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Mário Alberto Nobre Lopes Soares

por Pedro Correia, em 03.12.13

 

Em democracia, só existe uma forma legítima de mudar os titulares das instituições políticas: pelo voto. E quem nos ensinou isto, numa sucessão de actos exemplares durante os anos de brasa da revolução, foi um homem chamado Mário Alberto Nobre Lopes Soares. Um homem que no Portugal pré-constitucional, quando a guerra civil esteve por um fio, enfrentou a "rua" com notória coragem física e um desassombro cívico que a História (com H maiúsculo) registará. A "rua", instrumentalizada pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluiram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.

Personalidade cheia de contradições, como em regra sucede às figuras que deixam a sua impressão digital nos acontecimentos históricos, Mário Soares acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia".

Mas o que mais lhe devemos foi ter participado na primeira linha do combate pela instauração no nosso país de uma democracia autêntica -- aquela que assenta no sufrágio livre, periódico e universal. Com argúcia e ousadia, Soares disputou a "rua" aos comunistas, desmonstrando-lhes em comícios como o da Fonte Luminosa -- como De Gaulle fizera ao promover o gigantesco desfile dos Campos Elíseos na ressaca do Maio de 68 -- que o espaço público não é uma espécie de coutada particular das forças extremistas. E nunca deixou de fazer a indispensável pedagogia da vontade popular expressa nas urnas, mesmo quando isso ia contra o ar do tempo, como sucedeu no histórico frente-a-frente televisivo com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em 6 de Novembro de 1975.

 

Quando escuto o antigo Chefe do Estado advogar agora a demissão simultânea do Presidente da República e do Governo como medida destinada a prevenir actos violentos nas ruas -- apelo que, se fosse escutado, conduziria o País ao colapso institucional e ao consequente agravamento da nossa precária situação económica e financeira -- não posso deixar de pensar que este Soares de 2013 contradiz no essencial o Soares que já tem lugar garantido nos manuais de História. Por ter sido um dos promotores do único regime genuinamente democrático que Portugal alguma vez conheceu.

Se andasse à mercê da "voz da rua" e receasse erupções de violência, o primeiro-ministro Mário Soares teria resignado ao ouvir milhares de vozes e um mar de bandeiras negras exigindo a sua demissão imediata em 1983, quando decidiu apelar à intervenção do FMI em Portugal, perante o espectro da derrocada das finanças públicas. Ou teria abandonado a corrida presidencial em 1986, ao ser alvo de uma lamentável e divulgadíssima agressão na Marinha Grande.

 

Felizmente o Soares de 1975, 1983 e 1986 -- o da pedagogia democrática, o do rigor financeiro e o da resistência ao extremismo -- não estava em sintonia com o Soares destes dias, que exige um PS distante do centro político, à revelia do que Felipe González recomenda aos socialistas espanhóis e daquilo que ele próprio sempre fez quando liderou o partido, entre 1973 e 1985, e sonha com maiorias de 90%, algo só existente nas eleições fraudulentas promovidas por ditaduras.

Esse é o Soares que a História recordará.

 

Imagem: Mário Soares na megamanifestação-comício da Fonte Luminosa, em Lisboa, a 19 de Julho de 1975. Na fotografia surgem também, entre outros, os socialistas Lopes Cardoso, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia e António Guterres, o advogado Francisco Sousa Tavares, a actriz Lourdes Norberto e o jornalista Vítor Direito


18 comentários

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De Vasco a 03.12.2013 às 19:54

"Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da "lusofonia"."—Curioso ponto. Ou Europa ou Ultramares: nunca ninguém se preocupou em arranjar e viver disto, como D. Diniz. Bem precisava. Sempre os mesmos erros, sempre os mesmos erros.
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De Pedro Correia a 04.12.2013 às 23:36

Mas D. Dinis mandou plantar o pinhal de Leiria, sem o qual não teriam sido construídas naus e caravelas. E consta que mandou aparelhar a frota que pela primeira vez terá aportado às Canárias.

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