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A Casa Torta

por jpt, em 03.01.18

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Não há razões para desesperos, pelo menos nesta matéria. Depois da minha irritação com a recente, e vil, "adaptação" do "Crime no Expresso Oriente", insisti e fomos ver "A Casa Torta" (adaptação do livro em tempos publicado em Portugal sob o menos atractivo título "A Última Razão do Crime"). Não é preciso um grande ensaio interpretativo para esta coisa: quem vai ver um filme sobre um romance policial de Agatha Christie, ainda para mais tendo-o lido (e ela é uma das autoras mais lidas em todo o  mundo, mesmo que possa não o ser tanto como foi no XX), não vai na senda da grande literatura nem está na demanda do cinema na sua expressão artística mais elevada, em projectos de ruptura e/ou auto-referência. Vai-se lá à procura de reviver um ambiente, típico, que é assim datado, nos seus pormenores, na sua elegância de época, nos seus conceitos e preconceitos, nos limites das suas tramas, que patenteia o como é (era) e explicita o que não é, o que é excluído. É uma "elegância", a ser lida por fruição, e (ou, se apetecer) a ser interpretada como uma belíssima (mesmo que se calhar kitsch) mostra de uma mundividência. Tudo a ser percorrido com um suave "frisson", o do enigma sobre aquele, de facto irrelevante, assassinato em causa. 

O "Casa Torta", realizado por Gilles Paquet-Brenner, com um plantel de bons actores encabeçado pela grande Gleen Close e abrilhantado por Terence Stamp, cumpre com toda a qualidade requerida essa recriação. O ambiente, sombrio, o mistério, mantido até ao fim (ainda que dissecável pelos "habitués" de Agatha Christie que porventura não tenham lido o livro), a elegância do contexto, a psicologia das personagens - que na obra desta escritora têm sempre um traço grosso, até algo caricatural, mas "é assim:".

Saímos mais do que satisfeitos. E eu reconfortado. Mesmo aliviado. Recomendo. 

 

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A destruição dos filmes clássicos.

por Luís Menezes Leitão, em 02.01.18

Concordo inteiramente com o JPT no post aqui abaixo. Achei a nova versão de Um Crime no Expresso do Oriente um verdadeiro assassinato da personagem de Poirot, e uma patética destruição de um filme que na versão de Sidney Lumet é uma obra-prima e um festival de bons actores. Albert Finney foi para mim o melhor Hercule Poirot de sempre, enquanto que Keneth Brannagh é seguramente o pior, e não é por ter um bigode de proporções colossais que se aproxima minimamente da personagem de Agatha Christie.

Mas infelizmente é o que se está a passar com estes sucessivos remakes de filmes clássicos. Não é só o Sherlock Holmes que foi totalmente descaracterizado nos filmes recentes. Também o James Bond actual já nada tem a ver com os anteriores e muito menos com a personagem criada por Ian Fleming. E em Portugal também passámos a ter remakes ridículos de filmes de época como o Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela, e a Canção de Lisboa, de tão maus que devem ter feito os antigos actores e realizadores dar voltas no túmulo.

 

Mas a verdade é que a actual sociedade só liga ao dinheiro e estes remakes constituem sucessos comerciais, pelo que são repetidos até à exaustão. Até já perdi a conta às sucessivas versões do King Kong, quando King Kong só há um e é o de 1933. Mas, pelo vistos, enquanto o macaco gigante fizer render o peixe, lá voltam sempre os filmes dele. Se continuarmos com este disparate amanhã teremos uma nova versão de Casablanca, com Kenneth Branagh no lugar de Humphrey Bogart, montado num camelo a fugir de uma perseguição de nazis pelas areias do deserto. Haja juízo e respeito pelas obras-primas do cinema.

 

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Há alguns anos fui chamado a Lisboa devido à saúde do meu pai. Parti de urgência, deixando a família (a nuclear, claro) para trás. Dias depois ele morreu. Nessa noite, pois sozinho em casa e para evitar solidões reflexivas e convívios arrastados, meti-me no cinema "Londres" - que também já foi - a ver um filme de "Sherlock Holmes", personagem também do agrado do meu pai, e cujos casos eu lera na totalidade. O dia não seria o melhor para aguçar a fruição cinéfila mas o que é certo é que saí do cinema indignado. E horrorizado. O filme era péssimo. E era também um atentado à obra, transformando o arquétipo do método científico numa espécie de herói da Marvel actualizado para o lumpen-milenar. 

Ontem à tarde fui ver, com a minha filha, o "Crime do Expresso do Oriente", que um tal de Branagh - nome que me lembro ter sido há décadas anunciado como futura enorme figura do cinema e teatro britânico - decidiu fazer. Claro que ao livro o li há quarenta anos. E que por essa década vi (e revi) o esplêndido filme de Sidney Lumet, exímio a reconstruir o ambiente de "género" de Agatha Christie, a elegância, a típica abordagem psicológica daquele mesmo ambiente, e o "suspense" com verdadeiro "frisson". Agora? Uma incapacidade de manter o suspense, de mostrar (criar) personagens, e uma  torpe apropriação da mítica personagem, tornado dono de um pateta bigode envolto em cenas de pancada e tiros. Enfim, a mesma abjecta ideia de que "actualizar" é abandalhar. 

Regressámos a casa. A filha desiludida. O pai indignado. Googlo o filme, para comprovar que o "Morte no Nilo" está em preparação, como a soez ameaça do final do filme deixa adivinhar. Pois este está a ser um enorme sucesso comercial. Praguejo com a perspectiva. E depois apanho uma crítica ao filme, feita por Eurico de Barros [aqui]. Até me comovo, parece que me leu os pensamentos. Nem vale a pena dizer mais nada. Até porque de nada servirá apelar ao boicote das futuras branaguices. O homem já assassinou "o crime no expresso do oriente", continuará a matar outros. E o "espírito do tempo" alimenta-o.

Ou será que?, se nos juntássemos todos, e o "terminássemos" colectivamente numa qualquer carruagem? Poirot, estou certo, perdoar-nos-ia ... E Dame Agatha Christie também empunharia o punhal.

 

O homem que inventou o Natal.

por Luís Menezes Leitão, em 24.12.17

 

Apesar de não apreciar filmes sobre a época natalícia, senti curiosidade em ir ver o filme "O homem que inventou o Natal", sobre o processo que levou Charles Dickens a escrever "Um conto de Natal", uma das suas obras mais conhecidas. Não dei o meu tempo por perdido. O filme é absolutamente magnífico sobre a dor criativa do autor no processo de gestação e parto da sua obra. Tal como os fantasmas do Natal, as suas personagens vão surgindo à sua procura, como bem descreveu Pirandello, e o autor vê-as ganhar vida própria, tem dificuldade em as matar, e acaba por aceitar os seus ditames. Mas, ao mesmo tempo, vai modificando as personagens, permitindo-lhes revelar dons que não apareciam na sua versão em bruto. 

