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A segunda morte de Sá Carneiro

por Pedro Correia, em 04.12.13

 

"Saber estar e romper a tempo, correr os riscos da adesão e da renúncia, pôr a sinceridade das posições acima dos interesses pessoais, isto é a política que vale a pena."

Francisco Sá Carneiro

 

Francisco Sá Carneiro morreu tragicamente, faz hoje 33 anos. Muitos o invocam, mas quase ninguém conhece o seu pensamento. A começar pelos actuais dirigentes do próprio partido que fundou, seis anos antes, naqueles dias tão festivos e tão voláteis que se sucederam à Revolução dos Cravos. Quantas vezes ouvimos um membro do Governo ou um alto responsável do PSD invocar uma frase ou um ensinamento de Sá Carneiro?

O antigo deputado da Ala Liberal, que fez abalar os dogmas da ditadura com as suas corajosas intervenções num hemiciclo de São Bento até então monolítico, passou pela política portuguesa à velocidade a que sempre viveu: teve razão antes do tempo, desapareceu muito antes do que devia e hoje é uma figura remota, condenada ao ostracismo póstumo pelos antigos companheiros de partido. E no entanto deixou um pensamento, plasmado desde logo nas alocuções parlamentares, que deviam ser relidas nestes dias em que tudo parece ter um prazo muito reduzido de validade.

Enquanto outros calavam, acobardados, ele falou em voz alta quando era difícil, antes do 25 de Abril. Pela liberdade de imprensa, pelo sufrágio universal, pela fiscalização parlamentar da polícia política, pelo fim dessa indignidade que era a existência de presos políticos em Portugal. Vale a pena reler a carta que endereçou ao presidente da Assembleia Nacional, em 25 de Janeiro de 1973. Por "concluir à evidência não poder continuar no desempenho do meu mandato sem quebra da minha dignidade, por inexistência do mínimo de condições de actuação livre e útil que reputo essencial", como assinalou neste documento em que formalizou o fim das suas funções como deputado, em claro prenúncio da queda da ditadura. Comentando a farsa eleitoral de Outubro desse ano, na coluna de opinião que mantinha no semanário Expresso, escreveu sem rodeios: "Onde não há liberdade política não pode haver sufrágio autêntico."

Depois do 25 de Abril também nunca deixou de ter posições claras. Contra os desvarios revolucionários promovidos por aqueles que sonhavam ver o nosso país transformado numa réplica de Cuba ou da Albânia plantada no extremo ocidental da Europa. Cumpriu uma missão histórica ao vencer a eleição de 1979 para a Assembleia da República: era a primeira vez em Portugal que a direita chegava ao poder cumprindo as regras do jogo eleitoral. Mas sem nunca sacrificar a intervenção do Estado como nivelador social e promotor de direitos fundamentais nem inclinar-se perante o altar do caprichoso deus mercado, como fazem alguns daqueles que se proclamam seus herdeiros. A tal ponto que é possível interrogarmo-nos seriamente se, tivesse ele a fortuna de sobreviver àquele voo fatídico, seria ainda hoje militante do partido que fundou.

Matam-no segunda vez todos quantos, no próprio PSD, pretendem ignorá-lo, arrumá-lo num rodapé de manual, confiná-lo a uma missa de sufrágio ano após ano, por esta data. Sá Carneiro merece muito mais que isso. E os largos milhares de portugueses que ainda hoje se revêem no seu genuíno ideário também.


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