Quase em surdina
A Ana Lourenço está na SIC-Notícias com um entrevistado. Ele tem a camisa branca como o primeiro-ministro, tem a gravatucha monocromática como o primeiro-ministro, tem o cabelo cinzento à escovinha como o primeiro-ministro. Ele tem a colocação de mãos estudada do secretário-geral do PS, tem os olhares estudados do secretário-geral do PS, tem as inflexões vocais estudadas do secretário-geral do PS. Tem tudo igual. Menos a voz: fala quase em surdina.
Não interrompe a entrevistadora, não se sobrepõe ao que ela está a dizer, não se irrita por achar que não consegue concluir tudo o que quer quando quer, não lança mímicas de reprovação, não eleva o tom da voz, não quebra o verniz, não sai da postura cordata, não descola de uma aparente humildade. A imitação é boa, mas está longe de ser perfeita: fala quase em surdina.
Não é fácil imitar uma pose arrogante.

