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O delírio

por Luís Naves, em 17.07.18

Não me recordo de ter assistido a algo minimamente semelhante ao que vi ontem, a reacção histérica à cimeira de Helsínquia entre os presidentes americano e russo. Donald Trump foi acusado de imbecilidade, fraqueza e até de traição, por se ter encontrado com o líder da outra grande potência nuclear, por não ter falado grosso com o presidente Putin, ou melhor, por não ter batido com a porta nem ameaçado bombardear Moscovo. A política interna americana e a aproximação das eleições de Novembro não justifica o tsunami de textos ou comentários mordazes, violentos ou grotescamente exagerados, do género que ninguém se atreveu a escrever nos piores dias da Guerra Fria. Na época em que ainda existia comunismo e rivalidade ideológica, a então URSS interferiu em todas as eleições democráticas que se realizaram no Ocidente (acho que podemos dizer em todo o mundo). A interferência em eleições é algo normal para serviços secretos que tenham um mínimo de eficácia. Em qualquer votação, aliás, há sempre interferências de interesses económicos, de organizações não-governamentais, de grupos religiosos e potências estrangeiras mais ou menos discretas. Houve interferência russa nas eleições americanas de 2016? Claro, mas justifica-se uma nova Guerra Fria? Isto devia ser mais ou menos compreensível para quem esteja de fora a observar um episódio de política interna americana que ameaça transformar-se num veneno capaz de impedir durante anos as normais relações entre Rússia e EUA. Num desenvolvimento preocupante, isto pode até colocar a relação russo-americana no patamar da impossibilidade. Putin, que não é mais do que um autocrata pós-comunista, está a ser tratado abaixo de «tirano» pelos inimigos internos de Trump. Neste delírio, se os dois presidentes não podem falar, então também não haverá solução para os pontos de tensão potencial: Ucrânia, Báltico, Síria. É como se as elites americanas, no seu desespero vingativo, preferissem arriscar uma guerra nuclear, desde que isso lhes permita tirar Trump da Casa Branca. Que a coisa tenha aplausos em Portugal é ainda mais estranho.

A potência europeia

por Luís Naves, em 13.07.18

No meu livro Portugal Visto pela CIA (Bertrand, 2017) citei documentos secretos norte-americanos dos anos 50 e 60 sobre a NATO e a segurança europeia. Não quero maçar os leitores com detalhes, mas estes documentos sugerem que os americanos acreditavam na época que a URSS teria vantagem militar esmagadora, caso invadisse a Europa Ocidental. A estratégia da aliança era ganhar tempo, para colocar tropas americanas no teatro europeu. O ponto considerado mais fraco da NATO era a Itália (e logo a seguir a França), devido à dimensão dos partidos comunistas nestes dois países. Julgo que conhecer estes primórdios da NATO nos ajuda a perceber melhor o que se passou na recente cimeira da Aliança Atlântica, sobretudo as discussões em torno do reforço da contribuição europeia ou das relações com a Rússia. Olhando para trás, é evidente que os membros da NATO têm hoje uma consciência bastante favorável da sua segurança (a ponto de investirem pouco na defesa). No seu estilo sem diplomacia, Donald Trump foi claro: os EUA não estão preocupados com a Europa, não consideram a Rússia um inimigo e, tendo isso em conta, os países europeus devem fazer mais pelos seus interesses estratégicos. Nada disto é novo, os EUA afastam-se progressivamente da Europa há duas décadas e, sem contradição, querem que as potências europeias sejam mais activas no respectivo quintal (leste, Médio Oriente, África). Nos próximos trinta anos, os Estados Unidos estarão concentrados na difícil rivalidade com a China, contando com alianças que incluem Japão, Coreia ou Reino Unido. Este conflito será diferente da Guerra Fria, pois os dois colossos têm desta vez peso económico semelhante. Na secundária questão europeia, a Alemanha terá de se chegar à frente, sobretudo na relação dos ocidentais com a Rússia; será apoiada por franceses, polacos, turcos e por italianos, que em conjunto têm capacidade militar e económica mais que suficiente para equilibrar o jogo com Moscovo. Esta mudança também ajuda a perceber o Brexit, que poderá ser mesmo uma separação, e permite enquadrar o encontro entre Trump e Putin, onde o presidente russo tentará manter a relação entre as duas potências no ponto em que ela se encontra, nomeadamente facturando as vitórias recentes (um pé no Médio Oriente, outro na Ucrânia) dando em troca garantias de que aceita o equilíbrio negociado com os europeus (não será com Bruxelas, claro, mas com Paris e Berlim). São os custos da força. De resto, sobre relações de poder na aliança atlântica, parece-me que há muitas ilusões na Europa: um dos convidados do jantar paga 70% da conta; os outros todos juntos, que em conjunto são tão ricos como o primeiro, só pagam 30%; ora, quem acham que vai escolher o vinho?

A tradição dos sermões

por Luís Naves, em 04.07.18

Liga-se a televisão e, se há um debate sobre política, surge inevitavelmente alguém a lamentar a ascensão do populismo na Europa ou a necessidade urgente de ter uma política humanista na questão dos refugiados. Portugal é um país que pouco tem a dizer sobre a crise migratória europeia, pois esteve fora dela, mas por aqui aprecia-se um bom sermão. Entre nós, a narrativa dominante descreve um mundo dividido entre o bem e o mal, e nós estamos do lado do bem. Nunca se refere que, segundo os tratados, as questões de asilo, fronteiras e imigração exigem unanimidade na UE, pelo que será improvável uma solução europeia, pelo menos enquanto não estiverem controladas as fronteiras externas. Geralmente, estes debates cheios de boas intenções são contaminados pela amálgama que os participantes fazem entre migrantes que procuram escapar à pobreza e os refugiados que fogem de perseguições. Mas será assim tão humanista deixar entrar todos os primeiros, sem que se possam livrar da miséria, a dormir em tendas debaixo de pontes, sem trabalho legal, sujeitos à violência de traficantes e condenados à exploração a que nunca escapam aqueles que não possuem direitos? Será assim tão humanista reduzi-los a habitantes de cidades de lama ou permitir que atravessem os Alpes para morrer na neve? E em relação aos segundos, os que fogem da guerra (cinco milhões de sírios na Turquia, Líbano e Jordânia) não se pode ir buscá-los em grande número directamente aos campos de refugiados? O outro debate enviesado diz respeito ao populismo, que nunca se define antes da conversa. Neste momento, a palavra equivale a um insulto, embora se aplique a protestos eleitorais inteiramente legítimos (por exemplo, em Itália) contra partidos tradicionais que governaram durante sete décadas e que, mais recentemente, falharam de forma estrondosa. Sendo o populismo uma rebelião contra as elites políticas, então temos de o encontrar em mais sítios, por exemplo, em França, onde Emmanuel Macron deu cabo do sistema partidário criando um movimento, En Marche, que tem as iniciais do seu nome, além das raízes no descontentamento popular. É aliás o mesmo Macron que agora sonha em estoirar com os equilíbrios tradicionais do Parlamento Europeu, através do triunfo de um novo bloco liberal e centrista que ainda não existe, mas talvez obtenha bons resultados contra os partidos do sistema, os tais que falharam e agora pagam a factura nas urnas. Aliás, segundo esta definição, nos países de Visegrado que segundo a doutrina são hoje autoritários, não há contestação de elites, mas da ordem pós-comunista que tomou como reféns as jovens instituições democráticas e controlou demasiados aspectos da transição entre 1990 e 2010. Na Polónia, a actual luta pelo poder é entre liberais urbanos da Plataforma Cívica e conservadores católicos e rurais da Lei e Justiça, ou seja, duas formações que remeteram o voto pós-comunista a pouco menos de 15% (mas nenhuma delas é populista no sentido que referi). Na Hungria, o centro no poder é dominado pelos conservadores (Fidesz) e a oposição pelo Jobbik, um partido de extrema-direita anti-cigano e anti-Europa, esse com evidente carácter populista; à esquerda, há dois partidos pós-comunistas, hoje remetidos a menos de 20%. Enfim, as críticas míopes à rebelião do Leste nada têm a ver com uma pretensa ascensão do autoritarismo, recuo da democracia ou avanço populista, pelo contrário, desprezam a vontade popular nestes países e, sobretudo, reflectem um conflito mais profundo sobre o futuro da União Europeia, do qual depende o equilíbrio que se fará entre a soberania dos pequenos Estados e o poder das potências dominantes. Portugal, endividado até ao osso, parece ser um mero observador nesse debate, mas fiel à sua longa tradição fradesca, prega lições de moral a toda a gente.

