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O mundo às avessas

por Pedro Correia, em 27.07.16

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Jorge Coelho (militante do PS)

«Reconheço que nesta matéria serei um pouco conservador, mas já não estou em idade de mudar: as finanças públicas têm que ser sãs. Isto é uma questão central na vida de um país.»

«Sem finanças públicas sãs Portugal vai sofrer pesadas consequências no futuro.»

«Não pode haver nada que contribua para um descambar da despesa pública.»

«É preciso cumprir os compromissos com as instituições europeias. Estou a referir-me ao défice.»

«Vivemos momentos muito difíceis, no mundo, na Europa e em Portugal. As coisas na economia não estão a correr bem, temos de ser realistas.»

«Era muito importante que o crescimento da economia em Portugal estivesse a ser maior do que está a ser, estariam a crescer postos de trabalho, estaria a diminuir a despesa pública e a normalizar mais as contas da segurança social... Os ratios económicos não estão de acordo com aquilo que foi previsto.»

«O País não tem condições de produzir aumentos de salários reais. Tenho dúvidas de que deva haver qualquer aumento de salários.»

«O funcionamento da banca e das instituições financeiras é absolutamente vital e determinante para que um país seja normal a todos os níveis.»

«Não vai ser Bruxelas que vai fazer cair o Governo em Portugal. [Se o Governo cair] vai ser por dificuldades da plataforma política [que apoia o Governo].»

 

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Pacheco Pereira (militante do PSD)

«Tudo indica que o Governo vai cumprir o défice.»

«Ninguém diz que o Governo não está a cumprir os 3% [limite do défice]. Quem não cumpriu os 3% foi o Governo anterior.»

«Discutir 0,1% ou 0,2% para cima ou para baixo não são finanças sãs. É a utilização dos mecanismos de pressão para garantir políticas que eles consideram sãs.»

«Eu conheço a argumentação de que para diminuir as despesas do Estado tem que se controlar os salários, as pensões, as reformas... e depois dão-se milhares de milhões aos bancos.»

«Não é verdade que haja um isolamento das posições portuguesas. Uma parte importante das forças da União Europeia fazem declarações públicas a dizer que Portugal vai no bom caminho.»

«António Costa disse que a actual política europeia conduzia à estagnação. É importante que isto seja dito, porque é verdade.»

«A politica europeia é uma política de estagnação.»

«A Europa não cresce porque esta política não permite o seu crescimento.»

«As imposição europeias não servem o desenvolvimento de Portugal.»

 

Na Quadratura do Círculo (SIC Notícias), 21 de Julho

Em política, o que aparece é

por Pedro Correia, em 21.07.16

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Eu gostaria de ver a política imitar o melhor do futebol. Afinal por cá vejo o futebol a imitar o pior da política. Não o futebol jogado, note-se. Refiro-me ao futebol falado. Ultimamente o espaço do comentário futebolístico nas televisões tem sido invadido por dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, numa réplica do espaço habitual do comentário político, hoje parasitado por deputados de todos os partidos.

Tanto os comentadores-dirigentes como os comentadores-deputados são parte interessada em tudo quanto comentam. Cada frase que proferem deve ser entendida no contexto das suas ambições pessoais e das suas legítimas expectativas: a meritocracia em Portugal mede-se pelo número de aparições nos ecrãs televisivos, que funcionam como passaporte automático para patamares cada vez mais elevados.

Na política, nada disto é novo. Em 2002, Emídio Rangel convidou Pedro Santana Lopes e José Sócrates para formar um duo de comentadores na RTP: dois anos depois emergiam ambos como líderes dos dois principais partidos, tendo ascendido à chefia do Governo. Em 2007, pela inefável mão de Pacheco Pereira, António Costa iniciou-se como comentador regular da SIC Notícias: estava lançada a sua candidatura à liderança do PS. Em vez de mergulhar no Tejo, como sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa em 1989, mergulhou na telepolítica. Terá engolido alguns sapos, mas pelo menos evitou engolir salmonelas.

De resto, o percurso do actual Presidente da República, construído essencialmente nas últimas duas décadas como comentador alternado de um canal privado e do canal público, confirma esta estreita ligação entre a ascensão política e os holofotes televisivos. Mas Marcelo é Marcelo - um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.

Algo muito diferente é assistir ao penoso desfile de deputados que marcam os serões televisivos nos canais noticiosos. Com raras excepções, nada mais têm a debitar do que umas solenes vacuidades, confrangedoras na forma e despojadas de conteúdo. Tanto lhes faz, desde que consolidem o território na respectiva trincheira. Podem todos proclamar-se fiéis ao lema dos novos tempos: em política, o que aparece é.

Eu já evito escutá-los - desde logo porque sei tudo quanto dirão ainda antes de abrirem a boca. Mas não cesso de me espantar quando vejo que as televisões abdicam cada vez mais dos seus próprios comentadores para cederem tempo de antena à confraria dos deputados.

Agora está a acontecer algo semelhante no reduto do comentário futebolístico, cada vez mais confiado aos representantes das confrarias dos dirigentes e dos treinadores. Também aqui só quem aparece é. Saiba ou não saiba falar, tenha ou não tenha coisas originais para dizer, saiba distanciar-se ou não de rancores e ódios pessoais que lhe contaminem o discurso.

Uma Mesquita em Lisboa

por João André, em 31.05.16

Não acompanhei o assunto no início e cheguei a ele pelo post do Luís. Depois vi uma partilha do texto de João Miguel Tavares (um comentador de quem não gosto por diversas razões - que pouco têm a ver com as suas opiniões) no Facebook.

 

Deixo apenas o texto que um amigo, o Paulo Granja, colocou na sua página do Facebook e que me pareceu bastante melhor - independentemente das opiniões - que o de JMT.

