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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 15.11.19

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João Carvalho: «Naquele programa que dá pelo nome de Tempo Extra e que devia chamar-se "Tempo Infinito", o bem oleado Rui Santos promoveu um inquérito para auscultar como ficou vista a Selecção Nacional frente à Bósnia: Excelente, Muito Boa, Boa, Razoável, Medíocre, Muito Má. Eu queria votar Má, mas não pude, porque não constava. É verdade que o bom do Rui também desperdiçara Mazinha, Muito Péssima e Completamente Desgraçadinha, mas deixar de fora a nota Má que define, afinal, quase tudo o que é nacional parece-me pouco inteligente. A ideia do Rui Santos? Foi como de costume: Má.»

 

José Gomes André: «Escrevo num blog "generalista", mas elogio e muito os blogs "especializados", pois permitem um acesso rápido e ao mesmo tempo profundo a temáticas que, habitualmente, são abordadas com superficialidade pela imprensa tradicional.»

 

Teresa Ribeiro: «Cresci a ouvir familiares, amigos, colegas, taxistas e até políticos em campanha a perorar contra "eles". Percebi cedo que dizer "sistema" era apenas uma variante lexical para falar "deles". E também me habituei a assistir a pequenos golpes com a abulia de quem segue um boletim meteorológico. Compactuávamos com isto por impotência, inércia ou  conveniência, conforme o lugar que ocupávamos na cadeia alimentar.»

Canções do século XXI (956)

por Pedro Correia, em 15.11.19

Aqua alta

por Paulo Sousa, em 14.11.19
O debate já tem várias décadas, mas a conclusão é clara. O aquecimento global levará ao desaparecimento das principais cidades costeiras e obrigará ao deslocamento de milhões de pessoas.
 
A única forma de interromper, ou pelo menos atrasar, o anunciado fim do mundo passa por:
1 - comprar um carro de mais de 50.000€ equipado com baterias de litio, explorado nos Andes
2 - acabar com o consumo desenfreado do sistema capitalista
 
Quem tiver dúvidas desta verdade já confirmada por 5.500 cientistas (escolhidos um por um de acordo com as suas convicções climatéricas) veja com atenção o que está a acontecer em Itália:
 
Veneza está alagada!!


Imagem Wikipédia do inverno de 1966

 
Tenham medo!! Buuuu!!!
 
PS: Qual terá sido a explicação para este fenómeno em 1966?

Upskirting

por Cristina Torrão, em 14.11.19

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Imagem daqui

Os telemóveis transformaram o acto de fotografar, outrora reservado para ocasiões especiais, num gesto banalíssimo. E também iniciaram modas, como a das “selfies”, que enervam muita gente. Comparado, porém, com outras práticas fotográficas, a do auto-retrato é inofensiva. Venho hoje falar do upskirting: fotografar por baixo da saia, ou do vestido, de uma mulher, a maior parte das vezes, sem que esta o note. A maioria das vítimas são jovens, algumas ainda menores.

Duas jovens alemãs, vítimas de upskirting (uma delas tinha apenas treze anos, quando assim foi fotografada pela primeira vez), iniciaram, há meses, uma campanha, acompanhada de petição, com o objectivo de criminalizar esta prática. Não sendo o upskirting considerado assédio sexual, já que não há qualquer contacto físico, não é crime e as suas vítimas nem sequer podem apresentar queixa à polícia. É assim visto com condescendência por muita gente, como outras práticas que, alegadamente, apenas servem para que os rapazes se divirtam. Um argumento muito usado pelos defensores do upskirting é: «não queres ser fotografada por baixo da saia? Veste calças!» Machismo? Que ideia! As duas activistas é que são umas feministas radicais, que querem impor mais censuras aos coitados dos homens, que, qualquer dia, nem sequer podem olhar para uma mulher, blá, blá, blá…

Na verdade, além de representar uma violação não consentida da intimidade, o upskirting está longe de ser um mero divertimento. As fotografias são partilhadas em chats e, muitas vezes, comercializadas e/ou publicadas em sites pornográficos. Tudo isto sem o consentimento das visadas que, muitas vezes, ignoram a existência das imagens. Noutros casos, porém, as vítimas são identificáveis, o que em nada diminui a sua gravidade.

