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Eleições gregas I

por Luís Naves, em 19.01.15

O intenso desejo de que algo se concretize é um elemento poderoso em política, capaz de alterar a percepção do público sobre um determinado problema e de limitar as opções da respectiva resolução. O fenómeno é visível em muitas análises sobre as eleições gregas, onde o partido de extrema-esquerda Syriza está bem colocado para vencer, com um lote de promessas que passam pela expansão acentuada da despesa pública, o que será incompatível com as intenções da troika. Na comunicação social, a reacção tem sido de confusão sistemática entre desejo e realidade. Também por isso, os comentadores tendem a desvalorizar o que foi conseguido em Portugal: estamos nos mercados e as taxas de juro são invulgarmente baixas, mas isso é absurdamente considerado sem mérito e simples efeito externo.

Para alguns, a Grécia é um modelo de resistência, não o modelo a evitar. Se vencer as eleições, o Syriza pretende reestruturar a dívida, agora nas mãos de instituições europeias. Os credores europeus estarão dispostos a negociar, mas oferecendo apenas concessões que poderiam reduzir a dívida pública grega dos actuais 175% do PIB para um pouco menos de 160%. Talvez seja possível ir um pouco mais além, mas em troca Atenas teria de acelerar as reformas estruturais (que estiveram sempre atrasadas) e manter saldos primários positivos. O BCE prepara-se entretanto para um programa de estímulo monetário e não haverá mutualização da dívida, pois cada banco central será responsável pelas suas compras. Embora isto corresponda ao cumprimento dos tratados, os analistas referem o seu desapontamento.

Sobre a Grécia, omite-se geralmente que o país está fora dos mercados, que precisa de financiamento externo e que tem duas opções: sai do euro, desvalorizando a moeda e empobrecendo ainda mais depressa ou, em alternativa, mantém o programa de ajustamento (o que a simplificação jornalística designa como austeridade) e pede novo empréstimo. Caso o Syriza confirme as sondagens e vença as eleições, parece difícil evitar um choque entre os desejos e a realidade: os credores recusam assumir as dívidas gregas e um governo de esquerda terá a ilusão de poder vergar a opinião pública da Europa do Norte, sendo impossível para esse partido renegar as promessas feitas na véspera em campanha.

A hipocrisia do pessimismo

por Luís Naves, em 15.01.15

Durante os três anos do programa de ajustamento foi criado um clima de pessimismo que será difícil desfazer. Muitos jornalistas, políticos e comentadores destruíram a auto-estima dos portugueses. As boas notícias foram sistematicamente apresentadas na sua pior vertente, quando a veracidade não era logo posta em causa. Enfim, a ideia da desgraça do País entrou nas consciências e autores de artigos de opinião que não acertaram uma única vez durante esta crise continuam tranquilamente a espalhar o derrotismo e a exercer a sua liberdade de expressão sem um mínimo de responsabilidade.

Um bom sítio para ver os efeitos deste problema é num curso para desempregados de longa duração. Sou testemunha. As pessoas deixaram de acreditar nas suas forças e dizem que é impossível o regresso ao mercado de trabalho. No grupo onde participo, há trabalhadores com excelentes qualificações, mas sobretudo trabalhadores indiferenciados, cujo desespero é evidente. Estas pessoas estão marcadas pela hipocrisia da sociedade e foram vítimas de demasiados gestos de indiferença. O pior, do seu ponto de vista, é a noção clara de não haver qualquer esperança. Segundo acreditam, a situação do País não tem saída e qualquer tentativa para incentivar o ânimo é vista como optimismo inútil.

O clima de catástrofe criado pela comunicação social vira-se também contra a própria. Os leitores perderam a confiança e recusam este massacre inesgotável, mas os autores com acesso a colunas de opinião não vão mudar, o que só prolongará a mentalidade da crise. Quem tenta sair da narrativa oficial da calamidade é imediatamente atacado pela brigada dos fatalistas, cujos membros falam sempre do alto dos seus empregos seguros e das suas opiniões superficiais.

