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Delito de Opinião

Crna Gora

Maria Dulce Fernandes, 20.04.24

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Desde tenra idade que sou fascinada por códigos, adivinhas, enigmas, charadas, quebra-cabeças, tudo o que seja susceptível de ter várias interpretações e que à luz da lógica da eliminação obrigue a imaginar as hipóteses que sustentam todos  os porquês, que possam explicar quem, como e quando.

Na minha juventude li toda a literatura policial que encontrei. Tenho dezenas de favoritos que são aqueles que nunca nos apresentam o óbvio, que nos fazem dar voltas ao cocuruto e que nos surpreendem com finais perfeitamente objectivos e bem fundamentados, mas imprevisíveis.

Dentre os meus escritores preferidos do género, sobressai Rex Stout. Talvez porque consiga relacionar-me de algum modo com o seu tipo de pessoa, um bom gourmand, com grande cultura, e que prefere ter as sinapses sempre activas e bem oleadas sem necessitar ter de aliar a parte psíquica à somática para obter os resultados pretendidos.

Calhou neste mês primaveril ter ido até ao país natal do montenegrino mais famoso da literatura policial. Tratei de trazer sempre à conversa, com todos com quem conversei, artistas, músicos, simples locais, pessoal da terra do tio Sam que descobriram (e invadiram) o maná mais para leste, e a título do que eles chamam “fun fact”, referi Rex Stout e o seu Nero Wolf.

Nem um.

Ninguém.

O dono de uma galeria de arte em Kotor olhou-me espantadíssimo e de sobrancelhas arqueadas: “Really?!”

Confesso que fiquei um tudo nada desiludida, mas afinal não há muitos apreciadores de literatura policial, apenas montenegrinos curiosamente saudosistas de Josip Broz Tito.

Os pontos positivos nesta visita foram a indubitável espectacularidade natural, a beleza fantástica da cidade velha e muitas mais pessoas do que eu poderia imaginar, que à menção de Portugal, retorquiam de imediato “Montenegro! He won there, didn’t he?”

No fundo, fiquei com a ideia que as gentes de lá pensam que o Montenegro de cá tem ascendência de Crna Gora.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 20.04.24

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Hoje lemos: Jeannette Walls, "O Castelo de Vidro".

Passagem a L-Azular: "Quando o pai não nos estava a contar sobre todas as coisas incríveis que ele já tinha feito, estava a contar-nos sobre todas as coisas maravilhosas que ainda iria fazer. Como por exemplo, construir o Castelo de Vidro. Todas as habilidades de engenharia e o génio matemático do nosso pai estavam concentrados num projecto especial: a casa enorme que iria construir para todos nós, no deserto. A Casa iria ter um tecto de vidro,  grossas paredes de vidro e até uma escada de vidro. O Castelo de Vidro teria também painéis solares no topo que captariam os raios do sol e convertê-los-iam em electricidade, tanto para aquecimento como para arrefecimento e também para o funcionamento de todos os aparelhos. Teria até o seu próprio sistema de purificação de água! O pai tinha planeado a arquitetura, as plantas, com todos os diagramas e tratados e a maior parte dos cálculos matemáticos. O pai levava consigo as plantas do Castelo de Vidro onde quer que fôssemos, e por vezes deixava-nos estudá-las e trabalhar no projecto dos nossos próprios quartos. Tudo o que precisávamos fazer seria apenas encontrar ouro, dizia o pai, e estávamos mesmo à beira disso. Assim que ele terminasse o "Prospector" e ficássemos ricos, começariam as obras do nosso Castelo de Vidro".

É a sorte, o karma, o destino, maktub, tudo o que lhe queiram chamar, que decide o culminar desta ventura, deste projecto, deste sonho?

Quantas pessoas como este pai de família conhecemos nós, saltando de emprego em emprego durante toda a sua vida? Não lhes retiro um milímetro ao valor. Não roubam, trabalham. Mas têm sempre um projecto que "está a dar", que se "paga a ele prôprio" e que "este é que é"... sonham apenas. Que nunca se lhes acabem os sonhos, os tais que comandam a vida, e acordem para esta triste realidade que nada vale. Deixou até de ser o único sítio onde se comem bons bifes.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 20.04.24

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Helena Sacadura Cabral: «O trabalho mais difícil do mundo pertence-nos. E nós honramo-lo. Agora que se aproxima o dia em que celebramos o trabalho destas grandes artesãs, saibamos agradecer-lhes. Porque, por muitas vezes que o façamos, nunca será demais!»

