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Uma boa notícia, para variar

por João André, em 13.02.14

A fusão nuclear começa a descobrir os caminhos para ser sustentável. Ainda há uma enorme distância pela frente, mas o futuro é mais risonho que há um par de anos.

Passos Coelho: Mentiroso compulsivo

por João André, em 05.02.14

Evolução das bolsas de doutoramento em Portugal. Tirado daqui.

 

 

Evolução dos artigos publicados em Portugal. Tirado daqui. Encontrado aqui.

 

E faltava de facto o momento em que ele tinha que vir mentir. Não se trata de spin, não se trata de pintar a realidade, não se trata de apresentar uma realidade imaginada que se espera venha um dia a ser melhor que a realidade real. Trata-se de mentir.

 

Entre 1998 e 2012, a produção científica portuguesa, em termos de artigos publicados, triplicou. O número de bolsas (de doutoramento) em 1998 era de 763 e em 2012 de 1198. Um aumento de 57%. O pico de bolsas foi em 2007, com 2030 bolsas (aumento de 166% em relação a 1998). Ou seja, no período de 1998-2012, a produção científica triplicou. A atribuição de bolsas aumentou, no máximo, 2 vezes e meia. Não me parece nada mau resultado.

 

É verdade que Portugal continua atrás dos outros países «com que gostamos de nos comparar» (podem ser escolhidos a dedo, claro, mas aceitemos que estamos atrás de uma Grécia, por exemplo), mas isso não significa que a política falhou: antes pelo contrário, significa que ainda não se avançou o suficiente.

 

Note-se: eu não discuto neste post os méritos do financiamento público vs financiamento privado. Quem quiser defender que o privado seria mais eficaz pode fazê-lo. Passos Coelho poderia fazê-lo. Mas não, antes preferiu mentir com quantos dentes tem e dizer que mais financiamento não resultou em mais publicações. É mentira pura e dura. Não é política, é mentira.

 

Já o sabíamos: Passos Coelho é um mentiroso compulsivo além de ser um fanático ideológico sem qualquer ligação com o mundo real (além de ter na minha opinião um enorme défice intelectual). Esta história prova-o. Numa sociedade normal ele não só já não seria primeiro-ministro como nem sequer receberia um emprego como varredor de ruas. O pior insulto que faz aos investigadores portugueses, no entanto, é mesmo o facto de ter uma palavra a dizer no futuro deles.

 

A opinião de um especialista em física aplicada sobre as declarações de Pires de Lima.

 

Os cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento são sobejamente conhecidas e qualquer pessoa com um mínimo de lucidez reconhece o retrocesso que representam na busca de uma política moderna de conhecimento. Não vou entrar por aí nem pela questão de mais uma fuga de cérebros porque são assuntos óbvios e fáceis.

 

Prefiro referir as declarações inacreditavelmente ignorantes (ou outra coisa bem pior se não foram motivadas por ignorância) de Pires de Lima, o ministro da Economia. O essencial das suas declarações focava o facto de as bolsas não chegarem «à economia real». Apontar a Pires de Lima que o conhecimento nunca é mau e que se gera a si mesmo; que muitas descobertas científicas só têm aplicação prática muito mais tarde; que a aplicação de conhecimento em forma de resultados económicos é normalmente resultado de um processo cumulativo dedicado a gerar uma massa crítica; apontar todos estes aspectos é, penso eu, falar para a parede. Ou Pires de Lima não o compreende ou não quer compreender.

 

Há no entanto dois aspectos, muito práticos, que Pires de Lima deveria tentar perceber. O primeiro prende-se com os critérios de atribuição de bolsas a projectos, o segundo com os modelos de investigação em universidades e institutos.

 

1 - Quando se elabora um projecto de investigação é frequentemente necessário ver em que chamada se enquadra. Há chamadas dedicadas à ciência fundamental e chamadas dedicadas à ciência aplicada. As primeiras ajudam cientistas a descobrir pormenores sobre o efeito fotoeléctrico ou novas reacções químicas. As segundas usam as descobertas das primeiras para produzir melhores sensores ou novos materiais. Isto só falando das ciências naturais e engenharias (por desconhecimento evito outras ciências). Como se pode ver, é necessário gerar conhecimento fundamental para haver quem pense em como aplicar esse conhecimento. Os cientistas brilhantes capazes de fazer ambos num único passo pertencem ao domínio do cinema. Relembro que o cientista mais celebrado da história humana - Einstein, pois claro - nada fez no lado da aplicação, mas que as suas descobertas levaram a muitas aplicações que geram biliões à economia mundial.