As duas jovens activistas estão de parabéns. Ontem, o governo alemão decidiu criminalizar a prática do upskirting (incluindo fotografias tiradas a decotes, sem o consentimento da visada) com penas que vão da multa a dois anos de prisão, à semelhança do que já tinham feito outros países como a Finlândia, a Austrália e a Grã-Bretanha.

Além do upskirting, foi criminalizado, com penas semelhantes, o péssimo hábito de fotografar vítimas, mortais ou não, de acidentes de viação.

No mundo das novas censuras

por Pedro Correia, em 14.11.19

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1. Censura de imagem. Fotografias de um vulgar e suculento cozido galego - muito semelhante ao nosso, mas com grão - foram banidas do Instagram, por decisão de um anónimo comité censório dessa rede social. Alegação: aquelas imagens de enchidos mesclados com vegetais «infringem as normas comunitárias» pois contêm suposta «violência gráfica e linguagem [visual] que estimula o assédio ou nudez e actividade sexual». Um galego de Vigo, que publicou estas imagens em homenagem ao «primeiro cozido da temporada» em casa da mãe, senhora de aparentes virtudes culinárias, não esconde a perplexidade, alegando ter-se limitado a fotografar os alimentos tal como estavam na travessa. Presume-se que a «violência gráfica» do chouriço e do repolho tenha ferido sensibilidades de alguns devotos das religiões vegetariana e vegana.

 

2. Censura de linguagem. A Air Canada anunciou que deixará de dirigir-se aos passageiros recorrendo ao anacrónico tratamento «senhoras e senhores»: evita assim ferir putativas susceptibilidades de género, designadamente das pessoas de sexualidade «não especificada». Passarão a ser designados, uns e outros, por «toda a gente» em obediência ao novo cânone da absoluta neutralidade de género. Falta saber por quanto tempo, pois esta expressão antropocêntrica promete por sua vez ferir as susceptibilidades de alguns animais.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.11.19

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António, o Outro Salazar, de César Santos Silva

Prefácio de David Martelo

Ensaio biográfico

(edição Book Cover, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 14.11.19

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Ana Vidal: «Chego ao meu último dia em Bangkok, já com pena de ter de deixar a cidade. Troco as últimas compras por um programa prometido a um amigo e também muito apetecido: uma visita à embaixada portuguesa, autêntica pérola do nosso património diplomático. Atravesso as ruas num tuk-tuk veloz, que me deposita no portão verde decorado com o escudo português e se afasta, deixando-me sozinha e sem a menor garantia de um “abre-te Sésamo” que me faça ser recebida, já que não avisei previamente da minha visita. Mas tenho sorte (não a tenho sempre, afinal?): é o próprio embaixador quem me recebe, sorridente e solícito.»

 

Teresa Ribeiro: «Ainda é tão cedo e já fiz tanta coisa! Bah! Afinal o que são três horas de sono a menos?! Continua a chover. A velhota do 3º andar já está na rua a passear o caniche. Ela de rosto franzido a trocar as pernas, ele feliz da vida a gozar a frescura do ar, os dois de caracóis cinzentos a pender para a testa, como duas gotas de água. O trânsito flui com a cadência dos fins-de-semana. Está a apetecer-me um croissant da pastelaria. A esta hora ainda estão quentes.»

 

Eu: «Desconheço onde mora agora Lobo Antunes, autor daquela crónica que li em espanhol mas que não hesito em considerar uma das mais belas de sempre da língua portuguesa. Penso nesse texto sempre que passo na Rua D. Filipa de Vilhena. Tento imaginar qual seria o prédio, qual seria o andar. Ignoro. Mas só pode ser um local trespassado de magia. Por ali se ter vivido um tocante, irrepetível e perpétuo amor.» 

