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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 30.12.13

Há uns anos, quando estava em funções o executivo de José Sócrates, sugeri numa das reuniões regulares de planeamento do Diário de Notícias que fizéssemos uma edição anual só com "boas notícias". E expliquei o meu conceito: nenhuma informação deixaria de ser transmitida ao público, mas sempre num ângulo tão positivo quanto possível. Víamos o copo meio cheio, e não meio vazio. Só uma vez por ano, por ocasião do aniversário do matutino fundado a 29 de Dezembro de 1864. Numa época propícia, entre o Natal e o ano novo.

 

Já acreditava nessa altura, como acredito agora, que o efeito acumulado de más notícias provoca um sentimento de exaustão junto dos consumidores de informação. Isto ocorre ainda mais em tempos de crise: procuramos encontrar no fluxo noticioso quotidiano alguma luz que nos permita sair do escuro. Enganam-se aqueles que se empenham em carregar ainda mais nas tintas escuras, julgando ir assim mais ao encontro dos leitores, ouvintes e telespectadores. É um erro semelhante àqueles que, na política, radicalizam em grau crescente as suas propostas, sem perceberem que a crise potencia soluções de moderação da parte dos eleitores, naturalmente descrentes de derrapagens radicais.

 

Na altura, alguns colegas olharam-me como se aquela ideia não tivesse pés nem cabeça. E no entanto continuo convencido de que tinha pernas para andar e poderia constituir um excelente veículo de promoção editorial caso fosse posta em prática da melhor maneira.

Voltei a lembrar-me disto ontem ao ver nas bancas a edição especial do DN em que o jornal assinala o início do seu 150º ano de vida, o que à partida bastaria para justificar aplauso. Acontece que esta edição está à altura das expectativas geradas quando a direcção editorial do matutino decidiu confiar ao presidente do Grupo Oi e da PT Portugal, Zeinal Bava, a condução do jornal por um dia. A ideia tem sido posta em prática por diversos títulos jornalísticos, com resultados irregulares, e o próprio DN já a tinha concretizado em anos anteriores. Mas talvez com menos sucesso do que aconteceu agora.

Gosto de praticamente tudo nesta edição, que constitui peça para coleccionar. Desde a surpreendente e bem conseguida manchete: "País de boas contas não pode ter medo da matemática" à excelente ilustração de Vhils também na capa. Passando pela antevisão de grande fôlego de 2014 aos mais diversos níveis e pela opinião muito diversificada, onde me apetece destacar um artigo de página inteira de Filipe La Féria "escrito em português antigo" pois "no Teatro Politeama nem as bailarinas russas aderiram ao Acordo Ortográfico".

 

Enfim, uma edição de prestígio. Que notabiliza o jornal e a sua longa história, que remonta aos tempos da monarquia constitucional. "O melhor jogador do mundo fala português. Na ciência, nas artes, no desporto e nas empresas temos portugueses a dar cartas. Dizem 'obrigado' quando agradecem os prémios e distinções de que todos os meses chegam notícias e são embaixadores naturais do nosso país, da nossa língua e cultura no mundo", escreve Zeinal Bava no editorial.

Afinal uma outra forma de se fazer a tal edição com notícias pela positiva. Uma boa ideia, como sempre pensei.


14 comentários

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De Patrícia Reis a 30.12.2013 às 13:42

Pedro, tem graça, há anos que ando a dizer que as televisões deveriam ter um bloco de boas notícias, no caso da Sic até podia ser sic boas notícias. Todos me olham como se fosse burra. Quando se começou O Independente, 1988, a ideia era fazer jornalismo de investigação - porventura o que mais ficou de memória do jornal - mas também "histórias" positivas. Fizeram-se muitas. No princípio. E fez-se jornalismo de investigação e textos com mais de 7 mil caracteres e muitas fotografias e boas. Enfim. Bom jornalismo implica bom jornalistas e, no caso desta edição do DN, um bom gestor com capacidade de ver mais do que o óbvio. Felizmente ainda temos desses e, sim, damos cartas em muitas áreas, por isso te despejei o email sobre ciências e tecnologia tuga que está de parabéns! beijos
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De Pedro Correia a 31.12.2013 às 01:52

Porque será que as ideias aparentemente mais simples, à partida, se tornam as mais difíceis de concretizar, Patrícia? Tenho-me interrogado muitas vezes sobre isto, a propósito de jornalismo e não só.
Obrigado pela "prenda". E desejo-te desde já um ano feliz: tenho a certeza de que 2014 será melhor do que este.
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De amendes a 30.12.2013 às 13:57

Mau, Péssimo- Jornalismo como nunca houve:

Nunca por nunca se "viu, ouviu e leu tanto silêncio" sobre a greve à limpeza do LIXO da CM Lisboa.

Escandaloso como levam o Costa às costas!

Cheira pior do que o próprio lixo.... que até o justiceiro ZÉ tapa o nariz e ... a boca!

2014 com Bons Cheiros.
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De Pedro Correia a 31.12.2013 às 01:47

Caro AMendes, quando me referia a uma edição anual com notícias numa óptica positiva não era bem aqui que eu queria chegar.
Ou seja, as notícias podem e devem ser escritas sem necessidade de taparmos os olhos, os ouvidos - ou o nariz.
Desejo-lhe um feliz ano de 2014.
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De Desconhecido Alfacinha a 30.12.2013 às 14:50

Estimado,

Excelente e bonito Post. Muito Obrigado!