 

João André: «Para fornecer uma outra perspectiva que complemente a de sexta-feira. Tirada uns minutos mais tarde mas de mais perto da cruz. Uma feliz Páscoa.»

 

Joana Nave: «O circo é uma das recordações que tenho da infância. Hoje em dia não vou ao circo, mas também não tenho filhos, mas se os tivesse iria certamente com eles ao circo, porque é na infância que certas experiências fazem sentido. Os meus pais não são apreciadores de ópera e nunca me levaram à ópera. No entanto, já em idade adulta, comecei a ouvir ópera e gosto de assistir a um espectáculo sempre que tenho oportunidade. Mas o caso do circo é diferente, se os meus pais não me tivessem levado ao circo em criança, não era agora em adulta que eu iria começar a gostar de circo, porque há coisas que são próprias de crianças, faz parte da aprendizagem.»

 

Patrícia Reis: «Sabes, não gosto de futebol. Pouco importa. Fico contente porque o teu Benfica é campeão. Tu ficarias. Feliz e com a cara cheia de uma comoção contida. Tu eras um homem contido e bom. Quando a tua equipa entrou em campo, nós reunimo-nos na igreja dos Salesianos, celebrámos a Páscoa e os sete dias da tua morte. Por fim, a tua mulher chorou. Como águias, os teus filhos, ali perto da mãe.»

 

Teresa Ribeiro: «Francisco, no seio católico, não é um nome, é um manifesto. Ao adoptá-lo, Bergoglio sabia que ia provocar o primeiro sobressalto não só na hierarquia, mas nos católicos que se identificam com ela. Em pouco tempo demonstrou também que a escolha do nome do frade, que foi perseguido e ostracizado pela Igreja, não foi um acto isolado de provocação. A cada gesto tem incomodado todos os que se habituaram a fazer do catolicismo uma coreografia e da relação com Deus uma estética ou um pretexto para o exercício narcísico da auto-indulgência.»

 

Eu: «Não celebro o título do Benfica, mas gostaria muito que José Medeiros Ferreira, benfiquista do coração, cá estivesse para celebrar a conquista do campeonato nacional de futebol.»

A logorreia de Marcelo

Pedro Correia, 19.04.24

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A 12 de Abril, confrontado pelos jornalistas a propósito de um eventual inquérito parlamentar ao chamado "caso das gémeas", que podem afectá-lo, Marcelo Rebelo de Sousa foi muito lacónico. «Estamos em campanha eleitoral», declarou, lembrando estar quase a esgotar-se o prazo para a apresentação de candidaturas às eleições europeias. Especificou que durante a pré-campanha e a campanha não se pronunciará «sobre iniciativas partidárias». Conduta apropriada num verdadeiro árbitro político, não no actual Presidente da República.

Cinco dias depois, quebrou o fugaz voto de silêncio. Promovendo à descarada a suposta candidatura de António Costa à presidência do Conselho Europeu - segundo cargo mais destacado na hierarquia comunitária. «Tenho a sensação de que começa a ser mais provável haver um português no Conselho Europeu, no próximo Outono, em Bruxelas», declarou. Em aparente pressão sobre o poder judicial, sabendo-se que Costa é investigado pelo Ministério Público no âmbito da Operação Influencer.

No dia seguinte, 18 de Abril, voltou a nadar para fora de pé, esquecendo-se do tal argumento da pré-campanha para as europeias. Desta vez para sugerir que Carlos Moedas pode vir a suceder-lhe ao afirmar que o presidente da Câmara e Lisboa é «um dos políticos mais sofisticados da cena nacional». Ele espera «viver o suficiente» para ver o futuro brilhante que imagina para o autarca - porventura no Palácio de Belém.

Marcelo continua acometido de logorreia, já esquecido do que prometeu faz hoje uma semana: parece ter regressado aos tempos frenéticos em que rabiscava as suas elucubrações políticas da página 2 do Expresso ou atribuía notas na TSF aos protagonistas da nossa vida pública. 

Sobre as gémeas é que nem um pio. 

O peso de não pertencer às elites

Paulo Sousa, 19.04.24

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Carlos Moedas apresentou ontem o seu livro "Liderar com as pessoas" na Fundação Gulbenkian. Neste artigo são abordados alguns aspectos interessantes do que disse nessa ocasião. Desde o seu percurso começado em Beja, passando pelo Governo de Passos Coelho, pela Comissão Europeia até à sua surpreendente vitória das eleições autárquicas que fez dele Presidente da Câmara de Lisboa.