Canções do século XXI (955)

por Pedro Correia, em 14.11.19

Ter ou não ter filhos

por Teresa Ribeiro, em 13.11.19

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Verifico que anda por aí muita gente indignada com os jovens, por não quererem ter filhos. Acusam-nos de egoísmo, como se a decisão de procriar fosse um acto cívico e não algo de profundamente pessoal. Quando se atribui a nossa preocupante baixa natalidade à falta de condições de vida, logo se levantam vozes indignadas a clamar que antigamente as pessoas viviam muito pior e tinham mais filhos.

É verdade. Antigamente as grandes proles encontravam-se, sobretudo, nos dois extremos da sociedade, ou entre os ricos, ou em meios muito pobres. Mas neste último caso a vinda de cada filho ao mundo era encarada de uma forma bem diferente da que temos hoje como lógica e natural. Já contei aqui esta história, mas por ser verdadeira, vale a pena recordar: nos anos 40, a minha mãe, então pouco mais do que uma criança, ouviu chocada um camponês confessar que preferia que lhe morresse um filho, do que uma vaca, "porque os filhos arranjam-se de borla, enquanto que as vacas custam muito dinheiro".

É deste portugalinho miserável que os críticos da juventude de agora têm saudades? Sim, antigamente o povinho multiplicava-se bastante, mas não era porque estivesse preocupado em contribuir activamente para a sustentabilidade da segurança social. Tinha muitos filhos porque não os planeava e não os planeava por ignorância, por inércia e porque não tinha perspectivas nem a ambição  de conquistar uma vida melhor para si e para os seus. O que tem isto a ver com generosidade?

Curiosamente, muitos dos que culpam os jovens pela baixa taxa de natalidade são os mesmos que desprezam os "chorões" que se queixam da vida. Os fãs do modelo de sociedade liberal que entretanto se instituiu continuam a subescrever o discurso passista "se não estão bem, mudem de país" (esquecendo que, nesse caso, os filhos que possam ter, vão nascer no estrangeiro). Recordo que um dos seus postulados é, como proclamava Thatcher, "there´s no such thing as society, there are individuals". Quem acredita nisto não tem sequer moral para acusar seja quem for de egoísmo.

Se os nossos jovens tendem a cuidar dos seus interesses imediatos, até porque na sua esmagadora maioria não têm rendimentos suficientes para fazer planos a longo prazo, estão apenas a ser sensatos. Escolher não ter filhos, quando não recebem o suficiente para sair de casa dos pais, mais do que sensato é uma opção responsável.

Querem mais gente a nascer? Dêem condições a estes miúdos. É que hoje, felizmente, as pessoas já não procriam como bichos, pois cada filho que decidem ter é valorizado, como qualquer ser humano merece.

 

Palavras para recordar (59)

por Pedro Correia, em 13.11.19

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PINTO MONTEIRO

Diário de Notícias, 21 de Maio de 2008

«Seja político, pedreiro, capitalista ou pobre, como princípio geral não há ninguém impune no País.»

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 13.11.19

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Estudos Sobre Heidegger, de Mafalda de Faria Blanc

Ensaio, Prémio Pen Clube 2019

(edição Guerra & Paz, 2018)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 13.11.19

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João Carvalho: «António Vitorino acha, conforme se lê no DN, que «a crise internacional de que começamos agora a sair pode (...) ser considerada como o fim deste ciclo iniciado com a queda do Muro de Berlim». Como a queda do Muro de Berlim já não era um início, mas a consequência de diversos factores concentrados, o mais certo é também não estarmos em fim de ciclo. E mais certo ainda é não estarmos a sair da crise. Pelo menos, em Portugal.»