Portugal, modelo de generosidade

por Luís Naves, em 22.06.18

Não vos quero maçar com factos, sobretudo daqueles capazes de danificar uma boa história, mas tenho ouvido muitos comentários sobre a péssima atitude europeia em relação aos refugiados, e concordo com tudo o que leio: de um lado, estão os países solidários, nomeadamente Portugal, o modelo de compaixão; do outro lado, estão governos perversos e cruéis, que recusam fazer o mínimo gesto de ajuda ao próximo. Confirmei a minha convicção após a consulta da fonte mais credível sobre o tema, o relatório da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR, na sigla inglesa), Global Trends 2017. De facto, os países muçulmanos pouco fazem pelo seu semelhante, pois a Turquia só tem 3,5 milhões de refugiados e 300 mil pedidos de asilo (podia citar os comparsas Jordânia e Líbano). Há comportamentos vergonhosos nos EUA de Donald Trump, pois em 2017 o país do presidente alucinado só tinha 287 mil refugiados e 642 mil pedidos de asilo, contrastando com a soma alemã de 1,5 milhões de refugiados e pedidos de asilo, a francesa de 400 mil e a italiana de 350 mil. Como se vê, Macron é bem mais generoso do que Trump. Os países iliberais e fascistas da Europa (Polónia e Hungria) têm respectivamente 12 mil refugiados e 5700, o que mostra enorme crueldade e desprezo pela vida humana. Em contraste, e segundo a agência das Nações Unidas, Portugal é um farol civilizacional e o exemplo que devia ser seguido pelos países com corações de pedra. Em 2017, sob a batuta da esquerda solidária, Portugal tinha 1623 refugiados e o extraordinário número de 45 pedidos de asilo. Isto é quase demasiado generoso e sei que damos cartas, que estamos na linha da frente, que vamos de certeza indicar aos europeus o melhor caminho neste tempo de emergência humanitária. E os desalmados, desta vez, vão ouvir o que temos para lhes dizer!

Da inutilidade do voto

por Luís Naves, em 29.05.18

No domingo, ao passar pela feira do livro, sentei-me na praça laranja onde se falava de uma obra sobre a política europeia. Alguém do público fez uma pergunta sobre a situação na Hungria e na Polónia e a eurodeputada socialista Ana Gomes começou a debitar umas vacuidades sobre o tema, com erros factuais. Estava a ouvir aquilo e perdi a cabeça, comecei a dizer em voz alta «isso não é assim», «dê exemplos», mas eu é que fiz figura de urso. No final, quando me aproximei da senhora, para lhe explicar o que pensava ser o seu erro, ela enfrentou-me com olhar vazio, a repetir uma banalidade, como quem dizia: «não te quero ouvir». Aquele foi um pequeno gesto da política contemporânea: as opiniões dos eleitores só são úteis se coincidirem com a ortodoxia, se estiverem na linha justa, se confirmarem as opiniões oficiais. Quem não concordar, pertence à desordem e, naturalmente, desisti de tentar debater o assunto. Há um partido húngaro que ganhou as últimas três eleições legislativas (mais as europeias e regionais) e a interpretação habitual não consegue explicar o fenómeno, mas uma eurodeputada com responsabilidades europeias não estava disposta a ouvir uma interpretação diferente da sua, ou seja, os países de leste não podem bater o pé a Bruxelas, têm de se apresentar de forma disciplinada e de chapéu na mão, para pedir o subsídio que generosamente lhes concedem (o pós-comunismo nunca existiu, a economia deles não está a crescer a 5%, nada de políticas próprias, os eleitores são perigosos nacionalistas e xenófobos).
Não se trata apenas de haver alguns políticos que já não ouvem as pessoas, há um fosso crescente entre as elites e o povo, pois os do topo estão numa bolha de privilégios e entre os que se arrastam pelo fundo fermenta um descontentamento que não tem por onde escapar. Os populistas italianos dizem que votar já não serve para nada e, a avaliar pela comédia felliniana dos últimos dois dias, parecem ter razão. Os mercados impuseram a um país rico (uma potência que integra o G7) um governo tecnocrático não eleito e sem viabilidade parlamentar, cujo mérito será o de manter a ortodoxia financeira que produziu péssimos resultados nos últimos quinze anos. Desta vez, a esquerda acha bem, ao contrário do que aconteceu quando a Grécia tentou sair do euro, situação em que os mercados e a Europa agiram perversamente. Aliás, Europa é cada vez mais um termo vago, pois o directório franco-alemão determina os acontecimentos e ninguém vota nos obedientes mordomos de Bruxelas. Em França, um em cada quatro votos não tem representação parlamentar (nem mediática) e na Alemanha o novo governo é formado pelos dois partidos que sofreram punições do eleitorado e que continuam tranquilamente no poder.
Estes, provavelmente, são apenas sintomas febris de uma doença mais profunda das democracias. A fragmentação política tende a agravar-se e a Catalunha serve como exemplo do que pode vir aí. Após eleições regionais que deram origem a um novo parlamento catalão, uma maioria parlamentar com minoria de votos não ouve um único argumento da minoria parlamentar com maioria de votos. A região ficou ingovernável e está sob tutela de Madrid. A burguesia elitista dos partidos catalanistas despreza com convicção os emigrantes internos (da Andaluzia e Galiza) que votaram no espanholismo. A sociedade está partida ao meio. A surdez política também é demasiado evidente em Portugal, veja-se a discussão de hoje sobre a eutanásia. Nenhum partido discutiu o assunto nas suas promessas eleitorais. Legislar sobre algo que não foi tema de campanha é absurdo (os partidos não têm mandato) e serve apenas para distrair de outros problemas mais importantes. Todos os eleitores podem dizer que, neste caso, o seu voto foi inútil.