Recomendo o artigo que fala desse percurso e sublinha o seu futuro, o seu potencial como actor público sério e esclarecido. Gostei especialmente de ler o que disse quando lembrou a sua vitória autárquica que aqui partilho:

"No último dia de campanha eleitoral, Fernando Medina tinha conseguido todas as câmaras de televisão, que transmitiram a acção de campanha do PS em directo. Mas, quando eu chego para fazer a arruada, duas horas depois, só havia uma câmara e um jornalista da SIC, que me fez uma breve entrevista de dois minutos, e logo partiu. Descemos o Chiado sem qualquer visibilidade mediática. Aquilo doeu-me. Quando oiço ou leio algumas análises sobre as razões da nossa vitória, as quais alvitram que foi o incumbente a perder ou a abstenção a vencer, sei bem que não têm razão”

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 19.04.24

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Helena Sacadura Cabral: «Grand Budapest Hotel é um filme delicioso que conta as aventuras de um lendário concierge de um hotel europeu e um paquete que se torna no seu amigo de confiança. Tudo isto  durante duas guerras numa história que envolve o roubo e a recuperação de uma preciosa pintura renascentista e a luta por uma enorme fortuna de família, que a esse quadro está ligada.»

Notre Dame recordada e reconstruída

João Pedro Pimenta, 18.04.24
Esta semana revi um filme de há apenas dois anos sobre um acontecimento ocorrido há cinco: Notre Dame Brûle, no original. Na altura não me lembrei logo que passavam 5 anos do pavoroso incêndio da igreja-mãe dos franceses. O filme assou discretamente nas salas, apesar de ser de um cineasta consagrado, Jean Jacques Anaud, e é pena. Com emoção e adrenalina q.b., mostra todo o processo do incêndio e as dinâmicas dos intervenientes: dos bombeiros para apagar as chamas sem provocar o colapso de todo o edifício, embora não evitando a destruição da flecha central, dos responsáveis de conservação para salvar as relíquias lá guardadas (com algumas cenas burlescas, como a vinda desesperada do curador para apanhar um comboio suburbano para Paris), das autoridades e das decisões difíceis a tomar, dos parisienses e a sua angústia e dos fiéis e a sua fé, reunidos em vigília e orando frente à catedral.
 
Lembro-me de, quando se abriram as portas, a nave central estar coberta de escombros, cinza e água, mas de se ver nitidamente a cruz do altar-mor. Ainda pairou o receio de as estruturas cederem e a fechada colapsar, e, optimisticamente, esperava-se uma reconstrução possível para quase dez anos. Macron prometeu que seriam cinco. Entretanto, o desastre deu origem ao filme descrito supra e até uma série francesa na Netflix.
 
E a verdade é que 5 anos depois as obras estão mesmo a ser concluídas e a abertura da catedral totalmente reconstruída está prevista para 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, com a presença do Papa. Os cinco anos cumpriram-se e até já há nova "flecha" a substituir a erguida por Violet le Duc. Houve projectos de inovações no edificado, alguns de fugir, mas contra as previsões mais pessimistas e as sensações apocalípticas desse 15 de Abril de 2019, Notre Dame de Paris vai recuperar a imagem que tinha antes do incêndio, e espero, o seu coro magnífico e os sons do  Emmanuel (o enorme sino, não o Macron). Até parece milagre.
 
(Notre Dame em obras, Maio de 2022).
Pode ser uma imagem de barco e a Basílica do Sagrado Coração

25 de Abril?

jpt, 18.04.24

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Desde há anos que venho resmungando com isto da extrema-esquerda se abespinhar em reescrever a história nacional, afirmando que urge - para nosso actual e futuro bem - dissecar os "mitos" e apear os "heróis". No fundo olham o nosso real como se os Albuquerques, Afonso e Mouzinho, e seus pares sejam frenéticos "influencers" digitais a moldarem anseios e modos destas novas gerações.