 

Paulo Gorjão: «Não faltam exemplos de decisões mal estudadas, mal fundamentadas, ou mal implementadas. Cada ministro parece ter a sua agenda e a sua opinião. À primeira vista não existe qualquer preocupação de as articular com as dos restantes ministros. O resultado é uma cacofonia que indicia a ausência de um rumo estruturado. Navega-se ao sabor do vento. O resultado? Mais adiamentos, alterações, ou revogações. Quem vier a seguir que arrume a casa, se conseguir.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Muitos juízes de instrução não passam de chancelas do MP limitando-se a colocar um "visto" nos processos que lhes surgem. Os despachos estão pré-formatados e não raro chega-se aos debates instrutórios com os despachos já elaborados. Daí para a frente já não é com eles. Depois, é claro, sucedem-se tanto as absolvições em julgamento como as iníquas e vergonhosas condenações, apenas porque o inquérito foi mal dirigido, demorou demasiado tempo  e a prova pertinente evaporou-se ou não foi sequer recolhida devido à burocracia. Os prejuízos são evidentes para todos.»

 

Teresa Ribeiro: «A incontinência verbal é, sem dúvida, o melhor sinal de vitalidade em qualquer relação. Isto é válido tanto para casais, como para bandos de delinquentes como o nosso, sentenciou, apoiada na sua experiência de vida e na borda da banheira de onde se escapulia já a contar os minutos para sair de casa.»

Canções do século XXI (954)

por Pedro Correia, em 13.11.19

O fotógrafo estava lá

por Pedro Correia, em 12.11.19

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Sua Excelência, no aconchego da viatura oficial, fumega o cigarro electrónico contemplando os cidadãos humildes que se encontram no exterior com a superioridade olímpica de quem passou anos a passar atestados de inferioridade moral e comportamental ao comum dos mortais e não necessita de prestar contas à plebe. Pose que constitui privilégio dos iluminados.

Podia ter tomado a iniciativa de sair uns instantes do veículo e dialogar com aquela população humilde das terras do Barroso que desconfia da anunciada exploração de lítio, transmitindo aos transmontanos sempre tão esquecidos pelo Terreiro do Paço a bondade dos argumentos oficiais. Mas isso seria incompatível com a soberba de quem adora falar em povo sem jamais se misturar com ele.

Tudo bate certo nesta imagem, afinal.

Da falta de vergonha

por Pedro Correia, em 12.11.19

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Cartoon de Nieto, no ABC

 

Queixamo-nos, e com razão, do excessivo número de organismos do Estado, pagos pelos contribuintes. Já foi muito pior. Houve um tempo em que a banca era toda pública, a actividade seguradora estava em exclusivo no perímetro do Estado, transportadoras ferroviárias privadas como a Fertagus eram proibidas por lei e a Constituição interditava as televisões de capitais privados, instituindo a RTP como monopólio do sector.

Marcas de um passado que se prolongou demasiado tempo: as gerações mais jovens questionam hoje, e com razão, como é que pudemos tolerar até ao final da década de 80 este cenário tão distante dos padrões europeus.

 

Mas há sempre quem esteja pior que nós. E não precisamos de ir para muito longe. Em Espanha existe ainda hoje um instituto público só para fazer sondagens - algo tão anacrónico que até deve surpreender os mais estatistas deste lado da fronteira. É o CIS - Centro de Investigações Sociológicas. Funciona na dependência do Ministério da Presidência e tem como missão o «estudo científico da sociedade espanhola», seja lá o que isso for.

Apesar das generosas verbas públicas de que dispõe, o CIS falha em toda a linha nesta missão. Como ficou bem patente na mega-sondagem eleitoral que divulgou a 30 de Outubro - escassos onze dias antes das legislativas de domingo passado. Este inquérito supostamente científico atribuía uma folgada vitória ao PSOE, com 32,2% dos votos e até 150 deputados. Com o PP a situar-se nos 18% (entre 74 e 81 lugares no parlamento), o Podemos a ficar com 14,6% (de 37 a 45), o Cidadãos a conseguir 10,6% (de 27 a 35) e o Vox a quedar-se nos 7,9% (de 14 a 21).