 

Um outro aspecto a saber em relação às chamadas - e que descobri quando elaborei as minhas - é que muitas vezes o financiamento, mesmo quando para projectos que contem com empresas, não é atribuído se a entidade financiadora chegar à conclusão que o projecto não envolve risco e que as empresas o podem desenvolver independentemente. Ou seja, se uma empresa considera que pode pagar os custos do projecto e que os resultados são relativamente certos (há já muito boas indicações que a ideia funcionará), o projecto não será financiado. Não é função das entidades financiadoras (nacionais ou europeias) dar dinheiro que as empresas estão dispostas a pagar.

 

Ou seja, se o Estado (ou a UE, ou outro) não financiar certos projectos com um certo grau de risco, não serão as empresas a compensar esse financiamento. Como a maioria dos projectos já levam tal raciocínio em conta, resulta daqui que a esmagadora maioria dos projectos nunca começará porque ninguém os financiará.

 

2 - No passado, a Alemanha teve um modelo interessante de financiamento das suas universidades (especialmente as técnicas que, mais uma vez, conheço melhor). Além de terem criado 3 institutos de investigação com pólos por todo o país (Max Planck, investigação fundamental; Fraunhofer, aplicada; e Leibnitz, algures a meio) também criaram vários tipos de financiamentos para projectos científicos a nível estatal e nacional. As universidades têm portanto muito por onde escolher. Só que as universidades tinham uma outra fonte: as empresas. E como funciona(va) esta hipótese? Muito simplesmente as empresas decidiam desenvolver um novo produto, processo ou ideia e, em vez de encherem a empresa de investigadores que noutros períodos pouco teriam para fazer, dariam o dinheiro previsto no orçamento a uma universidade que faria a investigação. No final a empresa teria uma resposta e a universidade teria mais um doutorado (ou o doutorando teria mais um tema para a tese).

 

O problema é que as universidades começam cada vez mais a adoptar o modelo americano, o qual dá um peso enorme aos artigos publicados por peer-review. Nada tenho contra o sistema, que é a base da ciência moderna e serve simultaneamente de filtro de qualidade e de disseminação de informação. Para lá dos problemas que a internet e a pressão de publicar está a trazer a esse sistema (qualidade, preços, liberdade de informação, etc), também começa a destruir esse sistema de investigação aplicada que era patrocinado pelas empresas. As universidades têm como objectivo lógico a publicação (quanto mais artigos, melhores os resultados) e as empresas querem manter o segredo do que fazem. Disto resulta um conflito dificilmente sanável (que prejudica inclusivamente os trabalhos de mestrado em empresas, as quais exigem cláusulas de confidencialidade extremamente rigorosas) e que reduz substancialmente os incentivos das empresas para trabalharem com universidades.

 

Num exemplo muito simples, a Galp poderia não entrar num projecto juntamente com o Instituto Superior Técnico para desenvolver um aditivo para gasolina porque o IST quereria publicar os resultados e a Galp quereria mantê-los secretos. Numa empresa grande, isto não será necessariamente um problema (têm investigadores próprios), mas para muitas empresas pequenas isto pode ser uma catástrofe.

 

Conclusão: a esperada. Reduzir (especialmente desta forma) o financiamento da investigação científica em Portugal é um desastre. É-o sob muitos aspectos que vão desde a geração do conhecimento "for knowledge sake" à aplicação do mesmo como resultado de uma massa crítica no fim de um processo cumulativo. Mas é-o também por uma questão prática, porque a «economia real» não terá incentivos (especialmente em períodos de crise) para compensar essa redução. Em termos práticos, teremos um país menos inteligente, mais ignorante e com piores perspectivas de futuro (são jovens que se vão embora). Mais medieval, portanto. Como a cabeça de Pires de Lima.

Nas últimas duas décadas, a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), entidade pública financiada pelo Governo português e por fundos europeus, tem feito um esforço notável de promoção da investigação em Portugal, através da concessão de bolsas individuais, projectos de investigação, centros científicos, etc. O número de Doutorados em Portugal cresceu exponencialmente, aproximando-se dos números europeus. Nos últimos dois anos, a contenção orçamental obrigou a uma compreensível estagnação nos fundos alocados, mas permitindo ainda assim a continuação de uma aposta clara na ciência num país quase analfabeto. 

