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Loucos precisam-se, ou de como a política morreu

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.09

No interessante editorial do Público desta manhã, a propósito da falta de memória de Manuela Ferreira Leite e do silêncio de anos de Henrique Granadeiro sobre a venda à PT pelo Estado da rede fixa de comunicações, em Dezembro de 2002, Paulo Ferreira interroga-se sobre as consequências na nossa vida pública da obscena promiscuidade entre a política e os negócios e alerta, como não me canso de fazer de há muitos anos a esta parte com apreciável insucesso, para o “mortífero pântano em que o país está mergulhado: o tráfico de favores ilegítimos, as alianças de ocasião, a conta-corrente sempre por saldar”. Não sei se há favores legítimos quando estamos a falar de política e da coisa pública, mas é evidente que o ambiente democrático tem sido conspurcado de forma absolutamente inaudita.

As considerações do articulista do Público fizeram-me recordar três artigos e uma entrevista saídos muito recentemente e que merecem uma cuidada leitura, na medida em que podem ajudar-nos a perceber o que se passa em Portugal e para onde estamos a caminhar. Para além de todos terem em comum a situação política italiana, é em todos eles possível encontrar um outro denominador: a forma como a comunicação social se tem apropriado do debate político, o miserabilismo das elites e a promiscuidade entre o político e o económico, promoveu a desconstrução ética, cultural e política, facilitou a personalização desta e aristotelicamente conduziu um sistema democrático para um sistema demagógico protector do populismo.    
Giovanni Sartori, um dos mais lúcidos politólogos italianos que recentemente publicou um conjunto de crónicas reunidas sob o sugestivo título de “Il Sultanato”, entrevistado por Miguel Mora para o El Pais, explica que a Itália de hoje está a meio caminho entre uma democracia e uma ditadura, sendo por isso mesmo um sultanato, visto que Berlusconi não mudou a Constituição. Limitou-se a procurar esvaziá-la de conteúdo. Para ele, o que define Berlusconi é a ideia de corte, querendo com isso dizer que faz o que quer, como quer, não distinguindo o público do privado, comportando-se como um verdadeiro patrão à antiga. A sua massa clientelar é fiel e a todos garante poder e privilégios. Por isso continua a ganhar eleições. Os danos colaterais são imensos, mas isso é irrelevante porque a televisão não informa, 80% dos italianos só se interessa pelo que se passa na televisão e ele controla 6 dos 7 canais. É assim natural que permaneça imune.  
Os outros três textos, cuja leitura vivamente recomendo a quem não o tenha feito (De qué es sintoma Berlusconi?, de Samir Naïr, no El Pais de 27/6/09, Il Ventennio di rimozioni – Anatomia di una crisi, de Angelo Panebianco, e La politica cancellata, de Ernesto Gallia della Logia, ambos no Corriere della Sera, respectivamente, de 30/6/09 e 25/6/09), afinam mais ou menos pelo mesmo diapasão.
A incapacidade do modelo político italiano de criar uma vontade geral coerente mais não é do que o resultado do “sonho berlusconiano” em que a vontade geral deixou de ser um resultado da competição entre partidos para se tornar num assunto controlado pelo poder mediático, em resultado da decomposição prolongada, desde há mais de 20 anos, das elites culturais e políticas de esquerda e de direita (Naïr).
Ou, como refere Galli della Loggia, o nível de personalização da política em Itália atingiu níveis patológicos devido ao facto das ideias, dos programas, dos processos de selecção se terem literalmente evaporado. À direita e à esquerda. Sem cultura e sem política, exauridas, só ficaram as pessoas, pessoas nuas. As notícias que importam são a revelação das infidelidades, o custo das echarpes de D’Alema, os flirts de Fini ou o glamour de Bertinotti, enquanto no fundo do subterrâneo se agitam os interesses económicos. Os clãs que se formam, desinteressados do país, apenas se preocupam com o poder da oligarquia. A personalização acabou com a política.
Daí que, em poucas palavras, Angelo Panebianco tenha recordado que a melhor observação sobre a forma de sair deste marasmo tenha sido feita por um ex-colaborador de Massimo D’Alema, Velardi, quando referiu que só um louco (un pazzo), na melhor acepção do termo, será capaz de promover a mudança. Um louco que reúna em si a inspiração, a solidez cultural e a credibilidade. E, acima de tudo, a capacidade para se dedicar a um paciente trabalho de reconstrução cultural e política, sem se deixar condicionar pela oligarquia partidária e os centros de poder externos.
Como entre nós ainda não apareceu nenhum Berlusconi, apesar de já assomarem por aí alguns putativos candidatos, seria bom que começassem a surgir uns loucos nos nossos partidos, à direita e à esquerda, que sem medo dessem o corpo às balas e fossem capazes de fazer aquilo que Velardi sugeriu. É, pois, caso para dizer: loucos precisam-se! E depressa.


