Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O legado de Mário Soares

por Pedro Correia, em 07.12.14

 Mário Soares (com Lopes Cardoso, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, Francisco de Sousa Tavares e outros) na manifestação da Fonte Luminosa, em Lisboa (19 de Julho de 1975)

 

Em democracia, só existe uma forma legítima de mudar os titulares das instituições políticas: pelo voto. E quem nos ensinou isto, numa sucessão de actos exemplares durante os anos de brasa da revolução, foi um homem chamado Mário Alberto Nobre Lopes Soares, que hoje festeja 90 anos. Um homem que no Portugal pré-constitucional, quando a guerra civil esteve por um fio, enfrentou a "rua" com notória coragem física e um desassombro cívico que a História (com H maiúsculo) registará. A "rua", instrumentalizada pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluiram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.

Personalidade cheia de contradições, como em regra sucede às figuras que deixam a sua impressão digital nos acontecimentos históricos, Mário Soares acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia".

Mas o que mais lhe devemos foi ter participado na primeira linha do combate pela instauração no nosso país de uma democracia autêntica -- aquela que assenta no sufrágio livre, periódico e universal. Com argúcia e ousadia, Soares disputou a "rua" aos comunistas, desmonstrando-lhes em comícios como o da Fonte Luminosa -- como De Gaulle fizera ao promover o gigantesco desfile dos Campos Elíseos na ressaca do Maio de 68 -- que o espaço público não é uma espécie de coutada particular das forças extremistas. E nunca deixou de fazer a indispensável pedagogia da vontade popular expressa nas urnas, mesmo quando isso ia contra o ar do tempo, como sucedeu no histórico frente-a-frente televisivo com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em 6 de Novembro de 1975.

Esse é o Soares que a História recordará.


20 comentários

Sem imagem de perfil

De Cabo dos Trabalhos a 07.12.2014 às 15:50

Subscrevo.

O Soares salamalequeiro a Hugo Chávez (e entrevista está no youtube) não é decerto o que a história recordará.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.12.2014 às 21:35

Essa fase já é de um Soares excessivamente Maduro.
Sem imagem de perfil

De M. S. a 07.12.2014 às 16:14

Está enganado Pedro.
Há duas histórias: uma com H grande, que registará isso que diz.
outra com h pequeno, que registará, e fará lembrar, a todo o momento, as contradições que refere do M. Soares.
Esta de trazer por casa, para a luta político-partidária presente e futura (e passada também), mais dada à mesquinhez, polvilhada como uma mentirola ou outra (M. Soares tem um apartamento na Av Foch, em Paris; a Fundação Mário Soares recebe milhões de euros do Estado e da Câmara, sem se cuidar de saber se é verdade e o que faz a dita fundação, etc.), é que acaba por estar presente no nosso dia-a-dia.
E às vezes «escrita» pelos medrosos que se acoitaram na Fonte Luminosa atrás do M. Soares, que deu o corpo às balas quando era bem difícil: se oportunisticamente dele se serviram, oportunisticamente o descartaram.
De oportunistas o que se espera?
Nunca fui apaniguado de M. Soares, nem sequer seu admirador mais desprendido, incomodam-me certos traços da sua personalidade, mas vivi, embora bastante jovem, o PREC, mas sei bem o que foi, o que poderia ter sido, as consequências que deixou, a irresponsabilidade que andava à solta materializada em 2 letrinhas apenas: JÁ.
Tudo tinha de acontecer JÁ.
Ora, o JÁ é o maior inimigo do AMANHÃ.
A minha avaliação crítica de M. Soares jamais esquecerá: Democracia; Liberdade religiosa; Descolonização (a possível nas dificílimas condições, a maior responsabilidade foi de quem teve 20 anos para resolver o problema após a Conferência de Bandung e nada fez nos primeiros 7 e fez guerra nos últimos 13); Integração europeia.
Aqui coincido consigo, mas não menospreze a história com h pequeno, porque envenena o nosso viver colectivo.




Imagem de perfil

De Pedro Correia a 08.12.2014 às 11:48

Não menosprezo a história com h pequeno, longe disso, mas por vezes devemos olhar para a floresta, que é sempre muito mais do que a soma de algumas árvores.
Sem imagem de perfil

De Alexandre Carvalho da Silveira a 07.12.2014 às 18:06

Mario Soares há-de ter o lugar que nerece na História de Portugal das últimas décadas. Provavelmente não será o que ele gostaria, pese embora as tentativas de moldar, vamos dizer, certas situações ao que mais lhe convém, como são os casos de alguns livros publicados em Portugal sobre o papel que ele teve depois de 1974 nos desenvolvimentos politicos do país.
Soares teve um papel importante na resistência aos comunistas durante o PREC, mas não foi o único. O comício da Fonte Luminosa nunca teria sido o que foi se a Direita não tivesse lá estado em peso. E sei do que falo, porque estive lá acompanhado por centenas de pessoas que nunca foram nem votaram no PS.
Aqui no Alentejo onde a luta "nas ruas e nos campos" contra os comunistas foi mais acesa, nunca vi lá ninguém do PS.
Também não nos podemos esquecer que Soares quando regressou de Paris poucos dias depois do 25 de Abril, e porque era então a moda em França, começou logo a falar de uma maioria de esquerda PS-PCP para governar Portugal. Esse projecto só não vingou, porque como sabemos agora, Cunhal tinha outros planos para Portugal, onde o PS não tinha lugar.
Soares só se zangou verdadeiramente com os comunistas depois de no 1º de Maio de 1975 Cunhal o ter impedido de entrar na tribuna do estádio da FNAT onde se faziam os discursos. A Fonte Luminosa aconteceu dois meses e tal depois.