 

Os resultados, como sabemos, foram totalmente diferentes. O CIS pecou por excesso (prevendo mais 4,2% e mais 30 deputados para o PSOE; mais 1,8% e mais dez deputados para o Podemos; mais 3,8% e mais 25 deputados para o Cidadãos) e por defeito (prevendo menos 2,8% e menos 14 deputados para o PP; menos 7,2% e menos 32 deputados para o Vox).

Daria vontade de rir se não fosse um tema sério. Por custar tão caro aos contribuintes espanhóis e por os induzir em tão grosseiros erros a escassos dias do voto.

 

No fundo nada disto admira, até porque o presidente do CIS, José Félix Tezanos, é militante socialista.

Apetece concluir: a falta de vergonha, no país vizinho, consegue ser ainda maior do que por cá.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 12.11.19

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A Desonra de D. Afonso VI, de João Sousa Correia

Romance histórico

(edição Clube do Autor, 2019)

" Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990"

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 12.11.19

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Ana Vidal: «Diz-se que há quatro sexos em Bangkok: as mulheres e os homens ditos “normais”, os Lady boys (homens que se apresentam e agem como mulheres, mesmo durante o dia) e as Tom girls (o inverso: mulheres transformadas em homens, no aspecto e nas atitudes). Para além das fachadas, também uma cirurgia de mudança de sexo custa uns míseros dois mil euros, pelo que a moda está em franco crescimento.»

 

João Carvalho: «Algumas belas composições dos Beatles são hinos às suas memórias comuns, laços assumidos com o seu lugar de origem. Com eles, a velhinha e obscura Liverpool como que nasceu para uma nova vida.»

 

Paulo Gorjão: «Desde a entrada na UE em 1986 que Portugal viveu um sonho. Um sonho que se começou a desmoronar quase de imediato, com a queda do Muro de Berlim, embora na altura não se tivesse consciência do seu impacto. Goradas as expectativas, pelo menos em parte, temos vindo a ajustar-nos à dura realidade. Como sempre acontece, a euforia deu lugar ao pessimismo. Agora, porém, começa a emergir uma política externa mais equilibrada.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Havendo sempre quem encontre na "política à portuguesa" ou nas decisões judiciais uma razão para tudo, até mesmo para a infâmia, esquecendo-se que a ética não é judicialmente sindicável, só vejo motivo para concluir que o PSD goza de dois pesos para uma amplíssima gama de medidas.»

 

Teresa Ribeiro: «Despiu-se num ápice. Escolheu a branca, de colarinho inglês. Estava perfeita e ficava-lhe realmente bem. Sorriu, cúmplice, para o  espelho. Às vezes bastava um olhar fugaz e retemperador sobre si próprio para recuperar o bom humor.»

 

Eu: «Não conheço nenhum outro director-geral que consiga ter mais protagonismo mediático do que quem detém a respectiva pasta ministerial. Percebo que a contínua exposição de Francisco George até seja útil a Ana Jorge, permitindo-lhe poupar-se a algum desgaste no dia-a-dia. Mas é tempo de as hierarquias serem reavaliadas e de se fazer esta pergunta: se o actual director-geral é assim tão imprescindível no espaço público que tal ser promovido a ministro?»

Canções do século XXI (953)

por Pedro Correia, em 12.11.19

Abraços

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.11.19

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Os dias continuaram a passar. Hoje já será a Missa de Sétimo Dia, mas não será seguramente por esta celebração que se regressará à normalidade. Os rituais podem ter o valor que lhes quiserem atribuir, neste caso, para mim, não passará disso mesmo. Cumprir um ritual. Para a minha memória será impossível voltar a haver uma vida normal.