Interessante, ainda que nada surpreendente, é que nada se preocupam com o dissecar das "narrativas" sobre "mitos" e "heróis" do passado muito recente. Viu-se bem isso quando morreu Saraiva de Carvalho: ao pequeno nicho sobrevivente de esquerdistas sanguinários associou-se um coro de carpideiros burguesotes, tantos deles bem instalados neste "Estado Social" capitalista, e muitos "revolucionários de beca" - esses que julgam ficar-lhes bem diante dos alunos "ser de esquerda".... Todos eles interromperam o afã microscópico da denúncia das malevolências cometidas por Diogo Cão pós-Bojador e seus próximos. E trataram de entoar loas ao "Otelo", falsificando a história d'agora, escondendo a biografia assassina do traste contemporâneo. No máximo, com a desfaçatez da desonestidade intelectual, concedendo que o miserável era algo "ingénuo"... Enfim, uma mole de gente falsária e negacionista. Que muito lesta era (e é) em chamar "fascistas" ou, pior, "neoliberais" aos que não só repudiam o tal Saraiva de Carvalho como as aldrabices dos seus adeptos serôdios.

Em tempos deixei um postal, a tentar explicar a quem os sofre que existe uma diferença entre o tal "Otelo" assassino e todos os outros nomes políticos com alguma relevância.

Enfim, três anos passados e temos o cinquentenário da revolução de 74. 50 anos deveria ser suficiente para análises ponderadas. Mas não, continua o seguidismo à narrativa falsária, adepto dos assassinatos em democracia. Disso exemplo é a peça feita por Maria José Garrido, transmitida no Jornal Nacional da TVI, que falsifica a história de Otelo Saraiva de Carvalho, elidindo a sua vertente terrorista. Na sua página no Facebook Manuel Castelo-Branco disseca a reprodução dessa mitografia que vai sendo reproduzida sem qualquer pudor.

E que dirão os revolucionários de beca?, os activistas analistas? Aplaudirão Otelo, para a semana descerão "a avenida" entoando vivas ao morto Saraiva de Carvalho, abraçarão os anciãos enverhoxistas, maoístas, trotskistas, guevaristas, brejnevistas - que se tivessem tido hipótese lhes teriam dado tratos de polé, literalmente falando.

E depois irão de férias para os países do "neoliberalismo", do "fascismo". Onde até têm os filhos, a estudar, a trabalhar. A viver. Bem!

O problema de Portugal não é, nunca foi, "o povo que lava no rio". Nem as elites que dissipam o "ouro do Brasil". É mesmo esta tralha. A que chamam, agora, "classe média".

Avilezas

Sérgio de Almeida Correia, 18.04.24

ppcoelho_pportas_miguel_a._lopes.jpg(créditos: Miguel A. Lopes/LUSA)

Tenho estranhado o silêncio, enorme silêncio, do PSD, dos seus antigos companheiros de partido e da direita em geral, com excepção de Manuela Ferreira Leite, às declarações proferidas pelo antigo líder do PSD e ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

Desconheço se Passos Coelho ainda tem, e quais sejam, as suas ambições políticas. Não sei se pretende tomar de assalto o PSD a seguir às eleições europeias, se vai abandonar esse partido para se juntar ao Chega, se equaciona a formação de um novo partido ou se, simplesmente, naquele dia acordou com os pés de fora. Mas qualquer que seja a resposta, o que ficou registado não é bonito de se ver.

Independentemente do momento escolhido para a entrevista, e a quem foi, logo após apadrinhar a apresentação de um livro onde colocou em xeque o novo primeiro-ministro, antigo líder parlamentar e seu companheiro de partido, o teor do que disse sobre Paulo Portas, o actual PSD e Cavaco Silva, e as revelações que entendeu por bem fazer, levantam várias questões.  

Começa por colocar em causa o seu sentido de Estado; muito em especial a confiança que outros nele depositaram, e a confiança que aqueles que o ouviram terão de si no futuro.

Não é normal, mesmo para quem não ambiciona outros voos políticos, que um político faça as acusações que ele fez a um antigo parceiro de coligação e membro do seu Governo, meia-dúzia de anos volvidos, sem mesmo esperar que a poeira assentasse e se resguardasse numas futuras memórias.

Acusar Paulo Portas e o CDS de falta de solidariedade política – não tenho procuração de nenhum deles – sabendo que sem aqueles não teria vencido eleições, nem sido primeiro-ministro, dizendo perante os portugueses e o mundo que um ex-ministro de Estado, duas vezes, dos Negócios Estrangeiros, da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar que não era pessoa confiável, inclusivamente confessando publicamente um facto que, segundo o entrevistado, nem o visado tinha conhecimento, é um exercício de grande baixeza ética e política.