Sem imagem de perfil

De António Barreto* a 07.12.2014 às 20:53

Muito bem. É essa a ponta do novelo que desvenda o verdadeiro Mário Soares. E não é bonito!
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 07.12.2014 às 18:06

De repente esqueceu-se de Ramalho Eanes.
É normal são políticos só pensam em termos políticos. Tal como o seu colega de blogue que refere Sá Carneiro.

Foi Ramalho Eanes e o seu grupo que fez frente ao PCP. Eram eles que tinham as G3 e as tropas para travar as tropas afectas ao PCP.

O Soares que a História recordará incluí também o Regime Populista desenhado para sucessivas bancarrotas.
O extraordinário poder não democrático de expelir uma pessoa para fora do país porque escreveu um livro sobre o seu partido e negócios obscuros.
Da possibilidade de Golpe de Estado favoráveis ao PS quando o vento está a favor como há 10 anos atrás.
Do silêncio dos jornalistas que não podem fazer perguntas incomodas pelo poder do seu partido na comunicação social totalmente politizada.
Mário Soares foi importante para o estabelecimento da Democracia. Foi e é também uma das forças que mais contribui para acabar com ela.
Pode começar pelos Média e Justiça amordaçados.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.12.2014 às 18:20

Não esqueci nem esqueço Ramalho Eanes:
http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/1586059.html
Mas hoje o aniversariante é Mário Soares.
Sem imagem de perfil

De M. S. a 07.12.2014 às 19:46

Pedro Correia:
Ramalho Eanes e todo o Grupo dos 9.
Sem eles R. E. nada teria sido.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 08.12.2014 às 11:42

Certo. Mas a inversa também é verdadeira. Sem Eanes no terreno o Grupo dos 9 não teria sido o que foi.
Sem imagem de perfil

De Zero a 07.12.2014 às 18:15

Um que recrimina os que mudam de opinião:

http://www.youtube.com/watch?v=hQT7CNQsqjA
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 08.12.2014 às 11:43

"Só os burros não mudam de opinião", como disse um célebre pensador português.
Sem imagem de perfil

De Vento a 07.12.2014 às 19:21

Bem, Pedro, um homem também é o seu passado. E Mário Soares vê hoje à direita o que no passado viu na esquerda.
Porém, duas situações distinguem um e outro tempo:
1 - Os mercados de outrora estavam sujeitos a um muro que ainda que de vergonha não lhes permitia andar desavergonhadamente em roda solta;
2 - Os mercados do presente dedicam-se à construção dos muros outrora derrubados.

Neste sentido, não pode passar despercebida a acção de Mário Soares nesta luta contra um refinado sistema que, vivendo à sombra de uma democracia, pretende subjugá-la em tudo igual a uma nomenklatura estalinista que fabrica nos parlamentos dos diferentes países peões que não só se limitam a anuir a tais procedimentos como também procuram subverter as leis e os valores que lhes permitiram aceder a essas bancadas.

Mais ainda, convencidos que estão que são os anjos do julgamento histórico não se coibiram e não se coíbem de pretender demonstrar que governam uma massa de cretinos que, como tal, não possuem capacidades mentais para distinguir o que é uma reforma e/ou refundação do sistema.

É suposto que os sistemas políticas não sejam reformados, mas que evoluam. Desconhecendo o significado de evolução e revolução, revolucionam o que de mais rico e produtivo uma nação tem, um povo, para que essa riqueza se transforme em miséria para miseravelmente sustentarem miseráveis.

Soares percepcionou isto do alto dos seus 90 anos. Ele conhece o passado, o presente e sabe o que o futuro reserva nestas circunstâncias; e o que outrora foi uma notável percepção que o levou a puxar as forças sociais democratas para a cena política também hoje, de modo igual, faz despertar na esquerda essa aliança que se torna necessária.
Uma vez mais, Soares, parabéns.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 08.12.2014 às 11:45

Parabéns, nesta quadra, é a palavra certa. A polémica segue dentro de momentos. E com Soares em cena nada mais certo do que haver polémica. Nele, é uma prova de vida. E de algum modo um exemplo a registar.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 07.12.2014 às 21:46

Olhe que sim, Pedro Correia, olhe que sim. Gostava de chegar aos 90 anos, com a sua lucidez e experiência de vida.
Concordar ou não com ambas, no dia de hoje, é um mero detalhe.
Ao Cento !
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.12.2014 às 21:57

Sim, Dulce. O facto de Soares ser ainda hoje uma personagem polémica acaba por constituir uma homenagem implícita à capacidade de intervenção política dele num país onde a ambição usual dos políticos é tornarem-se, demasiado cedo e não raras vezes sem mérito algum, Sacrossantas Instituições Nacionais.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 08.12.2014 às 12:18

Gostei. Justa homenagem. E tem mais valor quando vem de alguém que não lhe poupa críticas.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.12.2014 às 17:21

Sim, Teresa. Já critiquei Soares muitas vezes. Mas há que saber reconhecer-lhe o mérito. É mais que justo, desde logo por elementar honestidade intelectual.
Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 08.12.2014 às 13:00

interessantes os nomes daqueles que acompanham o mário soares na fotografia:
todos com dois apelidos e quase todos sem nome próprio.
tal qual os durão barroso, santana lopes, cavaco silva e etc... de agora.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.12.2014 às 17:20

Interessante reflexão.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D