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A revelação da campanha.

por Luís Menezes Leitão, em 15.09.15

 

Para mim, esta campanha tem sido absolutamente medíocre. Passos Coelho manifestamente não está em forma, obrigando Paulo Portas a assumir grande parte do esforço da campanha, o que tem feito de forma competente, mas sem rasgo. Já António Costa, depois de ter passado a pré-campanha a dar tiros no pé, conseguiu um suplemento de alma no debate com Passos Coelho, que desbaratou no dia seguinte na entrevista a Vítor Gonçalves, onde se demonstrou claramente, para grande irritação de Costa, que o PS pode ter feito as contas, mas as mesmas não batem certo. Já Jerónimo de Sousa é o que sempre foi, para o melhor e para o pior.

 

A grande surpresa desta campanha é, por isso, Catarina Martins. Concorde-se ou não com as suas propostas — e eu não concordo de todo — não há dúvida de que tem conseguido levar a água ao seu moinho, apresentando-se bem preparada, com um discurso coerente, tendo vencido todos os debates em que participou, com excepção daquele com Jerónimo de Sousa, onde intencionalmente jogou para o empate. Venceu Portas em toda a linha, venceu tangencialmente Passos Coelho, e arrasou António Costa no campo onde este se pretende agarrar a todo o custo: o seu próprio programa. Depois de António Costa acusar a direita de querer cortar 600 milhões nas pensões, ficará seguramente no ouvido dos pensionistas os 1600 milhões de perdas nas pensões, que Catarina Martins demonstrou estarem no programa do PS. 

 

O debate com António Costa era o mais importante para o Bloco de Esquerda, pois era aí que poderia estancar ou abrir a fuga dos  eleitores do Bloco para o voto útil no PS. A meu ver, Catarina Martins conseguiu estancar essa fuga, encostando Costa completamente à direita, quando ele é o líder mais à esquerda do PS desde sempre. Quer na segurança social, quer no despedimento conciliatório, Catarina Martins encostou António Costa às cordas da direita, terminando com uma estocada final decisiva, a perguntar se faria acordo com ela ou com Rui Rio ou Paulo Portas. Costa limitou-se em seguida a papaguear umas vaguidades, fugindo à questão, o que seguramente não será positivo para atrair o voto útil à esquerda.

 

Se se perguntasse qual era o líder partidário que tinha a situação mais difícil nestas eleições eu diria que era Catarina Martins. O Bloco tinha perdido o seu líder histórico, depois do abandono de Francisco Louçã, e a liderança bicéfala de João Semedo e Catarina Martins tinha sido um fracasso. O Bloco assistia a sucessivas cisões, que davam lugar a novos partidos, como o Livre, o MAS, ou o Agir, sendo que, mesmo dentro do próprio Bloco, a única forma de se porem de acordo foi atribuir a liderança a seis pessoas, ficando Catarina Martins como simples porta-voz. E o PS aproveitava esta divisão, chegando a convidar Rui Tavares, do Livre, para os seus congressos.

 

Hoje, os partidos que resultaram da cisão do Bloco estão reduzidos a fazer umas simples piruetas mediáticas, enquanto que o próprio Bloco, através de Catarina Martins, tem tido uma excelente prestação nesta campanha. Tenha o resultado eleitoral que tiver, a partir de agora o Bloco de Esquerda tem uma líder. O que, nos tempos que correm, não é coisa pequena.

Legislativas (8)

por Pedro Correia, em 14.09.15

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DEBATE ANTÓNIO COSTA-CATARINA MARTINS

 

O secretário-geral do PS saiu esta noite claramente vencedor do debate que travou na TVI 24 com a porta-voz do Bloco de Esquerda. Um debate que começou em atmosfera cordata mas que cedo se foi crispando.

Catarina Martins até foi a primeira a marcar pontos, conseguindo irritar António Costa ao mencionar um ponto "escondido" do programa socialista: o congelamento das pensões de reforma na próxima legislatura.

