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Delito de Opinião

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 18.01.26

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Cristina Torrão: «O disparate de não podermos votar por correspondência aumenta de dimensão em tempos de pandemia. O consulado de Hamburgo, por exemplo, além de não ser espaçoso, fica num 4º andar. Em caso de grande afluência, como organizar a fila de espera?»

 

JPT: «Em 1994 durante meses trabalhei na missão de observação eleitoral das primeiras eleições democráticas na África do Sul, nas quais Mandela ascendeu a presidente. Foi um período magnífico! Se conflitos e temores subsistiam tudo isso coexistia com o enorme alívio no final daquela maldita ditadura racista e uma alegria esfuziante no dia-a-dia, traduzindo uma vaga de esperança em melhores futuros.»

 

Eu: «Quase 200 vítimas mortais todos os dias em Portugal, só devido à Covid-19. Somos já o país do mundo com maior número de novas infecções e o quarto também à escala global com mais óbitos per capitaTemos mais mortos por milhão de habitantes do que os EUA. Enquanto este drama sem desfecho à vista assombra o quotidiano de milhões de portugueses, algumas microcaravanas presidenciais andam por aí preocupadas com batons. Não pode haver maior indício do abismo que existe hoje entre políticos e pessoas comuns. Esta gente não se enxerga?»

Para a Gronelândia, rapidamente e em força.

Luís Menezes Leitão, 17.01.26

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Parece que vários países europeus decidiram responder em força às provocações dos Estados Unidos sobre a Gronelândia, e já fizeram deslocar tropas para o território, rapidamente e em força. A França fez deslocar 15 soldados, enquanto que a Alemanha enviou 13 soldados. Trata-se de uma força impressionante, e que seguramente controlará sem qualquer dificuldade um território que tem apenas 2.166.000 km2.

Esta história só me faz lembrar O Mandarim, de Eça de Queiroz, em que Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino, afirmava a um general russo: "E todavia, general, no meu país, quando, a propósito de Macau, se fala do Império Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: «Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China»". Pelos vistos com metade das tropas, a França e a Alemanha varrem a Gronelândia.

Penso rápido (115)

Pedro Correia, 17.01.26

 

Andam de novo agora como andaram todos estes anos: a medir pilinhas. A ver qual é a força verdadeiramente "revolucionária" e mais fiel à cartilha dos mestres pensadores.  A ver qual é o maior ponta-de-lança na modalidade do "combate aos ricos" - ou seja, toda a classe média que os seus parceiros ideológicos destruíram um pouco por toda a parte mal atingiram o poder.

Tão envolvidos andam nesta competição muito particular que se esquecem de olhar para fora da muralha: o mundo mudou por completo, estamos no século XXI - nada a ver com aquele século XIX cheio de ideólogos tornados múmias que continuam a servir-lhes de referência.

Vão despertar, uma vez mais, para a realidade. Quando repararem que tiveram o maior desaire da nossa história democrática. Porque o "povo" concreto de que tanto falam em abstracto nada quer saber do que propõem - receita infalível para o desastre, já comprovada noutras latitudes. 

Despertam, mas só por um par de semanas. Depois voltam ao mesmo. Vivem numa realidade paralela, incapazes de perceber que a roda do tempo continua a girar, com eles estacionados num apeadeiro que há muito ficou para trás.

Não esquecem nada, não aprendem nada. De "vitória" em "vitória" até à derrota definitiva.

Notas avulsas sobre as presidenciais - IV

Paulo Sousa, 17.01.26

- Se Gouveia e Melo não chegar à segunda volta, poderá ainda vir ter algum futuro político?

- Cotrim, cujas sondagens o começaram por colocar na companhia dos candidatos pobrezinhos, foi o que conseguiu uma maior ascensão ao longo da campanha. Só por essa evolução tem garantido espaço político no futuro.