 

E os actores são fabulosos. Dan Stevens é uma verdadeira revelação no papel de um Charles Dickens, cuja história pessoal de trabalhador infantil o faz compreender os dramas da "incrível miséria da classe operária", que o seu círculo londrino pretende ignorar. É por causa desse círculo londrino que cria a personagem de Scrooge, admiravelmente retratado por Christopher Plummer, uma homem intrinsecamente mau, mas que o espírito natalício acaba por conseguir modificar. E assim vemos surgir, linha a linha, folha a folha, ilustração a ilustração, a obra-prima "Um conto de Natal". Escrita em seis semanas, com a primeira edição esgotada em seis dias, mudou para sempre a forma de celebração do Natal em todo o mundo. Um filme que é uma bonita homenagem a um autor célebre e a uma obra extraordinária.

 

Um Woody demasiado amargo

por Helena Sacadura Cabral, em 23.12.17

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Tempos houve em que bastava aparecer o nome de Woody Allen, para eu não descansar enquanto não visse a sua última obra. E, mesmo quando ela era inferior ao que dele esperava, nunca dava o meu tempo por perdido, porque havia sempre qualquer coisa naquele humor acre, que se apoderava de mim e me dava a noção de que não fora em vão a hora que lhe dedicara.

Assim, mal soube que estreara uma nova película, decidi que era mesmo neste tempo tão triste para mim, por evocar a morte da minha mãe, que eu iria vê-lo. Precisava, mesmo, daquela graça subtil, daquele amor ácido pela América que o não compreendia e que ele, afinal, tanto amava.

Todos envelhecemos. Allen não é excepção e as suas ultimas obras já evidenciavam um desgaste nos temas, sempre abordados, das dificuldades do amor. 

Mas umas pessoas envelhecem melhor que outras. Ou fazem-no de uma forma menos triste, acreditando que o futuro, embora mais curto, ainda pode existir. Aliás, só mesmo uma tal crença é que pode levá-lo, com quase oitenta anos, a fazer novos filmes.

Esta Roda Gigante cuja realização e argumento pertencem a Woody, decorre em Nova Iorque, na década de 1950. Num parque de diversões em Coney Island, Ginny é uma ex-actriz que vai fazer quarenta anos, trabalha como empregada de mesa, é casada com o operador do carrossel e começa a sentir a vida passar-lhe ao lado.

Um dia, conhece Mickey, um jovem nadador-salvador que sonha tornar-se escritor, por quem se apaixona perdidamente, mas que terá de disputar com a enteada, quando esta regressa inesperadamente a casa fugida do marido. Ginny entra num turbilhão de ciúmes e acabará a  exceder-se quando percebe a atenção que o jovem amante dedica à filha do marido. 

Entre as duas nasce uma rivalidade que acaba por colocá-las numa situação particularmente delicada. Não há aqui nada de novo. O realizador sempre se ocupou das relações conturbadas que o amor pode corporizar. Mas neste filme o peso da amargura é excessivo porque apenas revela o "lado sem saída" daquilo a que se apelida de amor. E Kate Winslet dá, de facto, de modo notável, a imagem desse sentimento avassalador.

É uma película com um travo demasiado amargo para o meu gosto, que tenho uma idade muito próxima da do realizador. 

Há sempre uma saída. O problema reside no que acontece, quando a não procuramos, e preferimos submergir...

Fumo nos olhos

por João André, em 20.11.17

Falar nos casos do cinema francês (ou mundial) onde as personagens surgem de cigarro na mão ou na boca duplicaria o número de palavras usadas historicamente neste blogue. Explicar que nalguns casos não faria sentido não mostrar o cigarro (como com biografias) seria extenuante. Apontar que em certas situações o cigarro faz parte da caracterização da personagem seria uma perda de tempo.

 

Note-se que não sou um fumador, nunca fui um fumador e nunca dei sequer uma passa que fosse em toda a minha vida. Obrigava os meus pais a abrir as janelas do carro ou da sala sempre que começavam a fumar, estivesse sol ou chuva, calor ou frio. Fui também um entusiástico apoiante das medidas que restringiam o uso do tabaco em espaços públicos. Sou da opinião que se o tabaco desaparecesse da face do planeta, só haveria benefícios e nenhum prejuízo (embora saiba que isso é impossível).

 

Banir o tabaco dos filmes no futuro faz pouco sentido. Limitar a exposição de filmes antigos que exibem tabaco é ridículo e colocar uma classificação etária superior num filme que mostre personagens a fumar é simplesmente idiótico. Alguns dos comentários  neste artigo do The Guardian explicam tudo, mas gosto particularmente da comparação com a violência. Se filmes com violência (mesmo que muito "leve") não levam com tais excomunhões, por que razão cair sobre o tabaco? Levar a campanhas para remoção do tabaco em filmes futuros onde tal não seja necessário (tratando-o como a nudez: se não oferece nada, não faz sentido) já faria algum sentido.

 

O fumo do tabaco é irritante e - para mim - detestável. Mas pertence à história da humanidade e é parte da cultura. Tentar bani-lo dos nossos filmes teria tanto sentido como lançar fumo para os olhos...

Harry Dean Stanton (2)

por jpt, em 17.09.17

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O homem morreu aos 91 e ainda assim deixou este "Lucky", feito este ano e nele focado. Sobre o filme, que fica obrigatório, deixo este texto.

 

E já agora, para mostrar como o homem chegou aos 90 anos ...

 

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Já foram há mais de um mês, mas talvez pelo facto da segunda volta ter coincidido com o grande incêndio de Pedrógão, passaram algo despercebidas entre nós. As eleições legislativas francesas quebraram o habitual panorama partidário, afundaram algumas das forças polí­ticas mais tradicionais e deram uma maioria legislativa ao novo presidente Emmanuel Macron e ao seu En Marche, que, recordemos, é um movimento centrista com pouco mais de um ano e de que até há pouco tempo se duvidava que fosse sequer apresentar-se às legislativas, dadas as dificuldades organizativas e em arranjar candidatos. Mas na senda da robusta vitória presidencial de Macron, o agora denominado Republique en Marche posicionou-se ao centro, baralhando os equilíbrios ideológicos, e pescou ao centro-esquerda e ao centro-direita, para além de ter recebido o apoio do MoDem de François Bayou, um experiente nestas lides que transporta consigo parte do legado da antiga UDF. Sem eleger a enormidade de deputados que se chegou a prever (algumas sondagens davam-lhe mais de 400), conseguiu ainda assim uma maioria absoluta de 350 lugares em 577. Depois do Eliseu, Macron ganhou o Palais Bourbon e pode seguir com o seu projecto para a França.
 