A guerra contra o terror

por Luís Naves, em 14.01.15

À primeira vista, a brutalidade dos terroristas radicais islâmicos sugere uma ameaça existencial para o Ocidente e os seus valores. A barbárie também se manifesta em zonas de guerra onde reina o terror, como no norte da Nigéria, na Síria/Iraque, na Líbia e Somália ou em territórios substanciais do Afeganistão. E, no entanto, quando temos uma visão mais abrangente do conflito, são os radicais que enfrentam uma óbvia ameaça existencial. As principais potências do mundo (EUA, Europa, Rússia e China) concordam entre si num único ponto, a necessidade de combater o radicalismo islâmico, seja na sua forma de grupos terroristas ou de movimentos separatistas. Os islamitas são perseguidos em todos os países estáveis do mundo muçulmano e estão a ser presos ou eliminados em todas as regiões onde existam grupos extremistas. As zonas dominadas pelos radicais são pobres ou palco de intermináveis guerras civis.

O extremismo islâmico combate os valores ocidentais e todas as suas manifestações, das caricaturas aos bonecos de neve, das representações divinas às taxas de juro, do cinema à educação das mulheres. Os radicais islâmicos dizem que não são precisos mais livros, pois o que não está no Corão é inútil ou errado. A vida quotidiana dos ocidentais, que se infiltra em todos os países, vai conquistando as pessoas para ideias diferentes, do casamento por amor à libertação das mulheres, que até começam a conduzir automóveis. A banal televisão ou uma simples canção na rádio representam o horror e um ataque à interpretação fundamentalista da religião. Para estes fanáticos, o ocidente está todo errado, não apenas a sua laicidade e o direito à blasfémia, mas também os valores da liberdade, dos direitos humanos e da convivência de culturas. Ou seja, o conflito entre radicais islâmicos e civilização ocidental não tem qualquer espaço para a reconciliação. Os extremistas só têm a opção de radicalizar o seu movimento, o que produzirá uma reacção cada vez mais violenta e concertada das potências do mundo contra grupos que serão isolados, caçados e destruídos.

Não os ouçam...

por Luís Naves, em 11.01.15

Portugal não tem um problema com imigração muçulmana e também não tem uma rebelião populista como a que continua a crescer na Europa, numa reacção em torno da ansiedade económica e cultural de importantes camadas da população, sobretudo as que têm menos acesso aos meios de comunicação e às preocupações dos partidos tradicionais. O politicamente correcto que inunda o discurso das elites e que se instalou em força nas redacções está a fazer grandes estragos: muitos eleitores acham que a sua voz não é ouvida e acham até que a sua identidade é desprezada.

O texto de João André, mais abaixo, sobre o movimento populista Pegida, cita um artigo em The Economist que vale por mil palavras. A certo ponto, é citado um cavalheiro que diz mais ou menos isto: os muçulmanos não são um problema, quem não se integrou na República Federal da Alemanha foram os alemães que protestam em Dresden (na Alemanha de Leste). Esta visão das coisas é extraordinária. As pessoas que vivem em locais da Alemanha de Leste não se podem pronunciar sobre as políticas da Alemanha. Os eleitores que vivam em zonas onde haja baixas proporções de imigrantes não se devem pronunciar sobre a política de imigração da Alemanha. Talvez fosse lógico propor que os votos sejam diferentes, consoante se é alemão do Ocidente ou do Leste, se o tema é fracturante ou não. Talvez fosse lógico fazer um catálogo de temas apropriados a manifestações.

Se os partidos não compreendem que têm de ouvir os eleitores não compreendem nada, mesmo quando discordam ou quando mostram caminhos alternativos ou quando provam que o problema não é tão grave como o pintam estes segmentos da opinião pública. Apagar a luz, fazer contra-manifestações ou grandes discursos em que se acusa as pessoas de serem alemães de segunda só irá lançar estes eleitores para as mãos do primeiro demagogo que mostre alguma disponibilidade para os ouvir. Além disto, demonstra grande medo.