14 comentários

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De João Carvalho a 01.07.2009 às 14:00

Para lá do que muito bem dizes sobre a volta que isto devia levar por cá, é bom que a Europa saiba cuidar de si própria. sendo embora muito pouco, o caso italiano ilustra bem a urgência de legislar sobre a comunicação social, com o fim de evitar o tal concentracionismo e outras obscuridades.

Porém, o assunto anda a ser pensado há muito e não há meio de passar da fase do pensamento. O que confirma o teor do que dizes: até para pensar começa a ser tempo de haver loucos, daqueles que pensam rapidamente com os miolos e não com o prato à frente.
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De Sérgio de Almeida Correia a 01.07.2009 às 19:36

Meu amigo,

O problema é que esses, depois, ficam à fome...

Abraço
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De mdsol a 01.07.2009 às 14:26

"A loucura é o sol que não deixa a razão apodrecer". Não sei quem é o autor, sei que era uma frase muito repetida pela minha amiga chilena, fugida à ditadura de Pinochet, logo no seu início. Talvez seja ainda mais verdade nos tempos que correm.

:))
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De João Carvalho a 01.07.2009 às 19:54

Seguramente.
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De ariel a 01.07.2009 às 15:18

E um gosto ler os seus posts Sérgio.
O João Carvalho diz bem, "pensar com os miolos e não com o prato à frente" . Mas sem um forte abanão onde é que se viu uma coisa dessas em toda a nossa História? Não deve ser por acaso que não saímos da cepa torta.
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De Sérgio de Almeida Correia a 01.07.2009 às 19:40

Eu sei que um dia este país há-de mudar, só não sei é quando. Mas como dizia um artista que por aí anda: "está escrito nas estrelas". Tenhamos paciência e lucidez.
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De Pedro Correia a 01.07.2009 às 18:31

Venham eles. Os loucos.
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De Sérgio de Almeida Correia a 01.07.2009 às 19:44

Pedro,

Estão abertas as inscrições. Infelizmente, só lá consigo ver o meu nome e cada vez mais sumido.

Boas férias!
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De Ana Vidal a 01.07.2009 às 21:12

De acordo. Venham eles, que bem falta fazem.
Mas cada vez há menos, esse é o problema.
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De João Carvalho a 01.07.2009 às 21:18

Haver, há. Só que são loucos, mas não são malucos.
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De Ana Vidal a 01.07.2009 às 21:30

És capaz de ter razão. Mas continuo a ter pena de que não sejam as duas coisas...
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De l.rodrigues a 02.07.2009 às 08:33

Acho piada alguns destes comentadores que fazem aqui o elogio da loucura politica... e que frequentemente vejo rotular outros de maluquinhos ou equivalente.

— Queremos loucos, mas "no bom sentido", que isto não está para aventuras...

Bah
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De João Carvalho a 02.07.2009 às 08:36

Bah para si também.

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