"Os pensionistas continuam a ser uma espécie de porquinho-mealheiro dos saldos orçamentais", atacou a líder bloquista, acusando o PS de procurar consolidar as contas públicas, na próxima legislatura, em 1,660 milhões de euros à custa dos pensionistas, que veriam o seu rendimento inalterado até 2019. "Tem a mesma lógica da direita: uma contínua desvalorização salarial."

 

Agarrou-se de tal forma a este tema que acabou por invocá-lo oito vezes, com manifesto exagero. Costa começou à defesa: "Não assumimos compromissos além daquilo que responsavelmente podemos gastar. Prefiro assumir um compromisso menor [na segurança social] e ir mais além em vez de prometer algo que não posso cumprir."

Mas cedo passou ao contra-ataque, colando a sua parceira de debate às políticas fracassadas do Syriza e apontando um dedo acusador: "O Bloco pode prometer tudo a todos - dos pensionistas às crianças que estão no berçário, porque todo o seu programa assenta na reestruturação da dívida. Depois do que aconteceu na Grécia, o BE devia ter alguma humildade. Alguém acredita que se houvesse um governo BE conseguiria aquilo que Tsipras e Varoufakis não conseguiram?"

 

Catarina descolou do Syriza, reconhecendo que "as esperanças dos gregos foram esmagadas e foi-lhes imposto um programa de austeridade e pilhagem". Mas insistiu na reestruturação da dívida, invocando a antecessora de Passos Coelho na liderança do PSD em abono da sua tese enquanto endereçava uma farpa a Costa: "Está à direita de Manuela Ferreira Leite, que acha necessária a reestruturação da dívida." Foi pelo menos a quinta vez que a líder do BE evocou a antiga presidente do PSD nesta campanha...

Costa devolveu-lhe a farpa com juros, aproveitando para fazer uma confissão: "Sempre fui social-democrata, desde os 14 anos, sem tentações esquerdistas. E sempre me afligiu nos esquerdistas passarem a vida toda a fazer discursos, incapazes de resolver um problema concreto de uma pessoa."

Catarina acusou-o de "desistir do País". Mas o secretário-geral socialista ia embalado e não afrouxou: recorrendo por sua vez ao programa bloquista, disse que o BE quer nacionalizar a banca, a GALP, a REN e a EDP. "Onde estão as contas? Onde vão buscar o dinheiro? Quanto custa isto?"

 

Ficou claro que existem demasiados temas a separar socialistas e bloquistas: a manutenção do País na moeda única, a consolidação das contas públicas, os compromissos europeus, o vasto pacote de estatização de empresas que consta das prioridades do BE. Mas Catarina aproveitou o minuto final para ensaiar a que seria a surpresa da noite, numa óbvia tentativa de combater a dinâmica do voto útil à esquerda: está disponível para dialogar com o PS, no dia seguinte às legislativas, se os socialistas puserem de lado o congelamento das pensões, o anunciado corte da TSU e o "regime conciliatório que flexibiliza os despedimentos". A menos que - ironizou - o actual líder do principal partido da oposição prefira dialogar "com Rui Rio ou Paulo Portas".

Deste repto poderia ter resultado a principal notícia deste frente-a-frente, moderado pelo jornalista Pedro Pinto. Mas assim não foi. Porque Costa o ignorou por completo. Falou depois de Catarina sem demonstrar sequer ter ouvido alguma coisa.

Saiu com uma imagem mais moderada deste debate do que entrou. E nada mais lhe interessava senão isto.

 

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FRASES

Catarina - «Sempre distingui o PS da direita.»

Costa - «Tem dias, tem dias...»

Catarina - «Os partidos socialistas europeus contribuíram para o esmagamento da Grécia, para a chantagem.»

Costa - «Tenho alguma irritação com o Bloco de Esquerda...»

Catarina - «Temos de nos preparar para um eventual rompimento com a União Monetária.»

Costa - «Pior que tudo seria a desvalorização atroz que resultaria da nossa saída do euro. Imagina o que seria o salário mínimo nacional convertido em escudos?»

Catarina - «Assumir o confronto é a única forma de defender o País.»

Costa - «Assumir o confronto foi aquilo que o governo Syriza quis fazer, com os resultados que teve.»