Quanto aos outros partidos, os Republicanos, depois da desilusão Fillon, aguentaram-se a custo com algumas pannes como segunda força parlamentar, com a tarefa de aguentarem o legado do mais forte -ismo francês do último meio século. A Frente Nacional confirmou a estagnação e não pode fazer muito mais que esperar o "quanto pior, melhor". Ainda assim, conseguiu oito lugares, quando antes tinha dois. Em idêntica posição está o movimento de Jean-Luc Mélenchon, que ainda conseguiu dezassete lugares concorrendo separadamente com os comunistas, seus tradicionais aliados. O velho PCF, que ganhou as primeiras eleições no pós-guerra, aguenta-se com dez deputados.
 
O grande derrotado na contenda é, tal como nas presindenciais, o PSF, que passou de primeira para quinta força parlamentar e que nem conseguiu eleger os seus principais dirigentes. Uma derrota estrondosa de um partido histórico que, tal como o PASOK grego, parece ir a caminho da irrelevância. O próprio Benôit Hamon, o candidato ofcial do partido às presidenciais, anunciou a sua saída para formar um novo movimento. Os desejos de Manuel Valls em enterrar o velho PS parecem estar a cumprir-se.
 
Para demonstrar como a velha ordem partidária se desmoronou, note-se que nos anos oitenta, o PS e o PCF,então coligados, tinham mais de 50% dos votos. Agora, em conjunto, não chegam aos 10%.
 
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Só que nem tudo são rosas para o governo literalmente presidido por Macron: logo depois destas eleições, e quando o governo tinha apenas um mês, quatro ministros foram demitidos por causa da velha questão de aproveitamento fraudulento de dinheiros europeus. Entre eles contava-se François Bayrou, então com a pasta da justiça, líder do MoDem e aliado preferencial do En Marche.
 
Uma nota curiosa para os cinéfilos: de fora da sangria ministerial ficou Nicolas Hulot, o carismático ministro do Ambiente e antigo apresentador do programa de televisão Ushuaia. Se o apelido parece familiar, não é por acaso: é que o avô de Nicolas, um arquitecto distraí­do que provavelmente fumava cachimbo e envergava sobretudo e chapéu, era vizinho do realizador Jacques Tati, que nele se inspirou para compôr e interpretar a famosa personagem Monsieur Hulot, o inesquecí­vel protagonista de Playtime, O Meu Tio e As Férias do sr. Hulot. Assim, o governo francês traz a memória de um dos monstros do cinema do Hexágono, e logo no campo da comédia. Sempre ajuda a aliviar futuras tensões governamentais, embora seja duvidoso que Macron se tenha lembrado desta.
 

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Não é exactamente inédito vermos o fantástico a desbravar os territórios sinuosos da depressão - leia-se, a título de exemplo, Low, a notável banda desenhada em curso de Rick Remender e Greg Tocchini. Nem mesmo a incursão pelo género kaiju/mecha, tão caro à ficção científica japonesa, é exactamente original como metáfora neste tema - recorde-se a brilhante e retorcida série Neon Genesis Evangelion, através da qual Hideaki Anno terá exorcisado os seus próprios demónios em meados dos anos 90. Ainda assim, existe algo de profundamente refrescante em Colossal, o mais recente filme do realizador e argumentista espanhol Nacho Vigalondo. Talvez isso se deva à magnífica Gloria de Anne Hathaway, obrigada pelo desemprego e pelo refúgio no álcool a abandonar a cosmopolita Nova Iorque e a regressar à vila esquecida da sua infância, onde descobre que o seu descontrolo pessoal tem a consequência improvável de materializar um kaiju gigantesco em Seoul. Ou talvez se deva ao guião coeso, a alternar com mestria a ligeireza e o absurdo da premissa fundametnal do filme com o lado mais soturno dos fantasmas que Gloria enfrenta, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. Ou talvez se deva à realização segura de Vigalondo, que num género com tendência para o som e para a fúria opta por um silêncio bem doseado e por uma sobriedade visual quase revolucionárias - sabe que é nas suas personagens, e não na pirotecnia, que reside o coração do filme, por mais fantásticos e colossais que sejam os monstros que projectam.

 

 

Ou talvez seja por tudo isto e por qualquer afinidade que cada espectador encontre com aquelas personagens, com os seus relacionamentos conturbados, com as situações que enfrentam, com as consequências imprevistas das suas acções e omissões. Pois por mais fantástica ou absurda que possa ser a premissa de Colossal, ela mais não é do que uma metáfora especialmente bem construída para uma ou outra situação que, cada um à sua maneira, todos acabamos por conhecer tão bem. 

 

(Colossal encontra-se actualmente em exibição numa mão-cheia de cinemas da grande Lisboa e do Porto)

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Irreverências

por João Pedro Pimenta, em 02.05.17

Passo na rua e reparo num cartaz, de cores e imagem gráfica fortes, anunciando nova edição do Desobedoc - Mostra de Cinema Insubmisso, um pequeno festival, ou uma mostra, como o título indica, patrocinada pelo Bloco de Esquerda. tudo ali nos remete para uma ideia de irreverência, de não acatamento das regras mais restritas, de resistência ao conformismo, ao status quo, à opinião dominante a que os cidadãos estão obrigados pelo modelo de sociedade opressiva em que vivemos.

 

Depois, por qualquer razão, fico a pensar em que ponto é que ficaram as propostas de criminalização do piropo e as acusações feitas pelo Bloco a Pedro Arroja e às suas declarações sobre as "esganiçadas", e a subsequente exigência de um pedido de desculpas à Porto Canal. Enfim, pensamentos que surgem do nada.

Importa é partir e não chegar

por Pedro Correia, em 21.04.17

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 Kim Novak em Vertigo (1958)

 

“Não podias gostar de mim? Apenas de mim, tal como sou?”, pergunta Kim Novak a James Stewart numa cena capital de Vertigo, sabendo que tem como séria concorrente uma hipotética dupla de si própria. Poucos filmes há como este, tão sulcado por vias sinuosas que acabam por desvendar o essencial da natureza humana, propensa a procurar o inalcançável.

O melhor cinema é sempre este – o que nos remete para o mais relevante da vida, por vezes à boleia de um desempenho inesperado. Kim Novak, que só obteve o papel de Judy devido à gravidez de Vera Miles, primeira actriz eleita por Alfred Hitchcock, confere um toque de fragilidade suplementar à personagem, perturbante aparição enquanto objecto de um desejo sempre por consumar. “Um dos melhores desempenhos femininos na Sétima Arte”, rendeu-se David Thomson. Um clássico é isto: uma obra que nunca cessa de nos interpelar.