- Aposta para um queijinho no almoço de ontem: O moço do Livre vai ter menos votos que o Manuel João Vieira, mas suficientes para impedir Seguro de ir à segunda volta.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 17.01.26

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João Campos: «Não seremos amanhã quem somos hoje, nem manteremos no futuro todos os pontos de vista que defendemos no passado. É normal que assim seja. Mais do que isso: é necessário. Ao contrário do que se pensa, a coerência não é exactamente uma virtude, algo desejável de preservar incondicionalmente - à partida, durante as nossas vidas continuamos a aprender, a crescer, a evoluir. Só os fanáticos se mantêm coerentes ao longo do tempo, e fazem-no através da mais absoluta imobilidade.»

 

José Meireles Graça: «Pedro Arroja foi em tempos alvo de uma queixa-crime por difamação (ou injúrias, já não recordo bem) por causa de umas coisas relativamente inócuas que disse sobre, salvo erro, o político Rangel. Processo esse que acabará possivelmente no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e com a condenação, tão habitual que já ninguém fica escandalizado, do Estado Português.»

Uma questão de carácter?

Cristina Torrão, 16.01.26

Vivendo no estrangeiro, tinha vindo a acompanhar a campanha eleitoral para a Presidência da República com pouco interesse. Nenhum dos candidatos me entusiasma. E as sondagens indicam que Ventura perderá a provável segunda volta. Para quê incomodar-me?

Nos últimos dias, porém, tornou-se impossível, para qualquer pessoa, ficar indiferente. Mesmo assim, não tencionava escrever sobre o assunto, aqui no blogue. Um suposto assédio sexual, palavra contra palavra... enfim.

Mas ia lendo, aqui e ali, certas coisas que me começaram a incomodar. E dou com este comentário, na publicação do Pedro Correia:

"Sabe o que é grave: é o Cotrim ter dito que apoiaria Ventura na segunda volta e depois confrontado mais tarde com os jornalistas ter dito que estes perceberam mal e depois ainda mais tarde ter dito que não sabe onde tinha cabeça para ter dito o que disse no apoio a Ventura. Isto sim, demonstra a instabilidade de Cotrim e até da sua própria seriedade. O que devia ser debatido é quem é afinal Cotrim e não esta alegada estória da Inês Bichão e Cotrim Figueiredo".

Concordo com o comentador Miguel Santos: Cotrim de Figueiredo revela uma certa instabilidade. E falta de seriedade (eu diria, muita). É que, alguns dias atrás, dei com estas palavras deste mesmo candidato:

"Parece-me irrazoável numa sociedade democrática que se possa tomar uma decisão sem o conhecimento do pai desse ser cuja vida vai ser interrompida".

Acompanhei alguns casos de IVG, ainda no tempo em que era ilegal. E soube de outros casos, por me terem contado. E só posso dizer uma coisa: estas palavras de Cotrim de Figueiredo caíram-me muito mal. São profundamente hipócritas. Mesmo surreais.

Se quer ser Presidente da República, Cotrim de Figueiredo devia ter-se informado. Ele não saberá que a maioria desses "pais" não querem ser tidos nem achados nessa questão? Que querem apenas desaparecer e que, se confrontados, logo negam? Não saberá que a maior parte das mulheres toma uma decisão dessas, ou porque o "pai" nega sê-lo, ou porque o "pai" se recusa a assumir qualquer responsabilidade? Que é o próprio "pai", em inúmeros casos, quem força a grávida a abortar (principalmente, homens casados que primam pela infidelidade)? Que muitas das IVG se fazem precisamente para evitar o escândalo na vida dos "pais"? E que muito poucas mulheres, acompanhadas pelo "pai", nessa situação, recorrem à IVG? 

Reparem: Cotrim de Figueiredo inverte os papéis. A mulher que aborta é egoísta, prepotente; o pai, coitadinho, não é tido, nem achado, uma vítima. Não digo que não existam casos destes, porque os há. Mas arrisco dizer que são uma ínfima minoria.

