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Com as armas que temos na mão

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.03.14

Os comentários do primeiro-ministro e do ministro Poiares Maduro ao manifesto mostram a distância que vai da ideia ao projecto, e desta à realidade. Daí que, ao verificar-se que no grupo de subscritores aparecem os nomes de dois conselheiros do próprio Presidente da República, mais um catedrático e ex-reitor que foi mandatário de Cavaco Silva no Algarve e ali responde pelo Banco Alimentar contra a Fome, mais uma mão cheia dos melhores economistas portugueses e gente com o estatuto de um Adriano Moreira, de um Bagão Félix, de uma Ferreira Leite, de um João Cravinho, de um Ricardo Bayão Horta ou dos presidentes da CIP e da CCP, talvez se perceba porque não conseguiu Passos Coelho transformar a Tecnoforma, com a sua brilhante gestão, num "player" do mercado.

O histrionismo é um mal que não se confina às fronteiras da Coreia do Norte e é capaz de se manifestar, como se vê, no mundo ocidental pelas mais diversas formas.

Não sendo especialista em coisa alguma, e limitando-me a olhar para a realidade com os olhos de quem quer apenas ver sem a pretensão de querer que os outros usem as mesmas lentes, creio que Pinto Balsemão disse em poucas palavras tudo o que havia a dizer sobre a reacção de Passos Coelho: "reestruturar a dívida é, muitas vezes, um acto de boa gestão das empresas". Quem diz das empresas também diz do país.

Uma simples frase que, conjugada com o que se viu já e se sabe do longo e brilhante passado empresarial do primeiro-ministro, explica o credo e a capacidade de liderança do primeiro-ministro.

Passos Coelho é presidente do PSD. Um partido que se reclama, diz ele, da social-democracia, embora isso não tenha qualquer correspondência na prática política. Mas se tivesse o mesmo discurso estando no PCP ou num qualquer partido da esquerda radical ninguém estranharia. Em 1975 havia quem quisesse afundar-nos a cantar o "venceremos". Em 2014 temos um primeiro-ministro que quer afundar-nos a  cantar o "não reestruturamos".

E é isto, apenas isto, que basta para mostrar a insensatez do caminho que nos quer obrigar a percorrer nos próximos trinta anos. E diz tudo sobre a sua cega agenda e irracional ortodoxia neoliberal ("we define neoliberalism as a utopian theory and elite-poltical project that proposes that 'human well-being can best be advanced by liberating individual entrepreneurial freedoms and skills within an institutional framework characterized by strong private property rigths, free markets, and free trade", Harvey, citado por Ferdi De Ville e Jean Orbi, 2014, British Journal of Politics and International Relations, Vol. 16, 149-167).


13 comentários

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De Manifestantes há muitos a 12.03.2014 às 09:17

Gostava de saber quantos dos senhores manifestantes manifestaram alguma preocupação com o aumento da dívida quando ela disparou. Os senhores Ferro, Cravinho (o das SCUTS!!!), Louçã, Carvalho da Silva, Capucho, Freitas, etc., etc.

A Ferreira Leite chamou, em verdade se diga, e nem um pingo de simpatia nutro por naftalina.
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De Caetano a 12.03.2014 às 10:58

É um bando de comunistas está bom de ver.
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De Sérgio de Almeida Correia a 12.03.2014 às 11:06

Mas o facto desses que aponta não terem manifestado na altura preocupação em quê que contribui agora para a resolução do problema?
Interessante seria saber por que razão os que em tempo manifestaram preocupação e apoiaram o memorando e a estratégia seguida, aparecem nesta altura a "manifestar-se" ao lado desses senhores que refere.
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De Manifestantes há muitos a 12.03.2014 às 13:28

Acho que é óbvio para qualquer pessoa que não seja voluntariamente cega que quem não alertou para os perigos do endividamente galopante não tem a menor autoridade para vir com estes manifestos.
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De Sérgio de Almeida Correia a 12.03.2014 às 14:57

Inteiramente de acordo quanto a esse ponto. Haja coerência.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 12.03.2014 às 12:42

O facto de algumas pessoas de direita, digamos assim, terem subscrito o manifesto, e eu pessoalmente lamento ver lá MFLeite e Adriano Moreira, não quer dizer que seja correcto.
Para além da pouca vergonha do primeiro subscritor, João Cravinho como já aqui foi dito por um comentador, reclamar a reestruturação da divida nos termos em que é feito no manifesto é uma espécie de suicídio colectivo.
Comparar a gestão de empresas com a gestão das finanças publicas de um país, não faz sentido nenhum, são coisas completamente diferentes.
Em todo o caso não há nenhuma espécie de reestruturação de dividas, das empresas ou do estado, que não seja violentìssima e muito dolorosa, e no que diz respeito aos paises nunca deve ser feita a partir de manifestos, nem com discussões politicas na praça pública.
Com todo o respeito por algumas pessoas que o assinaram, este manifesto não é mais do que uma enorme e colectiva estúpidez.
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De Sérgio de Almeida Correia a 12.03.2014 às 14:53

O argumento da estupidez colectiva parece-me o mais inteligente. Já o Eça se queixava do mesmo.
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De O saber não ocupa lugar a 12.03.2014 às 14:11

O representante do Ministério das Finanças irlandês no estrangeiro Brian Hayes considera que Passos Coelho tem razão ao rejeitar o manifesto de 70 personalidades, que defende uma reestruturação da dívida portuguesa.

"Quando um país quer voltar aos mercados não pode estar a falar de reestruturação de dívida", disse o membro do governo irlandês na conferência Portugal Pós-Troika, promovida pelo Jornal de Negócios e pela Rádio Renascença.


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De Sérgio de Almeida Correia a 12.03.2014 às 14:55

Estarei enganado ou foi a Irlanda que recebeu umas "benesses" a meio do percurso?
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De O saber não ocupa lugar a 12.03.2014 às 14:31


A presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP), Teodora Cardoso, afirmou hoje que esta "é a pior altura possível" para falar de reestruturações da dívida, porque isso penaliza as taxas de juro, que é "o que se quereria evitar".

"Portugal cumpriu o programa, está a sair do programa, quer regressar aos mercados e tem condições para isso. Esta é a pior altura possível para falar de reestruturação da dívida, que tem como consequência a subida das taxas de juro, que é precisamente aquilo que se quereria evitar", disse a economista aos jornalistas à margem da conferência sobre o 'pós-troika', organizada pelo Jornal de Negócios e pela Rádio Renascença, que decorreu hoje em Lisboa.
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De Sérgio de Almeida Correia a 12.03.2014 às 14:48

A oportunidade é uma questão diferente.
Pessoalmente entendo que esta "manifestação" peca por tardia, mas até sou capaz de entender esse argumento se me provarem que em caso de segundo resgate o facto de termos chegado aos mercados nos dará uma vantagem negocial ou melhores condições.
E quanto à questão dos juros bastar-me-á recordar o que fez Coelho no 4º PEC ou as demissões de Gaspar e Portas há um ano. Nessa altura os juros não fizeram qualquer diferença, pois não?
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De Miguel R a 12.03.2014 às 22:55

Bom, o governo tem reestruturado a dívida, mas não à bruta, como o manifesto propõe. Sabendo que parte da dívida está na posse de bancos portugueses e na segurança social, fazer como eles propõem era realmente bom para o país? Para a sua economia?
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De cristof a 13.03.2014 às 10:58

Os juros da divida estão ao nivel que estavam antes da Troka -será que não li bem ou não agrada a muitos..

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