Para nós, saloios, começa a ser difícil compreender a política europeia. Diziam-nos que este era um momento decisivo, com as negociações do Brexit, dos planos da pólvora para a zona euro e da sempre excitante distribuição de fundos comunitários. Subitamente, temos duas potências fora de combate. Em Itália, os dois partidos vencedores das legislativas conseguiram chegar a um acordo de governo e tinham maioria no parlamento, mas o Presidente da República (escolhido pelo parlamento anterior) vetou um ministro, levando o primeiro-ministro designado a sair de cena. Está agora a ser negociado por este presidente não eleito um governo não eleito chefiado por um quadro do FMI e que os principais partidos eleitos recusam. Os partidos populistas que venceram as eleições perguntam-se para que serve o voto e prometem torpedear tudo o que mexer antes de novas eleições, enquanto as taxas de juro implícitas da dívida italiana continuam a aumentar. A imprensa de Roma está furiosa com os jornais alemães, que passaram a semana a dizer cobras e lagartos dos populistas italianos e das suas tendências anti-democráticas. O líder da Liga Norte já insinuava ontem que as eleições antecipadas serão um verdadeiro referendo sobre a participação da Itália no euro. Como se isto não bastasse, em Espanha, o PSOE parece ter escolhido o caminho da eutanásia, promovendo uma moção de censura que aparentemente conduz a eleições numa altura em que o Ciudadanos lidera as sondagens com quase 30%, estando os socialistas apenas na terceira posição. Não se percebe a estratégia, mas é previsível que a Espanha esteja entretida na crise durante os próximos meses, quando se discutirem fundos comunitários. Enfim, o directório franco-alemão da UE está a ser contestado pela fronda liderada pelo grupo de Visegrado, que contesta a política migratória de Macron-Merkel e promete resistir a qualquer tentativa do directório de misturar fundos com migrações. A cereja em cima do bolo é a guerra comercial com os Estados Unidos, que continua a fermentar nos bastidores, dirigida sobretudo à Alemanha, por causa do respectivo excedente da balança corrente, mas que acabará por atingir todos os países. Ah, e esqueci-me do Brexit, que também está a correr bem.

O enforcamento das mulheres dos jihadistas

por Luís Naves, em 23.05.18

Quando expulsou o movimento Estado Islâmico do seu território, o exército iraquiano, com a assistência das milícias curdas, capturou centenas de familiares dos jihadistas, sobretudo mulheres e crianças, muitas das quais terão sido certamente vítimas da brutalidade dos combatentes radicais. Os tribunais iraquianos estão agora a condenar à morte as mulheres dos jihadistas, que foram desde o início tratadas como criminosas, não como vítimas. Já foram decididas dezenas de condenações à morte por enforcamento, isto no âmbito de uma repressão mais vasta que inclui os militantes sobreviventes, que estarão a ser executados. Claro que o enforcamento destas mulheres é uma barbaridade inaceitável, uma injustiça absurda que só criará mártires e órfãos. Não me ocorre um exemplo de conflito militar contemporâneo que tenha dado origem ao extermínio dos familiares dos derrotados. Estas mulheres devem ser entregues aos países de origem (Turquia, Rússia, França, Alemanha), com as suas crianças, e tiradas daquele inferno, mas os países de origem estão a protestar apenas suavemente. O Ocidente tem esta obrigação e uma das coisas que mais me custa é o silêncio, a indiferença, a hipocrisia. Onde estão os indignados do costume e as feministas? onde estão os protestos dos intelectuais politicamente correctos e as manifestações contra este ultraje? onde estão os jornalistas de investigação, os defensores de direitos humanos, as Nações Unidas, a União Europeia e a comunidade internacional?

O problema é que...

por Luís Naves, em 30.04.18

Entre nós, muitos autores continuam a olhar para Trump como uma perturbação ridícula, para Merkel como a líder do mundo livre, para o Brexit como uma calamidade, para os movimentos populistas como um fenómeno passageiro, para a Europa como um colosso. Julgo que se enganam e que, pelo contrário, vemos sinais de mudanças que ainda não entendemos em toda a sua complexidade, provavelmente em consequência de movimentos sísmicos mais profundos. No caso europeu, as razões da angústia eleitoral começam a ser mais claras: sociedades envelhecidas, com economias pouco dinâmicas ou estagnadas, enfrentam vagas migratórias em larga escala, perante a indiferença das suas próprias elites. Essas sociedades com demografia desfavorável têm de se adaptar depressa a rupturas tecnológicas que tornam a vida futura ainda mais imprevisível. Numa revista alemã, dizia-se quase em nota de rodapé, mas citando números oficiais, que em 2016 uma em cada quatro crianças nascidas na Alemanha tinha mãe estrangeira. Em 2022, a mesma revista estará a escrever que uma em cada quatro crianças na primária tem mãe estrangeira. Em 2034, será um em cada quatro recrutas nas forças armadas (admitindo na imaginação que regressa um improvável serviço militar obrigatório).

