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Momento único

por Helena Sacadura Cabral, em 14.10.17

teatro.jpg

Portugal vive um momento único e original. Se não relembremos sem ordem nem pontuação que o Ministério Publico concede entrevistas, os banqueiros e os empresários suspeitos de má conduta mantêm o mesmo estilo de vida, o Orçamento é apresentado antes de tempo, mas fora de horas, a reunião que se lhe segue decorre de madrugada, Madona vive em Portugal e diz-se encantada, os portugueses estão felizes como as cigarras costumam estar antes do inverno chegar, a dívida sobe paulatinamente mas ninguém parece lembrar-se da formiga que amealha no bom tempo para sobreviver na tempestade, os sindicatos só falam na função publica, esquecendo que há quem não tenha o Estado como patrão, o relatório sobre Pedrogão Grande é arrasador mas a ministra, tendo mesmo ao seu lado António Costa, afirma que se não demite, pese embora ja tenha demitido um responsável, que já fora readmitido e agora volta a ser demitido. Confuso? Nada! 

É o Portugal europeu, aquele que até já saíu do lixo de uma agência, pejado de turistas, comprado por chineses e paraíso fiscal para todos menos para aqueles que aqui tiveram a sorte de nascer e resolveram ficar. Amália e o Marceneiro, sim, é que nos haviam de cantar... mas azar nosso, já morreram e faltam-nos poetas para propalar o tal momento único e original! 

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16 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 14.10.2017 às 17:26

Helena, a formiga amealha mas não tem o prazer do cantar da cigarra.
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De Helena Sacadura Cabral a 14.10.2017 às 17:59

E quem é que acredita que a formiga não tem prazeres?!
Essa "estória" já era...
Quando a cigarra fica sem pio, a formiga delicia-se, aconchegada!
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De Vlad, o Emborcador a 14.10.2017 às 19:18

Helena, não existem formigas. Apenas formigueiro. Uma representação natural de uma sociedade totalitária. Quem nasce obreira não chega a rainha....prefiro o carpe diem da cigarra
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De Costa a 14.10.2017 às 19:32

Infelizmente já não é assim. A cigarra já não fica sem pio: vai buscar o que a formiga poupou e, não contente com isso, berra a plenos pulmões e com impune cinismo a condição de grande sacrificada do descalabro, a quem tudo foi tirado e tudo é devido e nunca devolvido.

A cigarra não conheceu o desemprego, não sabe por isso o que é estar a meio da vida e não encontrar trabalho, não sabe o que é abandonar as estatísticas do desemprego - para demagógica e desavergonhada fanfarronice do poder - pela prosaica razão da passagem do período durante o qual o estado reconhece essa condição; ou por ter sido forçada a aceitar emprego com salário e outras condições verdadeiramente humilhantes, aflitivamente insuficiente para acorrer a responsabilidades anteriormente e de boa-fé assumidas. Emprego quantas vezes de duvidosa, ou pior, legalidade.

A cigarra não conhece recibos verdes. A cigarra aconchega-se nas promoções e aumentos automáticos, pela antiguidade (e berra, furiosa, se não acontecem). Não sabe, a cigarra, o que é, mau grado uma vida responsável, prudente, mergulhar numa pobreza que às tantas já nem "escondida" consegue ser. Não sabe o que é estar nas mãos dos credores - entre eles a omnipresente cigarra, claro -, cilindrado por estes e reduzido à condição de "incumpridor", sem poder ter uma camisa em seu nome, e sem se olhar às razões que tanto ditaram.

Mas a cigarra é a vítima. É a ela que devemos, insiste ela, e entendendo-o como dívida jamais saldada, o grande esforço de suportar a austeridade. É essa a Verdade. E cada cigarra vale três, quatro, cinco votos. E como são muitas, as cigarras, nem se fale em reforma do estado (a não ser, talvez, para recrutar mais cigarras e ampliar os direitos, liberdades e garantias - essa fórmula sagrada -, das que já o são). É simples: uma vez no poder, há que o manter.

O diabo há-de voltar a andar por cá (chegou verdadeiramente a deixar-nos?). Nessa altura a cigarra cá andará a chorar-se. E os privados cá andarão a cair na ruína, outra vez, e a pagar tudo. A história repete-se e a Cigarra sabe que tem os políticos na mão. A eles e a nós, os privados.

Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.