Esse juízo revela-se de tal forma hipócrita que me levou a pensar por que motivo, depois de ser ter “atravessado” por Portas perante a troika, e sabendo que essa pessoa não era politicamente confiável, e apesar de todos os problemas que lhe causou no Governo, ainda se apresentou de novo a eleições perante os portugueses integrando Paulo Portas e o CDS na coligação “Portugal à Frente”. Imagino, se tivessem chegado a governar, que o rol de queixas e confissões seria hoje um lençol muito maior. E mais imundo.

Depois, é natural que o modo como se pronunciou sobre aquele que foi o seu líder parlamentar durante anos, actual presidente do PSD e seu “companheiro” de partido, acusando-o pifiamente de querer “desconectar-se do passado”, enquanto dizia bem compreender a sua posição, tenha deixado incrédula Manuela Ferreira Leite. E certamente que muitos dos que o apoiaram ao longo dos anos e entusiasticamente o aplaudiram na apresentação do tal livro do homem das Neves e desse visconde de saias saído directamente da Baixa Idade Média para as páginas dos jornais.

Se a isto somarmos o que disse de Cavaco Silva, sublinhando que o ex-Presidente da República, quando se reunia com ele, Passos Coelho, “não sabia do que falava” e que “estava ultrapassado”, compreende-se mal o que quer dizer quando, ao referir-se ao PSD actual, enfatiza que tem uma “relação natural e descomplexada” e “o grande cuidado de não interferir”, pelo que a última coisa que queria era “criar constrangimentos”. Nota-se.

Não sei, à semelhança do que se passou nos tempos da troika, se Passos Coelho virá ainda corrigir o que disse, ou defender-se com uma deficiente interpretação das suas palavras pelos destinatários, mas como sempre desconfiei da bondade da criatura, e sempre achei que o homem não prestava, fico satisfeito, sabendo que vai andar a vaguear por aí, por ficarem todos cientes, em toda a plenitude, da sua formatação jotinha como político e homem de Estado.  

Nunca saberemos o que o futuro nos reserva, mas não há nada como ser o próprio a revelar-se perante os outros. Na primeira pessoa. Sem filtros. Os portugueses ficam a dever-lhe essa generosidade.

Livre, para mudar as regras a meio do jogo

Paulo Sousa, 18.04.24

Rui Tavares, que cada vez mais me parece o maior sonso da política portuguesa, avança aos ombros de gigantes. Seguindo a melhor tradição da esquerda, decidiu recalibrar as regras que definiriam a escolha do seu cabeça de lista para as próximas eleições europeias.

O assunto está bem explicado aqui, mas do que gostei mesmo foi desta foto que roubei no X.

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DELITO há dez anos

Pedro Correia, 18.04.24

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João André: «Gabriel García Marquez não foi o melhor escritor do século XX, longe disso. Terá sido um merecido prémio Nobel da Literatura, com toda a polémica que tal implica. Foi um autor que deixou algumas obras-primas e alguns (apenas) bons livros. Foi no entanto alguém que usou a sua imaginação e a sua arte para nos maravilhar e envolver. E por isso, se mais nada, merece ser recordado pelo que nos deixa.»

 

Patrícia Reis: «Gabriel García Márquez deu-me muitas horas de conforto, de magia, leituras com lágrimas e riso. Sempre que preciso de um sentido, uma ideia melhor da Humanidade existem os seus livros e os livros são a melhor forma de o homenagear. É ler e dar a ler.»

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 17.04.24

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Hoje lemos: Pearl S. Buck: "Terra Abençoada".

Passagem a L-Azular: "Ora, desde tempos imemoriais que se diz que todas as mulheres que choram podem ser divididas em três tipos. Há aquelas que levantam a voz enquanto as lágrimas escorrem e a isso pode chamar-se choro; há aquelas que se exprimem por altas lamentações, mas cujas lágrimas não fluem e a isso pode chamar-se uivo; há aqueles cujas lágrimas fluem, mas não emitem qualquer som e isso pode ser chamado lamento. De todas aquelas mulheres que seguiram em cortejo o ferétero de Wang Lung, as suas esposas e as esposas dos seus filhos e as suas criadas e os seus escravos e os seus enlutados contratados, só houve uma que chorou e foi Pear Blossom."