 

Tudo isto desabou nos últimos dias. A atribuição de bolsas individuais levou a cortes escandalosos e inexplicáveis. Bolsas de Doutoramento, durante anos atribuídas a mais de 1500 investigadores, desceram para 729 este ano (já incluindo os novos "Doutoramentos FCT"). E as bolsas de pós-doutoramento, estabilizadas em 700 por ano desde 2007, desceram para 238 este ano. O que projectam estes números? Que estratégia encerram? Que futuro permitem adivinhar?

 

Pires de Lima explica: "não é possível alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real"Estas declarações são todo um programa. Visam estabelecer uma dicotomia entre "fazer" e "pensar", dividir o mundo entre quem "produz" e quem "reflecte", quem "faz avançar" e quem "assiste", quem "empreende" e quem "se resigna", quem "cria" e quem "observa". Ficou por dizer que os investigadores não-produtivos (ou seja, todos os que trabalham nas ciências humanas e sociais e boa parte das ciências exactas teóricas) são uns preguiçosos, apreciadores do sofá. Mas lá chegaremos. 

 

Em 1822, há quase duzentos anos, escreveu James Madison, 4º Presidente dos EUA: "Um governo popular, sem informação popular, ou os meios para adquiri-la, não é senão um prólogo a uma farsa ou uma tragédia, ou talvez a ambas. O conhecimento governará para sempre a ignorância; um povo que deseje ser o seu próprio governante terá que se dotar do poder que o conhecimento oferece". Há dois séculos que os EUA têm sido campeões na promoção da ciência, com os resultados que se conhece. Neste cantinho à beira-mar plantado, regressámos à separação entre "ciência" e "vida real", a uma distorcida e divisão entre o "conforto" do mundo da investigação por contraste com a "dureza" do mundo empresarial. Eis um modelo do agir e do pensar nos antípodas dos ganhos civilizacionais, culturais e científicos conquistados nos últimos três séculos. Como é que chegámos a isto, a este triunfo da ignorância, à celebração do mais rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político?

 

Disclaimer: não fui afectado por nenhum destes concursos; usufruo de uma bolsa de pós-doutoramento desde 2010, cuja continuidade nada tem que ver com estes concursos.

Saquem das camisolas de lã que afinal os cientistas estão todos errados e não há aquecimento global mas sim um arrefecimento global como prova o aumento do gelo do Ártico.

 

Certo? Bom, nem por isso. Vou tentar ser um pouco metódico e explicar algo que muitas vezes escapa no meio do ruído: as tendências climáticas não são feitas ano a ano. Especialmente por variarem com a estação, as comparações devem ser feitas ao longo de vários anos, preferencialmente décadas e idealmente séculos. É nessas escalas de tempo que os climatologistas se movem. Os meteorologistas (notaram a diferença nos termos?) podem falar em mudanças de climas em termos de horas, dias ou semanas, mas para os climatologistas, se a temperatura for de 35 graus hoje e 12 graus dentro de um ano, eles nem piscam os olhos. É como comparar a vida de um elefante com a de um mosquito.

 

Há no entanto mais questões a considerar. Parece que o aquecimento está a abrandar. Isso em si seria uma boa notícia. Repito para que fique claro: eu, que concordo com a existência de um aumento global das temperaturas no planeta e que concordo que tem origem antropogénica, ficaria muito feliz por estar errado. Eu e a esmagadora maioria dos cientistas que concordam com esta tese (e com muito melhores argumentos). Esses cientistas, na ausência de financiamento para estudar o aquecimento global, teriam financiamento para estudar outros fenómenos. O dinheiro não desaparece e ainda há muito para compreender no clima.

 

Ainda assim, vou abordar os pontos em questão. Primeiro ponto, o "aumento" do gelo no Ártico. Primeiro que nada, como se refere neste artigo, a "recuperação" do gelo é relativa. Há mais área gelada que no ano passado, mas ainda é muito pouco gelo. Por outro lado há a questão da espessura: sabemos que se houver menos área, teremos quase de certeza menos volume de gelo. Se a área aumentar, isso não significa que o gelo seja espesso, pelo que o volume total de gelo pode ser reduzido. Não há ainda evidências numa ou noutra direcção, mas serve para arrefecer ânimos (bad pun alert). Resumindo: há mais gelo que no ano passado mas ainda é muito pouco. Há mais área com gelo, mas não temos dados sobre o volume. Conclusão científica? Nenhuma: teremos que esperar mais uns anos.