Do fundo dos tempos continuará a soar-nos a dolorosa pergunta dela, ansiando por uma resposta que jamais virá. No cinema, como em qualquer viagem, o que importa é partir e não chegar.

 

Texto meu publicado no blogue Ordet, por amável convite do Carlos Natálio.

velocidade furiosa 8 (sem Marcelo e afins)

por Patrícia Reis, em 19.04.17

Fomos ao cinema, eram seis da tarde e fomos por ser um compromisso assumido, bilhetes comprados na véspera. Nada de pipocas para não perder a fome para o jantar (argumento do meu filho, eu comprei logo um gelado e uma garrafa de água). Sou uma devota dos filmes de mocinho, filmes de bang bang, filmes com espada e capa, filmes de pancada, com explosões e afins. Depois de sete filmes liderados pelo nunca demais elogiado Vin Diesel (Dom para os amigos), eis que estamos no pináculo da perfeição: carros na neve a deslizar perseguidos por um submarino enquanto no avião um mata todos e ainda leva uma criança sorridente na tal cadeira ovo do costume. Diz-me o meu filho: "A mensagem é sempre a mesma, não se brinca com a família, nada é mais importante." E fico a pensar naquilo e em como conseguiram montar a perseguição pelas ruas de Nova Iorque com carros sem motorista e carros a voar de prédios. Aguardo com impaciência o capítulo 9, o regresso de Cipher, a criança a crescer e, por favor, mais um pouco da maravilhosa Helen Mirren, sim? Muito agradecida.

Stalking espacial

por João André, em 15.04.17

Um aspecto menos chato de viagens longas é a oportunidade de me pôr (pelo menos um pouco) em dia com os filmes mais (ou menos) recentes. Nesta última viagem vi vários, um melhores que outros (gostei bastante de Arrival e The Girl on the Train). Aquele sobre o qual escreverei é no entanto um filme com vários lá dentro e todos eles falhados: Passengers.

 

Nesta altura não incomodarei com a história do filme: numa viagem interespacial de 120 anos com destino a um novo planeta a ser colonizado surge um problema e um dos passageiros é acordado a 90 anos da chegada. Passa uns tempos sozinho, sente-se só e decide acordar uma mulher por quem se apaixona ao ver os seus vídeos. Ela obviamente apaixona-se por ee até descobrir que ele a acordou para morrer no espaço sem nunca ver o destino. Depois acontecem as tragédias e eles acabam por superar as dificuldades e as próprias diferenças. Fim.

 

Acto I - despertar

Jim é um mecânico (o pod dele diz "engenheiro mecânico" mas depois ignora isso o resto do tempo) que é um passageiro a bordo da nave Avalon que vai a caminho de uma nova colónia espacial. Teoricamente deveria dormir, tal como os 4.999 outros passageiros e os 256 (ainda andamos nos tempos do ZX Spectrum, aparentemente) membros da tripulação. Toda a gente deveria acordar da viagem de 120 anos a 4 meses do destino para poder ser preparada para as sua novas funções na colónia.

 

Depois de um impacto com um campo de asteróides (que nos filmes conseguem estar sempre miraculosamente perto uns dos outros) há um problema com o pod de hibernação e Jim acorda. Depois de descobrir que está sozinho anda pela nave (que se torna essencialmente uma nave de cruzeiro para recreação pessoal) e acaba a ter conversas com o barman-andróide Arthur. Fica nisto um ano até que o desespero se instala e contempla o suicídio. Este período é obviamente interessante, mas demasiado curto e mal explorado. Jim experimenta tudo o que a nave tem para oferecer, tenta entrar na zona de hibernação da tripulação para os acordar (claro que falha) mas falta uma verdadeira fase de instrospecção. A sequência de entretenimento vai sendo marcada pelo crescimento capilar e acaba abruptamente na vontade de acabar com tudo. E o filme está a perder gás.

 

Acto II - a bela adormecida

Entra Jennifer Lawrence, a bela adormecida chamada Aurora. Jim vê-a no seu pod e vasculha os arquivos da nave para ver os seus vídeos de apresentação e ler os seus trabalhos (ela é escritora). Jim apaixona-se (obsessiona-se seria uma palavra mais adequada, mas fiquemos pelo seu próprio termo) e debate (com ele mesmo e com o barman) se a deve acordar. Obviamente que acaba por o fazer (seria um belo chachet para Lawrence se só dormisse) mas finge que não sabe de nada.

 

Depois de uma fase de desespero, Aurora parece adaptar-se bem à nova realidade. Vai "saindo" com Jim, cria uma ligação com ele (ajuda que ele seja Chris Pratt, Adam Driver talvez tivesse mais azar) e acaba por se apaixonar pelo "último homem na Terra" (na nave, mas não vamos ser esquisitos). Tudo corre muito bem até que Arthur, sem noção dos sagrados deveres de confidencialidade dos barmen, acaba por lhe dizer que foi Jim que a acordou. Ele explica que se apaixonou, que debateu sobre se a devia acordar e decidiu-se a fazê-lo.

 

Aqui temos um segundo filme depois d'O Último Homem na Terra: A Assediada. Aurora deveria ter medo de alguém que obviamente não bate bem, mas aparentemente só tem fúria. Se num primeiro momento isso é normal, depois o medo deveria instalar-se, especialmente quando ele continua a persegui-la através de câmaras e da instalação sonora da nave. Ela não lhe pode fugir mas parece que também o aceita. Tenta evitá-lo mas não se livra dele (mesmo quando tem essa oportunidade). Infelizmente esta fase é muito mal escrita. Lawrence dá tudo o que tem, e é muito, mas não tem nada de especial com que trabalhar. O filme está feito para termos pena do pobre Jim e tudo conspira para isso.

 

Acto III - tudo corre mal

Este é o problema de muitos filmes de ficção científica hoje em dia. Mesmo quando o filme é acerca de outros temas, há sempre imensas coisas que podem correr mal. Neste caso tudo. Primeiro vemos que há funções que começam a não funcionar. Mais tarde vemos um membro da tripulação (Laurence Fishburne) a acordar devido a outro defeito no pod (que jeito que dá que seja da tripulação quando há tantos passageiros que poderiam acordar).

 

Ele acorda, consegue entrar nas partes do navio onde eles não podiam, diagnostica os problemas e descobre que irão todos morrer se não resolverem o problema original e de imediato morre por complicações de ter dormido demasiado tempo e o pod não ter tido as preocupações necessárias ao acordá-lo (deveria ter lavado os dentes). Ou então era porque era preto e isso não pode ser.

