que a conversa valeu muito mais do que os medíocres debates televisivos a que, por norma, estamos sujeitos.

Dolores Aveiro

por Helena Sacadura Cabral, em 09.08.14

Ficaram surpreendidos com o título do post? Não fiquem, porque considero que Dolores Aveiro é muito mais do que a mãe de Cristiano Ronaldo e merece que se fale dela. 

Ha dois dias, ouvi a entrevista que Julia Pinheiro lhe fez a propósito de um livro lançado sobre a sua vida. Confesso que, ao arrepio dos elitistas cá do burgo, a senhora me enterneceu. Directa, sem papas na língua, nem poses de "lady com dinheiro", falou deste e das transformações que o mesmo trouxe ao seu quotidiano que, no passado, não foi um caminho de rosas. 

Mas, sobretudo, mostrou os imensos rostos de que se pode revestir essa hercúlea tarefa de ser mãe. Mãe que ela continua a ser, no apoio ou na crítica que entende dever, no seu papel, tecer aos filhos. E, questionada nas matérias mais delicadas, soube arrumá-las com uma eficiência surpreendente.

É uma líder nata do seu clã, alguem que não se "perdeu" com a vida que tem hoje, que mantém os pés bem assentes na terra e para quem a felicidade maior é ver os filhos felizes. Deu uma belíssima lição de simplicidade - que os nobres de sangue e espírito jamais compreenderão - e soube mostrar que se mantém aquela mulher que aprendeu que a vida também se escreve pelas nossas próprias mãos. 

Parabéns à família Aveiro pela capitã que vos calhou para conduzir o vosso barco!

Eusébio vs. Ronaldo

por Rui Rocha, em 28.06.14

É ou foi Ronaldo o melhor do mundo? Provavelmte sim, em determinadas épocas ou períodos. Sempre, se lhe perguntarem a ele ou se ele perguntar ao seu espelho. Mas essa corrida, com Messi, Robben, Ribéry ou Neymar, diz-nos pouco. Os terrenos onde se travam as suas batalhas principais são a Champions. É mais coisa de Real Madrid, Barcelona e Bayern do que de Portugal contra o resto do mundo. O duelo que verdadeiramente nos interessava que Ronaldo vencesse é aquele que disputa com Eusébio. Infelizmente, parece nunca mais chegar lá. A Eusébio sobra-lhe Coreia, entroniza-o a epopeia, ali onde Ronaldo fica de escasso. E nós trocaríamos de bom grado o seu título individual de melhor do mundo num determinado momento pela eternidade de ter feito o que sempre lhe falta para ser o melhor futebolista português de todos os tempos.

Profetas da nossa terra (37)

por Pedro Correia, em 17.06.14

«Este é o ano de Portugal: vamos entrar com o pé direito.»

Cristiano Ronaldo, 16 de Junho de 2014

Tirada infeliz!

por Helena Sacadura Cabral, em 18.05.14
António Costa, numa intervenção na Convenção "Novo Rumo para Portugal" do PS, pôs a plateia a rir, ao procurar ilustrar a realidade do Governo com um anúncio publicitário em que entra o jogador de futebol Cristiano Ronaldo e a actriz Rita Blanco, a Dona Inércia.

"Longe do virtuosismo de Cristiano Ronaldo, este é mesmo o Governo da Dona Inércia. Por ser o Governo da Dona Inércia, é que só se preocupa com a taxa de juro, julgando como a pobre da Dona Inércia que, tendo a mesmo taxa de juro do Ronaldo, ganha o mesmo que o Ronaldo", apontou.

António Costa contrapôs que Portugal é um país "de gente que trabalha e que não está aqui para viver da riqueza das taxas de juro", esquecendo-se de que, quer Cristiano, quer Rita Blanco são, em Portugal, um exemplo do que os políticos deviam fazer e não fazem... Nomeadamente, a actriz que é aqui que ganha a sua vida. 
Com a agravante de que CR, no anúncio, representa o seu próprio papel e Rita representa muita gente trabalhadora, para quem a poupança é um esforço enorme para minorar as agruras do futuro!
E assim vai a política em Portugal, com os seus novos rumos e as tiradas infelizes que os ilustram!