 

JMT não sabe do que fala

Antes de mais, a intervenção urbana que tem sido reduzida à construção de uma mesquita insere-se numa operação de maior dimensão de requalificação urbana “entre o Martim Moniz e o Intendente, com o nome Praça-Mouraria”, e prevê a criação de um jardim, uma sala polivalente, de uma praça coberta e de uma ligação entre a Rua da Palma e a Rua do Benformoso, para além da referida mesquita (creio que também se prevê a requalificação/integração do Arquivo fotográfico municipal, já existente num edifício contíguo, mas não me recordo agora se o Arquivo será ou não formalmente integrado no projeto), sendo que o interior da mesquita ficará a cargo da comunidade muçulmana (creio que mais precisamente a cargo do Centro Islâmico do Bengladesh). A construção da mesquita neste bairro, e neste local em particular, justifica-se pela forte comunidade muçulmana do Bangladesh aí existente. De facto, já existiram 3 mesquitas em edifícios próximos, estando a última, frequentada por cerca de 600 pessoas, localizada num edifício para habitação, se não estou em erro, no Beco de S. Marçal, compreensivelmente com grande incomodo para moradores e para a vizinhança.

Segundo, o projeto de intervenção insere-se no Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria (o único ponto em que admito que JMT possa ter alguma razão é na aparente contradição entre a exigência feita ao proprietário/PUNH e a intervenção projetada, mas a legislação prevê que os poderes possam estabelecer exceções às regras e planos que os próprios fizeram aprovar, em nome do interesse público – como creio que foi feito com o PDM para a construção do novo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia -, mas se isso é bom ou mau é já outra discussão), e está a ser pensado desde 2009, altura em que mereceu apoios do FEDER/QREN. O projeto final de arquitetura foi apresentado a discussão pública e votado favoravelmente por todas as forças partidárias com representação na Assembleia Municipal de Lisboa em 2012.

Em terceiro lugar, sim, a CML também patrocina igrejas, sinagogas e templos de Shiva (se o deveria fazer ou não é outra questão…). Que me lembre, a CML já apoiou o Centro Ismaili, O Centro Hindu, O Museu Judaico e a (re)construção de várias igrejas católicas – estou a lembrar-me da Nova Catedral de Lisboa, a construir perto da Parque Expo. Nalguns casos (Museu Judaico e Igreja Católica), os apoios financeiros chegam também aos vários milhões de euros, já para não falar nas operações urbanísticas envolvidas (creio que no caso do Museu Judaico está prevista a intervenção/requalificação de vários edifícios no centro histórico de Alfama, mesmo ao lado da Igreja de S. Miguel).

Resumindo, não se trata apenas de pagar uma mesquita.
Não houve falta de discussão pública, nem atropelos à legislação e regulamentos camarários – se houve, serão dirimidos em local próprio, os tribunais.
Não foi uma proposta socialista ou sequer de esquerda feita a revelia dos partidos de direita, a direita também votou favoravelmente o projeto.
E sim, a CML, e não o Partido Socialista, apoia financeira e logisticamente, várias outras confissões religiosas.

JMT pode contentar-se em comentar artigos publicados no jornal onde escreve sem se dar ao trabalho de se informar. Isso também eu posso fazer, a diferença é que não sou jornalista e não me pagam para isso.

 

Leitura complementar: A mesquita da Mouraria, o Google e o Facebook.

Os mesmos de sempre

por Pedro Correia, em 03.04.16

São sempre os mesmos comentadores, ano após ano, década após década. Desfilam nos canais de sempre debitando as mais esforçadas banalidades de que são capazes. Nos últimos dois dias, ouvi sete (não exagero) sublinharem, com ênfase de La Palice, que "o futuro de Passos Coelho está dependente da boa ou má prestação do governo de António Costa".

Cada um que comparece no ecrã copia sem pudor o que o anterior disse. Falam longos minutos, horas, dias, meses. Dizendo coisas profundíssimas, como a frase que mencionei acima. Antes de começarem a falar já adivinho tudo quanto vão dizer - às vezes palavra por palavra.

Falam de política reclamando "reformas", "inovação", "golpes de asa". Sem perceberem que a verdadeira reforma, a maior inovação, o mais genuíno golpe de asa dos canais que os acolhem com aparente carácter vitalício seria removê-los e pôr outros no lugar deles. Outros que dissessem coisas que talvez nos surpreendessem, que talvez nos dessem pistas interessantes, que talvez nos pusessem a pensar.

Comentário político vaudeville

por Diogo Noivo, em 13.03.16

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O governo português está com dificuldade em reunir os votos necessários para aprovar um pacote de ajuda à Turquia. O Bloco de Esquerda está a sair do guião estabelecido por António Costa e a coisa pode não se concretizar. Mas, como é evidente, a culpa é da direita. Pelo menos foi isso que nos disse esta tarde um profissional do comentário – e digo ‘profissional do comentário’ porque não lhe é conhecida qualquer outra profissão. Calvo de ideias, mas grávido de certezas, o comentador disse ficar mal ao PSD a recusa em aprovar o referido pacote de ajuda e, consequentemente, não ser solidário com o governo de Ancara e com os refugiados (uma simplificação grosseira, típica da criatura em apreço, mas adiante). Ou seja, as esquerdas juntam-se e viabilizam um governo com base no pressuposto de serem capazes de gerar uma solução política estável e funcional. Quando, ao passar da teoria à prática, se vê que a estabilidade da esquerda não é grande coisa, a culpa (pasme-se) é da direita. Percebi hoje que “tempo novo” equivale a “novo patamar de desfaçatez intelectual”.