Dia histórico

por Luís Naves, em 27.04.18

Ainda bem que fiquei acordado de madrugada, a ver pela televisão o início de um dia histórico. Os dois presidentes coreanos encontraram-se logo pela manhã (hora coreana) na zona desmilitarizada e, pelos gestos, pela simplicidade da cerimónia, via-se que algo de importante estava prestes a acontecer. Desliguei o televisor quando os dois entraram numa sala, em grande clima de amizade. Durante as conversações que se seguiram, Kim Jong-un e Moon Jae-in decidiram pôr termo à Guerra da Coreia, conflito tecnicamente ainda em vigor, pois só existe armistício entre as partes (pelos vistos, em breve haverá tratado de paz). Em Panmunjon, os dois líderes decidiram também concretizar a desnuclearização da península (exigência americana) e provavelmente esta possibilidade terá um complemento de segurança económica para a Coreia do Norte, factura que Seul não terá problemas em suportar. Estes desenvolvimentos confirmam o acerto da abordagem duríssima dos Estados Unidos em relação aos ensaios nucleares norte-coreanos, que incluiu a presença de porta-aviões na região. Então, houve comentadores a dizer que Donald Trump era louco e que ia provocar a Terceira Guerra Mundial, mas estes peritos terão dificuldade em manter as críticas, apesar de se esboçar uma nova linha dos ataques: Kim Jong-un é um ditador e parece lamentável que se façam acordos de paz com tiranos. A confirmar-se a desnuclearização, este dia sem precedentes (conseguir a paz na Coreia) representa o primeiro sinal concreto da mudança em curso na ordem mundial. Trump pode ser isolacionista, mas está a romper com a tradição que se mantém desde os anos 60 na diplomacia americana. No último meio século, foi dada importância aos valores democráticos dos aliados ou dos países com quem os americanos negociavam; Trump quer regressar aos anos 50 e à fórmula bem resumida pelo presidente Eisenhower, que falava de um ditador pró-americano: «Sim, ele pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta». Ignorar as questões de direitos humanos permite fazer acordos com Kim ou com a China, facilita soluções pragmáticas e evita trazer para as negociações assuntos que os tiranos consideram existenciais, pois são susceptíveis de mudar os seus regimes políticos. Por tradição, os EUA concedem a outras potências democráticas um pedaço do poder mundial, mas essa compensação deixou de ser automática, como aliás a Europa e o Japão começam a sentir na pele. A China assume-se como o grande rival da América, mas pode ter vantagens que antes estavam reservadas apenas a parceiros com democracias. A ordem mundial baseia-se agora no equilíbrio de poder, que é uma questão crua e sem sentimentalismo. Obviamente, sem a pressão da China, o entendimento coreano não existiria e nos próximos tempos veremos o que é que Washington deu em troca a Pequim. Uma coisa é certa: os direitos humanos não entraram na equação, ou nada disto teria sido possível.

Que restará de tudo isto?

por Luís Naves, em 22.04.18

Que restará de 2018 daqui a mil anos? Admitindo que a civilização ocidental resolve os seus maiores problemas, trinta gerações somam uma eternidade e, nessa altura, seremos provavelmente incompreensíveis, como os bizantinos são para nós. Partindo do princípio de que a nossa civilização encontrará formas de progredir sem passar por colapsos traumáticos, talvez se consiga resolver a limitação das viagens espaciais, prolongar a vida humana e desenvolver máquinas inteligentes, talvez se encontrem soluções para os problemas da energia, ambiente, água e alimentação da humanidade, que será mais numerosa e transformada. Em 3018, haverá cem mil milhões de seres humanos dispersos por trinta planetas habitáveis em 80 sistemas solares explorados, cujas ligações levarão trinta a cinquenta anos a concluir entre si. Sendo necessário para cada viagem um décimo da longevidade média dos astronautas geneticamente modificados, haverá aventureiros famosos a concluir a sua sétima ou oitava viagem (os passageiros estarão em hibernação, para consumirem o mínimo de recursos, e a maioria dos sistemas terão inteligência artificial a controlar as naves). Cada pequeno núcleo de viajantes levará consigo embriões humanos. Com núcleos populacionais tão distantes entre si, a linguagem estará a fragmentar-se a partir de uma língua franca baseada em inglês, castelhano e mandarim, cujas formas arcaicas, tal como eram faladas no início do século XXI, serão compreensíveis só para peritos, como o latim pertence hoje a uma elite de sábios. Para historiadores especializados em assuntos arcanos, o ano de 2018 terá uma sensaboria interna que os obrigará a vasculhar velhos arquivos nas camadas mais profundas do conhecimento, consultando informação que ninguém terá procurado desde o centenário anterior. Entre o que não se perdeu entretanto, por causa das tecnologias obsoletas dos arquivos, será possível recuperar imagens e factos, com dúvidas sobre o respectivo grau de relevância: por exemplo, qual o motivo de determinado conflito num país obscuro que se chamava Síria ou o que pretendiam as potências da época, Estados Unidos, China, aliança europeia (seria este o nome?), os impérios russo ou japonês, núcleos políticos que se desintegraram ou reconfiguraram ao longo dos dois séculos seguintes, para não falar daquelas pequenas nações extintas com nomes poéticos, como Portugal, cujos problemas não passarão de enigmas quase insolúveis, a exigir especulação histórica. Das artes, pouco restará. O pós-modernismo foi uma transição em que se privilegiou a moda e o fogo de artifício, que por definição não resistem à tradução e à poeira do tempo. Mesmo para eruditos, será difícil distinguir entre 2018 e os anos à volta (o que terá sido aquela crise de 2008?); e alguém, mesmo culto, terá dificuldade em perceber se 2018 foi antes ou depois da Guerra Fria, precisando de fazer contas de cabeça para compreender que já tinham passado gerações após os grandes tiranos do século XX, cuja fama misteriosa será o que para nós é a celebridade de Átila, o Huno. O cidadão comum terá dificuldade em lembrar-se que 2018 ocorreu depois da primeira viagem à Lua, que por sua vez os estudantes mais cábulas tentarão colocar no século XXI, levando os tutores robóticos à impaciência. Talvez os historiadores ortodoxos concordem em chamar ao nosso tempo o breve período do liberalismo complacente ou terceira fase capitalista arcaica, ainda antes da pré-robotização e da ascensão das máquinas, certamente um momento pouco fértil do lento progresso rumo ao início do século XXII, o da segunda renascença, aí sim, com aceleração da História e coisas interessantes para estudar.

Poderes de Centeno

por Luís Naves, em 18.04.18

Alguns comentadores descobriram agora que Mário Centeno é o homem mais poderoso do país, sendo o único político que não pode ser demitido e que não se pode demitir, pois em qualquer desses dois cenários Portugal ficaria sem a presidência do Eurogrupo. Esta circunstância permite ao ministro das finanças aplicar finalmente a receita financeira que o PSD de Passos Coelho defendeu, ou seja, atacar de forma mais agressiva a dívida pública, o que é uma mera questão de bom-senso perante os problemas que o Pais terá inevitavelmente de enfrentar quando subirem as taxas de juro. Enquanto o PS faz aquilo que durante anos jurou ser um erro, o PSD (em vez de elogiar a mudança) começou a defender tudo o que criticou durante os últimos seis anos: já não gosta dos cortes na despesa do Estado e pede aumentos na função pública. Rui Rio mostra que é um simples táctico, fala como um socialista do tempo da bancarrota e renega o passado do seu partido, dando a entender que tudo o que se fez durante a crise foi embaraçoso. Na realidade, as políticas que o PSD defendeu em matéria financeira são finalmente as que estão a ser aplicadas pelo PS, mas o novo bloco central que se desenha é uma pantomina efémera, onde os sociais-democratas não têm influência e onde a esquerda, que devia partilhar o lado confortável do poder, será forçada a engolir sapos até 2019. Isto não tem grande futuro, claro, como se verá mais à frente, mas Centeno será o político mais poderoso do país até ao fim de 2019.