A morte é desde sempre e em quaisquer circunstâncias um momento difícil para todos aqueles cuja vida se escora numa relação saudável com os outros. A quebra de um elo numa dessas relações, por muito suave que se vá processando, terá sempre um momento de ruptura inevitável. Não mais se poderá restabelecer, remediar.

A separação é irreversível. Do outro lado já não vem qualquer resposta. Apenas um silêncio dilacerante. Não há mortes fáceis, não há preparação possível, apesar de poder admitir que para alguns a conformação construída na fé e a esperança na Ressurreição possam amenizar a dor, dando-lhes o conforto necessário para aceitarem essa fatalidade.

Eu sei que terei sempre a memória, a recordação do seu sorriso sempre sereno, da candura do seu olhar, da infinita bondade de cada gesto seu, do seu desprendimento da materialidade das coisas. Sobretudo da ternura que transmitia a todos que com ela contactavam, quaisquer que fossem as circunstâncias.

Mas nada, rigorosamente nada alivia a imensidão da dor, ou é capaz de diminuir a profundidade da fenda que se abre e por onde nos vemos desesperadamente cair, apenas sentindo a vertigem do vazio, sabendo que não há regresso e que por aqui teremos de continuar, quantas vezes percorrendo caminhos que diariamente vão perdendo sentido. Até que também chegue a nossa vez.

É nestes momentos que as minhas dúvidas aumentam. De certa forma é-me inconcebível que o genial Criador, que a tudo deu forma, equilíbrio e sentido, colocando-nos nesta ínfima parte que habitamos de um Universo incomensurável, tenha resolvido o problema da morte sem curar da dor.

Para os crentes, que como ela consagram a vida aos outros, a partida é apenas o início de um outro percurso que os conduzirá à Eternidade, a um mundo paradisíaco e libertador, onde o Senhor os acolherá. Compreendo por isso mesmo que para esses, a perspectiva em que foram criados e educados os prepare e os faça aceitar a sua própria partida com esperança. Não sei se será mesmo assim; não me custa acreditar que sim. Nunca conheci ninguém que racionalmente tivesse estado do outro lado e que regressasse para me contar. Para me fazer acreditar. Para que eu pudesse ter uma outra fé.

Mas isso ainda será o menos. Só ao desconhecido é possível dar o benefício da dúvida, e por aí não tenho problemas em aceitar a visão de quem, como ela, tão convictamente, acreditava. Muito mais difícil será poder aceitar a existência desse Deus misericordioso perante o sofrimento inaudito, perante a dor dos que ficam. Como aquele que agora ali fica, aos 101 anos, perguntando-me "e agora o que vai ser de mim", ao fim de quase sessenta anos de amor, amizade, apoio mútuo, companheirismo. Como se eu estivesse em condições de lhe dizer alguma coisa, de lhe dar resposta às inquietações que o assolam.

De uma forma ou de outra todos sentimos a dor nas mais variadas circunstâncias desta vida que nos deram, e por onde vamos seguindo com maior ou menor dificuldade. Levamos a vida convencidos, e a convencermo-nos e aos outros, de que a dor é uma espécie de onda que vai e vem, e que de uma forma ou de outra acabará por passar. Bastará esperar. Esperar não custa, ouço dizer.

A mim, a dor custou-me sempre imenso. E nunca passou. E se não passou antes, pior seria agora. Eu já temia o dia de hoje.

Gostava que fosse de outro modo. Por mais que me esforce não consigo. Não se trata de um problema de fé quando se está perante uma evidência. Talvez se eu fosse um ateu convicto, não daqueles que fingem ser e acabam rezando às escondidas quando começa a relampejar, me fosse mais fácil perceber as coisas. Aceitar a dor, conformar-me com a partida de quem tanto amei e venerei em vida, de quem tanto deu, muito para lá dos limites do imaginável, não só a mim, a todos. Muitos deles desconhecidos.

