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Extracção de rendas junto do contribuinte

por Jorge Assunção, em 27.08.09

 

O quadro em questão pretende identificar as diferenças salariais, para o mesmo nível de qualificação, entre os trabalhadores do sector privado e os trabalhadores do sector público dos países em questão. Os dados têm cerca de uma década, mas entretanto, como confirmado por outro estudo recente, as coisas se mudaram foi para pior. Em Portugal, uma trabalhadora no sector público ganha, em média, cerca de 65% mais do que uma trabalhadora no privado. Justifica-se que assim seja? A minha resposta é não. A começar nos horários vantajosos dos funcionários públicos e a acabar na generosa protecção ao emprego que o sector garante.

O número de desempregados tem crescido quase sem descanso desde o início da década, quantos desses desempregados vieram do sector público? A grande maioria vem do sector privado. Portanto, quando alguns se referem aos funcionários públicos como "os mesmo de sempre" no que toca a pagar a crise, revelam, no mínimo, desconhecimento. Porque não há quem sofra mais na pele a crise do que aquele que está desempregado. Esse (a) coitado (a) é que é o (a) mesmo (a) de sempre.

Outros há que duvidam dos números, nunca os funcionários públicos podem estar tão melhor remunerados que os trabalhadores do sector privado. Deixo a pergunta, se assim é, porque surgem tantos candidatos quando abrem vagas no público? E qual o motivo que leva o fluxo de trabalhadores que troca o público pelo privado a ser tão reduzido/inexistente?

Infelizmente, temo que o que explica o diferencial é a mera extracção de rendas junto do contribuinte, não por acaso, os sindicatos com maior peso estão normalmente associados ao funcionalismo público. E o político encontra no sector bem organizado dos funcionários públicos um grupo onde procura obter vantagem eleitoral. Ele sabe que se não agradar a tão grande e bem organizado grupo arrisca-se a não ser reeleito. Sócrates, com o aumento salarial de 2,9% ao sector, demonstrou saber muito bem como as coisas funcionam.


7 comentários

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De Daniel João Santos a 27.08.2009 às 10:24

"porque surgem tantos candidatos quando abrem vagas no público?"

Acho que tens razão. Como o sector privado os trata abaixo de cão, eles fogem na procura de quem os trate melhor.
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De Jorge Assunção a 27.08.2009 às 16:32

É verdade Daniel, por isso nada melhor do que o Estado tratar os seus acima de cão, através dos impostos dos que são tratados abaixo de cão. É uma tese interessante.
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De João André a 27.08.2009 às 11:46

Caro Jorge, concordo mas só até certo ponto. Uma razão muito forte para essa fuga do privado (mais do que para o público) está nas condições de trabalho do privado. Fora de salários: em Portugal terei direito creio que a 22 dias de férias anuais (e no ano em que começo não mais que 8, se o patrão assim o desejar), enquanto que onde trabalho (Holanda) me dão 31. Em Portugal os empregados do privado têm horários de 8 horas diárias, mas acabam por fazer umas 10 horas todos os dias, sem nunca as compensarem. Aqui, onde trabalho, se tiver dias com 10 horas de trabalho (e tenho muitos) compenso de imediato com outros quando não precise de trabalhar tantas horas. Outros exemplos se poderiam seguir.

Uma nota: generalizar estas questões para a função pública é mau. Há repartições sem fim onde há gente a mais e que não faz absolutamente nada. Muitas outras há, no entanto (em centros urbanos menores ou fora dos mesmos) onde há gente a menos e que trabalha num frenesim para poder cumprir os serviços. Mais que uma questão de salários, horários ou protecção de emprego, há uma má distribuição dos trabalhadores (embora as outras questões sejam obviamente importantes).
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De Jorge Assunção a 27.08.2009 às 16:50

"Uma razão muito forte para essa fuga do privado (mais do que para o público) está nas condições de trabalho do privado."

Então concordamos. É essa mesmo a minha tese, no público as condições de trabalho são muito mais atraentes que no privado.

"Em Portugal os empregados do privado têm horários de 8 horas diárias, mas acabam por fazer umas 10 horas todos os dias, sem nunca as compensarem."

E isso nos últimos anos aumentou, sobretudo durante esta década. É hoje muito mais difícil para um jovem encontrar um emprego das nove às seis. Foi uma das formas que as empresas privadas encontraram para diminuir os salários.

"generalizar estas questões para a função pública é mau."

Eu não acho que seja mau. E repare que eu não estou a acusar os funcionários públicos de fazerem/não fazerem, estou só a afirmar que ganham muito mais do que no privado. E ganham tanto mais que dificilmente não será pelo motivo que aponto no último parágrafo. Aliás, se não me falha a memória, os sindicatos acharam por bem queixarem-se do aumento de 2,9% previsto para este ano.
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De CMAF a 27.08.2009 às 11:50

Esquece-se de referir que as qualificações e habilitações dos funcionários públicos, bem como os respectivos investimentos pessoais em termos académicos antes do ingresso na função pública, são muito superiores ao do sector privado.Honesto será comparar apenas aquilo que é comparável - iguais habilitações e competências no sector público com iguais competencias no sector privado. E se calhar iríamos ter uma surpresa.
A outra solução ( demagógica e totalitária) será, pura e simplesmente, instituir um salário único para todo e qualquer trabalhador- estamos dispostos a isso ?
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De Jorge Assunção a 27.08.2009 às 16:54

"Esquece-se de referir que as qualificações e habilitações dos funcionários públicos, bem como os respectivos investimentos pessoais em termos académicos antes do ingresso na função pública, são muito superiores ao do sector privado."

Eu tento colocar a negrito, mas mesmo assim parece que escapa.

"A outra solução ( demagógica e totalitária) será, pura e simplesmente, instituir um salário único para todo e qualquer trabalhador- estamos dispostos a isso ?"

A solução é tornar o aumento dos salários na função pública condizentes com aquilo que são as condições gerais do mercado de trabalho.
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De Anónimo a 27.08.2009 às 20:07

Excelente texto.

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