Carta da minha sobrinha

por Luís Naves, em 07.04.18

Carta da minha sobrinha-neta Flora, escrita em 2100, enviada pela máquina do tempo que ela mesma inventou, na sua primeira experiência. A carta apareceu-me hoje assim, manuscrita, na minha secretária:


«Querido tio, gostava que aqui estivesses, para poderes ver o meu mundo, tão diferente daquele que imaginaste. Não posso dizer que somos todos mais felizes do que no teu tempo, pois isso seria exagero e mentira, mas vivemos numa sociedade que, apesar dos seus defeitos, é mais justa do que aquela que conheceste, mais rica e progressiva, mais otimista e segura. Somos mais sábios? Não me parece, mas sabemos mais coisas, o que não é o mesmo. Os problemas da tua época não têm a mesma forma na minha, mas persistem neste tempo alguns dos defeitos menores da nossa espécie, a inveja, desprezo, medo, ambição e os chamados erros humanos em geral, que resultam das fraquezas correntes e que seria apesar de tudo uma grande pena perderem-se pela inevitável e progressiva modificação da nossa natureza. É talvez o problema que mais nos apaixona: até que ponto queremos manter a natureza humana, prolongar a vida, aumentar as nossas capacidades mentais e físicas, incluir uma parte maquinal nos nossos corpos, viver em comunidades de consciência alargada, entre outras amplas possibilidades tecnológicas que dificilmente poderias entender. Os meus pais ensinaram-me a gostar e cuidar de pessoas e assim vivi todos estes anos, já não vou mudar, embora me preocupe a longevidade e, claro, tudo farei para atrasar o meu próprio envelhecimento e a miséria da decadência. Tenho 82 anos, o que nesta época ainda é ser jovem, por isso viverei mais umas décadas. No ano em que nasci, em 2018 (lembras-te quando me pegaste ao colo?) sei pelos teus apontamentos que imaginaste um futuro com viagens mais velozes, energia abundante, gente em demasia, crises sociais e poderes oligárquicos. No fundo, olhavas para a tua realidade e pensavas como ela iria evoluir através de mais do mesmo: haveria aviões, mas mais rápidos, computadores mais pequenos, pessoas mais saudáveis, conflitos com mais fogo-de-artifício, um capitalismo mais selvagem. Não aconteceu exactamente assim, houve saltos súbitos e mudanças profundas, sobretudo quando acabaram os combustíveis fósseis e descobrimos a forma de viajar entre as estrelas e de construir autómatos capazes de fazer todo o trabalho mecânico. Não, não concluas que somos indolentes e preguiçosos, dispomos de um exército de escravos robóticos, mas cada indivíduo pensa em ser útil e, na realidade, vivemos uns para os outros, mergulhados em fantasias e na busca da felicidade, já nos libertámos da ideia de utilização finita de recursos (usamos sempre menos do que está disponível), explorámos outros sóis na galáxia e levámos connosco o esplendor da vida, com nova compreensão da mortalidade e melhor entendimento do universo. Tudo aquilo que entre nós te poderia horrorizar (as experiências de mente colectiva, por exemplo, ou a minha máquina do tempo), possui também alguma coisa de milagre; as nações diluíram-se e as culturas misturaram-se, não há fronteiras (excepto em alguns locais que escolheram manter-se isolados), temos mais liberdade e tolerância. Pensarias porventura que, para as nossas idades, somos infantis, ingénuos e demasiado irreverentes, certamente ficarias surpreendido com a sofisticação artificial e algo pedante das conversas que mantemos à hora do chá. Talvez te fizéssemos rir e talvez nos ríssemos de ti, meu tio-avô, que estás tão sério neste velho retrato da tua meia-idade, uma imagem diluída que tenho à minha frente e me leva, através da espessa névoa que cobre o oceano do tempo, a vagas memórias da tua existência.

Tenho andado a preparar-me mentalmente para resistir aos disparates e alarvidades que vou ler e ouvir nos próximos dias sobre as eleições legislativas húngaras, que se realizam no domingo. Para que se preserve a minha sanidade mental, peço a todos os que quiserem escrever sobre o assunto que, por favor, não tratem o senhor George Soros por milionário filantropo e benemérito, mas por aquilo que ele é, financeiro e especulador. Peço por favor que não considerem o Jobbik como mais um partido democrático, mas que o definam como partido de extrema-direita, anti-semita e anti-cigano. Peço por favor a todos os que quiserem escrever sobre este assunto que não considerem o MSzP como um simples partido socialista, mas como o herdeiro do antigo partido único e actualmente baluarte do pós-comunismo. Peço também a todos os analistas que admitam por um instante os bons resultados económicos do governo do Fidesz, o carácter liberal da economia, o desemprego mínimo e a situação muito razoável da classe média. E, por favor, não escrevam que as fronteiras estão seladas, pois no ano passado, mais de três mil migrantes pediram asilo, dos quais mil conseguiram estatuto de refugiado. Considerem por um instante que a explicação para a vitória mais que provável do governo se deverá não à falta de democracia, mas à falta de oposição credível. Grande parte da crise política está nos socialistas, que não se livram do código genético da era comunista e que chegam a admitir aliar-se ao Jobbik para governar (a geringonça ao quadrado). Admitam por um segundo que o PM Viktor Orbán é um excelente orador e político carismático, genuinamente popular, que conquistou a direita e o centro eleitoral: provavelmente, só quando o seu partido se dividir em dois haverá verdadeira oposição e acredito que isso possa acontecer nos próximos quatro anos. Por favor, não repitam a asneira do governo ser anti-europeu ou de não haver instituições e liberdade de imprensa. Não insistam na lenda absurda de Orbán ser pró-Putin e rejeitem as interpretações parvas que comparam a Hungria com o regime turco ou com a Rússia. Tentem compreender a amizade da Hungria com a Polónia, que é um velho assunto, e procurem entender que são antigas muitas das coisas que ali se passam.      

O problema da teoria

por Luís Naves, em 03.04.18

Confesso que fiquei um pouco perplexo com este post de Luís Menezes Leitão. Embora a conversa não seja comigo, não resisto a um pequeno comentário: quando a lógica de uma teoria nos leva a conclusões absurdas, talvez exista um problema com os pressupostos da teoria. É muito duvidosa a frase do autor segundo a qual «no regime fascista português havia absoluta separação de poderes». Os juízes eram independentes? Os deputados do partido único legislavam com liberdade? A polícia política cumpria a lei? A censura deixava passar as notícias? Acho que todos os poderes do regime obedeciam a Salazar, mas de resto a discussão é tão ao lado da questão catalã, que nem vale a pena insistir no tema. Em relação à definição «preso político é aquele que é colocado numa prisão por defender as suas convicções políticas» estamos em território verdadeiramente virgem, pois isto transforma qualquer terrorista amador num futuro preso político. Parece haver um problema sério com esta definição pois, sem qualquer ambiguidade, alguém detido por auxiliar o Estado Islâmico será condenado devido às suas convicções e obviamente todas as leis anti-terroristas servem para reprimir ideias políticas. Nem entro nas comparações entre a Espanha da Guerra Civil e a Espanha democrática, basta apenas reflectir no seguinte: se a Espanha tem presos políticos, então não é uma democracia; se não é uma democracia, não cumpre os critérios que lhe permitem ser membro da UE e deve ser imediatamente afastada do clube. Portugal deve denunciar a Espanha e aceitar receber refugiados catalães em fuga da perseguição. Aliás, é estranho que a Alemanha se prepare para extraditar Carles Puigdemont, que não devia ser extraditado por um país democrático para se tornar preso político numa ditadura. Enfim, talvez não haja separação de poderes na Alemanha, ou algo assim.  