Presidenciais (26)

por Pedro Correia, em 12.01.16

Oiço comentadores televisivos, muito enojados, defendendo a discriminação entre candidatos presidenciais. Do alto das suas tribunas na pantalha, onde quase nunca têm nada de relevante a dizer, alguns destes comentadores, incluindo jornalistas, proclamam ao País que vários desses candidatos não deviam ter concorrido e que é uma maçada os órgãos de informação terem o dever deontológico de acompanhar minimamente todas as campanhas no terreno.

Facto notável, este: ouvir jornalistas a defender a discriminação. Com todas as letras.

Um desses jornalistas/comentadores chegou ao ponto de defender que jornais e televisões deviam seleccionar a cobertura desta corrida presidencial em função do que dizem as sondagens, ignorando tudo quanto não se encontrar "bem posicionado" nos inquéritos de opinião. Trata-se, por sinal, da mesma figura que anda há anos a clamar pela necessidade de haver "profundas alterações" na política portuguesa, com novos rostos e novos nomes.

Escuto outra, eleição após eleição, suspirando de nostalgia: antigamente, sustenta esta, é que havia campanhas políticas feitas de emoção e com personalidades de altíssimo nível. Esquece que nessa altura ela própria já falava assim das anteriores. Para certas criaturas o tempo óptimo é sempre aquele que ficou para trás. Um dia dirão isso mesmo do tempo actual.

Adoro estas certezas de geometria variável, sempre sujeitas aos ventos dominantes. Alguns, quanto mais apelos fazem à mudança, mais desejam que nada mude.

Tropeçar na mesma pedra

por Pedro Correia, em 04.10.15

Alguns "analistas políticos" debitam os chavões do costume em piloto automático após terem falhado prognósticos em toda a linha. Esquecem tudo quanto dizem e, portanto, nada aprendem com os erros cometidos.

O homem é o único animal capaz de tropeçar duas vezes na mesma pedra. As televisões insistem em demonstrar-nos isso, serão após serão.

Frases de 2015 (41)

por Pedro Correia, em 02.10.15

«Durante a campanha a coligação deu a entender que o pior já passou, que está tudo bem. Mas não está nada tudo bem. Está tudo mal.»

Constança Cunha e Sá, às 21.35, na TVI 24

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Sentes-te desconfortável por não perceberes uma botifarra sobre a momentosa questão catalã? Nada temas. Segue estas simples indicações e, com sorte e uma abundante cabeleira, poderás ser um novo Nuno Rogeiro. Com menos cabelo e a mesma sorte, serás talvez um mais velho Loureiro dos Santos:

1 - Começa qualquer discussão sublinhando que a questão é muito mais complexa do que simplesmente optar entre a visão centralista e a independentista. Adopta pose circunspecta e conclui referindo que devemos resistir a análises simplistas num mundo global e multipolar.

2 - Salienta o papel nuclear da Catalunha no contexto da dimensão ibérica de Espanha e na sua história. Liga o simbolismo da Estátua de Colombo às relações diplomáticas da Coroa Espanhola com os países andinos. Se puderes, leva um mapa-mundi. Com traços seguros, une Barcelona (convém que tentes perceber previamente o local aproximado onde se situa) com diversos pontos espalhados ao acaso. Reforça a dimensão geoestratégica da localização e relaciona-a com grandes migrações passadas, presentes e futuras. Toca, en passant, no tema dos refugiados da Síria e revela que o Aeroporto Del Prat pode ser utilizado para reabastecimento de bombardeiros envolvidos nas acções de punição do regime de Bashar al-Assad (é importante que digas o nome completo do tiranete pois assim revelarás o teu conhecimento profundo dos actores envolvidos).  Se te lembrares, fala de estudos secretos da OPEP sobre possíveis reservas petrolíferas ao largo de Tarragona e da possibilidade de a UE ter em carteira a construção de um gasoduto alternativo entre LLoret de Mar e a Ucrânia para furar o bloqueio russo.  O importante não é que alguma coisa destas faça sentido. O fundamental é passar a ideia de que tens uma visão global sobre o tema.

3 - Abusa das alusões históricas. Compara Artur Más com grandes líderes e momentos do imaginário independentista: José Martí, Grito do Ipiranga, Grito de Munch, Cataratas do Niagara, Alberto João Jardim, Afonso Henriques. Refere a Finlândia várias vezes como exemplo de uma independência bem sucedida. Deixa cair, como se nada fosse, que Suomi é uma expressão eslava que significa liberdade e prosperidade ainda que não seja realmente assim. Traça um paralelo entre Rajoy e Pedro o Grande, Anastácia ou Shakira enquanto abres os braços lentamente para sublinhares a abrangência das ligações históricas e políticas convocadas pelo momento. Se não te lembrares de falar no Pedro, refere outro Grande qualquer. Pode ser o Alexandre, o Líder ou a Muralha. Usa e abusa de palavras começadas em geo: geo-política, geo-estratégico, geo-lógico, geo-désico, geo-térmico e por aí foraSempre que disseres uma palavra começada por geo faz uma ligeira pausa para que a audiência saboreie o peso dos teus conhecimentos.

4 - Faz uma alusão ao sentimento nacionalista. Aos perigos que estes representam. A episódios não nomeados de fracturas insanáveis. A casos que conheces de vizinhos que nunca mais se falaram por causa de uma questão toponímica. A vinganças terríveis motivadas por disputas de terras e águas. Se te sentires completamente à vontade, faz neste preciso momento uma alusão ao estilicídio. Embala e recorda ainda o regicídio e o atentado de Sarajevo. Não deixes nenhum destes pontos para mais tarde. Se permitires que a discussão prossiga sem aproveitares a deixa, outro tertuliano avançará ele próprio com algum destes excelentes argumentos.

