Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Afinal porque se escreve?

por Pedro Correia, em 17.12.13

 

Porque se escreve? O que leva alguém a tornar-se escritor? Qual a atracção desta actividade tão intensa mas também tão desgastante e tão solitária? Uma das melhores definições que conheço sobre este tema foi expressa por um profundo conhecedor da matéria: o escritor espanhol Eduardo Mendoza, autor do celebrado romance A Cidade dos Prodígios. Ao receber há três anos em Barcelona o prestigiado Prémio Planeta, pelo seu livro Riña de Gatos: Madrid 1936 (há dias distinguido com o Prémio do Livro Europeu), Mendoza declarou o que o leva a sentir a irresistível pulsão da escrita: “Não escrevo livros com um objectivo definido: escrevo-os para ver como acabam.”

Excelente definição. Ainda mais saborosa por ser irónica. Ou por ser um misto de fingimento e confissão. Como nos ensinou Fernando Pessoa, num escritor não há distâncias entre fingimento e realidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)


16 comentários

Sem imagem de perfil

De Palha d'Aço a 17.12.2013 às 14:01

Genial. E, justamente, o problema de muita livralhada que aparece é que não se consegue ter qualquer interesse em descobrir como acaba. Se nenhuma história é contada, se nos entediamos de morte ao fim de umas poucas páginas de escrita masturbatória...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.12.2013 às 15:05

Percebo muito bem o que diz. Até porque já tropecei em muita coisa como essa.
Sem imagem de perfil

De Miguel a 17.12.2013 às 14:45

Curioso, o José Eduardo Agualusa deu exactamente essa razão para escrever no livro "Um Estranho em Goa," publicado uma década atrás. Será que o Mendonza lha tomou de empréstimo?
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.12.2013 às 15:03

Julgo que terá sido mera coincidência, Miguel. Acho perfeitamente natural dois escritores muito diferentes, à distância de dez anos, pensarem o mesmo.
Sem imagem de perfil

De rmg a 17.12.2013 às 14:48


Mas Eduardo Mendoza é um caso àparte .
Tenho e li (convém frisar) todos os livros dele em castelhano e só por ele ser assim como é se percebe que mereça tão pouca atenção de leitores e editores .
As pessoas não gostam de quem lhes diz uma boas verdades com tanta ironia ...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.12.2013 às 15:05

Acho lamentável, de facto, que este escritor não esteja mais representado nas nossas livrarias com edições em português. Talvez este prémio mais recente acabe por servir de estímulo.
Sem imagem de perfil

De Carlos Faria a 17.12.2013 às 15:16

Não sei porquê, mas gostei muito desta publicação. Talvez por me fazer tão intensivamente a pergunta: Afinal porque leio?
Talvez também tenha o vício de saber como acabam aqueles volumes que estão à minha frente...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.12.2013 às 15:28

É verdade, Carlos. São perguntas complementares. E estarão sempre interligadas.

Boas Festas aí para os Açores!
Sem imagem de perfil

De Ana Isabel a 18.12.2013 às 17:04

Escreve-se porque se gosta e porque é através das palavras que transmitimos e partilhamos com os outros um pouco de nós mesmos. Se essas palavras tiverem o dom de fazer os outros mais felizes, então o escritor jamais parará........
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.12.2013 às 21:59

Essa também é uma boa definição.
Imagem de perfil

De Patrícia Reis a 18.12.2013 às 19:09

Pois, é uma pergunta difícil. A definição do nosso escritor espanhol, tão bom escritor e tão pouco lido em Portugal como outros, não é nem dele, nem do Agualusa, é uma derivação de uma definição de Borges, ele que dizia que escrevia para saber o fim da história. É uma citação antiga. Os escritores são larápios uns dos outros, há frases que se colam e ficam. Não é por mal, nem é conscientemente, é apenas assim. E a razão que nos leva a escrever? Eu comecei a dizer que só queria escrever aos seis anos. O meu filho mais velho aos 15. É uma forma de redenção, de terapia, de incomodar (dizia a Agustina), de responder a qualquer interrogação que nos assalta (digo eu). Fácil? Não. Reconhecido? Raramente. Há uns dias, disseram-me que teria de esperar dez anos para ser alguém no mundo da literatura e eu pensei: ok, eu achava que eram 20, não faz mal. Eu escrevo desdde que me lembro e posso não publicar. Publicar é toda uma outra conversa, ser reconhecido pelos seus pares (que palavra medonha!) é um processo lento e, neste país, muito complicado. Este país tão pequeno tem mais escritores em potência do que qualquer outro. E há escritores tão bons. E poetas. E letristas. E... escrevemos todos, mesmo nos blogues, para partilhar e essa é a essência, do ponto de vista histórico, da escrita: deixar para o outro ver, mesmo que impresso na pedra. Devíamos ler mais? Sim. E todas as escolas deveriam ter aulas de escrita, independentemente dos miúdos estarem em ciências ou em economia, artes ou humanidades, é preciso estimular o bem escrever. Ups, isto já parece um testamento. Fui. Ler qualquer coisa.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.12.2013 às 22:06