Sobre o orçamento europeu

por Luís Naves, em 13.02.18

Instalou-se finalmente um mini-debate sobre o próximo pacote de fundos comunitários (para sete anos), que os líderes europeus vão discutir nos próximos dez meses e que entra em vigor em 2021. O que desencadeou a conversa foi uma proposta, apresentada como sendo de António Costa (na realidade, é tirada a papel-químico das ideias da comissão e do parlamento) de aprovar três impostos europeus, sobre economia digital, empresas poluentes e transacções financeiras. Ao aderir tão de perto a ideias que já circulam, Portugal reduz a sua capacidade negocial, não terá cedências e aceita tudo o que vier da negociação. O Brexit implica uma quebra nas receitas: sem o contribuinte líquido Reino Unido, haverá menos dinheiro para distribuir pelos países que recebem mais do que pagam. Tendo regiões acima de 75% do rendimento médio per capita, Portugal terá menos dinheiro do que nos anteriores pacotes, pois as verbas tenderão a beneficiar os países de leste, mais pobres e que prometem negociar com dureza. Além disso, o essencial do orçamento comunitário sustenta a agricultura, sobretudo a francesa, sendo pouco provável que esse bolo se reduza sem resistência da França. A saída dos ingleses equivale a 10% das verbas, portanto, só há duas soluções: impostos europeus ou aumento da percentagem que cada país paga, de 1% do PIB para pelo menos 1,1%. No segundo cenário, os países contribuintes líquidos vão exigir qualquer coisa em troca. Por seu turno, a ideia de impostos que Lisboa apoia tem vários problemas. O da economia digital visa multinacionais americanas e terá a devida retaliação comercial de Washington (pode fazer enormes estragos); o das transacções financeiras contradiz a ambição de franceses e alemães de absorverem parte do negócio da City de Londres, no mundo pós-Brexit; e o das empresas poluentes é pago pelos países mais atrasados da União, aqueles que precisam de fundos exactamente para acabar com as empresas poluentes. Ou seja, tudo aponta para o futuro aumento da contribuição dos países e Portugal, com os seus crónicos problemas orçamentais, vai provavelmente pagar mais para os cofres europeus, recebendo menos das políticas comunitárias (é preciso não esquecer que as contribuições nacionais, calculadas em função do PIB per capita, representam 70% das receitas). A alternativa ao aumento da contribuição nacional será a redução de todos os programas europeus, a começar pela agricultura, que absorve 40% dos 140 mil milhões de euros anuais do orçamento. Haveria ainda a hipótese de diminuir as ambições da UE, mas os líderes pretendem avançar na direcção oposta, querem adicionar segurança e migrações a uma longa lista de programas comunitários onde constam energia, emprego, formação, alterações climáticas, ajuda externa, inclusão social, inovação, ciência, entre muitos outros. Em resumo, entramos na fase intensamente política, onde o interesse nacional será determinante. Nos próximos meses, a UE terá de fazer uma escolha estratégica, se quer ou não ceder mais poderes e dinheiro à estrutura supranacional.