5  - Se em algum momento te sentires entalado, leva a discussão para a arte. Com um sorriso enigmático, fala de Dali e conclui que há sempre neste mundo coisas que não percebemos. Em caso de dificuldade extrema, recorre ao argumento de autoridade. Cita um artigo perdido do Financial Times ou da Caras Magazine. Se as autoridades no assunto o afirmam, está por nascer o primeiro opositor na discussão que o contradiga.

6 - Conclui a tua intervenção cofiando hipotéticas e proféticas barbas e salientando o risco de uma nova guerra fria, de consequências energéticas inimagináveis e de um possível cisma religioso entre a Igreja Católica de Castela e seitas que se movimentam na sombra da Sagrada Família. Fecha em crescendo, aludindo a perigos de dimensão dificilmente antecipável relacionados com a afirmação de usos e símbolos tipicamente catalães como a senyera, a crema catalana, os castellers ou o pa amb tomàquet e a terrível possibilidade de proibição de touradas com picadores em Tossa de Mar.

Grécia antiga (1)

por Pedro Correia, em 13.05.15

«O fundamentalismo doutrinário neo-liberal odeia Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis. Odeia-os porque eles vieram estilhaçar o consenso instalado. Odeia-os porque lançaram a dúvida nos espíritos. Odeia-os porque mostraram que não existe só a TINA (There Is No Alternative). Odeia-os porque não usam gravata. Odeia-os porque não se submetem ao diktak que esmaga a Europa. Odeia-os porque colocaram o Parlamento Europeu, a Comissão e os Estados membros em pé de igualdade como seus interlocutores. Odeia-os porque não foram a correr a Berlim prestar vassalagem a Angela Merkel. Odeia-os porque puseram a ridículo os que assim que ascenderam ao poder fizeram isso, como François Hollande ou Passos Coelho. Odeia-os porque disseram cara a cara a Wolfgang Schauble que não concordam com ele. Odeia-os porque não estão a negociar de mão estendida. Odeia-os porque estão a honrar o essencial do programa com que venceram as eleições. Odeia-os porque já perceberam que a Europa vai ter de ceder.»

Nicolau Santos, no Expresso (7 de Fevereiro de 2015)

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Fala-se muito em direitos, liberdades e garantias. Mas existe um direito fundamental de que lamentavelmente ninguém fala: o elementar direito ao reconhecimento da realidade.

Lembrei-me disto ao ver a última emissão do programa televisivo Quadratura do Círculo, em que os papéis pareciam mais trocados que nunca. António Lobo Xavier, militante do CDS, defendia o PS com visível convicção. Jorge Coelho, militante do PS, mostrava uma compreensão benévola para a missão governativa da coligação PSD-CDS. E Pacheco Pereira, militante do PSD, transformava o Bloco de Esquerda num modelo de moderação política.

O diálogo a três foi muito extenso, mas interessou-me essencialmente o trecho que passo a transcrever - com a devida vénia - antes de um sucinto remate.

..................................................................

 

Pacheco Pereira - Estão lá [nas propostas divulgadas pelo PS] a incorporação dos dados do Tratado Orçamental, está lá o controlo do défice, está lá um conjunto de medidas restritivas...

Jorge Coelho - Quer que o País saia da Europa?

PP - Não, não quero que o País saia da Europa. O que eu gostava era de ter visto o PS, nos últimos tempos, crítico da construção europeia, por exemplo em relação à Grécia.

JC - Você tem uma visão ultra-radical da construção europeia!

PP - Tenho uma visão ultra-radical. Aceitando-se os objectivos do Tratado Orçamental, aceitando-se os modelos pelos quais se incorporam esses objectivos, a maioria das coisas que você diz não é razoável. Vocês colocam-se na situação de dar razão às críticas do Governo.

JC - Então você quer sair da União Europeia. Assuma isso! Diga: Portugal tem que sair da UE!

PP - A Europa, neste momento, é um dos principais venenos para a democracia. Você não acha?

JC - Olhe... está a ver?

PP - A UE só existe se conjugar políticas comuns com a solidariedade. E a solidariedade significa uma transferência de recursos dos países mais ricos para os mais pobres. E só resulta se os países forem virtualmente iguais, coisa que neste momento claramente não são. Enquanto vocês falam da Europa, vocês estão a falar dos Donos Disto Tudo.

Lobo Xavier - Sem desprimor, mas a diferença entre este pensamento e o do Louçã é nenhuma.

PP - Vocês são os donos da realidade e não acertam numa!

LX - Você não gosta da realidade e não quer lidar com ela. Quer romper com a realidade.

..................................................................

 

Ouvindo tão inspirador diálogo, questiono-me se na próxima revisão constitucional os deputados não deverão acrescentar este direito ao extenso cardápio dos já existentes: o inalienável direito ao reconhecimento da realidade. Sem esta conquista, outros direitos fundamentais jamais sairão do papel.

Falharam

por Pedro Correia, em 22.04.15

Previram uma irreparável "espiral recessiva". Não houve.

Previram um ameaçador "programa cautelar". Nunca apareceu.

Previram um  "gigantesco risco sistémico" no sistema financeiro português. O colapso jamais ocorreu.

Previram um inquestionável "segundo resgate". Ninguém o vislumbrou.

Previram até, com ênfase de profissão de fé, a saída de Portugal do euro. Que só existiu em sonhos. Ou pesadelos.

 

Durante um par de anos levámos com todos estes profetas da desgraça, num concurso de cassandras levado ao domicílio antes, durante e depois dos telediários. Dia após dia, noite após noite.

Nunca ninguém lhes pedirá contas sobre o imenso rol de profecias falhadas. É o que lhes vale.