Cristiano

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

(Foto EPA, Kiko Huesca)

Nem todos os deuses são magos, mas há magos que se elevam e fazem de deus. No futebol isso também acontece. Cristiano Ronaldo e a armada do Real Madrid cilindraram em Munique os impantes, rudes e sobranceiros bávaros. Os campeões europeus, reforçados com o saber de Pepe Guardiola, encaixaram uns rotundos quatro a zero perante o seu próprio público. A vitória do Real, quer se queira quer não, será sempre vista como uma vitória da Europa do Sul contra a hegemonia alemã, como uma correcção e reequilibrar de forças depois do que aconteceu na época passada. Lisboa e o Estádio da Luz recebê-los-ão como merecem.

Cristiano Ronaldo

por Pedro Correia, em 06.03.14

 

Mesmo quando integrados num colectivo, não cessamos de procurar a individualidade, aquele que se distingue das massas amorfas. É assim também no desporto, um fenómeno social que vive muito do culto dos heróis.
Devemos congratular-nos por ter nas nossas fileiras um jogador que desequilibra, que ultrapassa a mediania, que se projecta muito para além das fronteiras da terra pobre que o viu nascer, tornando-se uma personalidade conhecida em todo o planeta. Esse jogador é Cristiano Ronaldo, autor de dois dos cinco golos da vitória desta noite de Portugal aos Camarões, no primeiro jogo de preparação para o Mundial do Brasil. Neste desafio tornou-se, aos 29 anos, o maior goleador de sempre da selecção nacional.

 

Um dia todos diremos com orgulho: eu vi-o jogar, ao vivo e a cores, era um futebolista extraordinário.
Saibamos reconhecer isso enquanto ele ainda aí está, no auge da carreira, transbordante de talento e entrega a esta paixão desmedida que se chama futebol.

 

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Onde é a festa, Cristiano?

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.01.14

 

Estás a ver o Cristiano Ronaldo? É trabalho, mãe

por Patrícia Reis, em 13.01.14

Não percebo nada de futebol.

Nunca me ensinaram e eu aprendi a não gostar do barulho, da forma como os negócios paralelos me fazem comichão no cérebro, das conferências de imprensa após os jogos, do facto de haver um jogo todos os dias. Adiante. Digo que sou do belenenses e ninguém se aborrece comigo. É uma táctica. Hoje, porém, como qualquer um de nós, fico contente por ver um português ganhar pela segunda vez a bota de ouro. 

O meu filho mais novo encarregou-se de me explicar a razão pela qual está tão contente com a vitória de Cristiano Ronaldo:

 

- Vem de uma família muito pobre, ficou na Academia do Sporting, sem pais ou amigos, com 11 anos. Sempre lutou para ser o melhor. Não desiste. Tem uma namorada linda. A família está sempre com ele. Não me importa que ele use brincos, os rappers também usam, e o anel no dedo mindinho pode ser piroso, mas se ele gosta, 'tá-se bem. Além disto, mãe, se queremos olhar para alguém que trabalha para atingir objectivos, - não é disso que estás sempre a falar? - então o Cristiano Ronaldo é a pessoa certa. Um bom exemplo, estás a ver? É só trabalho, mãe.

Vendo as coisas em perspectiva

por Rui Rocha, em 04.01.14

Sai-nos mais barata a condecoração do Ronaldo do que o pequeno-almoço do Figo.

Carta aberta

por Patrícia Reis, em 22.11.13

Caro Cristiano Ronaldo, não percebendo eu nada de futebol e na certeza de que nunca lerá esta mensagem, venho por este meio pedir, sff, que no Natal compre apenas e só livros de autores portugueses. Porquê? A Literatura é um dos grande valores nacionais e os escritores merecem.
Agradecida, Patrícia Reis

(deixei na página de fãs do senhor, aquela que tem milhões, acham que estamos cheios de sorte ou que sou só parva? Bom é sexta-feira, posso ser parva)

O "génio" nada é sem muito esforço

por Pedro Correia, em 20.11.13

Muito à portuguesa, fala-se quase sempre do "génio" de Cristiano Ronaldo. Mas quase nunca se fala da sua exemplar entrega ao treino. E no entanto essa é a principal razão do seu sucesso. Porque podemos detectar vestígios de "génio" num Ricardo Quaresma, por exemplo. Mas sem muito treino diário, sem muito esforço, sem dedicação total a um objectivo, nenhum "génio" chega longe. Nem o melhor do mundo, como Cristiano Ronaldo é.

