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Degenerando

por Rui Rocha, em 08.01.14

Juan Belmonte foi um dos nomes maiores da tauromaquia. Para além de ter imposto, nas primeiras décadas do século passado, um estilo de toureio que rompeu com os cânones da lide de então, ficou conhecido por ser um leitor entusiasta, tendo entre os seus autores preferidos Stendhal e Doistoievsky. Para além de dominar a arte do temple na arena, tinha também um refinado sentido de humor. Certo dia, Valle-Inclán, figura maior da literatura espanhola, entusiasmado com determinada actuação, ter-lhe-á dito que para ser considerado o maior de todos os tempos só faltaria morrer na praça. Ao que Belmonte terá respondido, templando cada palavra: far-se-á o que for possível, Don Ramón. Num outro episódio, Belmonte, acompanhado de um amigo, assistia a uma corrida de touros com fins de beneficência. A presidir ao evento encontrava-se o Governador Civil daquelas paragens. A certa altura, este terá localizado Belmonte entre o público e foi ao seu encontro, ali o submetendo a uma calorosíssima recepção. Passados longos minutos, e tendo o Governador Civil finalmente regressado ao palanque presidencial, o amigo interpelou-o: Don Juan, e de onde vieram tais conhecimentos? Belmonte terá explicado que, em tempos, o agora frondoso Governador Civil, tinha sido seu bandarilheiro. O amigo, algo céptico, insistiu: e como é, D. Juan, que alguém que foi um simples bandarilheiro chegou a Governador Civil? Não foi preciso outro pretexto para Belmonte desferir uma das suas mais célebres estocadas: degenerando, caríssimo companheiro, degenerando. É nesta monumental faena de Belmonte que não posso deixar de pensar perante o triste espectáculo a que temos assistido a propósito da morte de Eusébio. A começar nas intervenções de Assunção Esteves, passando pelas declarações de Mário Soares e acabando na desconchavada colagem de José Sócrates à figura do futebolista, temos tido episódios maus de mais. Como terá esta gentinha chegado, em diferentes momentos, aos mais altos cargos da Nação? Confesso que só me ocorre a explicação de Belmonte. Degenerando, caríssimos companheiros. Degenerando.


17 comentários

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De José Pedro a 08.01.2014 às 15:34

Com a nossa ajuda, meu caro, com a nossa ajuda.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:59

De uma certa maneira, sim.
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De lucklucky a 08.01.2014 às 16:03

Um Regime Paternalista/Socialista é desenhado para os Políticos serem as pessoas mais importantes e mais amadas de um país.

O desfasamento entre esse desejo e realidade leva a este espectáculo, políticos que não se sentem amados têm de deitar abaixo quem é ou colar-se a quem é.

O Estado Novo já era assim só que com bastante mais pudor.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 23:01

E sabe Deus como os joelhos do Eusébio já estavam debilitados para terem de aguentar com isto.
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De Face Oculta a 08.01.2014 às 16:13

Pois eu também me recordo perfeitamente. Era noite cerrada e ia eu a caminho do Freeport, passámos por umas casinhas muito lindas e perguntei "quem terá sido o arquitecto destas maravilhas?", Manuela Moura Guedes ia no banco de trás e começou a responder, mas a Coreia já ganhava por quatrazero e não consegui ouvir nada, entretanto chegámos à Cova da Beira e o Maradona tinha metido um golo com a mão, foi desde essa altura que fiquei fã do Córesma.
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De Chico-esperto a 08.01.2014 às 16:33

A tal da degeneração parece ser um poço sem fundo, hoje temos "gentinha" (suas palavras) nos mais altos cargos da Nação da estirpe de Silva, Esteves, Coelho e Portas, o que, depois de Relvas, até aparenta ser um irrevogável interlúdio na dita, sim, irrevogável hoje tem outro significado, só que as aparências iludem.
Mas, pergunto eu, se toda a gente, a começar pelos que, ou porque se acham o máximo ou porque estão a soldo, escrevinham em blogues como você, e os que, armados em Chico-espertos caem na esparrela de, como eu, os comentar e alimentar, se acham no direito e com sabedoria para de tudo falar, opinar e propagandear a torto e a direito, porquê, perguntava-me eu, que a tal "gentinha" (suas palavras) que ocupou, ocupa e ocupará os mais altos cargos da Nação, não podem também ter os seus devaneios, deslizes e fraquezas, mesmo tendo sido por todos nós sufragados e legitimados?
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 23:03

Por mim, podem deslizar à vontade. Até lhes deitava uma mão para os ajudar se não a tivesse metida no bolso.
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De Com a devida vénia ao Herdeiro de Aécio a 08.01.2014 às 16:54

Já se sabia quanto José Sócrates gostava de inventar histórias para se realçar. Este blogue evocou uma das mais engraçadas e rebuscadas, ainda ele era primeiro-ministro, uma entrevista dada ao Diário de Notícias vai para mais de cinco anos onde ele dizia lembrar-se do debate que houve na América quando, pela primeira vez, um católico se candidatou a presidente (John F. Kennedy). Estar-se-ia então em 1960 e nessa época José Sócrates havia completado uns muito precoces 3 anos…
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 23:05

É como quando temos aquela sensação de já termos estado num certo lugar onde nunca pusemos os pés.
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De cristof a 08.01.2014 às 20:40

Quemelegeu estes personagens 1º ministros e presidente deve sentir-se mesmo mal.
Eu sinto vergonha. E não custava nada, bastva ficarem calados.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 23:06

Sim, caramba. Uns dias de meditação e recolhimento não faziam mal a ninguém.
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De João Campos a 08.01.2014 às 20:57

Degenerando, e muito.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 23:07

Pois, que isto é gente de levar as coisas até ao fim.
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De fernando antolin a 09.01.2014 às 16:02

Caro Rui Rocha, tenho aqui ao lado a biografia de Juan Belmonte, feita por Manuel Chaves Nogales, edição Alianza editorial.

Confirmado o episódio com Valle-Inclán e atente neste outro pormenor, descrito numa tourada em Madrid: " se regía entonces el toreo por aquel pintoresco axioma lagartijero de ... te pones aquí, y te quitas tú o te quita el toro si sabes torear...Yo venía a demonstrar que esto no era tan evidente como parecía: ...te pones aquí, y no te quitas tú ni te quita el toro se sabes torear...

já agora, aí por 1910/11, a primeira praça a sério onde toureou Juan Belmonte, antes da alternativa em 1913, foi...Elvas
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De Rui Rocha a 09.01.2014 às 22:01

Delicioso, caro Fernando. Delicioso.
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De José Dinis a 10.01.2014 às 18:26

Degenerando, de facto.
Todos somos susceptíveis de degenerar. Então como é (será)?
Chomsky já disse que democracia e capitalismo são incompatíveis. Uma provável degeneração à vista?
Não vou tão longe, nem sustento uma necessária alteração de regime. Mas estou convencido de que, enquanto não houver um mecanismo legal, prático e eficiente para controlarmos e fiscalizarmos os actos dos políticos e a actividade das instituições, nunca atingiremos a democracia, a cidadania activa, e o interesse público.
A quantos de nós interessa isso? Não se sabe, nós não sabemos, e os eusébios que pululam sublimam os nossos problemas. Eles sabem, e estão bem assessorados em matéria de manipulação e demagogia.
JD

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