 

Mas a maior prova desse falhanço está no pacote de medidas de carácter económico que o PS acaba de desvendar para um hipotético executivo a sair das eleições do Outono. Os socialistas - ultrapassando agora o  Governo (2,3%) e o  Banco de Portugal (1,9%) em optimismo - antecipam um crescimento médio anual da economia portuguesa de 2,6% no período em que vigorar a próxima legislatura.

Contagiados por este optimismo, que avaliza afinal o desempenho do executivo ainda em funções, os do costume - aqueles que falharam todas as previsões - voltarão aos jornais de sempre e às televisões da praxe a dar o dito por não dito. Só nessa matéria conseguem ser exímios.

 

Leitura complementar:

Cautela. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

O irrealismo dos cenários macroeconómicos do governo e do PS. De Ricardo Paes Mamede, no Ladrões de Bicicletas.

Texto do PS: boa jogada política a curto prazo mas sem credibilidade económica. De Luís Salgado de Matos, n' O Economista Português.

PS prescinde de quase 1% do PIB no Orçamento e diz que baixa défice. De Sérgio Aníbal, na Economia Info.

Twilight zone

por Pedro Correia, em 21.02.15

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«A Alemanha teve de ceder.»

Nicolau Santos (hoje, na SIC Notícias), comentando a decisão do Eurogrupo de estender por quatro meses a assistência financeira à Grécia sob a condição de Atenas manter o programa de austeridade

Penso rápido (60)

por Pedro Correia, em 27.11.14

É espantoso verificar como se injuria e difama o mensageiro enquanto se apregoa a necessidade de respeitar o bom nome e a presunção de inocência dos arguidos, sejam eles quem forem. Sobretudo quando essa incongruência é assumida por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, fizeram tábua-rasa dos mesmos princípios que agora juram honrar e defender. Sobretudo quando essa incongruência é assumida por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, invocaram como alicerces das suas certezas alguns dos órgãos de informação que então citavam como veículos idóneos e agora - só agora - acusam de violar segredos de justiça.

Tais pessoas concebem a verdade como um conceito de geometria variável: diz-me que trincheira ocupas, dir-te-ei quem és.

Não há circo sem palhaços

por José Navarro de Andrade, em 26.11.14

Circo mediático não é o clip de 5 segundos de um automóvel a sair da garagem com um arguido lá dentro. Circo mediático não é a chusma de repórteres a troar perguntas irrelevantes ao advogado que vem cá fora fumar um cigarrito, sabendo que não terão resposta. Isto é business as usual. Circo mediático são 4 canais durante 4 horas e upa, a darem vez e voz a turbas de comentadores, cortesãos e outros assim, que debitam incessantes e minuciosas opiniões sobre um assunto que afirmam desconhecer. Boa parte dessas opiniões reprovando o circo mediático.

E ainda agora começou

por José Navarro de Andrade, em 23.11.14

Ainda vai no adro a procissão do que se poderá chamar “Caso José Sócrates” e já estão em desenvolvimento formidáveis teorias da conspiração, em que nada é o que parece ser mas outra coisa qualquer que só os mais espertos e previstos conseguem perscrutar, e connosco partilham generosamente.

Já apareceram coisas lindas de se lerem, por exemplo esta:

“Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais [Correio da Manhã e Sol] pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.”

Ora aqui está uma opinião com entrada directa para os anais da ignomínia intelectual. Impressiona como num parágrafo se pode acusar tão peremptória e cabalmente a Justiça das hediondas práticas de “violação do segredo de Justiça” e de “manipulação política”, para no parágrafo seguinte, em vez de comprovar a dedução com factos, como mandaria a decência (adeus ó ética jornalística), desarmar tamanhas certezas com o singelo advérbio “apenas”: apenas suspeita do que disse. Mas tem esse direito lá isso ninguém lho tira – que direito? Direito a quê? e porque razão considera que o tem?

Poderei, então, a meu bel-prazer invocar uma fantasmagórica “legitimidade” (atribuída por que instância? Baseada em quê?) para suspeitar que a autora deste dislate usa umas cuecas às pintinhas oferecidas pelo Sr. José Sócrates. Apesar de ter tantas provas factuais como ela, também acho que tenho o direito de bolçar suspeita tão parva.

Isto é a ponta do iceberg dos contorcionismos e denegações que vêm a caminho e atingirão muito em breve o ponto de rebuçado mediático nas chamadas redes sociais. Desde logo começou a circular por aí um twitter, emitido por outra senhora, esta com responsabilidades institucionais, que se lhe aplicássemos a lógica formal seria como adicionar uma laranja com uma pera para dar o resultado de dois ananases, ou seja junta a detenção do Sr. José Sócrates com o caso dos vistos gold, dizendo que uma mão veio para lavar a outra. Descobrir coincidências temporais (é fácil, pois não estão sempre a acontecer?) e deduzir nelas implicações causais (é ainda mais fácil, basta imaginar e suspeitar) é como supor que um desastre de automóvel poderia ter acontecido em melhor altura.

Como diria Bette Davis: “fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy ride.”

Penso rápido (50)

por Pedro Correia, em 22.09.14

Os políticos que se habituam demasiado tempo a pronunciar-se sem contraditório (e há vários, e de várias cores) passam a assumir uma pose grave e senatorial, própria de quem nunca se molha e de quem se habitua a vencer sem nunca verdadeiramente ir a jogo.
Só forma, sem conteúdo. Mas é quanto basta para granjear aplausos fascinados da nata lisboeta, sempre pronta a colar mais um cromo na vasta caderneta de senadores do regime.