Legislativas (7)

por Pedro Correia, em 11.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-PASSOS COELHO

 

Um debate com substância. Assim foi o frente-a-frente desta noite, na RTPi, que opôs Catarina Martins a Pedro Passos Coelho. Muito centrado na segurança social - tema que dá pano para mangas, pois interessa a todos os eleitores.

A porta-voz do Bloco de Esquerda - como lhe competia, e sem defraudar expectativas - jogou ao ataque neste debate moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves, acusando a coligação PSD/CDS de "esconder os números" enquanto procura entregar parte da segurança social a fundos especulativos.

O presidente do PSD, deixando claro que qualquer alteração só se aplicará a novos contratos, rejeitou que esteja em estudo um corte de 600 milhões da segurança social. Mas continua a induzir a ideia de que nesta matéria o Executivo esconde muito mais do que explica.

O Bloco voltou a evidenciar-se como voz incómoda para a coligação, confirmando que Catarina Martins se apresenta em boa forma nesta campanha e disposta até a alargar as fronteiras tradicionais do seu partido. Ao ponto de hoje ter apelado sem rodeios ao voto "nas pessoas que [em 2011] votaram em Passos Coelho e Paulo Portas e se sentem traídas com o que aconteceu". E também ao apertar Passos com a questão aparentemente irresolúvel da dívida pública, que teima em manter-se com setas ascendentes.

Raros temas incomodam tanto o primeiro-ministro como este.

 

Mais duvidosa é a insistência bloquista em invocar Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix como figuras de referência: isso aconteceu esta noite, pelo segundo debate consecutivo, quando a líder do BE voltou a mencionar estes dois vultos conservadores em abono da sua tese de que "a dívida portuguesa é impagável".

Neste ponto Passos tocou na corda mais sensível dos bloquistas: o modelo grego, que entre Janeiro e Julho Catarina Martins tanto enaltecia. O governo Syriza chegou ao poder de peito feito, anunciando o fim da austeridade e a reestruturação da dívida, e acabou feito em estilhaços, impondo aos gregos um pacote de restrições financeiras ainda mais severas do que o anterior.

"Acho incompreensível que um país que tem que assegurar o pagamento às famílias, às empresas e ao Estado diga aos credores que não está em condições de pagar a dívida. Nesse dia deixa de ter condições para se financiar", declarou Passos, aludindo ao comportamento errante do ex-ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis. Remetida à defesa neste ponto, Catarina viu-se forçada a dar o dito por não dito: "O programa que está hoje a ser imposto à Grécia é um programa mau para a Grécia, mau para a Europa, não é o nosso programa."

 

Não custou a Passos colar a sua oponente ao Syriza - o Bloco grego - neste debate nada morno no fundo, que quase replicou alguns dos tensos diálogos entre Catarina Martins e o primeiro-ministro na Assembleia da República, sem deixar de ser cordato na forma. O chefe do Governo também se esquivou sem grande dificuldade à questão do Novo Banco: enquanto a sua oponente acusava o Executivo de lesar os contribuintes, Passos questionou os custos incomportáveis de um cenário alternativo: "Se a nacionalização do BPN custou 5 mil milhões, a do BES custaria dez vezes mais."

Ficou sem réplica. Catarina Martins optou por virar a agulha: "Nestes quatro anos, o senhor roubou sete meses de salários dos funcionários públicos", disse-lhe ela. "A senhora deputada aparece com um discurso de quem sabe que nunca vai ter que chegar ao Governo e tomar medidas", retorquiu-lhe ele.

Condenados a desentender-se, está mais que visto.

 

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FRASES

Catarina - «O PIB português recuou 15 anos [desde 2011].»

Passos - «O que trouxe os sacrifícios foi a crise [anterior à posse do Governo].»

Catarina - «Há dez mil novos milionários em Portugal, doutor Passos Coelho.»

Passos - «Acha que eu fiz dez mil novos milionários? Não foi com certeza à custa do Estado, senhora deputada.»

