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Quis, propositadamente, deixar passar as primeiras horas do debate entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates antes de sobre ele me pronunciar, para esperar que a espuma assentasse. Isso permitiu-me esperar para ver a bizarra reacção de alguns comentadores que viram nele uma vitória da líder do PSD. Eu não sei como é possível vencer um debate sem passar uma ideia consistente, sem apresentar uma justificação séria para a mudança de opiniões. É absolutamente normal que em democracia uma pessoa reflicta, mude de opinião. Mas a um líder e candidato a primeiro-ministro exige-se, pelo menos, que se apresente preparado, se mostre conhecedor dos problemas e que seja capaz de explicar a mudança de ideias com argumentos sérios. A líder do PSD, por detrás da sua sisudez, pode ser uma pessoa encantadora (dizem-me que sim e eu não duvido), séria, honesta, simpática, com um percurso profissional irrepreensível, mas demonstrou ter um mau conhecimento dos dossiers, deficiente preparação política, ausência de talento e carisma, falta de capacidade de argumentação. Enfim, tem uma imagem triste, cinzenta e colada ao passado, a que nem o renovado excesso de maquilhagem (para quê?, agora?) permite esconder. Sócrates pode ter alguns tiques de altivez, uma pose pouco descontraída e até certo ponto plastificada. Pode ter algum desconforto em explicar o seu percurso profissional (há imensa gente no PSD com a mesma dificuldade) ou as opções do seu Governo que contrariavam o anterior programa eleitoral do PS, mas mostrou tudo aquilo que Ferreira Leite não conseguiu: domínio das matérias, capacidade de argumentação, perspectiva de futuro, disponibilidade para aceitar a crítica, para corrigir e fazer melhor e, acima de tudo, mostrou ter memória. Ferreira Leite insiste em suspender o TGV. Eu percebo a mudança de ideias. E a conveniência. Mas não percebo por que raio numa altura em que os nossos défices andavam cronicamente elevados, em que foi necessário vender património para tapar buracos e entregar de mão beijada a bancos privados a cobrança daquilo que o Estado tinha dificuldade (ou tempo) em conseguir obter por si; numa altura em que havia desemprego a crescer e necessidade de fazer face a uma situação de pré-recessão, o TGV, nos termos da resolução do Governo então aprovada, era bom para fazer face a esses problemas e agora deixou de ser. Mais grave é que não se tenha explicado como contornar essa dificuldade com a simples suspensão do projecto da alta velocidade. Então quatro anos e meio de oposição não permitiram encontrar nada de mais consistente, não permitiram elaborar um programa exequível e aceitável sobre essa matéria que pudesse ser apresentado ao país e discutido antes das próximas legislativas? Que andaram os Frasquilhos e os Borges do PSD a fazer durante este tempo? A Educação foi outro caso bem agarrado por Sócrates, com a agravante de que aqui a senhora só mudou de ideias quando viu as manifestações de rua. Ao contrário do que pensa a dr.ª Manuela, o que vai ser recordado é a aposta nas novas tecnologias, no inglês, na ocupação dos tempos dos alunos, na valorização do conhecimento. Ferreira Leite falhou na apresentação de um modelo de avaliação dos professores que pudesse ser discutido antes das eleições e sufragado em 27 de Setembro. A líder do PSD procurou remeter tudo para depois. Vá lá que em matéria de Segurança Social se mostrou de acordo com o que foi feito e não vê motivo para suspender a reforma efectuada. Mas será sério invocar as queixas de funcionários públicos na Provedoria de Justiça para atacar o Governo? A Provedoria tem uma importante missão a desempenhar. Contudo, ainda não se substitui aos tribunais, pelo que, perante tal invocação, o mínimo era que a dr.ª Manuela tivesse esclarecido quantas dessas queixas foram acolhidas pelo Provedor e mereceram uma recomendação ao Governo. Aqui pareceu-me que se pretendia atirar areia para cima dos olhos dos leigos. Quanto às gaffes não vale a pena perder tempo a falar delas. Já são tantas, algumas de um mau gosto tão indescritível, revelador de um paroquialismo tão serôdio, que só por comiseração, boa vontade e espírito democrático se pode admitir que a senhora tem condições para se candidatar a primeiro-ministro. Entretanto está criado mais um ponto de atrito com os espanhóis. Dir-se-ia que as cores são uma saga no percurso de Ferreira Leite. Sócrates podia ter ido mais longe, designadamente no caso das SCUT, e poderia ter perguntado à sua opositora se após a requalificação da EN125, actualmente em curso, o PSD encarava a hipótese de vir a introduzir portagens no Algarve. Foi também pena não se ter ido à Justiça e ter ficado por discutir a peregrina proposta da avaliação qualitativa e quantitativa dos juízes. Ou não se ter ido mais longe na conversa sobre os espanhóis, designadamente para se perceber a diferença entre as suas posições e as ideias do Compromisso Portugal. Tendo a dr.ª Manuela trabalhado para um banco dominado por espanhóis, seria bom perceber melhor a sua recente azia em relação a estes. De quem foi ministro da Educação e de Estado e das Finanças esperava-se mais. Outra capacidade de argumentação, outra agilidade. Essa pecha já tinha sido visível no caso da Madeira, um verdadeiro desastre e uma cedência inequívoca ao populismo e ao trade-off eleitoral interno. Sócrates cilindrou a líder do PSD. Manuela Ferreira Leite podia ter saído politicamente humilhada do debate. Ainda bem que tal não aconteceu. Os portugueses são sempre demasiado tolerantes com quem está na mó de baixo; ainda mais quando sabem que lá estão por erro próprio. Somos um povo mole e condescendente. No final, considero que aqueles que antes do debate não gostavam de Sócrates podem não ter passado a gostar dele (criamos falsas imagens, por vezes tomamos as pessoas de ponta sem as conhecermos; depois é dificíl livrarmo-nos do pré-juízo e sermos razoáveis, por mim falo), mas seguramente que viram a abissal diferença de preparação entre ele e Manuela Ferreira Leite. Quando está em causa escolher um primeiro-ministro isso é o mais importante. Em democracia ninguém governa sozinho. Não há déspotas iluminados. Os eleitores sabem isso. O debate foi esclarecedor, também graças a uma Clara de Sousa que soube manter-se distante sem estar fora. Sócrates não perdeu votos. Admito que até possa ter ganho alguns entre os que antes votaram PS e agora estavam indecisos. Ferreira Leite, que precisava de ganhá-los para o PSD, marcou passo. E, ou eu me engano muito ou o debate engrossou a abstenção entre alguns descontentes e potenciais eleitores no PSD. Como também aconteceu no debate com Louçã em relação ao BE. A conjugação desses factores pode ser suficiente para fazer a diferença no dia 27 de Setembro e dar ao PS a margem de conforto de que este necessita para voltar a governar.