A propósito, muitos comentadores falam na necessidade de "renovação" da política esquecendo que a renovação terá de passar também por eles. Fazem parte do sistema, alimentam-se da pequena intriga alfacinha. Alguns estão há 20 anos ou até mais a fazer comentário político. São parte interessadíssima naquilo que comentam. E responsáveis, em larga medida, pela fuga sistemática de leitores e espectadores das páginas de jornalismo político e dos debates políticos na televisão.

(segunda de duas partes)

 

 

VI

A necessidade de preencher tempo de antena leva os canais de notícias a recorrer às mesmas pessoas, que com intervalos curtos saltitam de televisão em televisão a proferir as mesmíssimas declarações. Aconteceu a 2 de Julho de 2013 com António Capucho, já então candidato independente assumido à eleição para a Assembleia Municipal de Sintra, que decorreria menos de três meses depois.

«Passos Coelho deve demitir-se de presidente do PSD pois não tem condições de liderar o partido», declarou Capucho na TVI 24. «O Presidente da República deve convocar eleições para a mesma data das autárquicas», disse na SIC Notícias. «Passos Coelho não pode permanecer na liderança do PSD: deve demitir-se e convocar um congresso eleitoral», afirmou na RTPi.

Políticos por um lado, jornalistas por outro. Ao longo destes dois dias de alta tensão política e televisiva, registei as declarações integrais de 27 jornalistas enquanto comentadores em três canais: RTPi, SIC N e TVI 24. Faço questão de acentuar que não vi a CMTV por não dispor à época daquele canal no meu operador de televisão por cabo.

Um ano depois, deixo à consideração dos leitores algumas frases que fui destacando:

«Paulo Portas rompeu a corda e a consequência óbvia é a queda do Governo. Passos Coelho não tem outra saída senão demitir-se.»

«Passos Coelho é a versão portuguesa daquele ministro da informação do Iraque.»

«O Presidente da República não pode tentar manter um Governo em estado de semivida. Não é possível.»

«Prolongar esta situação é uma desgraça para Portugal, deixando que este doente comatoso continue a fazer de conta que governa o País.»

«Dentro do PSD há uma larga maioria do partido que não está de acordo com a manutenção deste Governo.»

«A rua pode fazer cair Passos Coelho.»

«António José Seguro tem razão em dizer que isto chegou ao fundo dos fundos. E chegou.»

«Este senhor [Passos] é incapaz de liderar uma turma, quanto mais um governo.»

«Para haver maioria no Parlamento, só se o PSD mudar de líder.»

«Estamos perante uma crise política de dimensões colossais -- portuguesa e europeia.»

«Neste momento não há nenhum ministro que tenha vontade de continuar.»

«Passos Coelho perdeu toda a lucidez.»

«O CDS é Paulo Portas.»

«O CDS sempre foi um partido de um homem só.»

«A escolha da ministra das Finanças não agradou a muitos sectores do PSD.»

«Já não há Governo.»

«Agora o que é preciso é ajudar a sair este Governo com dignidade.»

«Passos Coelho não tem condições para ser candidato a primeiro-ministro de novo. Paulo Portas também não.»

«Quando um ministro pede a demissão esse pedido tem de ser aceite.»

«Só um Governo que tivesse o apoio do PS funcionaria e acalmaria os mercados.»

«Este Governo está podre.»

«O Presidente da República tem que acabar com esta fantochada.»

Apenas alguns exemplos. Reitero: são declarações de jornalistas, não de politólogos ou dirigentes partidários envolvidos no calor da refrega política. Cada qual mais apaixonada e desabrida do que a outra. Muitas -- para não dizer quase todas -- dissociadas da realidade. Sucede com frequência, quando confundimos aquilo que acontece com aquilo que desejávamos que acontecesse.

 

 

VII

Não vou individualizar ou particularizar a autoria destas frases para evitar também eu cair num dos vícios do comentário à portuguesa, que tudo fulaniza na permanente tentação de interpretar os factos em função da identidade dos protagonistas, adaptando à política a lógica argumentativa do futebol. Importa muito mais inventariar os manifestos erros de análise -- na tentativa de evitar que se repitam e se propaguem -- do que apontar na direcção de quem os comete.

Vale a pena, isso sim, individualizar os poucos que, na balbúrdia do momento, souberam permanecer imunes às armadilhas do comentário em directo. Devo destacar aqui Miguel Sousa Tavares, que evitou juntar-se à vozearia dominante, separando o trigo do joio -- à revelia, porventura, das suas convicções mais íntimas sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Destaco-o porque foi ele o primeiro a saber remar contra a maré. No Jornal da Noite da SIC, a 2 de Julho, apontou o dedo na direcção do CDS, contrariando aqueles que já davam como segura a convocação de legislativas antecipadas: «O PSD vai tentar governar mesmo sem o CDS, com os deputados que tem.»

Hoje parece óbvio que o pedido de demissão de Portas não acarretava a renúncia do chefe do Governo. Mas o primeiro a perceber isto, nesse dia, foi Sousa Tavares.

O Jornal da Noite foi, aliás, o maior reduto de lucidez analítica ao longo desses dois dias febris -- em perfeito contraste com outros espaços noticiosos. Luís Marques Mendes, também comentador do canal de Carnaxide, esteve em antena ao lado de Miguel Sousa Tavares e acertou em três vaticínios: «Não haverá eleições até Junho de 2014 mas este Governo deve-se compor»; «Entre o orgulho de manter a sua posição e o sentido de responsabilidade de fazer algum recuo, o sentido de responsabilidade [de Portas] é mais importante.»

