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Delito de Opinião

Legislativas (33)

Pedro Correia, 12.09.09

 

DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-JOSÉ SÓCRATES

 

José Sócrates deve enviar um enorme ramo de flores a Manuela Ferreira Leite. Tem um excelente motivo para isso: a líder do PSD acaba de fazer desviar alguns milhares de votos para o PS nas legislativas do dia 27. A sua prestação, no frente-a-frente com o líder socialista, foi a mais fraca que protagonizou nesta série de debates: hoje, na RTP, Ferreira Leite foi derrotada por um Sócrates em boa forma. O primeiro-ministro limitou-se a repetir com ela a táctica que já empregara no frente-a-frente com Francisco Louçã, há quatro dias: consultou o programa eleitoral da sua antagonista e durante mais de uma hora transformou-o em arma de arremesso, condicionando todo o curso do debate. A líder dos sociais-democratas, a quem caberia a ofensiva enquanto dirigente do principal partido da oposição, passou o tempo a tentar justificar omissões e contradições do seu programa em vez de fazer a análise minuciosa de mais de quatro anos de uma governação falhada.

"Quem está a ser julgado é o engenheiro Sócrates, que foi primeiro-ministro nestes quatro anos e meio" , desabafou Ferreira Leite já na recta final do debate, reconhecendo implicitamente que estava a perder em toda a linha. Era tarde para inflectir o rumo: mal preparada, sem dar mostras de ter lido sequer o programa eleitoral do PS, a antiga ministra das Finanças parecia uma caloira em dia de exame perante um Sócrates que por vezes sorria, quase incrédulo, perante a inconsistência da sua adversária. "Desculpe, mas não percebo os seus argumentos", disse mais de uma vez. Os espectadores também não percebiam.

Eu, pelo menos, não percebi esta Manuela Ferreira Leite sempre remetida à defesa procurando justificar durante longos minutos os pecados governativos do Governo PSD em vez de dissecar os pecados governativos do actual Governo PS. Não disse uma palavra sobre a TVI, mal aludiu ao drama social do desemprego e só criticou a guerra movida pelo Executivo aos professores nos minutos finais por insistência da moderadora, Clara de Sousa. Passou demasiado tempo a dar explicações a Sócrates sobre as suas próprias contradições na questão do TGV (que hoje contesta mas defendia em 2003, quando estava no Governo), dos impostos (hoje é contra o IMI e o PEC, impostos que criou quando foi ministra das Finanças) ou das SCUT (que já lhe mereceram críticas frontais mas que hoje tolera sem uma palavra de contestação no seu programa).

O líder socialista mostrou-se mais delicado com a líder do PSD do que com qualquer dos seus adversários nos restantes debates: não é impunemente que se defronta uma senhora. Mas foi igual a si próprio nas doses torrenciais de propaganda e na descomunal imodéstia que todos lhe reconhecemos: "Fiz sempre aquilo que devia, correspondendo aos interesses dos portugueses"; "Fizemos as reformas que era necessário fazer"; "Orgulho-me de ter contribuído para a qualidade da democracia"; "Nestes quatro anos, o Serviço Nacional de Saúde melhorou."

A melhor linha argumentativa, do ponto de vista da oposição, acabou por ser enunciada por Clara de Sousa. Ao lembrar, numa pergunta ao primeiro-ministro, que a maioria absoluta socialista "aumentou os impostos directos, aumentou os impostos indirectos e reduziu as deduções fiscais" aos portugueses desde Março de 2005, contrariando uma das mais emblemáticas promessas eleitorais do PS. Se Manuela Ferreira Leite tivesse maior capacidade política, bastar-lhe-ia ter  olhado de frente a câmara, como se dirigisse a cada um dos portugueses, e repetido a pergunta que Ronald Reagan fez a Jimmy Carter no debate televisivo que decidiu a eleição presidencial norte-americana de 1980: "Acham que vivemos melhor ou pior que há quatro anos?"

Da resposta que cada eleitor der a esta pergunta dependerá o sentido do seu voto.

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