Por causa deste género de alienação do eleitorado, os populistas do Podemos estão à frente nas sondagens em Espanha, o Syriza prepara-se para vencer na Grécia, políticos como Marine Le Pen, Nigel Farage ou Geert Wilders são ameaças concretas aos partidos tradicionais, como são outras formações populistas ou extremistas (praticamente todos os países têm uma, à esquerda ou à direita). O fenómeno está a estender-se a toda a Europa e vai dificultar os habituais entendimentos entre centro-direita e centro-esquerda que dominaram a política europeia nos últimos 30 anos. A rebelião populista não vai desaparecer do mapa e alimenta-se da surdez das elites. Resta saber se Portugal também entra nesta dança.

Zombies da Al-Qaeda

por Luís Naves, em 10.01.15

Escrevi em texto anterior que os autores do atentado de Paris tinham ligações ao Estado Islâmico. Esse texto, Soldados do Califado, baseava-se em primeiras informações, que não se confirmaram. Afinal, os dois terroristas não estiveram na Síria e, aparentemente, não tiveram contacto directo com o chamado Califado. No final da sua extraordinária fuga, já cercado, um dos irmãos Kouachi fez uma breve declaração pelo telefone a um jornalista e sabe-se agora que pelo menos Said Kouachi esteve no Iémen sob a tutela de um dos principais líderes da Al-Qaeda, Anwar al-Awlaki, o imã americano, que era então considerado um dos dirigentes mais perigosos da organização. Kouachi esteve no Iémen em 2011, no mesmo ano em que Al-Awlaki foi morto com alguns dos seus companheiros pelo disparo de um drone americano. Assim, não sendo propriamente soldados do Califado, os três radicais franceses puderam preparar a vingança durante três anos, sem serem detectados. É possível que haja outras redes adormecidas, prontas para a acção. O aparecimento de um terceiro terrorista só aumentou a confusão e tornou mais difícil a captura dos dois irmãos que mataram os membros da redacção do Charlie Hebdo. Seguiu-se um ataque puramente racista, que acabou em banho de sangue numa loja de produtos kosher, embora provavelmente o alvo fosse uma escola judaica próxima. Isto serve de aviso: a Al-Qaeda parecia ultrapassada, mas tem raízes fundas; o Estado Islâmico, talvez ainda mais perigoso, tentará certamente a mesma estratégia de preparar grupos que actuam após anos de clandestinidade e silêncio. O terrorismo contemporâneo é um pouco como os filmes de zombies, haverá sempre mortos-vivos a saírem das tumbas.

 

Na blogosfera portuguesa foram publicadas boas reflexões sobre este caso, mas recomendo sobretudo a leitura de dois textos notáveis, de Pedro Picoito e de Rui Ângelo Araújo

A exclusão dos populistas

por Luís Naves, em 09.01.15

A exclusão da Frente Nacional de uma manifestação de unidade em França é um bom exemplo da crise de legitimidade que cresce nas democracias liberais e que, a prazo, ameaça tornar-se numa rebelião populista capaz de se transformar numa crise das próprias democracias. Embora esteja em estado de choque pelo brutal atentado de Paris, a elite política francesa parece incapaz de realizar uma simples manifestação onde participem todos os partidos. A exclusão da Frente Nacional é na realidade uma bofetada a um quarto do eleitorado. Este partido de extrema-direita ou, na sua actual versão, de populismo de direita teve 4,5 milhões de votos nas eleições europeias. Nas legislativas de 2012, ficou em terceiro lugar, com 3,5 milhões de votos, mas só elegeu 2 deputados. Muitos eleitores em França e na Europa sentem que o seu voto não conta. Embora haja grande número de jovens nestas formações populistas, a esquerda intelectual continua a dizer que se trata do passado.