A inversão dos papéis (fazer do agressor a vítima e vice-versa) é uma conhecida técnica machista e misógina. Acho até uma pena que esta coisa do assédio tenha vindo abafar estas "instabilidades" do dito candidato. O carácter devia pesar muito na balança, quando se trata de votar em alguém para Presidente da República.

Cantar Camões (27)

Pedro Correia, 16.01.26

Se De Saudade, Luís Cília

(Álbum: La Poésie Portugaise de nos Jours et de Toujours, 1967)

 

Este tempo vão,
Esta vida escassa,
Para todos passa,
Só para mim não.
Os dias se vão,
Sem ver este dia,
Quando vos veria.

Como se a insinuação fizesse lei

Pedro Correia, 16.01.26

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Devia haver limites, mas não há. Todos os dias vemos a fronteira do inaceitável ser alargada. Isto não pode acontecer sem uma palavra de indignação. E de revolta.

Ontem, num canal de televisão, assisti durante quase meia hora a uma sessão de linchamento público de João Cotrim Figueiredo. Pelo "crime" de ser homem - sendo-lhe interditado, assim, o princípio constitucional da presunção da inocência. Com a agravante de isto ter ocorrido a pouco mais de 24 horas do encerramento da campanha eleitoral, sendo ele candidato a Presidente da República. 

 

Uma senhora que integrava um painel de comentadoras atirou o antigo líder da Iniciativa Liberal para a fogueira mediática com estas palavras que reproduzo com exactidão, ainda nauseado:

«Nós sabemos como normalmente os assediadores reagem. Por exemplo, aquilo que Cotrim Figueiredo fez, e que é absolutamente indigno num candidato a PR, é dizer "Eu vou processar esta mulher." Isto é: usa o sistema judicial contra mulheres que fazem denúncias. O último político que eu me recordo que andou a processar pessoas incómodas foi José Sócrates. Isto não é normal. Não é normal um político calar vozes com processos judiciais. Este processo-crime que Cotrim está a fazer é um daqueles claros objectivos de silenciar as mulheres e de - isto é profundamente indigno num candidato a PR - criar um ambiente de silenciamento e punição para mulheres que sofrem de violência.»

Sem contraditório.

Sem se ouvir um leve sussurro de estupefacção à volta daquela mesa.

Sem um sinal de demarcação de palavras que negam a essência do Estado de Direito.

Cotrim é homem - logo, é suspeito. Tem de comer e calar. Sem reagir, sem recorrer aos tribunais, quando alguém o visa com palavras que ele considera caluniosas e difamatórias.

 

Horas depois, noutro canal televisivo, felizmente pude ouvir outra voz feminina - esta sensata e serena. A de Helena Matos, que se pronunciou assim sobre o mesmo tema:

«Nós não estamos a falar de acusações [de assédio sexual], porque não foram apresentadas queixas. Estamos a falar de insinuações, coisa bastante diferente. A palavra de um homem não vale mais do que a de uma mulher, e vice-versa. Muito provavelmente este tipo de acusações vai gerar indiferença, porque nada disto é formalizado em queixas. Não estamos a falar de uma pessoa que está a denunciar uma Máfia, que corra risco de vida. Neste tipo de insinuações é palavra contra palavra. Portanto, quem tem uma palavra tem de aparecer.»


Pela minha parte, seria mais cómodo ficar calado. Podia fingir que não ouvi aquele hino ao ódio sexista, contra um homem que bem conheço, a propósito das insinuações de que anda a
ser alvo há quatro dias sobre supostas denúncias já desmentidas por Rui Rocha e Mariana Leitão, que lhe sucederam na liderança da IL.

Seria mais cómodo, mas não o faço. Porque uma fogueira acesa soa-me sempre a sinal de alarme. Pode transformar-se num incêndio de vastas proporções.

Não quero viver jamais numa sociedade onde alguém é obrigado aos gritos a provar a sua inocência em vez de ser quem acusa a fornecer provas irrefutáveis de culpa alheia. Como se a insinuação fizesse lei.

