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Delito de Opinião

Legislativas (28)

Pedro Correia, 07.09.09

 

DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-PAULO PORTAS

 

Às vezes sabe bem escutar uma frase surpreendente da boca de um dos líderes partidários portugueses. Aconteceu esta noite, no debate entre Jerónimo de Sousa e Paulo Portas na SIC, quando o líder do CDS apontou o caso das três operadoras de mensagens de telemóveis como um bom exemplo da concorrência de produtos que faz baixar os preços, beneficiando o consumidor. Portas, que ambiciona contribuir para a próxima solução governativa em Portugal, e Jerónimo, que pareceu claramente revigorado com a recente Festa do Avante, estiveram em bom nível neste debate cordial que serviu para vincar diferenças ideológicas mas também vários pontos de convergência. Mostraram-se ambos de acordo na redução do IVA, no fim do pagamento especial por conta, na crítica ao encerramento das urgências hospitalares pelo ex-ministro Correia de Campos, na denúncia do falhanço generalizado das entidades reguladoras e na contestação ao ministro da Agricultura. Neste último ponto, Portas proferiu uma das frases da noite: "Pior que a chuva, pior que a seca, só o [Jaime] Silva."

Nenhum deles competia com o outro, o que contribuiu para o tom ameno do debate. "O meu adversário é José Sócrates", disse logo de início o democrata-cristão, que competia com a prestação da véspera de Manuela Ferreira Leite e marcou claros pontos em relação à presidente do PSD em questões fulcrais, como a saúde e os impostos. Enquanto Ferreira Leite foi atabalhoada, dando a sensação que conhecia mal a matéria, o líder do CDS foi claro na defesa de parcerias entre o Serviço Nacional de Saúde e os hospitais das misericórdias para cirurgias às cataratas ou de ortopedia. Em matéria fiscal, Portas foi também muito mais claro do que a social-democrata ao defender pontos fundamentais do seu programa eleitoral, como a devolução do IVA no prazo máximo de 30 dias: "A administração fiscal não pode ser eficiente só para fazer penhoras."

Jerónimo competia consigo próprio. E esta noite, no debate (bem) moderado por Clara de Sousa, superou as suas apagadíssimas intervenções frente a Louçã e Sócrates: estava mais determinado, mais categórico, mais seguro de si. E teve o mérito de falar em questões concretas, despindo a habitual ganga ideológica dos seus discursos. Esteve bem ao insurgir-se contra os numerus clausus nos cursos de medicina num país que precisa desesperadamente de médicos, ao denunciar a concertação de preços entre as gasolineiras nas auto-estradas em claro prejuízo do consumidor e ao lembrar que continua por esclarecer o destino de cem mil milhões de fundos comunitários atribuídos pela Europa para o desenvolvimento da nossa agricultura. "Todos os países estão em crise, mas uns estão mais em crise que outros", sustentou.

Portas move-se na televisão como peixe na água e tem um discurso muito fluente, atributos que lhe deram vantagem neste confronto. Mas apreciei a réplica que lhe deu o comunista, hoje enfim relativamente libertado da pilha de papéis que costumam acumular-se à sua frente. Até ao momento, foi o debate de que mais gostei. Desvantagem, neste caso, para os que não estiveram lá.

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