 

 

Soldados do Califado

por Luís Naves, em 08.01.15

O atentado de Paris contra o jornal satírico Charlie Hebdo foi também um ataque brutal às elites intelectuais francesas. A emoção da frase “somos Charlie” será inconsequente se não for acompanhada de uma reflexão. Os dois primeiros suspeitos do tiroteio chamam-se Cherif e Said Kouachi (à hora a que escrevo ainda não foram capturados). Os dois irmãos franceses de origem magrebina estavam referenciados pelas autoridades policiais, combateram na Síria e, no entanto, estes soldados do Califado regressaram tranquilamente a França, onde aparentemente obtiveram armamento de guerra. A ser verdade, como é que isto foi possível?

O ataque não visou exactamente a liberdade de expressão, pois os terroristas estão-se nas tintas para quem criticar a República ou o presidente Hollande. O ataque foi contra o direito de criticar o Islão, norma que não sabemos exactamente onde começa, embora seja nítido onde acaba. Os dois terroristas simbolizam o desprezo que o Islão radical tem pelo Ocidente, mas também a forma benevolente como a elite intelectual francesa (à excepção porventura de jornais como Charlie) tem tratado esse mesmo Islão radical.

Os intelectuais franceses e europeus continuam a afirmar que não existe um problema de imigração, continuam a achar que a intolerância religiosa dos radicais é uma reacção à crise económica, mas o facto é que as democracias permitiram o crescimento de um tumor que parece ser difícil de extirpar: muitos jovens muçulmanos foram radicalizados por imãs que aproveitaram as amplas liberdades da sociedade francesa, nomeadamente a liberdade religiosa. O desprezo pelos valores do Ocidente fez o resto. A França é o país europeu com mais combatentes na Síria, onde se formou uma espécie de brigada internacional, sobretudo de europeus que vão dedicar as suas vidas, previsivelmente curtas, à destruição do Ocidente.

O Islão radical é uma ideologia fanática com escassas hipóteses de triunfar no mundo, mas a sua ascensão deve-se em grande parte à ingenuidade das elites intelectuais do Ocidente, sempre velozes a condenar uma inquietação popular que é fácil classificar de “xenofobia”. Os movimentos populistas e a extrema-direita têm aproveitado habilmente o conflito social e cultural que decorre no interior dos bairros mais pobres. Quando vivi em França, nos anos 80, já era insuportável a hostilidade dos árabes em relação à população não-muçulmana e ocorreu um fenómeno que os sociólogos da época tinham dificuldade em compreender: os operários, que votavam no PCF, passaram directamente para a Frente Nacional, grupo então associado apenas aos chamados ‘pieds noir’ (retornados da Argélia) e que teve os seus primeiros verdadeiros êxitos nestes anos. Nas décadas seguintes, muitas famílias muçulmanas integraram-se na sociedade francesa, mas uma parte significativa foi radicalizada quase em silêncio e as liberdades republicanas acabaram por ser suprimidas em muitos locais onde a polícia não entra e onde mandam os fanáticos.

O dilema da liberdade

por Luís Naves, em 07.01.15

O atentado de Paris onde foi chacinada a redacção do Charlie Hebdo só pode provocar nos espíritos um imenso repúdio. Os terroristas atingiram o coração do mundo moderno, pois a ideia de liberdade fica associada ao medo. As sociedades ocidentais não têm solução fácil para ataques como este: podem evitar futuros atentados se criarem Estados mais securitários, tal como já acontece nos aeroportos (ninguém aceitaria viajar de avião sem passar pelos complexos procedimentos de segurança); as comunidades islâmicas serão vigiadas mais de perto e, um dia, os imãs perderão a liberdade de radicalizar crentes, com os sermões alterados e a doutrina censurada. Soa mal, mas para as sociedades ocidentais defenderem as liberdades, haverá redução da liberdade religiosa.