 

Temos agora a questão do abrandamento do aquecimento. Os cientistas não sabem por que razão o aquecimento está a abrandar, mas isso não é o mesmo que dizer que não vão estudar as hipóteses que estão a formular. Os cientistas, por natureza, não dão opiniões profissionais sem terem uma boa noção daquilo que vão dizer. Nisto diferem dos opinadores profissionais e amadores, que dão opiniões opostas em dias consecutivos porque são pagos (ou não) para darem opiniões de forma interessante, não pela qualidade ou exactidão das mesmas. É por isso que os cientistas não se excitam quando começam a ver os sinais de aquecimento global (já têm décadas) e não se excitam quando este começa a abrandar. São apenas novos dados para tentar estudar o que se passa.

 

O que se poderá então estar a passar? Não sou climatologista, apenas um engenheiro químico, mas poderei avançar algumas hipóteses:

1. Ciclos solares: são ainda mal entendidos e o actual ciclo solar poderá corresponder a uma diminuição da energia que o Sol envia para a Terra. As temperaturas poderão descer. Isso poderá também significar que o efeito do CO2 antropogénico é menor que o previsto.

2. Oceanos: caso nos estejamos a esquecer, os oceanos cobrem cerca de 70% da superfície da Terra. Aliás o planeta poderia muito bem chamar-se "Água" (como refere Bill Bryson). Estes, especialmente devido às propriedades termodinâmicas da água (não vos vou aborrecer com isso) e à influência da vida, poderão estar a absorver o CO2 ou simplesmente a absorver o excesso de calor (são como um reservatório de frio, se quisermos). A sua influência não tinha sido correctamente descrita em modelos anteriores e por isso as previsões podem falhar.

3. Evaporação e degelo: mais uma vez devido à termodinâmica, quando uma substância derrete ou evapora, precisa de uma determinada quantidade de calor (pensem na acetona a arrefecer a mão enquanto evapora). Esta contribuição pode não ter sido levada em conta. Por outro lado, uma das consequências do aquecimento são as alterações climáticas, as quais podem estar a levar à presença de mais nuvens. Ainda que o vapor de água também tenha um forte efeito de estufa (é uma das teorias que explicam Vénus), o início poderá ser visto mais como um para-sol gigante que aumenta a área de sombra.

4. Partículas na atmosfera: os vulcões que entraram em erupção nos últimos anos enviaram partículas para a atmosfera que reflectem raios solares para o espaço. Por outro lado, as necessidades energéticas de algumas nações têm sido resolvidas com centrais termo-eléctricas, as quais poderão não ter filtros para captação de partículas resultantes da combustão. Apesar de enviarem muito CO2 para a atmosfera, estas centrais iriam no curto-prazo provocar poluição atmosférica que reduziria a temperatura (tal como nos anos 70-90, antes de se tomarem medidas contra essas partículas que, por exemplo, também provocavam chuvas ácidas).

5. Outros: como disse, não sou climatologista e não conheço os cenários todos. Gente muitíssimo mais capaz que eu poderá propor outras hipóteses, provavelmente mais realistas.

6. Os modelos estão errados e teremos vivido apenas um ciclo de aquecimento que nenhuma influência humana teve. Seria mau para a ciência, mas bom para a humanidade. Eu ficaria feliz por isso.

 

Haveria mais coisas sobre as quais eu poderia escrever, como a diferença entre temperaturas médias e temperaturas máximas ou mínimas, aquecimento global vs alterações climáticas, capacitância de um sistema, química da molécula de CO2, etc. Creio, no entanto, que já chateei o suficiente quem quer que tenha lido tudo. Fico-me por aqui. Deixo apenas o esclarecimento: quaisquer erros e barbaridades científicas que estejam aí para cima são da minha autoria. Nao levem as minhas opiniões como as da comunidade científica. Trata-se de gente geralmente respeitável e que dá o seu melhor sem excessivos preconceitos. Não merecerão ser colocados no mesmo cesto que eu.

Subsídios para call-centers

por João André, em 24.06.13

Leio no Público (via der Terrorist) que Nuno Crato está a pensar em benefícios para as empresas que contratem doutorados. Para um governo que se anuncia liberal, isto é de rir. Para socialistas de cartoon (como imaginados por alguns dos nossos comentadores ultra-liberais), isto seria um sonho. a realidade é mais complicada.

 

José Simões já falou da forma como estes subsídios servirão apenas para continuar a contratar doutorados para trabalhos pouco classificados enquanto que o dinheiro extra vai para o bolso das empresas. Só que isto não advém (apenas) de qualquer ganância corporativa, antes do facto de, independentemente dos subsídios, ninguém no seu perfeito juízo ir contratar uma pessoa com doutoramento quando não há tabalho para lhe dar.