É certo que o sentimento pode ou não exteriorizar a emoção do momento. Há quem faça barulho por tudo, outros fazem um escarcéu por nada. Há quem se sinta dilacerado por dentro mas a voz não sai, fica presa na garganta. Pontualmente solta um aulido baixo e prolongado como se fera fosse e farpas lhe rasgassem o ser. E há quem não chore, não soluce, não solte sequer um vagido ou uma lágrima. Essa passa pelo tormento como se lá não estivesse. A adrenalina libertada pela dor confere-lhe uma força sobre-humana. Mesmo mecanicamente, faz tudo aquilo que tem de ser feito. 

O turbilhão que arrasta a dor chegará sim, mas depois. Só chora no fim. E o fim pode demorar tanto tempo a chegar.

 

PS. Um beijinho de saudade de a ler aqui, D. Helena Sacadura Cabral.

Os discípulos de Chamberlain

Pedro Correia, 17.04.24

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Neville Chamberlain cumprimentando Hitler em Munique (1938)

 

É comum ouvir-se por estes dias, a propósito da política de canhoneira aplicada por Vladimir Putin na Ucrânia, um conceito desenterrado dos mais bafientos baús da História.

Que conceito é esse? O de "apaziguamento".

 

Em síntese, os defensores desta tese recomendam a atitude dos três macaquinhos da fábula: há que vendar os olhos, cobrir os ouvidos e emudecer perante sucessivas violações do direito internacional para não indispor os prevaricadores. Se for preciso inverte-se até o ónus da prova, transformando o agressor em agredido e o agredido em agressor. Como o Grande Irmão de Orwell, que instituiu um Ministério da Verdade para melhor disseminar as mentiras enquanto incentivava as massas a urrarem o mais cruel e acéfalo dos paradoxos: «Guerra é paz!»

Não há nada de original nisto. Quando escuto os apóstolos do apaziguamento recordo-me sempre do mais infausto e patético de todos os primeiros-ministros britânicos: Arthur Neville Chamberlain. Céptico perante os aliados, crédulo perante os inimigos. De uma granítica intransigência face às vozes que o alertavam contra os riscos do compromisso a todo o preço, sempre pagos mais tarde a custos elevadíssimos. E de uma benevolência sem limites face à ofensiva totalitária.

De tanto querer a paz, na sua indesmentível boa fé, facilitou o caminho aos promotores da guerra. Da mais sangrenta, devastadora e homicida das guerras.

 

Recordo em particular o acalorado debate na Câmara dos Comuns travado a 25 de Junho de 1937 -- em que, não por coincidência, foi invocado várias vezes o nome de Portugal.

Era a primeira vez que Chamberlain ali discursava sobre política internacional desde que fora empossado como chefe do Governo conservador britânico, no mês anterior. E logo ali ficou bem patente o seu anseio em levar à prática uma política de "apaziguamento" com as feras totalitárias que faziam da guerra civil espanhola terreno experimental para um incêndio muito mais vasto que não tardaria a deflagrar no mundo.

Comentando a aparente resignação de Berlim na sequência do recente afundamento de um navio alemão ao largo da costa espanhola, o antecessor de Churchill não hesitou em elogiar o regime de Hitler por «ter demonstrado um grau de moderação que devemos reconhecer». O massacre de Guernica, cometido pela tenebrosa Legião Condor, ocorrera dois meses antes...

Incapaz de ler os sinais da História, Chamberlain pedia «cabeça fria» no Parlamento britânico e recomendava aos próprios jornalistas que «medissem as palavras» para não ferir as susceptibilidades dos inimigos da democracia. E rematou assim, cego perante as evidências: «Se todos formos prudentes, pacientes e cautelosos seremos capazes de salvar a paz na Europa.»

 

O antigo primeiro-ministro liberal David Lloyd George respondeu-lhe da melhor maneira. Observando sem rodeios que Hitler violara já três acordos internacionais subscritos pelo Estado alemão. Ao inutilizar o Tratado de Versalhes (1919) reintroduzindo o serviço militar obrigatório. Ao rasgar o Pacto de Locarno (1925), invadindo e remilitarizando a Renânia. E ao transformar em letra morta o Acordo de Não-Intervenção na Guerra Civil de Espanha (1936), disponibilizando instrutores, armamento e aviação a Franco.

E Lloyd George retorquiu a Chamberlain: «Precisamos de cabeças frias, sim, mas também de corações fortes.»

Solidários com os que sofrem as agressões, não com aqueles que as praticam. E aprendendo sempre com as lições da História.