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As posições e os números

por João André, em 03.12.13

Para (me) descontraír, um post sobre futebol e, espero, pouco polémico.


Em 1988, depois de ter vencido o Benfica numa final da Taça dos Campeões Europeus de má memória (para mim), o PSV Eindhoven jogou contra o Mechelen (ou Malines, no nome francês usado pelos comentadores portugueses na altura) para a Supertaça Europeia. Os belgas venceram o troféu (ainda a duas mãos na altura) e nesses jogos lembro-me de ver um jogador do Mechelen com o número 2, a cavalgar pelo flanco esquerdo como se fosse o extremo. Numa altura em que estava habituado a ver o número 2 a ser usado pelo lateral direito, essa imagem fez-me confusão. Foi-me na altura dito que no futebol só um número era certo, o 1, que era do guarda-redes (hoje em dia nem isso). Seja como for, na altura fiquei a pensar porque razão certas posições são associadas a determinados números. Só quando li o livro Inverting the Pyramid, de Jonathan Wilson, com a sua história da táctica no futebol, é que finalmente percebi. Abaixo, para quem tenha tempo, tento apresentar uma resenha rápida sobre o assunto (dos números). Quaisquer erros são da minha responsabilidade.

 

 

Quando o futebol nasceu como desporto organizado na Inglaterra, a sua adopção veio com um conceito táctico extremamente simples: o jogo assemelhava-se ao rugby, no sentido em que um jogador transportava a bola, driblando e evitando os adversários (ou chocando com eles) e quando não conseguia passar pelo adversário logo surgiria um colega que prosseguiria o esforço. Desta forma não era de estranhar que as tácticas se assemelhassem a exércitos em batalha, com uma frente alargada, uma rectaguarda pronta a entrar em acção e uma reserva para ser usada no caso de a frente fraquejar.


Nessa altura, e para simplificar as coisas, os jogadores eram numerados de 1 a 11 conforme a sua posição no campo: de baixo (guarda-redes) para cima (avançados) e da direita para a esquerda. As tácticas iniciais, como referi, eram essencialmente baseadas num número muito elevado de avançados. O registo (provavelmente) mais antigo de tácticas num jogo provém de 1872, quando a Inglaterra usou um 1-2-7 contra o 2-2-6 da Escócia, táctica radical para a altura, tal como a ideia de usar o passe lateral como forma de frustrar o maior poder físico dos ingleses. Este jogo será então o tetravô do tiki-taka.


Com o sucesso do jogo de passe, tornou-se necessário adicionar mais médios e rapidamente se chegou à primeira táctica de bastante sucesso: o 2-3-5. Nesta táctica, representada abaixo, os números eram atribuídos conforme a posição no terreno. Os nomes para as posições surgiram apenas mais tarde e inicialmente as posições recebiam apenas uma designação numérica.



Como em muitos casos no passado, a téctica que acabou por destronar o 2-3-5 não surgiu por iniciativa de um visionário mas terá surgido, pelo menos em grande parte, como consequência de uma mudança de regras. Com o aumento de equipas a usar a armadilha do fora de jogo e a diminuição do número de golos marcados, a federação inglesa (Football Association, FA) decidiu mudar a regra do fora de jogo e diminuiu o número de defesas necessários para colocar um adversário em fora de jogo (passou de 3 para 2). Embora o 2-3-5 tenha a espaços sido ressuscitado por Guardiola no Barcelona, o seu uso quase que desapareceu e foi substituído por uma táctica que se tornou quase mítica: o W-M.


O W-M surgiu quando as equipas decidiram que, sem poder usar o fora de jogo como arma defensiva, necessitavam de mais um jogador na defesa. Em Inglaterra isso envolveu recuar o jogador central do meio-campo (em inglês, centre-half, que é o nome ainda dado aos defesas centrais). Como isso reduzia o número de jogadores no meio campo, um dos avançados passou também a recuar. O 3-3-4 nascia assim. Com Herbert Chapman no Arsenal, um dos outros avançados recuava também e criavam-se assim duas linhas de jogadores no meio campo. Era um 3-2-2-3 que pela disposição em campo se assemelhava a um W-M. Note-se no esquema abaixo como os números estão distribuídos. Nem todos os clubes ingleses adoptaram o sistema da mesma maneira, no entanto, isto porque lhes faltavam jogadores que interpretassem o jogo da mesma maneira que os do Arsenal.