Contra os profetas da desgraça

por Pedro Correia, em 19.11.13

1. Uma das melhores exibições de sempre de Cristiano Ronaldo com a camisola das quinas. Uma das melhores exibições de sempre de um jogador ao serviço da selecção nacional. Três golos marcados esta noite pelo nosso capitão, o melhor futebolista do mundo, em casa do adversário: um com o pé direito, dois com o esquerdo, a uma velocidade estonteante. Somando-se ao que já tinha marcado no primeiro jogo contra a Suécia, disputado há quatro dias em Lisboa. Desta vez, em território sueco, podia ter marcado mais três. Vontade não lhe faltou. Inspiração também não. Ele fez a diferença, vulgarizando o seu principal antagonista, Ibrahimovic, nas duas mãos que permitiram o acesso português ao Mundial do Brasil.

 

2. Dois jogos, duas vitórias nesta etapa decisiva. Dois jogos em que nunca jogámos para o empate. Ao contrário do que costumava acontecer no tempo em que nos contentávamos com vitórias morais, prometendo muito mas acabando sempre por voar baixinho.

 

3. Um jogador, por melhor que seja, não consegue fazer tudo sozinho. Cristiano Ronaldo esteve muito bem acompanhado em todos os sectores do terreno. Desde a baliza, onde Rui Patrício evidenciou segurança, à defesa - com um eficiente bloco central formado por Pepe e Bruno Alves - e aos alas, com destaque para uma excelente exibição de João Pereira, sem esquecer o meio-campo, onde João Moutinho voltou a brilhar (fantástico passe para o terceiro golo de Ronaldo!), excepto no capítulo da finalização. Hugo Almeida, um ponta-de-lança sem ponta de qualidade, insiste em destacar-se pela negativa. Sobra-lhe em centímetros o que lhe falta em talento e pontaria.

 

4. O seleccionador nacional, Paulo Bento, é um treinador muito previsível. Mas hoje arriscou, lançando William Carvalho como médio defensivo em estreia absoluta na selecção A. E acertou: o jovem jogador do Sporting cumpriu com mérito a missão que lhe foi confiada. Haveremos de ouvir falar muito dele: é um valor em contínua ascensão no futebol português.

 

5. Desde 2000 não falhamos a presença numa fase final de um Mundial ou de um Europeu, o que diz muito sobre a evolução do nosso futebol. Lá estaremos novamente, em 2014. Contra os profetas da desgraça, que preenchem horas e horas e horas de antena televisiva a traçar negros vaticínios raramente confirmados pelos factos. Azar deles. E benefício nosso.

 

6. Depois da exibição de hoje e de repetir na Suécia o número de golos que já tinha marcado há dois meses contra a Irlanda do Norte nesta campanha rumo ao Brasil, Cristiano Ronaldo merece ainda mais receber a Bola de Ouro. Será um escândalo se isso não suceder, embora possa deixar muito satisfeito o ridículo senhor Blatter.

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A vaidade e a soberba

por Helena Sacadura Cabral, em 08.08.13


Sou daquelas que se envaidecem quase tanto com os sucessos dos portugueses, como se seus fossem. Não são. Pertencem aos próprios e ao país que, esse sim, é nosso. Deles e meu.

Gosto de Cristiano Ronaldo e apesar dos tiques de novo riquismo  sou sensível à sua história de vida e ao amor que preside e persiste no clã Aveiro. 

Gosto de Mourinho e do estilo ácido de quem sabe o que vale e não se esconde em falsas modéstias.

Ambos têm alguma coisa em comum que os torna especiais a jogar e a treinar futebol. Mas incomoda-me a exploração quase diária, que uma certa comunicação social está a fazer da sua zanga, que em si é lamentável e só pode ser reflexo de alguma questão mal resolvida. A vaidade e a soberba ficaram mais á vista e sem qualquer vantagem!

A estes ícones nacionais - como aos políticos -, tem que se lhes pedir contenção. Porque não são só eles que estão em causa. Somos também nós portugueses e o nosso país que, assim, lavamos a roupa suja em público. E esta deve ser lavada em privado e, de preferência, na máquina. Nunca à mão...

A propósito de justiça e sorte

por Pedro Correia, em 09.12.12

Há dois conceitos que evito associar às minhas reflexões ocasionais sobre o fenómeno desportivo - e o futebol em particular.

O primeiro é o conceito de justiça. Escuto e leio muitas análises aos jogos ancoradas neste conceito - "se houvesse justiça, a equipa X teria ganho"; "a vitória da equipa Y foi justa".