Há muito que me resignara à ausência daquele bolo de S. Vicente que só ela sabia fazer, dos brownies genuínos, elásticos, quase espalmados, do seu arroz doce ou do pudim de pão. Nada disso era importante à medida que a sentia mais cansada. Não se lhe ouvia uma queixa, um lamento, um ai. Raramente lhe vi uma lágrima disfarçada escorrer pelo canto do olho.

Sentia-se-lhe sempre a tristeza, a desilusão, a decepção profunda perante a partida de alguém querido, que para ela eram todos, nas mais inesperadas circunstâncias, mas logo depois se refugiava resignada na sua própria dor e na devoção a Santo António. Até quando, apesar do esforço vão, repetia movimentos labiais tentando articular algumas palavras, para acabar ingloriamente por desistir sem que nós a compreendêssemos, uma vez conformada à sua sorte, ainda assim sempre feliz, sorrindo, quando nos via chegar. Porque tinha de ser assim, porque o Senhor sabia quando era chegada a hora de cada um, e a nós, simples terrenos e fiéis, só havia que aceitar. E continuar.

E ela continuou, a vida toda, sempre fazendo o que sempre soube quando as faculdades e as forças começaram a trair-lhe as rotinas. A mostrar aquele sorriso imensamente acolhedor, espalhando a ternura de sempre a quem chegava, fosse a quem diariamente cuidava dela, a quem arribasse para a visitar, ou a quem de muito longe lhe quisesse dizer algumas palavras através de um telemóvel, como tantas vezes eu fazia dos lugares longínquos para onde ia na minha ânsia de correr mundo. Sorriso aberto, são, quando via os filhos, os netos ou os sobrinhos chegarem, os amigos dela e os dos filhos, por vezes ainda meros conhecidos, semicerrando os olhos quando eu entrava e a beijava, para logo depois os abrir num largo, intenso, mas sempre sereno olhar de satisfação e permanente agradecimento, como se estivesse sempre em dívida para com o bem que lhe faziam. Como se ela precisasse de alguma vez agradecer alguma coisa nesta vida. Mostrando em todos os momentos uma razão para a generosidade, para a silenciosa bondade dos gestos que nos aproximam e nos confortam.   

Tudo isso agora acabou. Quem cá fica e teve o privilégio de conhecê-la e de com ela conviver em todos os caminhos e lugares que percorreu recordá-la-á por aquele misto de doçura, ingenuidade e bondade que nos desarmava, penetrava e dilacerava ao fazer-nos ver a grandeza do seu altruísmo, da sua entrega generosa e permanente, mesmo quando nos recriminava por algo que disséramos ou que em seu entender ficara por fazer.

Dei-lhe sempre tudo o que pude, incapaz de poder retribuir-lhe o tanto que me proporcionou, e que tantas vezes me encheu a alma, me emocionou, me fez sentir o quanto me deu para me fazer sorrir, me confortar.

Quando hoje olho para trás e vejo o seu legado sinto-me imensamente pequenino. Como quando me abraçava e aconchegava junto a si. E de outro modo não poderia ser. Porque foi assim a vida toda. Até no momento em que a perdi. Há dias.

Talvez seja, então, essa a razão para que só me venham à cabeça as palavras de Borges, ainda mais quando choro confrontado com o inconformismo da sua ausência e a dimensão de uma dor de que esse vosso Deus se esqueceu de cuidar no momento da Criação.

Só a simplicidade da palavra do imortal Borges pode trazer um módico de justiça à sua memória. Depois de tudo o que recordo e vivi, da Mélita, minha Mãe, como tão bem o Drummond me recordou e confortou pela generosidade do Pedro, direi tão só o que um dia o grande Borges escreveu sobre a sua querida Buenos Aires: “tenho-a por tão eterna como o ar e como a água”.

Porque eternos também foram, e continuarão a ser, até ao dia em que a mim também me levarem, quem sabe se para ao pé dela, os abraços que a Mélita me deu.