Legislativas (4)

por Pedro Correia, em 08.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-PAULO PORTAS

 

Desta vez houve mesmo debate e não apenas um simulacro, como aconteceu há uma semana. Ana Lourenço, a jornalista que arbitrou o frente-a-frente desta noite na SIC Notícias, teve a intuição de perceber que haveria vantagem em deixar falar os antagonistas sem pretender impor-lhes um cardápio de questões. Fez bem. Porque o telespectadores ganharam ao ver Catarina Martins e Paulo Portas em diálogos que pediam pouca moderação.

Pela segunda vez consecutiva, a porta-voz do Bloco de Esquerda mostrou-se em boa forma. Surgiu perante as câmaras com ar menos crispado do que costuma revelar no Parlamento, soube escutar, demonstrou capacidade de argumentação e destreza verbal, sem se deixar atemorizar pela arguta raposa da política que tinha à sua frente.

O presidente do CDS, em representação da coligação governamental que procura renovar o mandato a 4 de Outubro, estava constipado e mal ocultava algum cansaço. Mesmo assim conseguiu conduzir o debate para o terreno que lhe interessava, puxando-o logo de início para o caso grego - numa antecipação daquilo que Passos Coelho não deixará de fazer no frente-a-frente de amanhã com António Costa.

"Até há um mês o Bloco de Esquerda tinha um modelo: chamava-se Grécia, Tsipras e Syriza. Reestruturação da dívida grega: onde é que ela está? O Syriza dizia que nunca mais pediria um resgate: acabou de pedir um terceiro. Dizia que a austeridade ia acabar: aceitou a austeridade em dobro. Dizia que a Europa ia mudar: quem mudou foi Tsipras", declarou Portas, com ar vagamente enfastiado.

O assunto incomoda os bloquistas. Mas Catarina, por sua vez, soube pôr Portas em sentido ao salientar que "o programa da coligação não apresenta um único número" aos portugueses enquanto o Governo se compromete em Bruxelas a cortar 600 milhões de euros na segurança social.

"Não aceitamos ser um protectorado da Alemanha", esclareceu a porta-voz do BE, piscando o olho aos eleitores mais moderados ao mencionar Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite entre os portugueses que já advogaram uma reestruturação da dívida portuguesa. Algo impensável há quatro anos.

A verdade é que nem o Bloco tem a pretensão de pescar votos junto dos habituais eleitores do CDS nem os democratas-cristão aspiram a seduzir votantes situados à esquerda do PS, o que explica em boa parte o tom cordato deste debate, que não deixou de ter acutilância e algum fogo cruzado digno de registo. Com Catarina a apontar o dedo acusador: "Este é o governo recordista dos ajustes directos." E Portas a replicar: "O Bloco de Esquerda nunca governou nenhuma entidade em Portugal excepto a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, que em 2009 fez um ajuste directo para os transportes urbanos, entregando-os à [empresa privada] Barraqueiro."

Cada qual, à sua maneira, comprovou que o traquejo parlamentar é muito útil nestas ocasiões. Mas, no confronto das expectativas com a prestação concreta, a líder bloquista destacou-se ligeiramente.

Como aperitivo não esteve mal. O prato forte será servido amanhã à noite, com outros protagonistas, nos três canais em sinal aberto.

 

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FRASES

Catarina - «Não é possível governar quase sistematicamente contra a Constituição. O actual Governo não foi capaz de fazer um único orçamento dentro da Constituição: essa é a maior instabilidade que o País pode ter em termos políticos.»

Portas - «A política não é a arte do impossível. A senhora tem um discurso de utopias coladas umas às outras, sem adesão à realidade.»

Catarina - «Não há estado social sem solidariedade entre as gerações.»

Portas - «Não há estado social com o Estado falido.»

Catarina - «O doutor Paulo Portas é um belíssimo ilusionista da política.»

Portas - «Não trate os outros por ilusionistas. Ilusionismo foi o que aconteceu na Grécia.»

Legislativas (1)

por Pedro Correia, em 01.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-JERÓNIMO DE SOUSA

 

Cheguei ao fim do debate desta noite na RTP informação (não valeria a pena a televisão pública tê-lo emitido em sinal aberto?) quase sem distinguir o Bloco de Esquerda do Partido Comunista. Excepto na questão do euro: o PCP faz um balanço "profundamente desastroso" da nossa integração na moeda única e o Bloco deixa claro que "a saída do euro não é a saída para a crise".