 

Jim e Aurora aproveitam ter ficado com a bracelete de Fishburne (não me lembro se tinha nome) e começam a ir aos sítios a que não tinham acesso e acabam por, depois de uma longa sequência de-tudo-corre-mal, salvar a nave. Jim sacrifica-se para o fazer quando se lembra que existem ainda mais 4.998 passageiros e 255 membros da tripulação e Aurora fica acometida de síndrome de Estocolmo e salva-o.

 

Epílogo

Depois do salvamento, Jim descobre que pode colocar Aurora a hibernar mas ela decide que prefere passar o resto da vida com ele numa nave de luxo (afinal de contas, é Chris Pratt) e aceita a proposta de casamento de Jim (que pena não vermos o barman-Arthur a oficiar a cerimónia com os robtos de limpeza a levar a aliança). O final é com os restantes passageiros a acordar e descobrir que a nave foi transformada numa quinta, incluindo galinhas, e ouvimos a voz-off de Aurora a dizer... qualquer coisa de profundo e de enorme significado que encontraremos em 348 memes nos próximos 3 meses. Também vemos Andy Garcia durante 15 segundos (deve ter ido visitar um amigo ao set e acabou como extra).

 

Conclusão

Temos então o filme "Último Homem na Terra", o filme "Stalker" e o filme "Horror no Espaço" tudo com uma camada delicodoce de romance. Nenhum convence. É pena, porque os dois primeiros teriam sido extremamente interessantes (o último era dispensável). Mas entretém e tem Jennifer Lawrence e Chris Pratt. E assim acontece.

 

A Ciência

Bom, a ciência do filme. Não falo. Há demasiadas coisas simples mal feitas.

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Um olhar sobre a deriva feminina

por Teresa Ribeiro, em 20.02.17

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 Mulheres do Século XX 

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Justamente nomeada para os globos de ouro, em "Mulheres do século XX" , de Mike Mills (também autor do argumento), Annette Bening dá-nos um retrato pungente do desamparo feminino ao encarnar Dorothea Fields, uma mulher madura e emancipada, mãe de um adolescente que cresceu só com ela e que, como a maioria dos adolescentes, a subavalia com crueldade e ligeireza.

Trata-se de um drama familiar banal, já vimos centenas, se não milhares no celulóide, mas rodado com uma frescura surpreendente. Gosto das acelerações de imagens em cores psicadélicas de Mills, das narrativas na primeira pessoa dos protagonistas, das bios das diferentes personagens apresentadas em esboço e depois a encaixar como um puzzle na história que as juntou. Esta construção, nada naturalista, liberta-nos, pois evita que nos transportemos para dentro do filme.

Há filmes para ver e filmes para mergulhar. Este é dos que nos conservam à janela, simples voyeurs de vidas que de alguma forma já observámos a correr em pista, mesmo ao nosso lado.

Não sendo o filme do ano, "Mulheres do Século XX" (no original, "20th Century Women"), nomeado para os globos de ouro também na categoria de melhor filme de comédia ou musical e para os oscares na categoria de melhor argumento original,  é uma experiência que nos convoca a ternura e a ironia a propósito de um tema inesgotável, o das mulheres a abrir caminho num mundo que não foi feito à sua medida.

 

Realizador: Mike Mills

Actores: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig

EUA, 2016

Os críticos que odeiam cinema

por Pedro Correia, em 01.02.17

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 La La Land, de Damien Chazelle

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 Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan

 

Há um género de críticos de cinema imensamente elitistas que no limite adorariam não encontrar ninguém numa sala. Por isso desaconselham fortemente as pessoas a ver filmes.

Estes críticos são todos homens (questiono-me por que motivo, num tempo em que a igualdade de género e a paridade são bandeiras sempre desfraldadas, a crítica de cinema continua a ser uma coutada masculina). Só atribuem cinco estrelas a alguns filmes portugueses e franceses, imunes à menor contaminação do chamado cinema “comercial”. Se pressentem que as películas podem atrair público, ei-los a desancá-las com bolas pretas ou uma estrelinha (em cinco). Nos casos limite, nem sequer se dão ao incómodo de visualizá-las, o que constitui a mais aberrante demonstração de elitismo: já sabem que não gostam mesmo sem necessidade de ver.

Vem isto a propósito da classificação atribuída pelos críticos do jornal Público a dois excelentes filmes que vi nos últimos dias e vivamente recomendo aos meus leitores sem precisar do aval de crítico algum: Manchester by the Sea, de Kenneth Lonergan, e La La Land – Melodia de Amor, de Damien Chazelle. O primeiro é um fabuloso melodrama, o segundo é uma vibrante homenagem aos musicais da época áurea de Hollywood. Estão nomeados para as principais categorias dos Óscares: melhor filme, melhor realização, melhores interpretações. Ambos funcionam como demonstração viva de que a tão propalada crise do cinema não passa de um mito: a Sétima Arte está bem e recomenda-se.

Isto devia ser uma boa notícia para todos os amantes de filmes. Receio, no entanto, que os tais críticos elitistas não se incluam nesta categoria: porque eles não gostam de celebrar a festa do cinema nem de se misturar com o povoléu nos espaços comerciais onde se projectam filmes. Longa-metragem boa, para eles, é apenas a que afugenta os espectadores.

Críticos como os tais do Público, sobretudo dois deles: Luís M. Oliveira arrasa La La Land com uma estrela e não concede mais de duas a Manchester By the Sea. O seu colega Vasco Câmara vai ainda mais longe, atribuindo uma estrelinha a cada película. O que significa uma estrela? “Medíocre”, segundo a chave de leitura que o jornal fornece.

Pudessem eles vedar-nos a entrada nas salas de espectáculo e certamente não hesitariam. Sem pensarem sequer que, se o conselho deles fosse escutado, lá teriam de encontrar uma ocupação alternativa. Porque um mundo sem cinema seria um mundo que os excluiria. Sem distribuição cinematográfica, sem receita de bilheteira, com todas as salas encerradas por absoluta falta de espectadores, para que serviria um crítico?

