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Macacos me mordam

por Rui Rocha, em 12.12.13

Diz uma lenda que um Deus, desses que proviam a algum povo primitivo, terá recebido um dia, em audiência, uma delegação de macacos. Traziam-lhe uma única reivindicação: queriam tornar-se homens. Viu-se assim o Deus em apertos pois, não querendo desagradar à macacada, também não via com bons olhos um tal desenlace. Conservador seria, pois que estava ainda preso a uma visão do mundo em que aos macacos correspondia o seu galho. E é possível até que existisse, que sabemos nós, uma cláusula de exclusividade da condição de humanidade, assinada pelo punho do próprio Deus, assegurada em contrapartida de todas as penas, provações, angústias e privações que em geral calham ao Homem pela tão simples razão de ser humano. Foi assim que o Deus, incómodo na cadeira, acabou por mandar a simiesca representação, é um dizer, pentear os outros macacos. Não com estas palavras, claro está, para não ferir susceptibilidades. Já então, nesses começos deste nosso mundo, a questão dos sentimentos dos animais era tratada com pinças. Até porque eram tempos em que eles próprios falavam, verbalizando quanto lhes fosse na alma, que já então a tinham e bem sabemos que é assim  porque entretanto não a perderam. Foi deste modo que o Deus, entalado como estava, prometeu aos macacos que estes se tornariam homens (e mulheres se fossem macacos fêmeas pois que, por esse então, as únicas questões fracturantes incluídas na agenda mediática diziam respeito ao divergir das placas tectónicas) logo que, passada a noite que já se avizinhava, raiassem os primeiros afagos de sol sobre aquela parte do planeta que, por direito próprio e natural, era também dos macacos. E assim foram os ditos à vida deles. Com o rabo entre as pernas, não porque a reunião lhes tivesse corrido mal, bem pelo contrário, mas porque era esse o lugar onde lhes era naturalmente mais confortável tê-lo. O certo é que assim que o Deus tirou os macacos de debaixo do nariz (tirá-los de dentro é coisa de homens, imprópria  da condição divina) pegou na trouxa onde guardava os prodígios, que eram basicamente trovoadas, aguaceiros e acentuado arrefecimento nocturno, e foi ganhar a vida para outras paragens estabelecendo-se, ao que se sabe, junto de uma tribo que vivia por alturas do local onde hoje é Roma. O certo é que os macacos, que mal pregaram olho, viram ao nascer do dia toda a sua ilusão defraudada. E começaram em guinchos angustiados e desesperados urros. Coisa que, por esse único e exacto motivo, ainda hoje fazem, tal como podemos comprovar, à falta de melhor, no zoológico mais próximo ou em qualquer filme do Tarzan. Ora, pelo que leio, têm por estes dias os juízes do Supremo Tribunal de Nova Iorque a oportunidade de, com uma só decisão, reporem a Justiça, substituindo-se ao Deus incumpridor e a Darwin. Basta para tal que reconheçam a um chimpanzé, representado pelo seu advogado, o direito de ser considerado pessoa jurídica. Isto é, ali onde o tal Deus não foi sequer capaz de escrever direito por linhas tortas, pode o bom Tribunal estabelecer uma linha recta entre o chimpazé, a ética e o fundamento ontológico. Se for assim, os macacos poderão finamente substituir os ontens que guincham e urram por manhãs em que cantam. Trata-se, se virmos bem, de um pequeno passo para a humanidade e de uma patada de gigante para os macacos. Temo, todavia, que os motivos para festejar sejam efémeros. Se está demonstrado que um macaco com um teclado acabará mais tarde ou mais cedo por escrever uma obra de Shakespeare, nada impede que um outro, mais peludo, descubra um dia, tal como Kant, os pressupostos tortuosos da culpa e da obrigação. A pessoa jurídica macaco, então já unanimemente reconhecida nos códigos legais, deixará de ser um mero portador de direitos para passar a ser também, tal como os homens e as mulheres, sujeito (por oportuníssima contraposição a objecto) a deveres e punições. Ora, ou me engano muito ou isso poderá significar, mais cedo do que tarde, o fim da macacada.

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12 comentários

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De am a 12.12.2013 às 12:13

Estes americanos andam muito atrasados:

Por cá, a GNR já libertou 3 leões e uma foca do circo Chen!
( Sem intervenção do BE)

Nota: A aguia da Luz voou !

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De Rui Rocha a 12.12.2013 às 12:39

Os tempos estão mais propícios para os leões do que para as águias, AM .
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De Vento a 12.12.2013 às 12:18

Já sinto saudades dos macacos.

Vejam bem que me desloquei ao jardim zoológico e não encontrei uma única pessoa jurídica enjaulada. Olhei em volta e vi que os macacos ainda não entraram na jaula. Por favor, tirem os macacos do cativeiro, encerrem-nos numa jaula, pois estamos numa época festiva e precisamos mostrar às nossas crianças o lugar que ocuparão no futuro.
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De Rui Rocha a 12.12.2013 às 12:43

I´ve seen the future, brother: it is murder.

http://www.youtube.com/watch?v=D97OxHZzBeQ
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De moribundo a 12.12.2013 às 13:59

Finalmente uma luz de esperança! Venham eles, para nos substituírem, nem que seja apenas por algum tempo, pelos menos até ao momento em que um deles achar que está a ser vitima de racismo, nós iremos ter umas merecidas férias.
Tão bom! Liberdade, liberdade finalmente!
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De Rui Rocha a 12.12.2013 às 14:10

Percebo e partilho o seu entusiasmo, Moribundo.
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De Licas a 12.12.2013 às 14:55

Ihihih. Excelente, excelente, RR.
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De Rui Rocha a 12.12.2013 às 16:26

Obrigado, L.
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De João Bugalhão a 12.12.2013 às 16:32

Não fossem tantos os parentes (Parênteses) e alguns, muitos, pontos finais e eu diria que está uma escrita muito "saramaguiana". Mas com muita criatividade. Fiquei cheio de inveja.
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De Rui Rocha a 12.12.2013 às 18:05

Adoro parêntesis, João. Alguém disse que o gosto por circunferências é uma forma de regresso à infância e eu creio que eles proporcionam uma boa aproximação. Obrigado pela leitura e pelas suas palavras.
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De jonas river a 13.12.2013 às 03:16

Excelente.
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De Rui Rocha a 13.12.2013 às 09:16

Obrigado, Jonas.

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