Panfleto inútil sobre tema muito discutido

por Luís Naves, em 22.01.18

Luís Menezes Leitão tem razão quando escreve, mais abaixo, que a União Europeia pratica uma política sistemática de dois pesos e duas medidas. Pois é, mas vamos circular, não há nada de novo para ver. Dito isto, é evidente que a UE não possui qualquer poder para sancionar um país por este cumprir a sua Constituição, como é o caso da Espanha, sendo também verdade que as sanções que pretende aplicar à Polónia não têm por objectivo repor qualquer tipo de legalidade, mas pressionar um governo a cumprir uma determinada linha política. As sanções não serão aprovadas, mas com um bocadinho de sorte um governo eleito pode ser substituído por outro (digamos) mais civilizado.
E preciso não levar muito a sério o artigo do Público citado no post do Luís, pois está repleto de interpretações que considero erradas. Já tentei escrever sobre isto antes, é inútil o esforço, inútil repetir que não existe nenhum regime autoritário na Europa de Leste, nem democracias iliberais, como escreve o autor do Público, há apenas tigres de papel. Existe uma luta pelo poder na Europa, uma luta para ocupar o vazio deixado pelos britânicos. Surgem igualmente interesses que defendem a urgência de se avançar com o projecto federal liderado pela França e pela Alemanha, projecto sobre o qual sabemos pouco e que nos será apresentado chave na mão, sem verdadeiro direito a voto. Os meios de comunicação prometem ficar excitadíssimos, dirão que é uma coisa genial para salvar a Europa, e as coisas estão mais ou menos decididas.
Estamos sobretudo a assistir a uma mudança significativa do modelo da União. Até agora, a UE foi uma aliança de nações. No futuro, os federalistas dirão que os seus «valores europeus» são incompatíveis com os nacionalismos. A preparar o terreno, eles têm feito a distinção entre patriotas e nacionalistas (como se fossem dois conceitos, não dois sinónimos), olham com simpatia para movimentos secessionistas conduzidos por elites razoáveis, como parece ser o caso dos catalães, levados ao colo pela imprensa oficial da Europa, a mesma que repete em cada parágrafo essa irritante treta dos «regimes iliberais» do Leste.
O facto é que as pessoas que escrevem sobre o leste da Europa já esqueceram que estes países saíram de ditaduras totalitárias e que ainda têm as mesmas pessoas lá a viver, não houve ajuste de contas com a História, há sistemas políticos crispados (a esquerda e a direita odeiam-se mesmo a sério) e nunca tiveram juízes independentes, pois os juízes eram parte do sistema de repressão e depois foram parte do sistema de corrupção (não todos, claro). Os cidadãos destes países acham que foram abandonados e traídos várias vezes pelo Ocidente e ficam doidos, de bigodes revirados, quando ouvem aquelas tiradas condescendentes de que até estão a receber umas massas e, apesar de tanta generosidade ocidental, não são nada solidários com quem os ajuda. A Polónia conservadora, em particular, é acusada de querer rever a sua história; mas em que parte? Será nos genocídios nazis, nas violações soviéticas, no holocausto, na resistência católica, na ditadura comunista ou na roubalheira da transição? A discussão sobre os refugiados esquece sistematicamente um pequeno detalhe: os países de Visegrado foram vítimas do uso de uma cláusula passerelle num conselho europeu e forçados a obedecer à maioria num tema que devia ser de unanimidade e que eles olham com alarme (esqueçam o que leram nas narrativas míticas sobre o assunto e tentem ver o ponto de vista do atropelado pelo camião TIR).
Voltando ao post de Luís Menezes Leitão. A UE tem dois pesos e duas medidas. É um facto. Sempre foi assim, pois a União é uma aliança de potências que nunca foram iguais. Ao longo do próximo ano, a UE vai negociar um pacote financeiro para o qual tem menos dinheiro (os britânicos estão de saída e há um buraco de 15% nas verbas). Desde já, temos dois grupos: os que pagam mais do que recebem e os que recebem mais do que pagam. Os fundos estruturais, que servem como compensação para países mais pobres pela abertura dos seus mercados ao comércio livre vão na realidade ser usados como moeda de troca: não há solidariedade em relação aos refugiados, então, dizem os alemães, também não há dinheiro para compensar o mercado comum. Esta será uma conversa política que só serve de pressão, não pode ir demasiado longe, por ser contra os tratados e haver potencial para rupturas na união, mas as opiniões públicas já estão a ser trabalhadas, quer nos países que recebem, quer nos que pagam.
Ou seja, tudo isto é sobre distribuição de poder (o Grupo de Visegrado quer uma fatia maior do bolo político europeu), é sobre dinheiro, é sobre migrações (Polónia e Hungria querem resolver o problema demográfico atraindo étnicos da sua nacionalidade). Isto não tem nada a ver com juízes ou constituições, tem a ver com nações que se sentem ameaçadas pelas potências dominantes. Há países que não cedem na defesa dos seus interesses e têm de ser disciplinados. Por outro lado, a Europa tenta avançar com um projecto político onde as nações terão menor espaço, um projecto onde não cabem os nacionalistas (os mais assanhados, polacos e húngaros, caem na categoria de xenófobos), um projecto que não se resume aos mercados livres que os britânicos defenderam, mas a verdadeira convergência (a iliberal Hungria tem um IRC de 9%, que Macron já criticou, por achar muito baixo). Haverá harmonização fiscal e os parlamentos nacionais vão perder parte dos seus poderes orçamentais.
Então, o que é que a Polónia tem a ver com a Catalunha? O caso catalão mostra-nos o que poderá acontecer às nações que não contam: a Espanha será uma manta de retalhos, como provavelmente a Itália acabará por ser (um governo com Berlusconi, Liga Norte e ainda uns ultra-nacionalistas promete travar os populistas). A Polónia quer evitar a menorização, vê-se como grande nação regional, defensora da civilização cristã, num patamar semelhante ao da França. A Polónia delira, a Espanha apanhou gripe catalã, a Itália, essa, está na mesma.
E, mesmo assim, há uma agitação no Danúbio. Em vez de aceitarem a generosidade alemã, os países de Visegrado querem resistir e juntam-se num clube que lembra cada vez mais o império Habsburgo, lembram-se? aquele que acabou em Sarajevo. Ao mesmo tempo, o caso catalão, sendo um exercício de alta criatividade artística dos seus dirigentes, está a dar ideias. Já ouviram falar da impronunciável Szekely Fold e da resposta que deu o PM romeno? Claro que não. E há mais micro-regiões que até agora só existiam em mapas obscuros desenhados nas húmidas catacumbas do castelo de Kafka.
Em resumo, e termino, a Europa não se sabe bem para onde vai, mas vai levada por elites que já não querem ouvir as suas próprias populações. Os catalães votaram, mas serviu para alguma coisa? Os polacos também votaram, mas ninguém quer saber. Os alemães votaram em Outubro e disseram que os social-democratas iam para a oposição, e que vemos, os populistas lideram a oposição? As eleições na República Checa, onde venceram os populistas, já deram em governo? E em Itália, votar servirá para alguma coisa? E na Hungria, onde Orbán tem sondagens a dar maioria qualificada, vão dizer que não conta? Não, votar já não serve para nada, nós estamos a ser dirigidos pelos 32% da CDU alemã e pelos 35% (se não me engano) do movimento de Macron na primeira volta das legislativas francesas. Só há coligações negativas, grandes entendimentos entre derrotados, geringonças e minorias. É disto que estamos a falar: votar já não conta.

Teoria da domesticação

por Luís Naves, em 09.01.18

Instalou-se aos poucos a ideia perversa de que os jornalistas têm de ser bacteriologicamente puros, um pouco como acontece com os eunucos no harém, não lhes sendo permitida a opinião, a tendência, a defesa de uma causa ou a simples frontalidade, estando aberto somente o caminho da intriga e da dissimulação. Segundo esta tese, as notícias não têm preferência, como se houvesse fórmulas matemáticas para a sua escolha, como se o jornalista fosse despido de emoções, como se ele não tivesse o direito e até a obrigação de defender, por exemplo, a justiça e a liberdade. Em vez da prosa sem alma, o trabalho do jornalista consiste em estabelecer a relevância relativa dos factos e depois, tentar ficar o mais próximo possível de uma leitura autêntica do mundo, ou seja, contando a história com um máximo de honestidade e espírito livre. Quem não compreenda que o jornalismo é sempre uma versão da realidade acredita no futuro do jornalismo burocrático, supostamente equidistante de tudo, embora a equidistância de tudo seja um lugar inexistente. Claro que há na profissão quem confunda relevância com militância, mas fazer propaganda ideológica nunca teve nada a ver com jornalismo e os leitores têm sempre a liberdade de mudar as suas fontes de leitura. Ou seja, a crítica ao jornalismo de causas baseada em exemplos de acção militante é um tiro ao lado e transforma-se facilmente na defesa da escrita dependente e funcionária que os poderes desejam e que os leitores rejeitam. Esta teoria da domesticação dos meios de comunicação é o velho sonho das oligarquias e a polémica sobre as chamadas fake news não passa de mais um episódio sofisticado desse combate. Têm surgido pequenas tentativas de limitar noticiários ou de legislar sobre o tema, supostamente para aniquilar as chamadas notícias falsas, cujos exemplos, muitas vezes, não passam de interpretações inconvenientes. As elites acham o público estúpido e acreditam que ele necessita de condução inteligente, serão obviamente essas vanguardas políticas a decidir sobre a pureza dos noticiários. A fragmentação mediática (que tem complexos motivos económicos e tecnológicos) ainda está na sua infância e tornou mais difícil a tarefa de colocar mensagens do poder. Governar é hoje mais incerto e a opinião pública está mais dividida, mas a realidade é a inversa daquela que se discute: as fake news são tão velhas como a imprensa, pois sempre houve boatos, desmentidos e manipulação; o que é novo na comunicação contemporânea é a impossibilidade crescente de se esconder informação do público.

