Luís quem são esses portugueses?
Em que parte da história fomos diferentes dos outros. Se me permite, fale com um francês, um alemão, um norueguês, um luxemburguês sobre esse ser, o português, e dir-lhe-ão coisas bem diversas daquelas que, sobre nós, dizemos. Em amigável cavaqueira com um empresário francês descreveu-me, ele, o ser francês como o Luís retrata um português. Aliás, sendo o Luís um português de gema, prova que há um Portugal, de dentro e portugais, de fora.
De Isabel s a 07.01.2020 às 13:43
A opinião do seu amigo empresário francês é uma observação pessoal e única que não é legitimo generalizar.
Está a ver portugueses a fazerem de “ gilets jaunes « durante quase um ano, sem serem pagos para isso? E gente de todos os sindicatos a fazer greve, por todo o país, contra a alteração das reformas, durante mais de um mês? E acha que partidos como a Lega italiana, ou o RN francês, alguma vez poderiam ser o primeiro partido nacional? Ou que poderiam existir em Portugal debates diários, na tv privada, como o « débat du jour » francês? Ou como alguns debates semanais do canal La7 italiano?
Para mim, a razão do passivismo dos portugueses está menos no horror à mudança do que na vacuidade dos media portugueses, no baixo nível cultural da população da classe baixa ou média baixa, da quase inexistência de classe média e, por conseguinte, na inexistência de pouca disponibilidade para criar uma atitude crítica face à informação superficial que lhe é apresentada. Aliás, que outra razão se pode ir buscar para justificar o crescente desinteresse pela política bem patente na crescente abstenção ao voto?
Chamar aos deputados representantes do povo com os níveis de abstenção e de votos nulos e brancos que existem é, tem de se concordar, um eufemismo.
"Para mim, a razão do passivismo dos portugueses está menos no horror à mudança do que na vacuidade dos media portugueses"
Agora concordo em absoluto. Discordo é dessas teorias genéticas, essencialistas, muito em voga no Estado Novo, sobre a particularidade do Ser Português (Cunha Leão, O Enigma Português) , ideologia, porventura, inspirada, naquela maluqueira do V Império.
Esse meu "amigo", de tendência política da "Frente, confessou-me, após uma garrafa de Mateus Rosé (gostam daquilo, o que se há de fazer?) , uma de Espadal de Felgueiras, e meia de Conhaque (a meio disse-me, apontando para mim, que sabia muito bem o que eu estava a tentar fazer...confesso que até hoje não percebi) , que os franceses não querem trabalhar, ao contrário dos portugueses. Falou-me que o "movimento dos coletes" foi apresado por meia dúzia de tipos violentos, Black Bloc's, desligando-se dos propósitos originais, não representando já ninguém.
Depois, nesses países temos variadas nações, vários povos, diferentes histórias, estórias diversas. A Itália tem 200 e picos anos, a França, como a Itália tem nacionalismos míticos adormecidos. E depois há a decadência, a saudade lembrada, sentida, quando se recorda o enorme Passado. Portugal é disso também exemplo. A vantagem que nós temos, sobre os franceses, é que nós morremos no séc XVIII. E sabemo-lo. Trajamos de preto, cantamos Fado. Os franceses ainda nem à missa de sétimo dia foram.
De Isabel s a 09.01.2020 às 00:54
A unidade política da Itália está a concluir 150 anos mas a nação italiana embora dividida em repúblicas, ducados, reinos disto e daquilo, manteve a sua identidade desde, penso eu, tempos anteriores ao império romano. Por experiência própria, por leituras e por bons documentários a que tenho assistido verifico que é comum o italiano falar do seu passado histórico com muito orgulho referindo-se a gerações desde há séculos ou até mais de um milénio. Conheci pessoalmente algumas famílias italianas que se manifestam deste modo. Um sociólogo francês de origem italiana explica o forte nacionalismo dos italianos através da necessidade de afirmarem a sua unidade recente.
Cerca de 90% da população francesa considera-se herdeira de um cultura mais que milenar, desde clovis até de Gaulle ou desde Joana d’Arc até Albert camus, para só lembrar algumas referências. O movimento dos gilets jaunes, não obstante terem feito face a vários ataques de descredibilizacao oriundos de vários poderes institucionais, são hoje considerados por políticos, historiadores, filósofos e outros intelectuais como marcando o fim de uma primeira fase da presidência Macron e o início de outra bem diferente e o fenómeno político francês mais sério dos últimos anos.
Claro que a nível internacional os impérios mudaram-se das margens do oceano atlântico para as do oceano pacífico mas as nações europeias não deixaram de existir, embora algumas ainda tenham duvidas sobre as suas fronteiras identitarias.
Isabel, discordo. A Itália foi um mosaico, divido entre ingleses, normandos, franceses, austríacos, alemães e claro romanos, durante séculos.
Quanto à França, ela resulta de uma desavença entre os filhos de Carlos Magno. Sendo difícil saber ao certo a história e distingui-la dos mitos fundadores, França e Alemanha são nações irmãs, desavindas.
"A opinião do seu amigo empresário francês é uma observação pessoal"
Isabel, perdoe-me, mas vou mais longe. Qualquer opinião pessoal resulta de uma observação individual.
Não falei que a Sociedade Portuguesa, o Povo português, era assim e não assado. Há portugueses bons e maus. Bonitos e feios. No final só há gente.
De Isabel s a 09.01.2020 às 01:00
A opinião que resulta de uma única experiência pessoal só representa quem a exprime. A opinião que resulta do conhecimento de estudos realizados com respeito pelas exigências da arte, não são pessoais e devem ser entendidas como podendo ter alguma validade. Foi isto que eu quis dizer.
De resto, concordo com tudo o que afirma.
Então concorda comigo mais do que eu

De Anónimo a 07.01.2020 às 18:41
" É natural, a sociedade portuguesa é profundamente conservadora, tem horror a mudanças e desconfia de imediato de todas as ideias que não sejam conforme aquilo que é o costume, ou seja, as ideias que não repitam a lengalenga folclórica, as banalidades regimentais, as barbaridades da praxe."
Há mudanças e mudanças, talvez a sociedade portuguesa não goste de todas as mudanças, mas não é particularmente intolerante ou conservadora.
As alterações de costumes têm sido bastante rápidas nos últimos anos, não são violentas, talvez porque o país não é conservador ao ponto de se levantar contra a mudança.
Note que algumas mudanças que se têm proposto, sob o ponto de vista económico sobretudo, são tudo menos progressistas. Pretendem fazer a economia regredir até ao liberalismo puro e duro do Século XIX. Na sua tentativa de implementação conseguiram destruir valor sem criarem nada que se veja, falhando ao mesmo tempo todos os objetivos parciais que se propunham.