Sem políticas de imigração mais restritivas, os islamitas serão reforçados e isso implica menos tolerância com o actual estilo de vida dos europeus. Portugal não tem um problema de imigração e as pessoas aqui desconhecem a tensão que existe nos bairros franceses, sobretudo com o aparecimento de uma geração de jovens radicais islâmicos (tão franceses como os outros) que não têm qualquer intenção de viver numa sociedade liberal ou de aceitar a república secular. Os partidos populistas, como a Frente Nacional, estão a aproveitar a insegurança das pessoas, como aliás escrevi ontem, a propósito de um movimento espontâneo na Alemanha. Isto não tem nada a ver com a crise financeira, mas com religião e choque de culturas. As vítimas de Charlie Hebdo mostram que em muitos aspectos os terroristas já ganharam, pois a intolerância e o silêncio têm garras bem fundas.

Um balanço

por Luís Naves, em 31.12.14

O mundo é caótico e difícil de interpretar. No final de cada ano, as pessoas procuram sinais que permitam compreender o que lhes acontece, fazem o deve e haver da vida quotidiana, dos insucessos e momentos de felicidade, das suas desilusões e vivências memoráveis, das novas angústias e velhos receios. Há quem se convença de ter encontrado uma grelha de leitura dos mistérios da vida, mas no final toda a gente vai passando pelo tempo que lhe calhou em sorte a acumular inquietações.

Este é o dia dos balanços, queiram desculpar o desabafo. Aparentemente, vivi um ano péssimo e anuncia-se outro ainda pior. E, no entanto, nunca fui tão livre das opressões do espírito. Estou cheio de dúvidas e tudo me parece mais claro. Sinto uma verdadeira serenidade e, apesar das ruínas da minha vida anterior, sei agora que não importa tanto a escolha ou o acaso, mas o que tiramos desta breve oportunidade para contemplar o esplendor do mundo.

Este pode ter sido um ano genuinamente mau, mas um dia talvez olhemos para ele de outra forma. Por mais modernas que as sociedades sejam, as mudanças são sempre contidas pela solidez da cultura. Existe uma inércia que atenua as grandes transformações, tal como a areia da praia trava a onda e a transforma em espuma. O pessimismo e a crise talvez nos tenham feito mais fortes. O que ficará da nossa passagem pelo tempo será sempre um enigma, fruto das circunstâncias, mas também em parte escolha nossa.

 

A todos os companheiros de blogue e a todos os leitores desejo um óptimo 2015.

Divisões sobre a Rússia

por Luís Naves, em 30.12.14

Alguns países europeus têm dúvidas sobre as sanções à Rússia. A discussão, agressiva e até agora discreta, vai aquecer nos próximos meses. Os americanos estão a exercer forte pressão sobre países que, por serem mais afectados pela destruição do seu comércio com a Rússia, não querem aumentar a parada nas sanções. O facto é que a ordem mundial financeira e política não pretende tolerar o desafio colocado por Vladimir Putin, que fez uma jogada de alto risco na Ucrânia e agora tem poucas hipóteses de conseguir sair da situação. Alguns países do centro da Europa estão relutantes em humilhar completamente a Rússia e querem apenas acabar com o conflito ucraniano, mas os falcões americanos pretendem usar este episódio para dar uma lição aos russos e acreditam que as elites de Moscovo estarão em breve a discutir a eventual substituição do seu presidente.

Desta história conclui-se que a política externa americana segue por vezes ao sabor das conveniências do calendário doméstico e muitas iniciativas surgem na forma de grandes ideias inatacáveis. Quando dominou o mundo, o Império Britânico mandou as suas esquadras defender causas humanitárias (a luta contra a escravatura, por exemplo), mas na maioria das decisões externas a política interna não era tão forte como acontece no caso americano. No que diz respeito aos EUA, os democratas precisam de parecer duros, pois a percepção de fraqueza no mundo será a sua maior debilidade na campanha para 2016. Os republicanos estão a condicionar a estratégia nesta crise e nas sanções contra Moscovo. Quando o facciosismo condiciona a estratégia, o resultado costuma ser desproporcionado ou incoerente. Os europeus, por seu lado, não podem tolerar tácticas de intimidação e a anexação de um território de um país mais fraco por outro mais forte, mas há diferentes níveis de prejuízos comerciais e nem todos se podem dar ao luxo de exigir acção imediata.  