Quando todos perdem

por Luís Naves, em 22.12.17

As declarações bombásticas do ex-presidente exilado fazem temer o pior e permitiram camuflar uma circunstância que nunca vi em eleições democráticas: todos os partidos perderam. Ciudadanos foi a formação com mais votos, 25,3%, mas os seus 37 deputados dificilmente permitem liderar o governo autonómico. O poder irá certamente para a geringonça do segundo e terceiros mais votados, cujas derrotas são apesar de tudo subtis: Juntos pela Catalunha teve 21,6% e elegeu 34 deputados, mas é uma pálida sombra do partido nacionalista de centro-direita que dominou a política catalã nos últimos 40 anos e que se habituara a maiorias absolutas; os republicanos da ERC tiveram 21,4%, mas falharam o objectivo de ultrapassar o seu parceiro da direita. Para formar governo, estes dois partidos precisam dos anti-capitalistas da CUP, que quase desapareceram, e serão mais uma vez a muleta da burguesia, tudo em nome do independentismo que, em conjunto, não somou os necessários 50% de votos e que está longe de formar um bloco unido. Se os soberanistas não têm maioria nas urnas, os constitucionalistas perderam as eleições em número de deputados e com todas as letras, sobretudo os socialistas (com mais um eleito, mas estando este partido transformado numa pálida sombra do passado) e os populares, que governam em Madrid e parecem extintos na Catalunha. Também o Podemos catalão foi vítima do voto útil e os seus 8 deputados não deverão servir para coisa alguma, tendo portanto fracassado a estratégia que colocaria o partido numa posição indispensável para um dos blocos. Ontem, perdeu a Espanha, pois a crise constitucional é agora uma distracção para meses ou até anos, com impacto económico e político, com a possibilidade concreta da Espanha se estilhaçar nesse caminho das pedras. Perdeu a Catalunha, pois a sociedade está fracturada e a reconciliação será, na melhor das hipóteses, lenta e difícil. Perdeu Portugal, porque está demasiado perto desta crise espanhola. Perdeu a Europa, pois haverá aqui ampla inspiração para libertar o veneno das nações que se julgam oprimidas. E sobre o futuro, só há perguntas angustiantes: os independentistas vão tentar governar a Catalunha ou avançam para a ruptura? Os líderes são presos à chegada ou não se aplica a Constituição? As empresas catalãs vão continuar a sair da região? A monarquia é extinta? E qual será a reacção dos mercados? E da Europa? Qualquer observador conclui que é preciso negociar uma nova constituição ou um novo estatuto autonómico, mas isso é possível com o actual elenco de partidos e dirigentes?

Outra vez na linha justa

por Luís Naves, em 04.12.17

A eleição de Mário Centeno no Eurogrupo está a ser aproveitada pelo governo para o habitual estardalhaço propagandístico que acompanha as suas pequenas vitórias, mas a partir de agora torna-se mais difícil esconder a esquizofrenia da combinação política que nos governa. Centeno não terá poderes para contrariar a ortodoxia financeira na zona euro, pelo contrário, será ele a anunciar as medidas necessárias para garantir o cumprimento do Tratado Orçamental que regula a relação entre os países da moeda única. O próximo ano é decisivo para negociar os fundos comunitários após 2020, mas convém não perder de vista que desaparece a contribuição britânica e haverá menos dinheiro para distribuir. Portugal tem vantagem em aderir ao cumprimento estrito das regras (redução do défice estrutural) e o presidente do Eurogrupo será relevante na negociação da futura arquitectura da zona euro, que precisa de novos mecanismos para impor a disciplina aos Estados. O Conselho Europeu tem o exclusivo das decisões relevantes sobre essas reformas e, dentro do Conselho, o directório de potências (que escolheu o ministro português). Enfim, não muda nada lá fora, mas muda qualquer coisa cá dentro, pois Centeno terá poderes comparáveis aos de Vítor Gaspar. O PM não o pode demitir ou substituir, sob pena de arranjar um trinta-e-um nos mercados e perder uma posição europeia. A influência interna do ministro aumenta, pois invocando a sua qualidade de presidente do Eurogrupo, terá força para impor metas ambiciosas na redução da despesa e defender maior ousadia na diminuição da dívida, o que não foi possível nas circunstâncias da geringonça. O governo minoritário é capaz de viver com isso, mas o apoio parlamentar dos partidos de esquerda pode sofrer. A dois anos de eleições, a confiança entre os parceiros não será a mesma: com uma simples nomeação, a Europa conseguiu recolocar Portugal na linha justa.

Os vulcões adormecidos

por Luís Naves, em 03.12.17

Quem viveu durante a primeira metade do século XX habituou-se a esperar a violência, a desconfiar da longevidade da paz e a temer as ameaças existenciais da sua época. O nosso tempo parece ser diferente, habituámos-nos ao rumor profundo dos vulcões, mas eles não nos preocupam, pois julgamos que estão adormecidos. Em vez da decadência que destrói o passado, somos do esquecimento que idealiza o presente. Vivemos na cultura do efémero, no gosto superficial que rejeita o que pareça antigo. Na cultura, triunfou a frivolidade. As castas políticas desprezam os eleitores e falam em nome do povo, as ideologias foram substituídas pelo consenso pragmático, que ocupa o centro bacteriologicamente puro, em oposição às franjas, onde se instalaram lunáticos, deslumbrados e populistas. Os sensores da economia dão os sinais mais fortes da fúria que se acumula nas profundezas da sociedade: o poder salvou os bancos, mas nunca se preocupou em salvar as indústrias que empregavam os trabalhadores pouco qualificados; os operários quase desapareceram e competem hoje com emigrantes e refugiados por empregos precários e serviços públicos subfinanciados. Os migrantes apareceram numa altura em que se precisava de mão-de-obra conveniente, foram recebidos pelas elites com flores e beijos, mas não têm ainda o direito de trazer as suas famílias. Além do rumor dos povos em marcha, é possível ouvir outros sons dos vulcões adormecidos: os robôs que dão pulos, os tiranos com mísseis, os inquisidores e novos episódios de caça às bruxas, o trovão dos gelos em colapso, as guerras autênticas que não interessam. Este é um mundo onde a solidariedade paga imposto e os milionários estão entre os grandes arautos da moralidade. Este é um mundo onde o que se diz hoje não é válido amanhã. Este é um mundo que perdeu a alma e ainda não encontrou outra, que perdeu as nações e raízes, as línguas e até as sementes, que apaga o que é velho. Este é um mundo aparentemente fragmentado, mas que tende para a convergência e para o conformismo, onde tudo o que interessa é ditado de cima e se torna igual para todos, a cultura de massas, o consumo desenfreado ou o consenso mole na política.


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