 

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John Hurt (1940 - 2017)

por João Campos, em 28.01.17

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Conta a lenda de que a célebre chestburster scene foi filmada sem que o elenco soubesse de que a criatura alienígena iria explodir em sangue e entranhas do peito de John Hurt - ideia de Ridley Scott para obter do elenco de Alien uma reacção mais genuína. O resultado foi uma das mais icónicas cenas do cinema tanto de horror como de ficção científica - e uma que o próprio John Hurt parodiaria oito anos depois no Spaceballs do lendário Mel Brooks. Hurt foi o oprimido Winston em 1984, o revolucionário Gilliam em Snowpiercer e o tirano Sutler em V for Vendetta; foi o Elephant Man de David Lynch e o Professor Broom dos dois Hellboy de Guillermo Del Toro (duas adaptações de banda desenhada tristemente subvalorizadas e esquecidas). Entrou, entre muitos outros filmes e inúmeras séries televisivas, em Only Lovers Left AliveTinker Taylor Soldier SpyMelancholiaJackie (a estrear em breve), Dr. Who, Merlin e The Storyteller. Emprestou também a sua voz inconfundível à animação - foi, por exemplo, o Aragorn da adaptação animada de The Lord of the Rings realizada por Ralph Bakshi em 1978. Não havia - não há - muitos actores com o seu carisma. John Hurt morreu hoje, aos 77 anos. 

A elegância no ódio

por Diogo Noivo, em 23.01.17

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Pedantes, cultos, sagazes e penas magníficas. Vistos desta forma, William Buckley e Gore Vidal eram faces da mesma moeda. Talvez por isso não se pudessem ver. Vidal era o enfant terrible liberal, um transgressor por vocação, convicção e prazer. Buckley era o poster boy da intelectualidade conservadora, um provocador elegante que defendia a política como arena de debate ideológico. Dois génios em lados opostos da barricada.
Em 1968, durante a campanha presidencial nos Estados Unidos da América, a ABC tinha de encontrar uma forma de se manter à tona, de captar audiências, aproximando-se das líderes de mercado CBS e NBC. É neste contexto que alguém na ABC se lembra de criar um modelo de debate entre comentadores, um frente-a-frente, no qual Gore Vidal se sentaria de um lado e William Buckley do outro. E assim nasceu um dos episódios mais marcantes da História do audiovisual e assim se criou uma inimizade lendária.

 

 

Os debates foram animais da sua época, muito embora não sejam conversas datadas. Para o bem e para o mal. É curioso ver como temas quentes nos Estados Unidos no final da década de 1960 continuam hoje a ocupar um lugar de destaque na agenda política e social desse país - a tensão racial é um dos vários exemplos possíveis. Mais curioso ainda é perceber como os argumentos aduzidos pouco ou nada mudaram. O que sim mudou foi a tarimba e o flâneur dos intervenientes. Eloquentes, mordazes e incisivos, Vidal e Buckley foram peças únicas. Único foi também o incidente ocorrido no último debate, um excesso que cavou o abismo que já separava os dois. Não estragarei a surpresa aos que não conhecem o caso e querem ver Best of Enemies, o documentário onde esta relação entre titãs é descrita e analisada.
Se há algo a retirar de Best of Enemies é que a inimizade, tal como o seu antónimo, exige uma atenção total e esmerada. Vidal era um cultor da língua, mas também do ódio. Mais do que um sentimento, o ódio era um compromisso tratado com tamanha elegância que quase foi elevado à categoria de virtude. Buckley era mais provocador do que amante de ódios, mas não deixou Vidal a detestar sozinho.
É verdade que o documentário tem falhas, algumas das quais analisadas com exagero (e talvez com algum ressabiamento) por Michael Lind no Politico, mas nem por isso é menos interessante. Narrado por John Litgow e por Kelsey Grammer, o documentário Best of Enemies prova que intelectuais públicos dignos desse nome não são matéria do domínio da ficção. Estreado em 2015 no Sundance Film Festival, Best of Enemies está disponível no Netflix.

Trinta filmes da minha vida

por Pedro Correia, em 24.11.16

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A Desaparecida (John Ford, 1956)

O melhor western de todos os tempos - obra-prima absoluta. Um filme sobre um amor impossível, um filme sobre o inapelável peso da solidão.

 

A Sombra do Caçador (Charles Laughton, 1955)

Longa toada nocturna, mais poesia que prosa, cruzamento do expressionismo alemão com cinema negro, de conto de fadas com romance gótico.

 

A Troca (Clint Eastwood, 2008)

O olhar, as dúvidas, a angústia, a contenção, a febre, as palavras e o silêncio de uma mulher confrontada com o pior dos cenários: o rapto de um filho.

 

Aniki-Bóbó (Manoel de Oliveira, 1942)

Não me lembro de outro filme produzido antes deste, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível.

 

Antes que o Diabo Saiba que Morreste (Sidney Lumet, 2007)

A diluição da cronologia faz aqui todo o sentido - para vincar que todos somos prisioneiros do passado e que este por sua vez condiciona as nossas acções futuras.

 

As Vinhas da Ira (John Ford, 1940)

A saga de Tom Joad ganha asas, transcende o contexto histórico em que se situa, adquire um simbolismo universal que supera qualquer rótulo.

 

Birdman (Alejandro González Iñárritu, 2014)

Fabulosa descida aos bastidores do mundo do espectáculo -- cruzando teatro com cinema, talento artístico com sucesso de bilheteira, actores de carne e osso com a sua fantasiosa projecção no ecrã.

 

Boneca de Luxo (Blake Edwards, 1961)

Onde quer que vamos, a voz de Audrey Hepburn acompanha-nos. E se ela nos disser que existem rios na lua, nem por um instante somos capazes de duvidar.

 

Casablanca (Michael Curtiz, 1942)

Se algo sobrevive ao malogrado romance entre Rick e Ilsa Lund (deslumbrante Ingrid Bergman) é precisamente a batalha decisiva em que ambos apostam, também em nome do amor – neste caso, do amor à liberdade.

 

E Tudo o Vento Levou (Victor Fleming, 1939)

Se compararmos o cinema às grandes criações literárias, a Scarlett de celulóide equivale a uma das grandes personagens romanescas de que há memória.

 

Esplendor na Relva (Elia Kazan, 1961)

Há no olhar pungente de Deannie (Natalie Wood), nessa cena crepuscular, toda uma gama de emoções que daria para encher uma biblioteca inteira.

 

Indomável (Ethan Coen e Joel Coen, 2010)

Uma película que nos transporta a uma época de pioneiros e nos devolve as linhas divisórias entre o bem e o mal. Saímos do cinema com a convicção antecipada de que um dia regressaremos a ela, tocados de nostalgia.

 

Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954)

O prodígio de Hitchcock nesta sua obra-prima é transformar quase toda a acção física em mera acção visual.

 

Laura (Otto Preminger, 1944)

Um insólito clima de necrofilia percorre este filme – obra-prima do noir, o género cinematográfico que melhor desvenda a alma humana.

 

Lawrence da Arábia (David Lean, 1962)

Nenhum filme é confundível com este porque a personagem central aqui é o deserto e a magia que dele emana vai-nos guiando de cena em cena ao som da hipnótica partitura de Maurice Jarre.