Há também um pormenor semântico, que aliás está longe de constituir novidade: ao contrário do que sucede com Catarina, Jerónimo de Sousa faz questão de iniciar sempre as frases recorrendo à primeira pessoa do plural ("a nossa análise, o nosso projecto, as nossas propostas...")

Em quase tudo o resto o secretário-geral do PCP e a porta-voz do Bloco de Esquerda não fizeram qualquer esforço em diferenciar-se neste frente-a-frente moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves. São ambos contra as "políticas de austeridade", pretendem renegociar a dívida pública, estão prontos a rasgar o tratado orçamental e nem admitem ouvir falar de possíveis alianças pós-eleitorais com os socialistas, transformados em bombo da festa neste debate. 

"O PS sempre praticou políticas de direita", sentenciou Jerónimo, sem introduzir um átomo de alteração à prédica habitual dos comunistas, campanha após campanha. "O PS, nas questões de fundo, não se distingue da direita", sublinhou a porta-voz bloquista, de olho verde mas discurso bem vermelho.

De um lado venta, do outro chove: Bloco e PCP contentam-se em ser partidos de protesto. E como se somariam a um hipotético executivo socialista se não se dão sequer ao incómodo de juntar forças numa plataforma eleitoral comum?

Jerónimo pareceu fatigado, Catarina esteve mais fresca e exibiu palavra mais solta, chegando a conceder arguta e merecida vénia ao parceiro de debate: "O Bloco é muito devedor da luta e do combate do PCP." A dado momento um plano televisivo fixou-a a mirar com ar carinhoso para o histórico comunista: parecia uma neta a contemplar o avô.

Estes pequenos apontamentos visuais proporcionados pela indiscrição das câmaras tornam-se quase sempre os aspectos mais interessantes dos debates em que os protagonistas fazem tudo para ocultar divergências, como foi o caso. No final, outra pequena diferença: Catarina, desfavorecida nas sondagens, apelou explicitamente ao voto dos abstencionistas militantes. Jerónimo nem se deu a esse incómodo: com saber de experiência feito, ele não ignora que a batalha à esquerda do PS está antecipadamente ganha pelo PCP.

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FRASES

Catarina - «O PS, para fazer um governo de direita, precisa de um partido de esquerda? Não. Pode fazê-lo com partidos de direita. Não é para isso que cá estamos, de certeza.»

Jerónimo - «Nós defendemos a ruptura com este caminho para o desastre a que a política de direita tem conduzido o País.»

Catarina - «O PS tem um alinhamento completo com o PSD e o CDS no que é essencial.»

Jerónimo - «Temos um valioso património de trabalho unitário.»

Catarina - «As pessoas estão cansadas de uma alternância que nunca lhes trouxe alternativa.»

Jerónimo - «Ninguém é dono dos votos dos portugueses.»

Grécia antiga (11)

por Pedro Correia, em 27.05.15

«A vitória do Syriza é a vitória da democracia. Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo.»

Catarina Martins (25 de Janeiro de 2015)

 

1. O Bloco de Esquerda transforma cada declaração política num juízo de carácter sobre quem comunga de convicções opostas às suas, passando por sistema atestados de impureza ética aos adversários políticos. Os seus responsáveis exigem, a todo o momento, demissões pelos mais diversos motivos. Esta ética da responsabilidade, curiosamente, detém-se à porta da sede nacional do Bloco. Porque o BE pode falhar todos os objectivos e perder todas as eleições sem haver uma demissão nos seus órgãos decisórios. Uma duplicidade ainda mais difícil de entender após estas autárquicas, em que o Bloco perde 43 mil votos, recua de 3% para 2,5% em média nacional, deixa fugir a única câmara de que dispunha e não consegue eleger um vereador em qualquer cidade de grande ou média dimensão. Apesar do ruído mediático que ainda provocam, os bloquistas -- com apenas cerca de seis mil militantes e uma notória escassez de quadros partidários -- parecem condenados à irrelevância política. É inevitável uma revisão global de procedimentos, para assumir erros e corrigir a rota. Desde logo porque a ética da responsabilidade não pode ser só para os outros: há que começar em ca(u)sa própria.