 

 

VIII

Eram 20h42 dessa terça-feira, 2 de Julho, quando Marques Mendes disse o que mais ninguém ainda havia dito ao longo das agitadas horas precedentes: «Ainda ninguém percebeu se a saída "irrevogável" é só a saída de Paulo Portas ou é a saída do CDS.» Aproveitando para sublinhar também o que ninguém dissera antes dele: nessa mesma tarde, um destacado membro do CDS, Paulo Núncio, tomara posse como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, integrando a equipa de Maria Luís Albuquerque.

Quase à mesma hora, no Jornal das 8 da TVI, António Perez Metelo era também o primeiro a chamar a atenção para a dimensão internacional da crise (um aspecto crucial num país sob intervenção financeira externa), salientando que «do ponto de vista dos credores é muito importante que o CDS clarifique a sua plataforma política». No mesmo jornal televisivo, falando ao telefone, Marcelo Rebelo de Sousa introduziu um elemento de análise até aí inédito ao alertar para a «queda brutal das bolsas em apenas sete minutos devido à demissão de Portas».

Ninguém mais se lembrara disso.

Ao contrário da generalidade dos comentadores, que durante a tarde viraram baterias contra o primeiro-ministro, Sousa Tavares e Rebelo de Sousa concentraram os focos críticos no ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. «A reacção de Paulo Portas é totalmente incompreensível em pleno arranque da oitava avaliação, num momento crucial para o Orçamento de Estado, numa atitude que não é sequer artilhada por elementos do seu partido», observou Marcelo na TVI enquanto na SIC Sousa Tavares concluía que o líder do CDS «sai mal da fotografia».

Mas foi preciso esperar até à tarde do dia seguinte para alguém afirmar em antena aquilo que se impunha desde o primeiro instante, contrariando as interpretações generalizadas do CDS como partido «de um homem só».

Aconteceu quando a editora política da SIC, Paula Santos, disse estas palavras inequívocas: «A decisão de Paulo Portas é pessoal e não vincula o partido. Em momento algum, naquela nota, Portas fala no plural.» E admitia: «O CDS ainda poderá ficar no Governo, em coligação.»

Eram 18h13 de 3 de Julho de 2013. Aos olhos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado ao Governo. Aos ouvidos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado às televisões.

Um ano depois, sabemos o que aconteceu. Ficou claro quem analisou bem os factos, quem foi incapaz de ler para além da espuma e quem delirou em toda a linha.

Neste país de doces costumes, todos se mantêm nos seus postos. Há tradições que nunca mudam.

(primeira de duas partes)

 

 

I

Em Julho de 2013, em entrevista ao canal Q, Joaquim Furtado -- um dos mais prestigiados jornalistas portugueses -- punha o dedo na ferida: ao trocarem a notícia pelo comentário, muitos profissionais da informação transmitem uma má imagem do jornalismo.

Ouvi estas palavras, que subscrevo, e logo as relacionei com duas datas: 2 e 3 de Julho de 2013, dias negros para o comentário político em Portugal, dias em que se sucederam nas antenas televisivas as mais delirantes teses pronunciadas por jornalistas a propósito do desenrolar da crise governativa então ocorrida.

De repente, a realidade dava lugar aos "cenários" -- segundo uma escola muito popularizada, desde os remotos anos 70, por Marcelo Rebelo de Sousa. Mas em cima destes "cenários" foram-se construindo outros, e mais outros, e mais outros, formando uma espécie de tela virtual sem a menor correspondência com a realidade. Na ânsia de suplantarem a capacidade efabulatória de certos "analistas políticos", com morada permanente nos canais informativos da televisão, vários jornalistas acabaram por prestar um mau serviço ao jornalismo. Tomando o incerto por certo, confundindo desejos com realidades, imaginando que bastam alguns tijolos para construir um edifício argumentativo capaz de resistir ao confronto com os factos.

 

 

 

II

O maior defeito da "cenarização" em cadeia é precisamente esse: acaba por se perder de vista toda a base factual.

Neste caso, convém recapitular, havia três factos: uma carta de demissão assinada pelo ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar, tornada pública a 1 de Julho; o anúncio da substituição do ministro pela secretária de Estado Maria Luís Albuquerque, a quem foi conferida posse na tarde do dia seguinte; e uma carta de demissão "irrevogável", assinada pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, divulgada cerca de uma hora antes da cerimónia de posse e justificada precisamente pela decisão do primeiro-ministro de fazer substituir Gaspar por Maria Luís.

Estes, os factos.

A partir das 16h30 do dia 2 -- faz agora um ano -- e durante todo o dia seguinte foram desfilando nos ecrãs televisivos diversos comentadores -- muitos dos quais oriundos dos jornais ou das rádios -- com palpites sobre o desfecho da crise política. Admitindo todos, com base nos dados disponíveis, a iminente queda do Governo e a realização de eleições antecipadas.

Estávamos não já no domínio do concreto, mas do provável. O primeiro erro ocorreu logo ali -- na transformação do provável em quase certo ou indiscutivelmente categórico nesta obsessão de "cenarizar" a vida política, deixando factores emotivos de diversa ordem ocupar o lugar da racionalidade no exercício do comentário analítico, talvez também pelo efeito mimético que cada intervenção produzia nas intervenções posteriores, numa espécie de choque em cadeia do qual quase ninguém saiu ileso.

 

 

III

Breve inventário dos erros cometidos:

-- O maior de todos foi o da identificação do CDS com o seu líder, considerando-se que os dirigentes democratas-cristãos obedecem em uníssono à voz de comando de Paulo Portas. A tese do "partido unipessoal", popularizada por José Pacheco Pereira, ganhava foros de dogma indiscutível, como se a política estivesse prisioneira de mecanismos cegos, rígidos e válidos para qualquer contexto e qualquer circunstância.