O aprendiz de feiticeiro

por Pedro Correia, em 11.11.19

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1

Pedro Sánchez sai das urnas mais fragilizado do que havia saído há seis meses, nas legislativas espanholas de 28 de Abril. Tendo ascendido ao poder por uma votação parlamentar negativa, em Junho de 2018, foi incapaz de transformar essa soma conjuntural que o impulsionou para o Palácio da Moncloa numa coligação governamental - experiência aliás inédita no país vizinho desde a guerra civil, terminada há 80 anos.

O líder socialista, chefe do Executivo em exercício que continua a governar com o orçamento do seu antecessor, o conservador Mariano Rajoy, apostou tudo em novas eleições legislativas, fazendo os espanhóis regressar às assembleias de voto. Foram cálculos egoístas, que levaram em conta o básico interesse partidário em vez do interesse nacional: Sánchez nunca pretendeu gerar consensos para a formação de uma maioria sólida e contava com trunfos acessórios - a sentença condenatória do Supremo Tribunal sobre os líderes separatistas da Catalunha e a exumação dos restos mortais de Francisco Franco - para crescer em votos e mandatos.

Afinal, nem uma coisa nem outra: este tacticismo de vistas curtas só deu fôlego às franjas mais radicais do independentismo catalão e ao nacionalismo identitário e populista, entrincheirado no Vox.

 

2

Se era difícil governar Espanha em Abril, mais difícil se tornará a partir daqui. Com o seu irresponsável aventureirismo, Sánchez sai agora das urnas com menos 0,7% (baixou para 28%) e menos três deputados no Congresso (tem só 120 em 350). Perdeu a maioria absoluta no Senado, deixou fugir mais de 800 mil eleitores e encontra agora um parlamento muito mais pulverizado e tribalizado. As forças soberanistas e regionalistas, somadas, passam a ter 40 assentos parlamentares - equivalendo ao quarto maior bloco no Congresso de Deputados.

Imediatamente à sua esquerda e à sua direita, encontrará partidos mais debilitados. O Podemos (socialista revolucionário) recua: tem menos sete deputados, menos 2,2% - representa agora só 9,8% dos eleitores - e menos 800 mil votos. O Cidadãos (centrista liberal) sofre uma hecatombe: baixa de 15,9% para 6,8%, vê o grupo parlamentar reduzido de 57 para 10 lugares e perde 2,5 milhões de eleitores nestes seis meses.

Enquanto o Partido Popular progride (cresce de 16,7% para 20,9%, atrai mais 700 mil eleitores, conquista 23 novos lugares no Congresso e outros 24 no Senado, recuperando 33% dos assentos parlamentares em relação a Abril) e o Vox ascende a terceira força política em Espanha, com mais cinco pontos percentuais (tem agora 15,1%), 52 deputados (mais 28) e 3,6 milhões de votos (um milhão acima do que obtivera no anterior escrutínio), tornando-se já o primeiro partido em Múrcia e Ceuta, enquanto regista um crescimento espectacular na chamada "cintura vermelha" de Madrid, que sempre votou à esquerda.

 

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Mal chegou ao poder, Sánchez apressou-se a rumar à Catalunha para dar face ao líder separatista catalão Quim Torra, como se fosse seu homólogo, e no debate televisivo de há uma semana absteve-se de criticar o dirigente máximo do Vox, Santiago Abascal, na secreta esperança de que este travasse a progressão eleitoral do PP. Abriu a caixa de Pandora e terá de enfrentar as consequências - infelizmente com péssimas expectativas para o país, nosso principal parceiro comercial, numa altura em que a Comissão Europeia antevê um anémico crescimento económico espanhol para 2020: apenas 1,5%.

O jornal digital El Confidencial - o mais lido em Espanha - faz uma síntese perfeita neste título: «Uma Espanha ingovernável, sem centro e com Vox como terceira força». Cada vez mais se confirma: o tabuleiro político de longo prazo não é propício aos aprendizes de feiticeiro.


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