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Mensagens de Natal.

por Luís Menezes Leitão, em 25.12.13

 

O dia de Natal trouxe-nos anúncios de prendinhas no sapatinho, só que mais uma vez não nos vão ser destinadas mas sim ao Estado, que continua a tratar os cidadãos como o Xerife de Nottingham, confiscando abruptamente os seus bens e rendimentos. E nem no dia de Natal as pessoas podem ficar sossegadas.

 

Em primeiro lugar, e como se esperaria, Cavaco Silva esteve-se mais uma vez nas tintas para os novos cortes de salários e a escandalosa tributação das pensões via contribuição especial de solidariedade e não vai suscitar o Orçamento a fiscalização preventiva. Nada que não se esperasse em face do seu comportamento nos anos anteriores. O que já espanta é a singeleza da explicação aqui dada: "A Presidência não comenta, uma vez que não há nenhuma decisão presidencial". Deixar passar o prazo para recorrer ao Tribunal Constitucional não resultou assim de nenhuma decisão presidencial. Será porventura fruto de esquecimento ou distracção?

 

Quanto ao Primeiro-Ministro, acaba de declarar que vai usar "todos os instrumentos" à sua disposição para cumprir o programa de resgate. O que isto significa é que agora vale tudo até Junho de 2014. Não se sabe o que aí vem, mas as perspectivas são muito sombrias, até porque, como tive ocasião de sustentar aqui, não é nada tranquilizadora a decisão do Tribunal Constitucional sobre os cortes de pensões.

 

É gravíssimo termos um regime constitucional em que um Governo pode fazer tábua rasa dos direitos adquiridos das pessoas, sem que surja qualquer controlo, seja do Presidente da República, seja dos tribunais a impedir esses desmandos. Nem o Estado Novo alguma vez foi tão longe. No seu exílio no Brasil, confrontado com as medidas do PREC, Marcello Caetano proclamava que no seu regime "nunca houve confisco de bens fosse a quem fosse — e a Constituição, aliás, proibia-o". Acrescentava ainda que "sempre se respeitaram os direitos adquiridos à reforma pelos funcionários civis ou militares punidos por motivos políticos" (Minhas Memórias de Salazar, p. 418). Vivia-se então em ditadura. Mas o actual regime constitucional, que proclama ser um Estado de Direito, não apenas tem admitido o confisco de salários e pensões, com o beneplácito do Tribunal Constitucional, como nem sequer precisa de perseguir politicamente e punir os funcionários públicos para lhes retirar os seus direitos adquiridos às pensões.

 

Na sua célebre Quinta Emenda, a Constituição Americana estabelece que "no person shall be (…) deprived of life, liberty, or property, without due process of law; nor shall private property be taken for public use, without just compensation". Entre nós, também o art. 62º da Constituição garante a todos o direito à propriedade privada, e só admite a requisição e a expropriação por utilidade pública com base na lei e mediante o pagamento de justa indemnização. Até quando continuaremos a desrespeitar desta forma os direitos fundamentais dos cidadãos?


5 comentários

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De Vento a 26.12.2013 às 12:28

Bem, não estranhemos que o PR nesta época festiva não se tenha pronunciado sobre o orçamento. Se aqui http://www.youtube.com/watch?v=2_wFhxORqvc ele comia bolo rei para não falar, agora, por ser época festiva, ele engasgou-se com o bolo rei.
Por isto mesmo devemos aguardar a comunicação sobre o seu estado clínico:

http://www.youtube.com/watch?v=Qw6ybmdCkKY

Quanto a Passos Coelho, essa dos 120.000 postos de trabalho criados deve ser uma alusão aos emigrantes, onde se incluiu o emigrante que Miguel Macedo apoiou criando um posto em Paris.
E sobre a democratização da economia, essa está mesmo bem metida. Democratiza-se a economia e implementa-se um sistema ditatorial fascista para que isso aconteça.

Essa de ele usar todos os instrumentos para cumprir o resgaste preocupa-me. De tal forma me preocupa que eu já comprei um dispositivo para que no meu instrumento o tipo não toque. Era o que faltava!!!

Finalizandio a leitura do seu texto, concluí que a América tem emenda e nós por cá continuamos sem ela. Tá bem visto!!!

Continuação de BOAS FESTAS!

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De Ferrugem a 26.12.2013 às 13:23

Do que eu percebi da decisão do TC, não foi considerado inconstitucional que haja cortes nas pensões. Apenas foi dito que como estava era uma medida avulsa e não sei que mais, mas, tratando-se de uma reforma estrutural do sistema de pensões, o corte seria aceite.

O que me parece bem: não há dinheiro, não há direitos adquiridos. Não faz nenhum sentido que se tenha de cortar em todo o lado e haja reformas elevadas (obvimente que muito superiores a 675 euros mensais), tudo isto enquanto existem 1.8 activos por cada aposentado.

É confirmar aqui:

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/tc_cortes_das_pensoes_so_poderia_ser_aceite_numa_reforma_estrutural_do_sistema.html

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De cristof a 26.12.2013 às 16:50

vale a pena pensar que não havendo dinheiro bem podemos reclamar do que está escrito nas diversas biblias. Não há e pronto.Tenha pena é que os eleitores continuem a não desejarem outra governação que não seja a que nos tem sucessivamente trazido de banca rota em banca rota.A fé é um fenomeno sem explicação lógica(mas como se diz das bruxas) não acredito na fé mas que a há isso há.
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De Anónimo a 26.12.2013 às 20:01

Inteiramente de acordo quando à não retirada arbitrária de verbas atribuídas enquanto pensões. E então o que se deve fazer contra a arbitrariedade demonstrada por aqueles que as atribuíram e receberam ao abrigo de regimes de favoritismo descarado face ao presente? Trinta e seis anos de serviço? Promoção ao cargo imediatamente acima antes da passagem à reforma? Remuneração da reforma correspondente a 100% do último vencimento?
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De lucklucky a 27.12.2013 às 01:53

Quando essa "propriedade privada" só existe pela extorsão da outra propriedade privada de outros, para começar dos filhos e netos que a estão ou vão ter de pagar não é propriedade privada alguma.
Quando essa "propriedade privada" só existe pelo endividamento do País.

Ou seja é uma falsa propriedade privada.

Se o sistema de pensões fosse de contas individuais e apenas houvesse um redução das mais ricas para pagar a deficiência das mais pobres aí o seu argumento seria legitimo. Seria o dinheiro que as pessoas pouparam derivado do seu rendimento, não uma regra inventada pelo regime populista para comprar votos.

Se fosse Inflação a comer os salários e pensões várias vezes os cortes de agora já não seria inconstitucional... não é?


Espere para quando a demografia apertar ainda mais.

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