Os regimes totalitários começam assim - atirando às urtigas direitos básicos de qualquer cidadão, tenha o sexo que tiver.

Façam as apostas

Sérgio de Almeida Correia, 16.01.26

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Amanhã exercerei o meu direito de voto para a eleição presidencial de Domingo, 18 de Janeiro. Aqui não há período de reflexão. Nem aqui nem para ninguém que tenha antecipado o exercício desse direito. Só os que acompanham a campanha até ao fim e residem em Portugal continental e nas ilhas é que precisam da protecção legal da reflexão. Para isso têm o sábado garantido. Os outros podem voltar irreflectidamente, no que constitui mais um dos muitos anacronismos da nossa democracia e das nossas leis eleitorais. Adiante que sobre isso já o Pedro se pronunciou.

Os boletins de voto aparecerão com uma equipa de futebol de onze e três suplentes que garantirão mais uma resma de votos nulos. 

Neste espaço não vou apelar ao voto em ninguém. Cada um que decida sozinho para que lado dormirá melhor.

Apelo sim à participação, pois que também não poderia recomendar o voto em nenhum dos candidatos. Não tenho o jeito de uns para figurante, ou a lata de outros para catedráticos; muito menos o descaramento de alguns desventurosos. 

A opção, a bem dizer, não está em escolher aquele que está mais bem preparado em termos académicos, profissionais e políticos, com ideias mais arrumadas e enxutas, muito menos o mais capaz, o mais competente, o mais sensato, o mais sério ou o mais educado. Cada um terá as suas razões. Todos têm as suas razões. Pior que os Estados Unidos, a Venezuela, Israel ou o Irão não ficaremos.

O único exercício de reflexão possível neste momento, admitindo que vale a pena perder uns minutos neste ínterim, está em tentar descortinar qual dos bonecos colocados nas prateleiras da barraca dos brindes parece ser o menos horripilante no momento em que tirarmos a rifa e nos entrarem pelo ecrã da televisão, na noite de domingo, com o anúncio do prémio que nos foi atribuído para os próximos cinco anos.

É verdade que há sempre a hipótese de se oferecer o mono ao vizinho ou ao filho da padeira, como se fosse um dos coloridos sete anões, ou de guardá-lo na garagem entre a caixa de ferramentas do carro, as prendas de alguns natais e as lembranças de uns clientes mais exuberantes, mas será sempre difícil encaixá-lo no armário onde está aquele candeeiro de porcelana que me ofereceram com uma fonte, golfinhos azuis e brancos e luzes intermitentes.

O ridículo foi a marca destas eleições.

Foi ridículo ver o líder da oposição, que quer ser primeiro-ministro, primeiro a admitir apoiar um putativo candidato, depois a manifestar apoio a esse candidato declarado, vê-lo recusado, sondar o mercado enquanto apalpava os legumes, para acabar ele próprio candidato e a fazer promessas repescadas das legislativas. Como se o próximo Presidente da República se preparasse para ser o futuro substituto do primeiro-ministro durante os impedimentos e ausências deste. Ou uma espécie de Maduro europeu, de batina camuflada, subserviente à cartilha trumpista.

Como foi ridículo ver um almirante a admitir tudo e o seu oposto, qual catavento sem a mais pequena noção do papel do Presidente da República, tão depressa se apresentando como alguém ungido com um óleo divino que o colocava em Fátima, como logo depois admitia vir a formar um partido se perder as eleições, ora pescando à direita, ora lançando a minhoca à esquerda, ao centro, em cima e em baixo, adaptando-se aos sucessivos solavancos da campanha eleitoral que o atiravam de bombordo para estibordo e da proa até à ré.

