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Frases que fazem a diferença

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.08.09

Manuela Ferreira Leite saiu ontem a terreiro para defender as suas listas e as suas escolhas. Notável foi a justificação dada para a inclusão de António Preto: "não está acusado de nada no exercício de funções públicas". Sublinhe-se o "públicas". Pois não, não está. Mas com tal frase ficamos a saber que uma acusação de fraude fiscal qualificada e de falsificação de documento contra um cidadão no exercício de funções privadas, não só não é impeditiva como, pelos vistos, até o recomenda para o exercício de funções públicas. Para a líder do PSD, e não me refiro ao visado, um tipo pode ser o maior trafulha na sua actividade profissional privada ou na sua vida pessoal, alinhar nos maiores cambalachos e patifarias, que desde que isso não envolva (directamente, presumo) o exercício de funções públicas, ele poderá livremente exercer um cargo público. Também Isaltino Morais alega que os factos discutidos no seu processo não têm nada, rigorosamente nada, que ver com o seu desempenho à frente do Município de Oeiras e não foi por essa razão, tanto mais que ele ainda não foi condenado por uma sentença com trânsito em julgado, que Ferreira Leite decidiu apoiá-lo na recandidatura autárquica. Seria bom que a senhora, já agora, explicasse o que separa Isaltino Morais de António Preto para que os portugueses pudessem perceber as diferenças. A ausência da líder do PSD na festa do Pontal vai, uma vez mais, adiar os esclarecimentos. Há dias, uma filha de Silvio Berlusconi, Barbara, afirmou numa entrevista à Vanity Fair "non credo che un uomo politico possa permettersi la distinzione tra vita pubblica e vita privata". As palavras de Manuela Ferreira Leite colocam-na bem mais próximo de Berlusconi do que aquilo que eu poderia imaginar. Habermas (Droit et Démocratie - Entre faits et normes, Gallimard, 1997) já tinha salientado que o espaço público devia ser entendido como uma estrutura intermédia, complexa e ramificada, com papel de mediação entre o sistema político e os sistemas privados do mundo vivido. Touraine (Qu'est ce que la démocratie, Fayard, 1994) já chamara a atenção para a degradação da democracia como consequência da desvalorização ética ao nível do cidadão e do sujeito. Manuela Ferreira Leite, ocupada como está com os números, com as listas e com a elaboração do programa eleitoral do seu partido, pode não ter lido Habermas nem Touraine, mas já recuperou, tal como Berlusconi, a estanquicidade de uma distinção que se começava a pensar ultrapassada, lançando as linhas de uma teoria política (nova?) que a ser levada à letra, e ao arrepio da História, transformará os portugueses contribuintes nos novos cananeus e a Assembleia da República numa versão pós-moderna de Sodoma e Gomorra. Como ainda há algum tempo atrás recordava Richad Newbury num interessante artigo do La Stampa, razão tinha Oscar Wilde quando dizia que "morality is simply the attitude we adopt to people we dislike". Em relação aos "nossos" tudo é permitido. Depois não se queixem.


2 comentários

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De Carlos Dias Ferreira a 12.08.2009 às 12:48

Caro SAC:

Fico pasmo com tanto "moralismo" que existe na nossa praça especialmente quando a situação tem a ver com MFL.
Em relação a um candidato a deputado de que há alegadas suspeitas de imensas trapalhadas que no caso envolvem dinheiros públicos, caso estação compostagem Cova Beira, Freeport, os moralistas dizem NADA.
Curioso é que nos casos que foca um ainda não foi julgado em tribunal ou seja os orgãos competentes ainda não puniram ninguém no outro a sentença não transitou em julgado mas seguindo a cartilha moralista não percebo este alarido só para um dos lados.
Se tivesse de condenar alguém só pelo diz-se disse A. Preto e Isaltino Morais ao pé de Sócrates eram uns meninos de coro, portanto não vou por aí.
Creio que não é por moralismos feitos por interesse e conforme as conveniências que resolvemos os problemas e passamos a ter uma democracia mais transparente. Deixemos funcionar os orgâos de soberania (tribunais) com competência para estes casos e não julguemos apenas pelas aparências ou interesses politicos de momento.
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De Sérgio de Almeida Correia a 12.08.2009 às 13:33

Caro Carlos Dias Ferreira,

Agradeço os seus comentários.
Não se trata de moralismo, trata-se de haver critérios, trata-se de ética, de decência.
Estou particularmente à-vontade para falar porque também já me pronunciei, publicamente, sobre outras situações que refere (com custos profissionais e políticos que diariamente vou pagando). Se for ao meu blogue pessoal ou se ler o que tenho escrito em diversos jornais, incluindo no Acção Socialista, poderá perceber melhor o meu ponto de vista e verá que de moralista não tenho nada. Mas como um dia também escrevi, em matéria de ética cada um toma a que quer. Eu não imponho a minha aos outros, o que também me dá a liberdade de dizer e de escrever o que me vai na alma. Sem medos nem constrangimentos de qualquer espécie. Na vida pública e também na privada.

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