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642

por Alexandre Guerra, em 23.05.17

O terrorismo, sob as suas diversas formas, é um fenómeno que esteve sempre presente na Europa. Se formos a ver bem, o rastilho da I Guerra Mundial é aceso com um acto terrorista. Ao longo das décadas posteriores, o Velho Continente foi assistindo à emergência de vários grupos terroristas, com inspirações ideológicas várias e objectivos circunscritos a uma específica realidade, mas nunca estando em causa a ameaça generalizada a um determinado estilo de sociedade ocidental. Mesmo movimentos terroristas muçulmanos (alguns ligados à causa palestiniana) que surgiram nos anos 70, 80 e 90 tinham nas suas “declarações de guerra” fins muitos bem definidos que pouco ou nada tinham a ver com a destruição do modo de vida ocidental.

 

A Globalização que ganha força no início dos anos 90 após a queda do sistema bipolar das Relações Internacionais veio tornar o mundo mais igual, mais “flat” (pedindo emprestada uma expressão a Thomas Friedman), mas este movimento acaba por criar um paradoxo. Porque, se, por um lado, vai tornando o mundo cada vez mais interdependente e comunicativo entre os países, culturas e religiões, por outro, vai realçando as fracturas dos diferentes paradigmas de sociedade, criando fricções ou, se preferirmos, os tais “choques” de civilizações de que Huntington falava.

 

Se é verdade que Huntington identificava zonas geográficas claras de confronto entre civilizações, o terrorismo global fundado por Osama bin Laden acabaria por levar esse “choque” para as ruas de cidades como Nova Iorque, Paris, Bélgica ou Londres. A al Qaeda é a primeira “multinacional” do terrorismo, com “franchisados” em quase todo o mundo, e a partir desse momento vai inspirando cada vez mais seguidores. Os ataques de 11 de Setembro de 2001 a Nova Iorque e a Washington são uma espécie de “apresentação” hollywoodesca ao “mercado”, sendo que já antes a al Qaeda tinha actividade e era sobejamente conhecida das autoridades, mas totalmente desconhecida do grande público e jornalistas. As imagens dos aviões a embater nas Torres Gémeas a sua consequente queda foram de tal maneira impressivas, com quase três mil mortos, que a al Qaeda ganhou a tal notoriedade que pretendia para poder mobilizar, recrutar e inspirar milhares de militantes radicais em diferentes partes do mundo que estavam “adormecidos”. Tudo o resto, nomeadamente o Estado Islâmico, já é uma consequência disso.

 

Se verificarmos a lista dos principais atentados do terrorismo islâmico na Europa desde 2004, chegamos ao número 642. É o número de pessoas que morreram desde aquele ano até hoje. É certo que a ETA matou mais de 800 pessoas desde a sua fundação em 1959 e o IRA Provisório terá matado cerca de 1800 pessoas entre 1969 e 1997, mas escusado será sublinhar as diferenças evidentes nos tipos de terrorismo em causa e das suas finalidades. Numa análise fria, convenhamos, foram tantas as notícias de mortes em Espanha e no Reino Unido por causa daqueles movimentos e, para lá da comoção momentânea, as pessoas nos vários países europeus nunca sentiram que os seus modelos de sociedade estivessem em causa e muito menos a segurança dos seus estilos de vida. Era um conflito lá “deles”, ou seja, não havia uma sensação de ameaça generalizada na Europa.

 

Ora, ataques como o de ontem em Manchester resultam de uma guerra generalizada e arbitrária à Europa, infligindo o medo e o receio transversais a todos os seus cidadãos, estejam onde estiver, vivam onde viver. E o pior é se cada cidadão começa a pensar que podia fazer parte daquelas 642 pessoas que morreram nos últimos anos em várias cidades europeias, em locais tão comuns, como um mercado ou uma sala de concerto, e isso condicionar a sua liberdade. Se isso vier a acontecer, é a partir desse momento que o terrorismo começa a vencer.


2 comentários

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De Diogo Noivo a 23.05.2017 às 20:44

Bom texto, Alexandre. De facto, como bem escreves, ceder ao medo é entregar a vitória a quem nos ataca. A meu ver, e como já escrevi aqui no DELITO, podemos aprender muito com a forma como Espanha reagiu aos atentados de 11 de Março:

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-defesa-da-normalidade-8328981

Tenho, contudo, uma ligeira discordância: não vejo no terrorismo islamista, ou jihadismo, qualquer sinal de choque civilizacional e, como tal, julgo que Huntington estava errado (quem escreve um livro como “Political Order in Chaging Societies” pode errar as vezes que quiser sem que daí resulte mácula). O argumento é extenso – e soporífero, reconheço –, por isso, vou pelo caminho mais directo: estatisticamente, os autores dos últimos atentados na Europa são gente nascida e criada em solo europeu. O envolvimento de imigrantes de primeira geração em actos jihadistas é negligenciável. Logo, aqueles cuja ligação à “cultura” ou “civilização” muçulmana é mais forte não parecem ter problemas com o nosso modus vivendi.
Mais, e novamente olhando para as estatísticas, as principais vítimas do jihadismo (em número e enquanto alvo preferencial) no mundo são muçulmanos. Ou seja, mais do que um choque entre civilizações, teremos porventura um problema intra-civilizacional (o que mesmo assim me parece discutível.

Portanto, estando de acordo com o teu argumento e sobretudo com a mensagem que deixas, não creio que se trate de um choque entre diferentes, nem me parece que a Europa seja um alvo preferencial.
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De Einstürzende Neubauten a 23.05.2017 às 21:55

Diogo, que tal usarmos não Huntington, ou Fukuyama, mas sim DSM-5 - Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais?

Se lêssemos mais o DSM -5 talvez entendêssemos melhor o "rodopio" do mundo. E o nosso.

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