Incerteza

por Luís Naves, em 29.07.14

Na sociedade portuguesa instalou-se um mal-estar que está a levar os políticos a ensaiar a fuga para a frente, feita de promessas que não poderão ser cumpridas. O País empobreceu e está crivado de dívidas que não consegue pagar. Os Portugueses adquiriram uma profunda noção de humilhação nacional e o pior é que a doença não passa, os sintomas não aliviam, gritam-se diagnósticos alucinados.

O clima de incómodo insustentável não se limita a dividir a sociedade, mas cria na vida uma sensação de falta de soluções. Portugal tem hoje uma política mais crispada, crescente descrédito das instituições e da democracia. Já ninguém discute o futuro, pois ninguém acredita que ele exista. O declínio parece irreversível.

O País continua a enfrentar problemas recorrentes. As crises do último século estiveram ligadas a desequilíbrios orçamentais ou problemas financeiros com base em incerteza nas contas públicas. Foi o que nos afundou também desta vez e é o que ninguém deseja debater de forma séria.

No actual regime democrático tem aumentado a estabilidade do sistema (os governos parecem sobreviver mais tempo), mas no passado, quando se deparou com crises difíceis, Portugal escolheu caos ou ditadura, matando à nascença qualquer ímpeto reformista.

Não teremos contas públicas equilibradas sem a reforma corajosa do Estado Providência, mas se todos os nossos problemas forem encarados como enigmas insolúveis, não haverá saída. O mal-estar pode conduzir ao impasse, levar a escolhas erradas, populismo ou revolução, que implicam o isolamento do País e a sua condenação à pobreza por muitas décadas.

Problemas crónicos

por Luís Naves, em 15.07.14

Uma sociedade que não compreende os seus problemas está condenada a repetir vezes sem conta os mesmos erros.

Após uma década de estagnação económica, em que o Estado, as famílias e as empresas acumularam dívidas insustentáveis, Portugal foi confrontado com uma situação de insolvência que exigiu intervenção externa, sujeita a condições draconianas. O resgate implicou um programa de ajustamento que, por sua vez, exigiu duros sacrifícios à população. Neste processo, mal negociado no início e que não era negociável depois, Portugal perdeu 6% da riqueza. Seria um verdadeiro milagre que a pobreza não tivesse aumentado ou que não houvesse mais desemprego.

Infelizmente, temos uma narrativa maioritária que ignora os factos básicos, impedindo o País de compreender que o ajustamento esteve associado a uma mudança estrutural da economia. Se quiser manter-se na zona euro, Portugal terá de cumprir regras de equilíbrio orçamental. Não está resolvido o seguinte trilema: podemos ter uma sociedade democrática e próspera, mas isso implicará controlar os gastos sociais, limitar a dimensão do Estado e rever o sistema de pensões; se preferirmos continuar com um elevado nível de despesa pública e de dívida, teremos de sair da zona euro, prescindindo da prosperidade e talvez até da democracia que a participação na União Europeia garante.   

 

O problema central, nesta crise, esteve na repetição de um modelo errado. As principais dificuldades que Portugal atravessou nos últimos 150 anos tiveram sempre elementos semelhantes: grupos de interesses apropriavam-se de um orçamento limitado, ganhando partes desproporcionadas do bolo ou não pagando impostos; os negócios que privilegiavam os amigos eram muitas vezes ruinosos, mas estava lá sempre o Estado centralizado para acudir a aflições; as clientelas garantiam a estabilidade do sistema, não havendo verdadeiro espaço para uma opinião pública crítica ou para o aparecimento de autênticas alternativas políticas; este foi um país imune a reformas, onde cada pequena mudança deparou com a resistência feroz dos grupos beneficiários, que controlavam os meios de comunicação. Este modelo garantiu-nos uma pobreza crónica e a instabilidade instalava-se quando os recursos disponíveis se tornavam insuficientes.

