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Ode a Cake Minuesa

por Rui Rocha, em 06.01.14

Diz-se que um desses mestres do jornalismo que andará por estes dias a assombrar redacções pois, por feitio, não lhe será suficiente ficar a dar voltas na tumba com tanto que por aí se ouve e vê,  deu a um novato um daqueles conselhos sem preço: nunca te esqueças, fulano, que o segredo da profissão consiste em não fazer literatura; jornalismo é jornalismo e literatura é coisa bem diferente. Algo atarantado, o neófito não perdeu o pé e fez uma pergunta: e se, mestre, algum dia, por azar, coincidência ou distracção, acabar fazendo literatura em lugar de jornalismo em algum texto que me calhar escrever? O decano, com mais paciência do que a que costumava ter em situações semelhantes, não se negou a prosseguir a lição. Não creio, fulano, que corras esse risco. Se continuares a fazer perguntas e a utilizar o gerúndio, como ainda agora fizeste, ninguém te acusará de fazer mau jornalismo nem, devo dizer-to, nada que se pareça com literatura. Não sei se Cake Minuesa se terá cruzado alguma vez com esse velho mestre do jornalismo espanhol. Desconheço, igualmente, se Cake Minuesa recorre ao gerúndio para evitar que os seus textos se confundam com literatura. Sei que, há um par de dias, mais de cinquenta magarefes se juntaram em Durango, no País Basco, num espaço que é hoje um teatro, mas que já foi um matadouro, para levar a cabo mais uma cerimónia pública de branqueamento da actividade criminosa da ETA. Não se pode pedir melhor metáfora: ali estavam, os magarefes, no teatro que já foi matadouro, a encenar mais uma peça com que pretendem distrair-nos da carnificina de que foram protagonistas. O porta-voz, Kubati, com sangue nas mãos de pelo menos 13 das 309 vítimas inocentes provocadas pelos presentes e seus companheiros, dera por terminada a sessão. Os demais facínoras aplaudiam-no. São todos ex-prisioneiros. Mas assim como não há ex-vitimas, também não há ex-criminosos. E criminosos é o que são todos eles. Mataram cobardemente com bombas, rajadas e tiros na nuca e querem matar agora pela segunda vez, já sem a força das armas mas com a afronta da falta de vergonha, os que morreram. Ali está Cake Minuesa e ao seu lado estão outros vendo e ouvindo , renunciando a cada momento que passam calados à sua própria profissão. Cake Minuesa, porém, é um verdadeiro jornalista. E faz o que deve ser feito. Levanta-se e faz perguntas. Quer saber se os terroristas não vão pedir perdão. Atira-lhes à cara as 309 vítimas. Quer saber o que ganharam os magarefes matando como mataram. Mais tarde, confessará que teve medo. Dos terroristas dentro da sala e dos familiares e amigos que os esperavam cá fora. Mas Cake Minuesa sabe que fazer jornalismo é perguntar e que só a existência do medo abre espaço ao exercício da valentia.

 


15 comentários

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De Manuel a 06.01.2014 às 01:52

Algo me diz que o corajoso jornalista quer saber o valor da sua coragem, mas o risco que corre, é o de ficar sem saber nada.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:31

É possível, sim, Manuel.
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De Sérgio de Almeida Correia a 06.01.2014 às 01:55

Muito bem, Rui. É sempre bom recordá-lo.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:30

Tens toda a razão, Sérgio.
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De JSP a 06.01.2014 às 10:52

Os meus cumprimentos.
Tanto quanto saiba é a primeira vez que, que quer nas chamadas "redes sociais" quer nos merdia domésticos que nos calharam em desgraça, este episódio é referido.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:30

Em Portugal, o Ferreira Fernandes escreveu sobre o tema há um par de dias no DN. De forma excelente, aliás, o que também não é novidade. Não vi outras referências a esta situação. Em Espanha levantou forte polémica.
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De am a 06.01.2014 às 11:26

Já ouve algo semelhante na Aula Magna com os FP25 - Abril.?
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:27

Boa pergunta.
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De Luís Lavoura a 06.01.2014 às 12:25

assim como não há ex-vitimas, também não há ex-criminosos

Essa é uma perspetiva horrível, a de que o crime é eterno, indesculpável e inultrapassável.
Foi, de certo modo, contra esta forma de ver as coisas que Mandela lutou.
Numa sociedade humana, os criminosos são recuperáveis e os crimes podem ser esquecidos.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:26

Não se pode desculpar quem não quer ser desculpado.
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De Pedro Correia a 06.01.2014 às 13:37

Um grande momento que enobrece o jornalismo. Como dizes, "fazer jornalismo é perguntar". E aquela era a pergunta que se impunha naquele local, naquele momento: "Qué hábeis ganado matando?"
Uma pergunta indispensável: aqueles etarras, no seu conjunto, foram responsáveis por 309 assassínios. Crimes de que nunca se mostraram arrependidos. Crimes dos quais nunca pediram perdão.
Uma pergunta que, como seria de esperar, ficou sem resposta. E o jornalista acabou por ser afastado dali por aqueles que, noutro tempo, lhe dariam um cobarde tiro na nuca.
O meu aplauso para ele. E para o teu excelente texto, Rui.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:24

Nunca é demais sublinhar um acto corajoso como o dele, Pedro.
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De Luís Lavoura a 06.01.2014 às 13:58

Crimes de que nunca se mostraram arrependidos. Crimes dos quais nunca pediram perdão.

Os franquistas também nunca se mostraram arrependidos, nem nunca pediram perdão pelos seus crimes.
A democracia espanhola foi construída por cima do esquecimento de crimes, crimes pelos quais nunca ninguém pediu perdão nem nunca ninguém se mostrou arrependido.
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De cristof a 06.01.2014 às 21:10

esperemos que todas as crises não nos roube a segurança de ter bons jornalistas a alertarnos a mente.
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De Rui Rocha a 08.01.2014 às 22:25

Completamente de acordo, Cristof.

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