E não menos ridículo foi ver um outro candidato, enfarpelado da mais moderna cagança, dando ares de grande preparação para o cargo, dizer que se soubesse que uma lei viria a ser declarada inconstitucional a teria assinado na mesma, insistindo dias depois na tecla ao admitir em plena campanha que poderia vir a desistir a favor de outro candidato, para dizendo não saber o que lhe terá passado pela cabeça. Talvez não tenha passado nada, e seja mesmo esse o problema, dado o tamanho do umbigo, porque não é normal que um candidato a dias do sufrágio acabe a escrever ao primeiro-ministro e líder do maior partido, pedindo-lhe que desista do seu candidato para o apoiar a ele. Pior seria difícil antes de encostar às boxes para a corrida de domingo.

Os outros aspirantes a dois dígitos na primeira volta, em matéria de ridículo, não se podem rir dos anteriores.

Um foi completamente destroçado num debate televisivo, como se o facto de ser um simples portador de uma carteira profissional de uma profissão que não exerce fizesse dele um profissional sabedor, qualificado, competente e experiente sem ter necessidade de ir buscar uns saltos altos, meter umas cunhas, colocar-se em bicos de pés e defender a sua candidatura comparando a sua própria altura com a de outros que nem sequer são candidatos. Mais elevado seria difícil. Os homens não se medem aos palmos, e alguns sendo altos são maus bailarinos e tão trapalhões a jogar golfe como quando exercem qualquer cargo. O problema são os inseguros. Estes andam sempre de fita métrica e com as rábulas numa cábula. Poderá não vencer à primeira nem à segunda volta, admito. Terá sempre a oportunidade, quem sabe, de ir à terceira volta. De um corridinho. Aí a altura não será problema e até poderá voar entre voltas.

E para não ser menos ridículo houve um outro candidato, campeão dos direitos humanos e das garantias constitucionais, que sem nada dizer, falando redondo, como se estivesse numa homilia permanente, sem regatear apoios, conseguiu a proeza de se rodear de um punhado de "defuntos", cuja língua foi rosada. Hoje são mais conhecidos pela forma como se equilibram nos lamaçais e a sua compreensão para com a generosidade das autocracias, desde que lhes caia qualquer coisa na sopa ou no avental.

Há mais uns quantos no boletim de voto, sabemos isso, muito embora nada nos obrigue a fixar os seus nomes. Em comum têm uma arreigada obstinação pela teatralização, pelo drama, pelo desastre, que é outra forma de ridículo.

Não se preocupem com o resultado. Ide votar.

Escolham aquele que vos parecer menos mau para ficar na prateleira. O menos ridículo.

Uma campanha ridícula e um voto secreto, ainda que ridículo, não mancham a linhagem de ninguém. Nem acabam com a República ou com mais de oito séculos de história.

E daqui a cinco anos, com mais ou menos dissoluções da Assembleia da República, poderemos sempre escolher outro. Um que seja um pouco menos ridículo. Sem necessidade de reflexão.

Viagem à Venezuela - V

Paulo Sousa, 16.01.26

De regresso a Caracas, precisei de comprar um adaptador para uma ficha eléctrica, uma vez que usam a tomadas idênticas aos EUA. Indicaram-me o Centro Comercial Sambil, onde, sinais de outros tempos, existe até um Hard Rock Café. Dentro da ferreteria (loja de ferragens) do Shopping encontrei o adaptador que procurava. Quando me preparava para ir pagar, vi uma fila que começava no caixa, fazia todo o comprimento da loja, ao fundo virava noventa graus à esquerda, contornando todo o perímetro do estabelecimento. Isto é a fila para pagar?, perguntei ao funcionário. Não. Estão à espera que cheguem as lâmpadas porque ontem chegou um barco da China com elas.