Costa
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De Vlad, o Emborcador a 15.10.2017 às 00:19

Costa, percebendo o que quer dizer, podemos também encarar a formiga como a criatura que se sujeita pelo costume ou pelo medo de abandonar o hábito da sujeição. E a cigarra como a criatura que opta pelo risco de viver em liberdade. Gozando-a, gozando-se. E por esse razão invejada e temida pelos que têm medo dos que nada têm, ou pouco têm, mas que continuam, apesar de tudo, com forças para cantar.
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De Costa a 15.10.2017 às 19:51

Ou seja, para si, quem vive prudentemente mais não faz do que seguir acriticamente um hábito consagrado ("pelo costume", escreve você; o que a ser visto sob numa perspectiva jurídica até seria encarado com convicção de obrigatoriedade) ou cede perante o medo de deixar uma "sujeição" (o passo seguinte, nesse seu raciocínio, seria qual: chamar a milhões masoquistas? Imbecis, pelo menos; idiotas úteis, com toda a certeza).

Já a cigarra - a cigarra de que aqui se escreve -, essa sim é que, para si, leva a vida bem levada e com todo o mérito. Mas você, tolhido pelos dogmas por que se deixa dominar, espalha-se completamente ao invocar uma grande dignidade que se poderia encontrar na actuação da cigarra. Mas que não está lá. É que ela, no actual estado das coisas (actual estado que se procura laboriosamente eternizar) não corre risco algum.

Não se tratar de viver "gozando-a e gozando-se", Vlad, mas sim de viver gozando-a e gozando-nos! A certeza é nossa, a de a sustentar; o risco é nosso, o de a sustentar ainda mais.

Medo dos que nada têm, Vlad? A cigarra de que escrevemos nada tem, é então isso o que você pretende sustentar. Ela tem e terá, mesmo que todos à sua volta deixem de ter. E deixarão, se para tanto isso for necessário. É o que se pode realisticamente antever daquilo que hoje se vê.

Em que romance oitocentista vive você, Vlad? Uma obra poderosa, Os Miseráveis, sem dúvida. Na escrita, no palco, no cinema. Mas além da escrita, do palco e do cinema há, imagine você, a vida. A vida actual, a nossa vida.

Mas manifestamente não a sua.

Costa
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De Rui Herbon a 15.10.2017 às 08:20

Grande comentário.
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De Tiro ao Alvo a 15.10.2017 às 09:44

O sr. Centeno já explicou que, para haver reforma do Estado, tem que pagar mais às "cigarras".
Eles ou elas sabem-na toda.
Proponho que este comentário seja considerado comentário da semana.
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De Anónimo a 15.10.2017 às 13:12

Quer o post da Helena, quer o comentário do Costa, são uma delícia, embora para mim, na qualidade de formiga, bem amarga.
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De Rão Arques a 14.10.2017 às 17:34

Momento único com um retrato fiel, que alguns por servilismo escondem, e que a maioria mais por comodismo ignora.
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De Anónimo a 14.10.2017 às 18:33

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De am a 14.10.2017 às 18:35

Nos entretantos:

Vai ser (será) aprovada a lei que permite que os canídeos entrem nos restaurantes com os donos...

Dá para imaginar você estar a saborear uma boa costeleta grelhada com um Pit bull da mesa ao lado, com os olhos postos em si e na carne?!!!
----
Perguntado a um dono de restaurante se concordava com o projecto lei:
--- Olhe, lei é lei...... lá terei que fazer uma mais uma toilette ...
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De Vlad, o Emborcador a 14.10.2017 às 19:27

Tirando a parte dos insectos, assino por baixo, ou onde quiser.
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De Tiro ao Alvo a 14.10.2017 às 21:15

Inteiramente de acordo.
Viva o Portugal dos funcionários públicos e dos políticos.
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De jo a 14.10.2017 às 21:33

Antes assim que a apagada e vil tristeza de funcionários a soldo de não sei quem, que só nos sabiam pregar que vivíamos acima das nossas possibilidades, que éramos uns piegas, que tínhamos de sair da nossa zona de conforto e aproveitar as oportunidades que o despedimento nos dava.

Entretanto foi-se enterrando dinheiro nos bancos, que os banqueiros não podem viver abaixo das suas possibilidades, expulsando os jovens e explicando aos velhos que ficavam que, como não tiveram mais filhos, iam deixar de receber pensão.

Sabe o presente governo lembra o dito do Marquês de Pombal, mas ao contrário:
Antes de mim já vieram aqueles que nos fazem parecer bons.
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De Helena Sacadura Cabral a 14.10.2017 às 23:47

A minha santa avó Joana dizia "depois de mim, virá quem melhor fará!".
Julgo que - como sempre aconteceu - de economia e comportamento humano sabia de muito mais que eu!

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