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Receita de sempre

por Ana Vidal, em 29.12.13

É muito provável que este poema já tenha sido publicado aqui (não fui procurar, confesso), mas é sempre bom recordá-lo. Que acorde um Ano Novo em cada um de nós, e que seja bem menos doloroso do que este que passou.

 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade


11 comentários

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De Patrícia Reis a 29.12.2013 às 18:57

é tão bom, Ana, que devíamos publicar todos os anos!
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De Ana Vidal a 30.12.2013 às 03:37

É mesmo, Pat.
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De Anónimo a 29.12.2013 às 20:15

Obrigada, Ana.
É uma receita fantástica.
Para si, desejos de um óptimo 2014, cheio de poesia e alegria.
:-) Antonieta
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De Ana Vidal a 30.12.2013 às 03:38

Muito obrigada, Antonieta. Tudo de bom para si também, e não deixe de visitar-nos sempre. :-)
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De Vento a 29.12.2013 às 20:42

Muito obrigado pela receita, Aninha.

Ali mais abaixo deixei uma receita que complementa esta. É a seguinte:
"Quem não odiar seu pai, sua mãe, seus irmãos e até sua própria vida não pode ser meu discípulo." (Lucas 14,26)
A Aninha compreende que o objecto desta afirmação não é o ódio e a divisão, mas sim quebrarmos com a tradição, isto é, com a hereditariedade do pecado que vem de gerações e que se entranha em cada geração. Há implicitamente a denúncia a uma viciação do pensamento e da atitude que indelevelmente assumimos como sendo própria.
Cada um descubra nesta receita o que foi que provocou e provoca os desequilíbrios sociais, familiares, afectivos, emocionais, relacionais, religiosos, espirituais e outros mais.

FELIZ ANO NOVO!
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De Ana Vidal a 30.12.2013 às 03:41

Sim, por vezes as rupturas são essenciais à renovação do ar que respiramos. :-) Um ano cheio de ar novo, caro Vento!
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De Katy a 29.12.2013 às 20:49

É profundo e verdadeiro, sem dúvida :)
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De Ana Vidal a 30.12.2013 às 03:43

E sábio, Katy. :-)
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De pontofinalparagraf a 30.12.2013 às 01:15

http://pontofinalparagraf.blogspot.pt/2013/12/balanca-e-por-vezes-cai.html
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De Sérgio de Almeida Correia a 30.12.2013 às 06:50


Não há anos dolorosos.
Os factos sim, Ana. Os anos, quando muito, são mal vividos. O que não deixa de ser triste e nos deverá obrigar a mudar os primeiros para se melhorar os segundos.

De resto, eu voto Drummond.

Um muito Bom Ano para ti, Ana.
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De Teresa Ribeiro a 30.12.2013 às 13:04

É uma boa terapia passar os olhos por este poema no início de cada ano. Feliz 2014, Ana.

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