Legislativas (23)
DEBATE JOSÉ SÓCRATES-PAULO PORTAS
É possível dois políticos ganharem o mesmo debate na televisão? Sim, se ambos tiverem eleitorados muito diferentes e conseguirem fixar esses eleitorados com o seu desempenho televisivo. José Sócrates, muito desgastado por quatro anos e meio de governação e recém-surgido de uma derrota eleitoral nas europeias, abriu esta noite uma série de dez debates pré-legislativas com Paulo Portas (na TVI). Não esteve na sua melhor forma, longe disso, mas teve uma prestação suficiente para manter mobilizados os seus fiéis. Portas, que ambiciona sair deste escrutínio com capacidade para decidir a próxima solução governativa, precisava de marcar pontos neste frente-a-frente inaugural e conseguiu cumprir a tarefa. Nenhum deles cometeu erros clamorosos. Mas Portas foi um pouco mais eficaz, sobretudo em dois temas fulcrais: a economia e a educação. Neste último tópico, que encerrou o debate, resumiu quase tudo numa só frase: "O senhor quis virar o País contra os professores."
Sócrates foi superior nos momentos em que lembrou a reforma da segurança social - sem dúvida a melhor marca do seu Executivo. E desmontou com alguma perícia a "demagogia" do presidente do CDS nas questões da segurança. "É inacreditável que tenha votado a favor da alteração das leis penais e depois venha cá para fora falar contra elas", disparou o líder socialista. Esteve muito pior ao lembrar até à exaustão as responsabilidades governativas de Portas no triénio 2002-05, como se fosse isso que estivesse em jogo nestas legislativas: Sócrates, que no próximo dia 27 será julgado pelo que fez e sobretudo pelo que não fez, deveria ser o último a pretender suscitar comparações entre o País que encontrou ao chegar ao Governo e o País que existe agora.
"O senhor é perseguido pelo seu passado porque já esteve no Governo", atirou Sócrates.
"O senhor primeiro-ministro é perseguido pelo seu presente", retorquiu o líder do PP.
São talvez as duas frases que melhor resumem este debate.
Aqui ficam algumas outras:
Sócrates: "Portugal foi um dos primeiros países a sair da recessão económica."
Portas: "Este optimismo perante uma crise social significa que este primeiro-ministro não compreende as pessoas."
Sócrates: "Quando o senhor foi governo houve um agravamento das contas públicas."
Portas: "Para José Sócrates, em 2005, o desemprego de 6,9% era 'a marca falhada de uma governação'. O que será um país com 9,2% de desempregados?"
Sócrates: "O desemprego está a subir em Portugal, mas está também a subir em toda a Europa e em todos os países do mundo."
Portas: "Para o primeiro-ministro, tudo é culpa do passado ou culpa do mundo."
Sócrates: "Quando cheguei ao Governo, o senhor deputado tinha deixado a segurança social em elevado risco, segundo a Comissão Europeia."
Portas: "O senhor teve quatro anos e meio no poder, uma maioria absoluta obediente, um Presidente da República colaborante. As maiorias absolutas convertem-se em ignorância, falta de sentido do compromisso, falta de sensibilidade social."