 

Lilith (Robert Rossen, 1964)

"A felicidade torna-nos descuidados", adverte um doente, com mais sabedoria do que todos os médicos. Completa-se o ciclo: a voz da loucura pode tornar-se a voz da razão.

 

Lost in Translation (Sofia Coppola, 2003)

Alguns filmes reconciliam-nos com o cinema. Outros reconciliam-nos com a vida. Mais raros ainda são os que nos reconciliam simultaneamente com a vida e o cinema enquanto o tempo passa.

 

Mary Poppins (Robert Stevenson, 1964)

Comovo-me quando ouço Chim Chim Cheree, divirto-me com aquele delirante chá tomado com as personagens coladas ao tecto, ainda acho possível que uma nanny inglesa cruze os céus de Londres a flutuar num guarda-chuva.

 

Nebraska (Alexander Payne, 2013)

Este arrebatador road movie não seria tão deslumbrante sem a interpretação excepcional de Bruce Dern, sobrevivente -- na tela e fora dela -- de uma época que se tornou mítica.

 

Nove (Rob Marshall, 2009)

A homenagem à Sétima Arte, que Nove também é, culmina com a entrada em cena de Sophia Loren, a melhor ponte entre duas cinematografias de excepção – a italiana e a norte-americana – e várias gerações de intérpretes.

 

O Caçador (Michael Cimino, 1978)

Começa com um casamento e termina com um funeral - duas faces do mesmo espelho. Mas não nos fala de uma América crepuscular: fala-nos de uma América capaz de ressurgir com maior vigor de cada desaire da História.

 

O Desconhecido do Norte-Expresso (Alfred Hitchcock, 1951)

Pode o crime perfeito resultar de duas motivações cruzadas, como se os assassinos trocassem de identidade e mudassem de pele?

 

O Segredo dos Seus Olhos (Juan José Campanella, 2009)

Por vezes só um desencontro permite reencontrar-nos connosco próprios. E decifrar todos os enigmas, não da tela mas da vida. Vendo uma velha fotografia, desvendando o véu da esfinge que se abriga na memória de um olhar.

 

O Padrinho (Francis Ford Coppola, 1972)

Aquela que deveria ser uma rotineira e banal fita de gangsters eleva-se ao estatuto reservado às óperas de Verdi graças a um jovem cineasta.

 

Os Inadaptados (William Wyler, 1961)

Esta película onde não morre ninguém é afinal uma película sobre a morte - uma das mais pungentes de que há memória.

 

Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963)

Era um cinema feito na rua, que recusava o estúdio, também por inspiração italiana - e este filme, que constitui uma declaração de amor a Lisboa, acaba por ter portanto as rugas que a própria cidade ostenta.

 

Quando a Cidade Dorme (John Huston, 1950)

A originalidade desta película, mil vez imitada, é construir-se por inteiro sob a óptica dos ladrões - nunca dos polícias ou de algum detective cínico mas respeitador da lei.

 

Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976)

Nunca Nova Iorque pareceu tão irreal como neste filme só aparentemente realista: porque afinal a vemos sempre pelo olhar desfocado deste ex-fuzileiro de 26 anos que guia sem destino.

 

Viagem a Itália (Roberto Rossellini, 1953)

Nas ruínas de Pompeia ambos caminham sempre separados, sem o mínimo contacto físico, ao encontro dos ossos calcinados de um par surpreendido num abraço eterno, dois mil anos antes, pela lava do Vesúvio.

 

00.30, Hora Negra (Kathryn Bigelow, 2012)

Há filmes assim. Mal acabamos de os ver, sabemos logo que estamos perante uma obra a que um dia chamarão clássico.

 

"Arrival", ou os novos encontros imediatos

por João Campos, em 17.11.16

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Numa época de aridez criativa mal disfarçada pelo frenesim narrativo, pela pirotecnia computorizada, e pela insistência na franchise que tomou conta das grandes produções de Hollywood, um filme como Arrival é mais do que refrescante - é insólido quase ao ponto do absurdo. Não encontramos, neste blockbuster do canadiano Denis Villeneuve (Sicario) que adapta para o cinema o magnífico conto Story of Your Life do norte-americano Ted Chiang, qualquer vestígio dos elementos que as produções deste tipo têm banalizado com insistência. Toda a acção do filme consiste, justamente, em evitar a acção (ao estilo de Hollywood, entenda-se); ao longo das suas quase duas horas não temos uma única perseguição, o único tiroteio que tem lugar decorre fora da tela, e ao invés de procurarem vencer a guerra pelo combate, os protagonistas esforçam-se por não travar de todo essa guerra.

 

O que, convenhamos, é raro num filme cuja premissa assenta na noção de "primeiro contacto", quando doze naves alienígenas monolíticas aterram no nosso planeta e fazem o mundo mergulhar no caos apenas e só pela sua presença. 

 

Ao invés de resolver a questão pela habitual via bélica, as autoridades dos vários países "visitados" optam, num primeiro momento, por tentar estabelecer contacto por outras vias. É aqui que surge a protagonista, num desempenho notável de Amy Adams: Louise Banks, linguista de renome, a quem o Exército norte-americano confia a liderança de uma equipa que consiga encontrar uma forma de comunicar com os alienígenas para compreender as suas intenções. A partir daqui, Arrival desenrola-se em simultâneo pelo drama pessoal de Louise e a tragédia que marca a sua vida, e pelo drama linguístico que os alienígenas colocam. Longe estão os territórios simplistas e batidos dos Star Wars a que nos acostumámos no cinema, em que o inglês se tornou na língua franca da galáxia: Arrival renuncia a esse legado para demonstrar não a impossibilidade mas a improbabilidade da comunicação com uma civilização extra-terrestre. Nesse sentido, estamos mais perto de um Close Encounters of the Third Kind de Spielberg ou mesmo de um Solaris de Tarkovsky; e, tal como nestes dois filmes (e em boa parte da ficção científica deste género), em Arrival aquilo que está verdadeiramente em causa não é tanto a chegada dos alienígenas como o impacto que essa chegada tem na vida das personagens que estamos a acompanhar. O resultado, esse, dificilmente poderia ser melhor.

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Papéis inesquecíveis quase esquecidos (6)

por José António Abreu, em 12.11.16

 

Tatum O'Neal, em Paper Moon (Lua de Papel, 1973).