Ora, salvo no que se refere a procedimentos disciplinares, a justiça não é para aqui chamada. Um desafio de futebol não é uma audiência de tribunal. Aqui o importante é vencer - por uma margem muito dilatada, de preferência, mas se for pela diferença mínima também serve. Que se vença até por "meio golo", como na velha boutade das conversas de café.

Tomemos um exemplo: o Benfica, dizem alguns comentadores, foi afastado "injustamente" da Liga dos Campeões no recente "jogo-treino" (Tito Vilanova dixit) em Camp Nou. "Injustamente" porquê? Porque esse afastamento acabou por ser ditado pela vitória simultânea do Celtic contra o Spartak de Moscovo por um penálti mal assinalado pelo árbitro desta partida.

 

 

Ao pretendermos explicar tudo em futebol recorrendo ao conceito de justiça, acabamos por não explicar nada. Porque aquilo a que por comodidade chamamos injustiça é uma espécie de lei não escrita imanente a todo o jogo. Uma das mais brilhantes proezas técnicas da carreira em campo de Cristiano Ronaldo foi aquilo a que se chama um golo limpo, "injustamente" anulado pelo árbitro por alegada deslocação de Nani numa vitória da selecção portuguesa contra a Espanha.

Eu estava lá - e vi. Nunca hei-de esquecer aquele golo, reproduzido aqui mais acima.

 

É inútil insistir no contrário: não existe uma justiça poética nos estádios que resgata os verdadeiros campeões, projectando-os da relva dos estádios para esse simulacro de Campos Elíseos a que se convencionou chamar verdade desportiva. Penso nisto todas as vezes que me lembro de um dos jogadores mais celebrados da história do futebol. Diego Maradona, ele mesmo. Um dos seus golos mais famosos - e decisivos - foi marcado com a mão, à margem das leis do jogo. Passou à história não como infractor, mas como lenda viva.

Onde mora a justiça em tudo isto?

 

 

O segundo conceito é o de sorte.

Diz-se que Fulano é um sujeito com sorte ou que Beltrano, figura estimável, padece no entanto do facto confirmado por todas as evidências de não ser acompanhado por essa cobiçada deusa a que chamamos Sorte. E ninguém quer figuras tocadas pelo estigma do azar na sua equipa do coração.

Tome-se por exemplo o actual treinador do Sp. Braga, técnico competente mas algo infortunado, ao que dizem: no início da actual temporada, havia adeptos do Sporting a suspirar por ele, sugerindo-o para o lugar do malogrado Sá Pinto. Esses adeptos têm má memória. E provavelmente já estariam neste momento a acenar-lhe também com lenços brancos, como fizeram os do Braga ao verem a sua equipa eliminada há dias pelo Galatasaray, em casa, da Liga dos Campeões, numa espécie de repetição antecipada do que sucedeu há sete anos em Alvalade e se recorda no vídeo aqui em baixo.

 

 

A sorte conquista-se, constrói-se. Dá muito trabalho. Prefiro sempre usar a palavra mérito em vez da palavra sorte. E volto a Cristiano Ronaldo: desde cedo, ainda na academia de Alvalade, onde se formou para o futebol e para a vida, o campeão madeirense prolongava as sessões de treino, continuando a exercitar-se mesmo após a partida dos colegas. Aperfeiçoou e desenvolveu da melhor maneira as suas aptidões naturais. Ultrapassou a fronteira que separa os jeitosos (que é quanto basta quase sempre em Portugal) daqueles que têm verdadeiro talento.

A sorte ajuda? Pois ajuda. Mas não explica nada. Quando Cristiano, com um remate bem colocado, cheio de força, faz tremer o poste da baliza adversária, os analistas que adoram cultivar o lugar-comum dirão: "Teve azar." Ele será o primeiro, no entanto, a reconhecer que esteve quase mas terá de esforçar-se ainda um pouco mais para a bola entrar na próxima vez. Que poderá ser já no minuto seguinte.

 

Experimentem usar mérito ou competência no lugar da palavra sorte. Não é uma simples questão semântica: há toda uma filosofia de vida subjacente às palavras que escolhemos.

Cristiano Ronaldo está para o futebol como Robert Capa estava para as reportagens de guerra. Merecidamente distinguido em vida com o título de melhor repórter fotográfico da sua geração, Capa costumava dizer: "Se a foto não estava suficientemente boa é porque não estavas suficientemente perto."

A sorte é isto. E constrói-se a todo o tempo por aqueles que beneficiam dela.

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