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Um país que mata os seus heróis

por Pedro Correia, em 30.07.09

  

 

As revoluções devoram sempre os seus heróis. A revolução cubana confirmou esta regra como poucas: muitos dos companheiros de Fidel Castro nos anos duros da Sierra Maestra ficaram pelo caminho, desiludidos com a metamorfose da revolução em ditadura ou escorraçados por um regime que, ao contrário do prometido, não tinha lugar para todos. Mas a figura mais trágica dos anos de chumbo do ‘socialismo’ cubano é o general Arnaldo Ochoa Sánchez, que transitou da glória máxima para a humilhação suprema ao ser considerado inimigo do regime castrista na pátria de José Martí, autor de alguns dos mais geniais motes políticos escritos na língua castelhana. “Observar um crime em silêncio é cometê-lo”, dizia.

Arnaldo Ochoa observou certamente alguns crimes em silêncio. Só assim pôde ascender na hierarquia militar do castrismo, que concilia o comunismo puro e duro com o nacionalismo mais exacerbado. Tornou-se um dos oficiais de confiança do ditador, que lhe apontava as missões mais arriscadas – com destaque para o comando da brigada que derrotou os sul-africanos na batalha de Cuito-Cuanavale, no sul de Angola, em 1987. A maior proeza militar cubana de sempre no exterior.
Regressou a Havana entre unânimes aclamações de júbilo. Mas Castro não permitia que ninguém lhe fizesse sombra: decidiu transformar o herói em vilão, ordenando aos seus serviços secretos que forjassem a imagem de um outro Ochoa. Conspirador, trapaceiro, delinquente, traidor. Digno do opróbrio e da morte.
 
“Em Cuba, o real e a ficção, o teatro e a vida, baralham-se de tal modo, como num jogo de espelhos, que mesmo um observador atento muitas vezes tem dificuldade em distingui-los.” Assim escreve Tomás Vasques no romance O general foi-se embora sem ter bebido um trago de Havana Club (Asa, 2001). O general é Ochoa – toda a acção, muito bem construída, gira em torno deste combatente da Sierra Maestra e mártir da revolução cubana, fuzilado ao amanhecer de 13 de Julho de 1989 – fez agora 20 anos – após um julgamento sumaríssimo, iniciado a 25 de Junho no Tribunal de Honra das Forças Armadas Revolucionárias. A sentença estava ditada de antemão: a secreta gravara conversas privadas do general com ditos sarcásticos sobre Fidel e Raúl Castro. Silogismo simples: em Cuba, quem critica os irmãos Castro é contra-revolucionário. E todo o contra-revolucionário merece a morte.
O romance de Tomás Vasques tem desde logo o mérito, raro na literatura portuguesa, de olhar para fora das nossas fronteiras, situando grande parte da acção na bela e decadente Havana. E tem a vantagem acrescida de nos lembrar que alguns dos regimes mais perversos são os que ousam proclamar até à náusea o seu pretenso amor à liberdade.
 
General de divisão, distinguido com o título honorífico de Herói da Revolução, oficialmente considerado “um estímulo para todos os lutadores”, Ochoa tornou-se um anjo caído, vilipendiado em editoriais do Granma, que o apontaram como “implicado no tráfico de drogas”. Dezoito dias após a audiência de julgamento – uma brutal caricatura de justiça – recebia a bala fatal. “Rapazes, cumpram a vossa missão”, disse, de cara descoberta, aos membros do pelotão de fuzilamento, vários dos quais tinham servido sob as suas ordens.
Tomás Vasques fala-nos de tudo isto em páginas impressionantes – inesquecível, por exemplo, o capítulo em que o general e Fidel se encontram. A Ochoa, trágica figura de revolucionário convertido em personagem romanesca, aplicam-se bem os versos de Heberto Padilla, outro cubano que pecou por dissidência: “Muerte, / no te conoszco, / quieren cubrir mi patria / con tu nombre.”
 
Foto: Fidel Castro com Arnaldo Ochoa


2 comentários

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De CPrice(Once) a 30.07.2009 às 14:13

lembra-se de um livro que aconselhou há uns tempos largos Pedro? "O Homem que inventou Fidel" Gostei tanto dele como deste postal.

Obrigada.
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De Pedro Correia a 30.07.2009 às 22:53

Lembro-me perfeitamente, caríssima Once. Um livro sobre Herbert Matthews que demonstra bem como até os melhores jornalistas podem tornar-se instrumentos involuntários da propaganda política. Um livro que todos os jornalistas deveriam ler.
Obrigado pelas suas palavras.

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