 

Paper Moon, de Peter Bogdanovich, é uma revisitação dos Estados Unidos da época da Grande Depressão, baseada no último livro do escritor e jornalista Joe David Brown. Passado entre grandes espaços (frequentemente no interior de um veículo descapotável), e pequenas cidades, filmado a preto e branco (com filtros vermelhos ou verdes em frente à objectiva, de modo a gerir o contraste), e sempre com elevada profundidade de campo, o filme abre com um funeral. No pequeno grupo de pessoas que ladeia a campa, encontra-se uma rapariga de oito ou nove anos. Subitamente, aproxima-se um carro barulhento. Dele sai um indivíduo que se junta ao enterro. Moses Pray (Ryan O'Neal, protagonista de filmes como Love Story, Barry LyndonThe Driver), diz-se amigo da falecida mãe da rapariga. Ao mencionar que vai para St. Louis, os presentes propõem-lhe que leve a miúda, Addie Loggins, até casa de uns tios, únicos familiares conhecidos, situada em St. Paul, a curta distância de St. Louis. Após alguma resistência, Moses acaba por aceitar.

Addie (Tatum O'Neal, no seu primeiro desempenho) rapidamente percebe que na base da disponibilidade de Moses não se encontram noções de solidariedade mas um plano para extorquir dinheiro à família de um ex-amante da mãe, responsável pelo acidente de automóvel em que ela faleceu. Com uma segurança fenomenal, troca-lhe as voltas, impedindo-o de a despachar (sozinha, de comboio) para casa dos tios e forçando-o a incluí-la nas pequenas vigarices com que vai sobrevivendo. (A favorita: entregar a viúvas bíblias pretensamente encomendadas - mas ainda não pagas - pelos falecidos maridos.) Progressivamente, a situação complica-se e a polícia acaba atrás deles.

 

O filme nunca esclarece se entre Addie e Moses existem laços familiares. Ela desconfia que sim e pergunta-lhe logo de início se é o pai dela. A resposta vem negativa, mas sabemos desde cedo - como Addie também sabe - que ele mente com naturalidade. Mente tanto que poderá até estar a mentir sobre o nome, tão adequado a um vendedor de bíblias: «Moses», de Moisés, e «Pray», de rezar. Na verdade, o nome constitui todo um tratado de ironia. Estamos perante um Moisés muito fraco, péssimo enquanto guia (físico ou espiritual), raramente disponível para ouvir a voz da razão, e que pura e simplesmente não reza. Foneticamente, «Pray» também pode ser «presa», uma designação muito mais apropriada à personagem. Igualmente irónico - numa forma, digamos, metacinematográfica - é o facto dos actores serem mesmo pai e filha, e de existirem indícios de que Ryan não terá sido o que se classificaria de pai ideal.

Em 1974, Tatum O'Neal até venceu o Óscar de melhor actriz secundária pelo seu desempenho em Paper Moon (como noutros casos, o papel é claramente principal) mas acabou tendo uma carreira cinematográfica discreta. Hoje, será mais conhecida por acontecimentos ligados à sua vida privada: Michael Jackson nomeou-a como primeira paixão; foi detida por posse de droga; casou com o tenista John McEnroe em 1986 e, na sequência do divórcio, ocorrido em 1994, manteve com ele uma batalha feroz pela custódia dos 3 filhos (devido aos problemas de O'Neal com a droga, McEnroe conseguiu-a em 1998); lançou uma autobiografia (A Paper Life, 2005), polémica por nela descrever como viveu desde criança rodeada por drogas (num paralelo perturbador, em 1970 a mãe perdera a custódia de Tatum e do irmão Griffin precisamente por causa delas), como foi abusada aos 12 anos pelo dealer que as vendia ao pai, e como este constituiu sempre uma presença distante, mesmo nas ocasiões em que se encontrava fisicamente por perto. A relação de Tatum com o pai é difícil até hoje e ela deixa claro em entrevistas que ele não a tratava como uma criança deve ser tratada. Um exemplo menor, quase anedótico: quando Ryan participou em Barry Lyndon, forçou-a a ver todos os filmes anteriores de Kubrick (ela tinha pouco mais de dez anos). Outro: Ryan esteve ausente na cerimónia de entrega dos Óscares (que diabos tinhas vestido, miúda?), alegadamente irritado por a filha ter sido nomeada e ele não.

Um palavra também sobre Bogdanovich. Fez parte de uma geração de realizadores que despontava no início da década de 70 e vinha altamente influenciada por todo o cinema que acontecera antes. Incluía pessoas como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Michael Cimino, Francis Ford Coppola e William Friedkin(*). Todos eles marcaram a época e o cinema, mas vários acabaram por ter carreiras irregulares. Bogdanovich nunca mais atingiu o nível dos seus três primeiros filmes: este Paper Moon, de 1973, e os anteriores The Last Picture Show, de 1971 (com uns muito novos Jeff Bridges, Cybill Sheperd e Cloris Leachman) e What's Up, Doc?, de 1972, que (tanto quanto recordo, dado não o ver há uma eternidade) conseguia tornar Barbra Streisand suportável. (As minhas desculpas à verdade histórica, se por acaso a minha memória se adocicou com o tempo, e aos fãs da senhora, em qualquer circunstância.)

 

Apesar da situação em que Addie se encontra, Paper Moon não é sentimentalista. Pelo contrário, todo o filme é perpassado por uma recusa em vitimizar Addie. A Grande Depressão fizera os tempos difíceis para quase toda a gente. Outras crianças haviam perdido os pais ou, mantendo-os, sofriam maiores dificuldades. A própria Addie tem consciência disto. Sabe que, em termos puramente materiais, não se está a sair mal. Chega mesmo a propor-se ajudar pessoas em pior situação - enquanto simultaneamente cobra mais pelas bíblias àquelas que lhe parecem estar bem na vida (Moses detesta ambas as ideias, no primeiro caso por não querer dispensar dinheiro, no segundo por recear que o excesso de ganância faça com que sejam apanhados - e também por a ideia não ter sido dele). Esta falta de sentimentalismo estende-se a várias cenas politicamente incorrectas: a polícia dispara sem pejo sobre um veículo onde se encontra uma criança, Addie fuma (é verdade que, de início, contra a vontade de Moses) e viaja nos automóveis de um modo que só pode causar desconforto nestes tempos de cadeirinhas obrigatórias e sistemas Isofix. Ainda que também sirvam propósitos de comédia (mas a comédia é uma recusa do sentimentalismo), estas cenas contribuem para situar a acção numa época e para deixar no espectador uma imagem indelével de Addie Loggins. De certo modo, Addie (esplêndida Tatum O'Neal ainda com tudo pela frente) poderia ser uma personagem de Dickens: agreste, voluntariosa, manipuladora, sincera, indomável, carente. Uma criança orfã a fingir de adulto em tempo de dificuldades.

 

Uma das cenas mais difíceis de rodar. Filmada em contínuo numa estrada deserta, bastava um erro no diálogo para ter de voltar-se ao início.

 

_________

(*) Os dois últimos foram produtores executivos de Paper Moon.


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