 

 

Noutros países, o 3-3-4 foi também adoptado, mas os jogadores que mudaram de posição seriam diferentes. Isso estava relacionado naturalmente com a equipa que primeiro implementava o sistema no país e com o jogador que melhor se adaptava para mudar de posição. Assim, naturalmente, o avançado que melhor passasse a bola acabava por cair para o meio campo e, muitas vezes, o médio que fosse mais alto e forte acabava por cair para a defesa. Noutros casos, o médio escolhido para descer era alguém rápido e capaz de subir no flanco. Este último caso deu origem aos laterais ofensivos do Brasil e permitiu a emergência do 4-2-4 brasileiro, que usava os laterais para dar largura ao ataque.


Por causa destas mudanças, os números dos jogadores que ocupavam cada posição foi-se tornando diferente. No caso brasileiro, o número 6 saiu do meio campo e foi para o lado esquerdo da defesa. Mais tarde o número 5 juntou-se ao 3 no centro da defesa e formou-se uma defesa que se lê como 2-5-3-6. No caso argentino deu-se o oposto. O número 4 desceu para a direita da defesa e mais tarde o número 6 juntou-se ao 2 no centro para dar origem à defesa em 4-2-6-3. Os ingleses, mais uma vez, foram por outro caminho. Inicialmente desceu o número 5 para o centro e o 6 juntou-se-lhe, dando origem a um 2-6-5-3. Já no resto da Europa vimos geralmente um sistema baseado na descida do 5, primeiro, e do 4, depois, para dar origem ao 2-5-4-3 defensivo.

 

 
   

 

O meio campo não foi muito diferente. Enquanto que o número 7 ficou em praticamente todos os casos entregue ao jogador que ocupa o flanco direito do ataque, as posições dos outros números foi mudando. En Inglaterra, os dois avançados centro eram o 9 e o 10. Na América do Sul eram o 9 e o 11 (ou em alguns casos o 9 e o 8). Em muitos lados na Europa o número 8 foi um extremo-esquerdo e noutros foi mais um médio centro. A tradição do número 10 surge essencialmente com Pélé, que usava esse número devido à sua posição no campo e que acabou por lhe emprestar um brilho diferente. Já na Argentina a razão é diferente: em busca de criatividade no meio campo, o número 10 desceu no terreno, tornou-se o enganche, e ficou associado a uma imagem romêntica do jogador elegante, criativo mas algo passivo, da qual Riquelme terá sido o último grande expoente.


Uma nota curiosa. O conceito do número 9 como o principal goleador da equipa é também uma invenção brasileira (o Brasil foi aliás um excelente viveiro de tácticas). Com a adopção do 4-3-3, o número 9 passou a ficar isolado mais à frente com os outros dois jogadores do trio atacante a flanquá-lo um pouco mais recuados. O número 9 recebeu na altura a designação de ponta da lança (ao invés de ponta de lança, como hoje se usa) devido à imagem que a disposição dos jogadores em campo (abaixo) evocava.


Com os anos, certos jogadores começaram a querer jogar sempre com o mesmo número, mesmo que a sua posição no campo fosse diferente. Pélé era o número 10, mas entre 1958 e 1970, a sua posição no campo foi mudando para se ajustar à táctica e à sua condição física. Platini seria no papel outro avançado, mas o seu estilo de jogo fê-lo descair e tornar-se no famoso “9 e meio” que é a posição de Messi hoje em dia (se bem que sem o outro avançado que Platini tinha à frente. Também o estilo de jogo dos jogadores em cada posição se tornou diferente. O médio mais defensivo na Argentina (número 5) não é o trinco duro e defensivo europeu (número 6), mas antes o regista à italiana. Os laterais brasileiros são tradicionalmente os jogadores que dão largura à equipa, no molde de Nílton Santos (falecido há dias) e Djalma Santos. Em Itália, o lateral esquerdo era habitualmente visto como mais ofensivo que o direito, na tradição das equipas feitas à medida de Giacinto Facchetti.


O que vemos, cada vez mais, é uma escolha de números semelhante à das equipas americanas, onde números como o 37, o 62 ou o 23 serão cada vez mais escolhas normais. É uma evolução compreensível e boa para a venda de camisolas, mas não deixo de ter alguma pena pelo fim desses tempos em que o futebol se tornava mais compreensível à custa de simples números nas camisolas dos jogadores.

 

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3 comentários

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De Miguel R a 03.12.2013 às 21:56

Bravo! Quando era pequeno li sobre isto nuns fascículos de A Bola.
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De João André a 04.12.2013 às 20:36

Obrigado. Não me lembro disto n'A Bola, mas houve de facto tempos em que era um jornal com funções informativas...
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De Mário a 19.02.2017 às 15:16

Bons tempos, esses, em que A Bola era, mais que um jornal com funções informativas, um jornal com funções formativas. Em Português, em cultura geral, em opinião crítica...

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