 

As dificuldades ao nível da contratação dos doutorados não é financeira por si. Muitos estariam plenamente satisfeitos em receber os salários do grau abaixo, desde que isso significasse ter algum tipo de trabalho. O problema está entes no facto de as empresas em si não verem qualquer vantagem em ter alguém com doutoramento nos seus quadros. Os doutorados continuam a ser vistos como os tipos de bata branca e óculos que se sentam em bancadas de laboratório o dia inteiro e desenvolvem protectores solares quando lá fora está a chover.

 

Enquanto as empresas não virem aquilo que um doutorado pode trazer, os subsídios de nada adiantarão. Especialmente porque os maiores custos seriam materiais, para o desenvolvimento do trabalho desse doutorado.

Cultura científica

por João André, em 19.03.13

Este post do João fez-me voltar a um dos meus temas de estimação: a falta de cultura científica da população portuguesa. Não que o João (ou sequer o Samuel de Paiva Pires) a demonstre, antes que o post original demonstra, perante a colecção de propostas de temas que exclui completamente a ciência, uma alergia a tudo o que não seja cultura "clássica" (história, literatura, filosofia ou arte). Isto não é algo que venha apenas do post do João, é algo extensível à sociedade portuguesa em geral. Note-se este artigo de opinião de Luís Francisco no Público. É essencialmente uma tentativa de humor. Para mim falhada, mas não é aí que lhe aponto o dedo, antes é ao facto de o autor ter decidido escrever sobre ciência apenas do lado do humor, sem qualquer tentativa de a compreender. Várias vezes  nos leva a pensar se está a brincar com alguns títulos ou simplesmente não compreendeu que os mesmos são absolutamente relevantes. Aquilo que o artigo demonstra é que a ciência, em Portugal, é para ser tratada como nicho de gente esquisita ou com humor.

 

Não vale a pena voltar aqui ao tema das "Duas Culturas" de C.P. Snow, quem quiser pode ler sobre o assunto. Trata-se tão só de notar que a sociedade portuguesa continua a contribuir para esta falta de cultura científica e a menorizar quem a possui. Quem numa conversa de café puxar do assunto do uso da luz por Rembrandt pode ser visto secretamente como um "chato", mas raramente lhe pedirão que se cale. Quem quiser antes falar do facto de existirem duas teorias da Relatividade e aquela que estabelece o limite da velocidade da luz ser a mais simples e "trivial" será imediatamente ignorado pela maioria.

 

Este é um sentimento que se perpetua através da falta de educação científica, da pouca relevância da ciência nos media (ver o cartoon que ilustra o post, retirado daqui) e do próprio preconceito popular (quantos não foram para Humanidades para "fugir à matemática"?). Este problema acaba por se notar de forma clara depois também nos tais exames de cultura geral de acesso à carreira diplomática. Fazem-se perguntas que até são simples, mas que nenhuma relevância terão para as funções. Acabam portanto por se valorizar as ciências (ou disciplinas) que tenham reconhecido valor científico (informática, energia) e ignorar aquelas que explorarão o conhecimento fundamental (física, matemática). Isto não só é uma tragédia em si mesmo, mas acaba por ignorar que muitos avanços tecnológicos fundamentais para a humanidade se fizeram a partir da ciência fundamental.

 

Resolver este problema não é fácil e não é tarefa para 4 ou 5 anos, antes para uma geração. Antes de mais, creio ser necessário um programa de "alfabetização científica" em Portugal. Um programa que, sem esconder a dificuldade do estudo da ciência, mostre o quanto é fundamental para a vida de todos os indivíduos. Por outro lado, seria necessário que se eliminassem as oportunidades para fugir à ciência. Matemática e Ciências (genéricas) deveriam fazer parte dos currículos de qualquer curso, mesmo na Filosofia, Línguas ou História. Paralelamente, claro, Literatura, História e Filosofia deveriam fazer parte dos currículos de todos os cursos (fossem eles Biologia, Engenharias ou Matemática).

 

Sei que muitos se insurgirão contra uma possível intromissão do Estado nas liberdades individuais, mas eu não a vejo como mais que uma extensão das funções educativas do Estado (caso contrário deixamos de alfabetizar a população). Todos beneficiariam. Mesmo aqueles que preferissem não o fazer.