 

 

Cabazada de realidade

por Luís Naves, em 09.07.14

Os portugueses defendem partidos fortes, mas não estão dispostos a participar neles; querem uma sociedade civil pujante, mas ficam sentados à espera que ela apareça; queixam-se da política, mas não gostam de chatices, excepto no caso de subida rápida. As pessoas exigem serviços públicos impecáveis, mas têm dúvidas sobre a ideia de pagar impostos; querem a comunidade segura, mas não lhes importa a do vizinho; e o atendimento tem de ser perfeito, mesmo quando não se paga. A cultura será gratuita; os artistas são maus, sobretudo quando não são conhecidos lá fora; e os escritores não podem ser incómodos, pelo contrário, devem limitar-se a afirmações fofinhas e politicamente correctas.

A elite de pessimistas na imprensa e blogosfera pensa que os governantes e os partidos seriam perfeitos se fossem outros, mas nenhum destes autores se interroga como se faz uma democracia sem partidos. Quando aparece um novo, como aconteceu recentemente, os mesmos observadores escrevem, nos seus sofás, que estas iniciativas dividem e estão longe do ideal. Ainda não era bem isto.

Os políticos mais citados são os que estão nas alas, à espera de oportunidade, enquanto aproveitam para marcar posição sentada e fazer corajosas críticas à governação, típicas de quem nunca se chegou à frente. Quando alguém tenta ser líder, lá está uma nova divisão. E se o poder não é entregue de mão-beijada, ai, ai.

 

 

 

Metáforas e lendas

por Luís Naves, em 08.07.14

Na brilhante Novela de Xadrez, a derradeira obra de Stefan Zweig, paira a ideia de que há matérias sobre as quais mais vale não falar. O narrador conhece um terrível segredo e a personagem do campeão é sinistra, ou seja, o mal triunfa e possui uma inteligência impossível de bater. O escritor austríaco viria a suicidar-se pouco depois de escrever esta novela.

Quando o xadrez era popular, os autores gostavam de usar este jogo como metáfora, mas o xadrez já não se joga. No império do espectáculo em que vivemos, tornou-se uma habilidade para máquinas. As pessoas que conhecem as regras praticam sozinhas: sou regularmente batido pelo meu computador e confesso que tento fazer ligeira batota, colocando o grau de dificuldade em mínimos humilhantes. A máquina não se importa e é implacável. Ela não possui emoções e eu enervo-me com a ausência de erros, fazendo movimentos estupidamente impulsivos. Se existe aqui uma sugestão é de que a humanidade está pronta para ser ultrapassada. Eu, pelo menos, já fui ultrapassado.

As metáforas do futebol são mais seguras. Este desporto ainda não tem máquinas e tornou-se global, inspirando histórias que as pessoas contam em numerosas variações. Por exemplo, esta:

No Natal de 1914, houve na Frente Ocidental umas tréguas informais entre soldados, sobretudo entre ingleses e alemães, com troca de presentes e confraternização na terra de ninguém. A guerra parou alguns dias em vários locais e conta-se que houve pelo menos um jogo de futebol anglo-germânico, que os oficiais interromperam com um bombardeamento (a imagem mostra um jogo entre ingleses, longe da frente). As tréguas são históricas, envolveram provavelmente mais de cem mil soldados, mas o jogo de futebol de Natal continua a ser considerado lendário, pois não existem imagens ou provas documentais de que tenha ocorrido, apenas testemunhos de sobreviventes. 

 

 

 

 

 


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