Quando regressava de táxi ao Hotel e já na rua de sentido único que lhe dá acesso, a uns vinte metros à nossa frente, saiu um carro de uma garagem a andar de marcha-atrás, bloqueando assim a nossa passagem. O que seria algo absolutamente normal noutras paragens, ali fez com que o condutor, num gesto instintivo, esticasse o braço direito até ao porta-luvas e dali tirasse uma pistola. Sem dar por isso, empurrei as costas contra o assento durante uns instantes à espera de ver o que se seguia. O carro que entrara na rua arrancou e seguiu o seu caminho. Depois de respirar fundo, o taxista fez regressar a arma ao seu lugar. Explicou-me que quando viu o carro a bloquear a passagem, pensou logo que era um assalto, Pero, gracias a Dios no fue nada.

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A sete cêntimos de Bolivar cada litro de combustível, o funcionamento das estações de serviço depende de subsídios do estado.

Outra nota que sobressai de Caracas é a sua dimensão e a concentração de capital que ali existiu. São bastantes as avenidas com seis faixas de rodagem e com quilómetros de extensão. Prédios com dezenas de pisos são inúmeros. Apesar da situação de pobreza dos venezuelanos, nada ali se assemelha a, por exemplo, Bissau com a sua meia dúzia de ruas alcatroadas das quais se “desce” à altura de um palmo para as ruas de terra ou lama conforme a época do ano. Falei disso com um local que me respondeu que os prédios e as avenidas só lá continuam porque os chavistas não os conseguiram roubar.

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Já referi o colorido das favelas que faz delas muito diferentes das do Rio de Janeiro. Uma estatística que sobressai da cidade respeita ao nível da criminalidade, onde ocupa o topo mundial, o que explica que todas as moradias e condomínios sejam murados com arame farpado e corrente eléctrica. Soube de uma particularidade interessante. Quando chove, sai-se menos de casa e ocorrem menos crimes.

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Uma outra nota sobre uma bebida local que vi no bar do Hotel e que foi o ron da marca Castro. O slogan era todo um tratado. Cuba Libre, solo con Castro! O barman explicou que era ron venezuelano mas que com a carestia do país a produção da marca tinha sido transferida para a República Dominicana. Quando se diz que o PIB per capita venezuelano, que nos anos 70 superou o da Holanda, caiu 75 pontos percentuais desde o descalabro chavista, é também de coisas destas que estamos a falar.

Uma nota também para a excelência da engenharia portuguesa. Seguem algumas fotos dos prédios construídos pelo tristemente famoso Grupo Lena, que tantas más memórias nos causam.

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Na capital decorriam nessa altura várias manifestações de repúdio ao um qualquer decreto de Obama, que classificara o regime venezuelano como uma ameaça. Mais cartazes, mais manifestações de rua, muito barulho, onde nunca faltavam as bandeiras e os slogans dos amanhãs que cantam.

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A sinistra personagem Diosdado Cabello tinha, e parece que continua a ter, um longo programa diário na televisão. O nome é sugestivo, Con el mazo dando, em que se dirige a todos os que se atrevam a não aplaudir as maravilhas do regime. O que poderíamos descrever como uma moca de Rio Maior é sempre o mote da conversa.

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Além do Orinoco, um mundo à parte, o que vi sobre o estado, o regime e a vida das pessoas comprova aquilo que já imaginava, mas com muito mais detalhe e colorido. Desde então, a minha surpresa prende-se com o modo como um grupo de criminosos, que tomou conta de um país rico, se conseguiu manter no poder durante tanto tempo. Os venezuelanos que conheci depois disso, que já aqui referi, confirmaram a boa opinião que tive daquela gente e entendo bem como agora festejam. Ainda há dias o César me disse que o carro dele avariou, mas que nem isso lhe tira a alegria de ver o Maduro preso. Recordo-me bem das várias vezes em que me disse que aqueles bandidos não roubaram apenas a Venezuela, roubaram a dignidade aos venezuelanos. Gente que não tem medo do trabalho, que vive com uma alegria latina sul-americana, a ter de mendigar para sobreviver e a fugir do país para tentar recuperar a dignidade que lhe foi tirada. É disso que se trata quando falamos no chavismo.