Como Thaxton e Pearcey demonstram no livro The Soul of Science [A alma da ciência], por mais de 300 anos, entre a ascensão da ciência moderna no século XVI até o final do século XIX, o relacionamento entre ciência e religião pode ser descrito como de aliança. Até o final do século XIX, os cientistas eram tipicamente cristãos que não viam nenhum conflito entre a ciência e a fé deles (casos de Kepler, Boyle, Maxwell, Faraday, Kelvin e outros).

Em 1896, o presidente da Universidade Cornell, Andrew Dickson White, publicou um livro com o título A History of the Warfare of Science with Theology in Christedom [História da batalha da ciência com a teologia na cristandade]. Por influência de White, a metáfora da “batalha” para descrever as relações entre a ciência e a fé cristã espalhou-se generalizadamente durante a primeira metade do século XX. Do ponto de vista cultural, a visão dominante no Ocidente — mesmo entre os cristãos — passou a ser que ciência e religião não estão aliadas na busca pela verdade, antes são adversárias.

Entretanto, na última parte do século XX inicia-se  um florescente diálogo entre ciência e religião nos Estados Unidos e na Europa. O notável físico britânico P. T. Landsberg, por exemplo, passou a explorar as implicações teológicas da teoria da ciência e afirmou: falar das implicações da ciência para a teologia numa reunião científica parece quebrar um tabu; mas os que pensam assim estão desatualizados: esse tabu foi removido ao longo dos últimos 15 anos e, ao falar sobre a interação entre ciência e teologia, estou, na verdade, a acompanhar a maré.


Já na segunda década do século XXI, surge o corolário desta nova abordagem. Jesus (quem mais poderia ser?) avança com a proposta radical da fusão entre as duas áreas, com a apresentação pública dos 5 mandamentos da ciência.


O jornalismo-alforreca

por João Campos, em 27.08.12

 

A propósito de recentes incidentes em praias na costa portuguesa, alguém pode mandar para as redacções uma nota a explicar que a caravela portuguesa não é uma alforreca?

 

Eu sei que hoje em dia há pouco tempo para investigar os assuntos sobre os quais se escreve, e que é muito mais fácil pegar nos textos (frequentemente mal escritos) da Lusa, mas neste caso bastam dois minutos no Google - não é preciso ir ao terreno ver esta criatura, que, muito curiosamente, é designada em todo o mundo por "Caravela Portuguesa" (ou Portuguese Man O'War). O rigor no jornalismo científico português partiu para parte incerta, o que é uma pena.

Líderes científicos

por Helena Sacadura Cabral, em 25.01.12

 

" Cinco cientistas portugueses e uma investigadora norte-americana que trabalha em Portugal foram premiados pelo Instituto Médico Howard Hughes, dos Estados Unidos, com montantes no valor de 518.000 euros para a sua investigação, numa lista internacional de 28 premiados reconhecidos por serem “futuros líderes científicos nos seus países”. 

O prémio, hoje divulgado, foi atribuído por uma das maiores organizações filantropas do mundo, que lhes concedeu 2,5 milhões de euros para financiar projetos de investigação. 

De vez em quando, também há boas notícias!

Milagre ou fenómeno científico,

por Ana Vidal, em 27.12.11

 

o certo é que basta um caso destes para pôr em causa todas as teorias sobre coma, morte cerebral, irreversibilidade clínica, etc. De vez em quando, é bom que alguém nos lembre de que não somos deuses.

Estrelas

por Ana Lima, em 16.09.11

Má notícia para quem acha que o mundo gira todo à sua volta.

 

(E advirto desde já que não ponho em causa a parte do grande futebolista. E pensando bem a do rico...)

A olhar para as estrelas

por João Campos, em 25.08.10

Dois portugueses participaram numa das mais entusiasmantes - e relevantes - descobertas dos últimos tempos na área da Astronomia: um sistema solar semelhante ao nosso, localizado a 127 anos-luz da Terra, na constelação de Hidra. Tem sete planetas: cinco gasosos, como Neptuno; um gigante gasoso, como Saturno; e um rochoso, que se pensa ser muito semelhante à Terra, apesar de a proximidade para com a estrela impossibilitar a existência de vida nos moldes em que a conhecemos. Notícia no Público.

Claro que a horda de trolls que habita as caixas de comentários do Público online não tardou a aparecer, cheia de vontade de diminuir a importância desta descoberta com base nos muitos problemas que enfrentamos neste nosso planeta. Viver na Terra é um desafio constante, e sim, as preocupações são inúmeras; mas sempre assim foi, e não foi por isso que a Ciência parou, ou - mais importante - que o Homem deixou de olhar para as estrelas.


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    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D