Pois, Patrícia. Essa ideia (que corresponde à realidade) de que os escritores se apropriam de frases dos outros, numa espécie de plágio inconsciente, faz-me lembrar aquele célebre aforismo do Picasso (ou seria de outro?): "O mau artista imita, o bom artista rouba."
Sem imagem de perfil

De Miguel a 19.12.2013 às 14:55

Engraçado como tudo, mais cedo ou mais tarde, vai dar ao grande Borges. O homem é mesmo um dos pólos da literatura moderna.

Curiosa a definição da Agustina, sobre incomodar. Penso que a Patrícia tirou isso de um recente livro de entrevistas, sim? Tenho andado a dar-lhe uma vista de olhos. Não consigo, porém, imaginar uma escritora menos incomodativa do que a Agustina, baseando-me nos quatro livros que infelizmente li dela. Para além de em pleno século XX ainda escrever como se estivesse no tempo do Eça (não a única ofensora a este respeito entre as modernas letras portuguesas; podemos enfiar no mesmo saco toda a caterva dos neorealistas, e o Aquilino Ribeiro), o que mostra um enorme temor em inovar, ficando-se pela forma familiar que não incomoda gostos nem expectativas, ela basicamente não escreve senão sobre frívolos aristocratas do norte que pertencem a um mundo desaparecido, que a ninguém deverá parecer minimamente reconhecível, vital ou relevante, num estilo seco e formal que parece coisa de sala de aula. A Sibila foi publicado em 1954; ora, em 1953 estava o Kazantzakis a publicar o seu verdadeiramente incomodativo livro sobre Jesus Cristo; estava o Bellow a publicar as irreverentes aventuras de Augie March. Em 1954 estava o Amis a publicar o Lucky Jim, criando o tom para a ficção inglesa do pós-guerra, com uma nova atitutde sobre os valores e a vida. Em 1955 o Robbe-grillet publicava Le Voyeur, um dos seus bizarros nouveaux romans que gora as habituais expectativas do romance; o Gaddis publicava The Recognitions, obra de vasta complexidade que definiu a ficção americana do pós-guerra: Pynchon, Gass, Coover começam todos aqui. Ainda em 1955, o Lolita do Nabokov, incómodo por várias razões.

Perante tudo isso, pergunto-me como é que a historiazinha de uma senhora que governa um quintalório incomoda alguém? Pelo menos foi isso que eu retive desse livro. Talvez a Agustina se refira ao incómodo que senti por ter perdido o meu tempo e dinheiro. Mas apenas me enganou 4 vezes, isso talvez revele aprendizagem lenta da minha parte, mas ao menos aprendi que a Agustina não vale nada.
Imagem de perfil

De Patrícia Reis a 20.12.2013 às 01:59

Miguel, com todo o respeito e compreensão, teremos de concordar que discordamos. Não tem qualquer importância, repare, cada um gosta do que gosta e está bem. Para si, a Agustina Bessa-Luís, como escritora, não vale nada. Tudo bem. Para outros é diferente. O Miguel leu e não gostou. Respeito, mesmo que o meu gosto seja distinto e, se quisermos fazer uma razia da história literária do século XX e XXI muito haveria a dizer, mas olhe, não há tempo:) Espero que não se incomode com o meu comentário, acredite que compreendo perfeitamente a sua visão, conheço outras pessoas como o Miguel. Boas festas e bons livros.
Sem imagem de perfil

De Miguel a 20.12.2013 às 18:05

Cara Patrícia, discorde à vontade. Eu não a quero obrigar a pensar como eu. Mas é por gostar de discussão que fico desapontado que termine a questão em termos tão anódinos. Gostaria ao menos, quanto tiver o tempo que lhe faltou para este post, que explique o que torna a Agustina tão incomodativa, porque, volto a frisar, não conheço escritor (de entre os considerados grandes) mais 'seguro' do que ela. É sempre interessante receber esse tipo de experiências de fãs dela.
Imagem de perfil

De Patrícia Reis a 20.12.2013 às 22:17

Caro Miguel, onde estou a net é, de facto, limitada. O que acho que incomoda na obra da Agustina? A sua percepção sobre as fragilidades das pessoas, sobre a precaridade das relações, sobre a mentira e a usura. Há uma espécie de lupa nos livros dela que incide nas famílias, certas famílias (é certo), e isso pode perturbar algumas pessoas ou não. Isto é uma resposta curta, lamento, não me leve a mal. Desejo-lhe um bom natal:)

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D