-- Esta tese ignorava que, pouco antes da crise governativa, o CDS assinara com o PSD uma vasta aliança eleitoral para as autárquicas de Setembro em que os democratas-cristãos -- com presença residual no terreno autárquico -- eram os maiores beneficiários. Ignorava também que a carta de Portas em nenhum momento vinculava o conjunto dos ministros e secretários de Estado do CDS. Ignorava ainda que o titular dos Negócios Estrangeiros não convocara os órgãos próprios do partido antes de divulgar a carta.

-- Outro erro evidente destas "cenarizações": quase todas ignoraram o contexto internacional, produzindo-se como se Portugal não estivesse sujeito a um quadro de intervenção financeira externa, e menosprezaram por completo o efeito da demissão de Portas nos mercados financeiros. A queda abrupta das bolsas e a subida das taxas de juro da dívida portuguesa, ocorridas horas depois, foram um autêntico banho de realidade para muitos comentadores que imaginam ainda a política indissociável da conjuntura económica e financeira.

-- A febre da "antecipação" -- sob a pressão dos directos televisivos e da permanente auscultação do que se ia dizendo nos canais concorrentes -- levou a que se perdesse com impressionante rapidez o rigor da base factual, ingrediente indispensável à qualidade do comentário. Já no dia 1 de Julho isso sucedera, embora numa escala muito menor, quando boa parte dos comentadores tomara por válida a tese de que o ministro da Saúde, Paulo Macedo, chegara a ser um sério concorrente à pasta das Finanças ou fora mesmo sondado para esse efeito. Coube a Miguel Sousa Tavares -- no Jornal da Noite, da SIC -- deitar água na fervura, nessa segunda-feira, ao dizer que, tanto quanto sabia, Macedo não chegara a ser hipótese para o lugar de Gaspar.

Quem sustentara tal tese esquecera-se aliás de responder a esta simples pergunta: faria algum sentido o primeiro-ministro remover de uma pasta ministerial quase sempre muito polémica aquele que as sondagens apontavam como o mais popular membro do elenco governativo?

 

 

IV

Nunca tantos produziram tantos "cenários" em tão pouco tempo em televisão. Num exercício especulativo quase sem contraditório. A emoção do momento sobrepunha-se por completo à análise racional.

A todo o instante se falava já em eleições legislativas antecipadas -- mas também na repercussão da crise portuguesa nas eleições da Alemanha marcadas para três meses depois, em golpes internos no PSD e até na súbita demissão de Passos Coelho. Tudo isto em poucas horas.

Havia quem garantisse que o Presidente da República iria dissolver o Parlamento. Havia quem antecipasse a data das legislativas, equacionando-a para o mesmo dia das autárquicas de Setembro -- algo inédito na democracia portuguesa.

Mais insólito ainda: já se antecipava nos canais noticiosos o vencedor dessas eleições, como se o acto de votar fosse um mero requisito formal destinado a validar um quadro político pré-existente. E não faltou até quem antevisse a «derrota da direita» durante uma década em Portugal.

A tese do líder socialista, António José Seguro, ganhava foros de verdade mineral: «O Governo caiu e desmoronou-se na praça pública.» Tese extravagante, mas partilhada por sucessivos comentadores nesse fatídico dia 2: a solução para o problema suscitado pela demissão de Portas... era a demissão de Passos Coelho!

Com tantos jornalistas em antena, praticamente nenhum se interrogou se esse comportamento corresponderia ao perfil político e psicológico do primeiro-ministro. Os factos, também aqui, acabariam por desmentir os "cenários".

Houve flagrantes contradições na lógica discursiva dos comentadores. O chefe do Governo era criticado por nomear para ministra das Finanças alguém com quem mantinha uma estreita relação pessoal ao mesmo tempo em que era criticado por não cultivar boas relações com o demissionário ministro dos Negócios Estrangeiros. Enquanto se ignorava o historial de conflitos protagonizados por Portas no conjunto da direita portuguesa e no interior do próprio CDS.

 

 

V

Passos Coelho, ainda no dia 2, rompeu toda esta torrente discursiva com duas frases curtas e claras: «Não me demito. Não abandono o meu país.» E revelava que não aceitara o pedido de demissão de Portas.

Era um elemento factual de importância suficiente para fazer estancar -- ou, pelo menos, atenuar -- as irrevogáveis certezas dos comentadores. Nada disso aconteceu: mesmo perante isto, havia já quem sustentasse que Passos Coelho perdera o apoio de «muita gente no PSD» e estava a poucos dias de abandonar a liderança do partido face às «movimentações» internas contra ele que surgiriam «nas próximas horas».

Um comentador, ainda mais categórico do que os demais, prenunciava nesse serão de terça-feira, faz hoje um ano: «Amanhã [3 de Julho de 2013] Assunção Cristas e Mota Soares vão demitir-se. É impensável que não se demitam. Isso será o passo que falta para o Presidente da República [dissolver a Assembleia da República].» Outro antevia já uma «derrocada eleitoral da direita sem precedentes na última década».

Já na manhã seguinte, outro improvisado analista emprestado pela imprensa aos ecrãs televisivos ironizava sobre a nova titular das Finanças: «É a primeira vez que uma ministra toma posse de um cargo que já não existe!»

Nesta espécie de concurso destinado a apurar quem produzia a afirmação mais delirante destacou-se o autor desta frase, na SIC Notícias: «Passos Coelho faz lembrar Salazar, depois de 1968, quando os ministros iam a despacho e ele já não era primeiro-ministro.»

 

(conclui amanhã)

Os mesmos

por Pedro Correia, em 08.06.14

Os mesmos comentadores que há um ano consideravam "inevitáveis" as legislativas antecipadas vêm agora considerar uma "irresponsabilidade" a hipótese de antecipar as eleições.

Quem não conhecer que os compre. Eu conheço-os.


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