A azia dos que agora, por razões ideológicas e por ignorância, protestam e "exigem" o regresso à situação anterior, mostra como é falso o seu discurso humanista e enviesada a solidariedade que dedicam apenas àqueles que têm o Ocidente por inimigo. De cada vez que um ditador é derrubado, quem ama a liberdade salta e rejubila e por isso termino com uma das frases que se ouve nas festas dos venezuelanos espalhados pelo mundo. Chaves y Maduro ¡Que ardan en el infierno, cábrones!

Amamentar o ogre

Sérgio de Almeida Correia, 16.01.26

TrumCorina Globo.jpg(créditos: Globo)

Esta manhã leio uma notícia e vejo uma fotografia. A fotografia é do Presidente do EUA e da mais recente vencedora do Prémio Nobel da Paz, a oposicionista venezuelana María Corina Machado. Na imagem que acima reproduzo vê-se o primeiro com a medalha que a segunda recebeu em Oslo.

Depois de se ter auto-proposto como candidato ao Nobel da Paz, com uma contabilidade e revelando uma ignorância e argumentos que envergonhariam qualquer aldrabão de feira, e de por várias vezes ter publicamente afirmado que gostaria de ser o escolhido e de receber o Nobel, tal o despeito por o mesmo ter sido atribuído a um dos seus antecessores na presidência; e de ter recebido das mãos do indiscritível Infantino, primeiro responsável da FIFA, um "prémio" criado à pressão para lhe satisfazer o ego e a idiotia, chegou agora a vez de se predispor a aceitar da política venezuelana o galardão que a esta fora atribuído. 

A academia sueca já tinha avisado, ao saber das primeiras intenções de Corina, de ceder o prémio ao fulano, que tal não seria possível.

Os prémios, independentemente da justiça ou injustiça da escolha e dos méritos dos galardoados, são pessoais e intransmissíveis. Obedecem normalmente a um regulamento, sendo certo que podem sempre ser recusados, o que a venezuelana não fez.

Que Donald Trump, com toda a sua estultícia, rodeado por uma corte de outros como ele e uma multidão de esquizofrénicos, energúmenos e boçais, mais o seu vasto lençol de inanidades, insultos e crimes estivesse disponível para receber a medalha, aquela ou outra qualquer, nos dias que correm não será motivo de estranheza para pessoa medianamente informada. 

Saber que a dirigente politica venezuelana, depois de destratada e ridicularizada pelo próprio Trump, e do telefonema que lhe fez na sequência do recebimento do prémio, como se estivesse a desculpar-se pelo facto de ter sido escolhida, aceitou deslocar-se à Casa Branca para  oferecer a sua própria medalha e posar para as câmaras ao lado do anfitrião é do domínio do vexame. 

Duvido que o seu gesto possa trazer quaisquer frutos para o seu povo, melhore a sua qualidade de vida, reduza a conflitualidade, aumente a paz no mundo – que seria sempre um factor a considerar –, contribua para a sua causa ou restitua a democracia, a liberdade e algum amor-próprio aos venezuelanos.

Posso estar enganado, mas um ser humano, uma mulher, uma política que diariamente se rebaixa perante aquele ogre, saído directamente das profundezas da Idade Média para as margens do Potomac, mostra não estar à altura do prémio. Desse ou de qualquer outro.

Mais ainda da sua condição e do papel desempenhado antes da atribuição.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 16.01.26

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Paulo Sousa: «A voz rouca do motor bicilíndrico quase que gritou quando enrolei o punho do acelerador. Em poucos metros já rolava velozmente numa sequência de curvas pela Estrada da Beira a fora. O sol estava esplendoroso, incidia de viés, sem perturbar a visibilidade, afinando quase ao máximo a intensidade das cores. O efeito pendular invertido da chamada força centrífuga, mudando de direção em cada curva, combinado com a velocidade e contrariado pela resistência aerodinâmica, era inebriante. Seria difícil melhorar aqueles instantes. De repente tive a sensação que estava a conduzir na Capadócia, onde nunca estive.»