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Delito de Opinião

Postais de um Fotógrafo de Bairro (XV)

Bandeira, 01.01.14

José Bandeira

 

Dá para viver sem se ter conta no banco? O Euclides, do Café Africano, consegue. Não que seja fácil, note. Por exemplo, ele queria telefonar hoje para o filho, em Cabo Verde, e a papelaria onde costuma fazer carregamentos no telemóvel está fechada, como aliás o Dafundo inteiro. A falta que faz um cartão Multibanco, tem é que haver uns trocos na conta, claro, o problema do Euclides é mais esse. Já de si, os telefonemas para o rapaz exigem uma certa logística. Em casa dele, em São Vicente, não há telefone. É um amigo, dono de uma venda na ilha, que facilita o uso do aparelho. No fim de cada conversa, forçosamente rápida, estuda, porta-te bem, mandei-te 20 euros pela tia, pai e filho combinam dia e hora para o telefonema seguinte. É muito chato, triste até, isso de o rapaz estar à espera na manhã de ano novo de um telefonema do pai e ele não chegar. Então decido ir carregar o telemóvel do Euclides numa caixa da Rua Direita do Dafundo. Cai uma bategada e eu aguardo um pouco debaixo de um toldo antes de regressar. Quando chego ao café já a conversa vai na despedida, os carregamentos pelos vistos são instantâneos, eu não sabia porque sempre tive assinatura. Pergunto ao Euclides como está o miúdo. "Óptimo", diz, "O 12º ano está a correr bem". E depois, com um grande sorriso, "Ele manda um abraço para o fotógrafo". E vai buscar moedas para me pagar.

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