Primeiro desafio: como aumentar militantes e reforçar quadros para evitar novas derrotas?

 

2. Paira no BE um sentimento de orfandade. O seu fundador e líder histórico, Francisco Louçã, era uma personalidade carismática que falava muito para além das fronteiras partidárias e até do reduto ideológico dos bloquistas. Louçã conseguiu operar uma espécie de milagre: fazer surgir um movimento unitário das cinzas da decrépita extrema-esquerda portuguesa. Com a sua partida voluntária, há pouco mais de um ano, vieram novamente à tona os antigos tiques e vícios estruturais das pequenas facções que constituem o Bloco e que de alguma forma desmentem o próprio nome do partido constituído em 1999 com uma agenda política inovadora em matéria de costumes e tendências sociais, logo vampirizada pelo PS de José Sócrates. Esgotada essa agenda, o Bloco não pode voltar a ser dominado pelas velhas facções extremistas da década de 70, sob pena de se descaracterizar por completo e até desaparecer.

Segundo desafio: como retomar o carácter unitário do Bloco, superando guerras de facções?

 

3. Os sinais de modernidade que os bloquistas trouxeram à política portuguesa parecem esgotados. E alguns são manifestamente inadequados. Talvez nenhum tenha sido tão prematuro e desajustado como a liderança bicéfala instalada no partido desde a partida de Louçã. Na tentativa apressada de superar as restantes forças partidárias em demonstrações de igualdade de género, o BE copiou o modelo adoptado pelos Verdes alemães e pelo Partido de Esquerda fundado em França por Jean-Luc Mélenchon, sem reflectir bem nas limitações e nos inconvenientes desta bicefalia. Que manifestamente não resulta, por mais vibrantes que sejam as intervenções públicas de Catarina Martins e por mais experiente e respeitável que seja João Semedo, ex-membro do Comité Central do PCP que abandonou as fileiras comunistas em nome dos valores da cidadania e da liberdade de consciência. E não resulta porque dispersa a mensagem, induz uma ideia de fragmentação na opinião pública e prejudica a identificação dos portugueses com o projecto bloquista. Além do mais, para que precisará o mais pequeno partido português de dois líderes?

Terceiro desafio: deve ser abandonada a actual liderança bicéfala?

 

4. A dada altura, o Bloco de Esquerda parecia ser um sério concorrente do PCP. Sobrava-lhe no entanto em novidade mediática o que lhe faltava em enraizamento social. Nisto, os bloquistas são incapazes de se bater com os comunistas, há décadas com forte implantação na sociedade portuguesa, particularmente na vida autárquica e no mundo do trabalho. Sem representantes nos órgãos do poder local, com uma presença irrisória no movimento sindical, o BE tem-se limitado praticamente a replicar o discurso de protesto característico dos comunistas, parecendo querer ultrapassar o PCP em radicalismo -- o que ficou bem patente na moção de censura apresentada ao governo Sócrates logo após a candidatura presidencial "unitária" de Manuel Alegre e a intransigente recusa em conferenciar com os representantes da tróica em Portugal. Havendo original, tornam-se dispensáveis as cópias.

Quarto desafio: como superar eleitoralmente o PCP?

 

5. O BE só revelará utilidade, à esquerda, se tiver ambições de governo. Ou seja, se estiver receptivo a uma futura coligação com o PS, único partido português com hipótese de constituir alternativa à actual maioria governamental. Se imitam os Verdes alemães na liderança bicéfala, por maioria de razão também devem imitá-los nesta matéria: os ecologistas atingiram a maioridade política em Berlim ao aceitarem coligar-se em 1998 com o chanceler social-democrata Gerhard Schroeder. Uma bem sucedida coligação que durou sete anos, consolidou os Verdes como partido de âmbito nacional e levou o seu líder, Joschka Fischer, ao cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros.

Quinto desafio: haverá alguém no Bloco disposto a ser o Joschka Fischer português?


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