Forte abraço e Boas Entradas. O Ano será o que conseguirmos fazer dele mas espero que seja o melhor possível.
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De Pedro Correia a 31.12.2013 às 01:45

Eu é que agradeço a sua atenção permanente e as suas palavras de incentivo que remontam já a uma longa data, meu caro. Desejando-lhe desde já um ano de 2014 à medida das suas aspirações.
Um forte abraço.
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De Desconhecido Alfacinha a 31.12.2013 às 08:59

Ainda sobre a matéria do Post:

http://pedroroloduarte.blogs.sapo.pt/350540.html

Forte abraço e um Ano Novo cheio de imensa saúde e inúmeras felicidades rodeado pelos seus
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De Antonio Maria a 30.12.2013 às 15:00

Totalmente de acordo. Agora é só por em prática.
Veja-se o caso do lixo. A informação até é meiguinha para o presidente Costa (ou não fosse ele de esquerda). Se fosse o desgraçado do Santana Lopes até já tinham decretado a peste negra e no mínimo a demissão do homem.
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De Pedro Correia a 31.12.2013 às 01:44

Bem, eu falo em tese geral - e refiro-me apenas a uma edição por ano. Coincidindo, por exemplo, com o aniversário do jornal. Não queria, por isso, mencionar questões concretas como essa que refere. De facto, a inaceitável greve do lixo em Lisboa tem sido tratada com muita "suavidade" - embora a meu ver a entidade mais poupada, neste caso, seja a CGTP que levou os trabalhadores camarários ligados à recolha do lixo a uma paralisação que põe em risco a saúde pública por motivos que ninguém entende.
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De Vento a 31.12.2013 às 00:30

Eu voto a favor. Mas não se esqueçam as más.
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De Pedro Correia a 31.12.2013 às 01:30

Claro que não, meu caro. Eu não sugiro mais do que uma só vez por ano: seria aliás um estimulante desafio, desde logo do ponto de vista técnico, aos jornalistas na vertente noticiosa.
Não estenderia sequer esse teste às colunas de opinião. Porque, no meu entender, as opiniões devem ser rigorosamente livres, a todo o momento, e nenhuma delas poderia ficar condicionada a uma estratégia editorial, fosse qual fosse.

Um bom 2014.
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De isabel Mouzinho a 31.12.2013 às 08:49

Também gostei muito desta edição do DN e concordo com tudo o que diz (post e comentários).

Bom 2014, Pedro, com muitos "Delitos de Opinião" e outras coisa boas :)
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De lucklucky a 31.12.2013 às 11:05

Noticiar coisas boas é possível todo o ano basta noticiar aquilo que as pessoas fazem , criam, inventam.
Mas o jornalismo não é noticiar, aliás é só olhar para a lista de falhanços do jornalismo nos últimos 30-40 anos.
O jornalismo existe por simbiose com a Política, não com as outras actividades dos Homens.
Quanto mais poderoso for o mundo político mais poder tem o jornalista.
Por isso é que há sempre um grande brilho nos olhos do jornalista quando há uma grande cimeira, uma grande conferência que vai decidir o destino do dinheiro dos outros. Está-se perto do poder.
Por isso é que o jornalismo existe para impulsionar e discutir o socialismo. Nada mais. É onde se discute para quem e onde vai o dinheiro dos impostos - o que se tira ao outro. E quanto mais se tirar aos outros mais poderoso é o jornalista, pois está mais perto de um maior poder.

O resto:
Tecnologia onde não entre política.
Islamismo Radical
Endividamento - que retira poder à Política se não existir.

Tudo coisas que o jornalismo não se preocupa ou não se preocupou, ou só quando foi tarde demais.

Nos últimos 40 anos a melhoria de vida dos portugueses deveu-se mais à tecnologia que a outra coisa qualquer. Tal esteve representado nas primeiras páginas dos jornais? Claro que não.
Para a qualidade de vida dos portugueses talvez tenha mais importância o que esteja ser feito no laboratório da Intel ou de um clone ARM , num laboratório de uma farmacêutica, desenvolvimento de fracking no Dakota do Norte, Impressão 3d...ou uma guerra entre a China e o Japão.

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De Pedro Correia a 31.12.2013 às 12:10

Toca alguns pontos que justificam reflexão. Desde logo o impacto dos avanços tecnológicos na vida de todos nós. Tirando raras excepções, estes marcos foram noticiados com razoável atraso: é mau jornalismo não saber captar os sinais dos tempos.
sto prende-se, como também refere, ao valor acrescido da notícia quando tem conotações negativas - valor acrescido da parte dos difusores da informação, não necessariamente dos consumidores.
Tudo isto tem vindo a agravar-se de algum modo a partir do momento em que os jornalistas perderam o monopólio do direito de publicação. Hoje qualquer um pode difundir "notícias", não sujeitas a qualquer crivo deontológico, através das chamadas redes sociais.
Você até pode chamar "socialismo" a isto, outros chamarão "liberalismo" num grau extremo. Etiquetas à parte, o facto é que está instalada - até pelo vazio jurídico ainda existente na matéria - uma certa "lei da selva" neste domínio.
Os jornalistas terão tudo a ganhar se não forem a reboque dessas "redes sociais". A verdade, no entanto, é que muitos passam mais tempo no Facebook do que em contacto com pessoas de carne e osso. Tendem, portanto, a substituir a vida real pela vida virtual. Com todas as consequências daí decorrentes para a prática jornalística.
Mas esta é já outra questão, a abordar em futuros textos.

Fico-me por aqui. Com votos de bom 2014.

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